Heartlines
4 Never Let Me Go
And it’s over and I’m going under, but I’m not givin’ up, I’m just givin’ in.
(Never let me go, never let me go).
Como vocês puderam ver, amigos (a essa altura eu vou apenas tomar a liberdade de presumir que podemos nos considerar assim, certo?), tanto Astoria quanto Draco estavam passando por um início turbulento de vida adulta.
É por isso que o segundo encontro com a nossa protagonista começa com ela em seu quarto, às vésperas do casamento de sua irmã mais velha, dando vazão ao velho hábito de roer as unhas enquanto entrava em mais uma espiral de frustração em relação aquele grandiosíssimo filho da puta, o termo que vinha usando para se referir a Draco Malfoy toda vez que ele lhe surgia a mente. E como, infelizmente, isso acontecia de quinze em quinze minutos, era de se esperar que talvez a orelha de Narcisa Malfoy simplesmente começasse a arder pela ofensa indireta.
Para todos os fins, Astoria não teria como saber. Ela não sabia nada sobre nenhum Malfoy desde que o único que lhe importava partira para nunca mais voltar naquela noite em que ela o convidara para ser seu acompanhante. Ao cabo de três dias, ela tinha começado a estranhar. Agora, que fazia tanto tempo que ela já não podia contar nos dedos das mãos, Greengrass acreditava que já tinha passado por todos os estágios de luto daquele término unilateral: negação, raiva, barganha consigo mesma, depressão e aceitação, decidindo por conta própria voltar para o segundo (o que nos faz considerar se ela realmente passou por todos da maneira adequada).
Era sexta feira – o mesmo dia da semana em que ela havia conhecido aquele que não tinha mais nome, só alcunhas baixas, há muitas luas atrás – e em outra ocasião o GreenDrinks, batizado assim por conta do forte senso irônico de Astoria, estaria abrindo em cinco minutos. Sexta era dia de casa cheia, de longe o momento da semana de maior faturamento, mas Astoria tinha problemas maiores do que pensar na perda de lucro temporário já que em menos de vinte e quatro horas ela veria o Sr. e a Sra. Greengrass, além de muitos semidesconhecidos de olhares mordazes que haviam margeado sua infância e adolescência.
Tudo sobre o casamento de Daphne, quando pensado assim a fundo, parecia retirado dos seus piores pesadelos. Não tinha volta, no entanto. Astoria havia prometido. Não com palavras, mas com o coração, o que era sete vezes pior. Encarando por um instante o vestido longo e azul-noite que flutuava em frente à sua cômoda de roupas, ela suspirou e xingou, não necessariamente nessa ordem.
Da calçada lá embaixo, Draco despiu o capuz da capa enquanto franzia o cenho para o aviso de que o bar ficaria fechado pelos próximos dois dias. Ele olhou para cima – para a janela do segundo andar que sabia ser a da sala de estar do apartamento de Astoria e, conjurando uma pedrinha pequena com a varinha, fez com que ela acertasse o vidro. Era o sinal antigo, de modo que se ela estivesse em casa, o veria.
E ela de fato o viu. Subindo o vidro com as duas mãos, Astoria Greengrass o encarou lá de cima, fazendo o coração de Malfoy ficar subitamente arrítmico. Malfoy soube, pela expressão em seu rosto e os lábios bonitos e cheios crispados em uma fina linha de tensão, que ela estava xingando-o internamente de muitos nomes, mas não se importou. Ele se concentrou em apenas continuar parado, ainda que todas as partes de seu corpo quisessem que ele corresse para longe.
Ele ficou e esperou e tudo valeu a pena quando os olhos em brasa dela se suavizaram. Astoria se afastou da janela e Draco observou o pequeno clarão verde musgo, o que significava que Greengrass havia acabado de liberar o acesso para que ele pudesse aparatar lá em cima. O gesto acendeu nele uma emoção há muito adormecida.
Esperança, no entanto, exigia coragem.
Respirando fundo, ele tentou se lembrar das palavras de Luna. A segunda carta de tarot que ela tirara para Draco se chamava Os Amantes e como tinha sido virada na posição certa, Lovegood tinha lhe dito que era um bom sinal e que ele devia se engajar nisso caso fosse o desejo de seu coração, antes de acrescentar, por fim: mais do que de reconhecimento, respeito ou consideração, é de amor que você precisa. De resto, ele não exclui absolutamente nenhuma das coisas que citei, mas as justificam e garantem sua autenticidade.
Agora, parado na pequena saleta, olhando de perto para uma semi-furiosa-Astoria, Draco achou que aquilo era mesmo muito acurado. Ele deu um passo a frente quando notou que as mãos dela tremiam e engolindo a própria insegurança, cruzou a pequena distância entre os dois para verbalizar os pensamentos mais selvagens e perigosos que alguém como ele poderia ter:
— Eu mudei de ideia – sussurrou. – Você ainda quer que eu te faça companhia? — e pelo modo como Astoria o beijou com raiva e com saudades, ele preferiu acreditar que aquilo significava que sim.
Mais tarde, quando eles estavam ainda tão embolados quanto uma pintura cubista no sofá francês vermelho sangue e Draco repousava o nariz em seu lugar favorito no mundo, isto é, na curva entre o pescoço e o ombro dela, Astoria foi acometida pela mesma revelação divina com a qual Malfoy havia lidado um mês antes. Ele não viu o pequeno “oh” que lhe assaltou a expressão, mas apreciou o abraço repentino que ela lhe deu, sem saber que ele vinha cheio de temor.
***
— Eu estou pronta. – Astoria disse com cuidado, sabendo que as palavras eram irreversíveis e tornavam real o seu futuro próximo. Draco se aproximou devagar e a olhou longamente. Nenhuma palavra era suficiente para a visão dela ou o modo como o afetava. Ele lhe ofereceu o braço e eles aparataram juntos.
— Espera. – ela riu, ao fincarem os pés em solo firme novamente. O cabelo dele tão rigorosamente penteado para trás havia sofrido com a viagem. Mechas lisas muito claras e obedientes agora apontavam rebeldes para direções diversas.
Astoria achou que ele jamais esteve tão bonito, mas penteou com os dedos o cabelo para trás do jeito que sabia que Draco se sentiria mais confortável. O movimento, no entanto, fez com que ele adquirisse um ar natural que Astoria gostou muito de ver e até auxiliou um pouquinho no seu humor quando eles atravessaram juntos o arco florido que delimitava a entrada da casa dos Greengrass na ocasião.
Havia um caminho de pedras pela lateral do casarão que dava direto para o bonito jardim dos fundos onde a cerimônia aconteceria. Ainda eram quatro da tarde, mas pequenas bolas de luz já flutuavam pelo ar. Uma porção de flores e tendas estavam dispostas ao longo de toda a extensão verde disponível. O coração de Astoria doeu de saudade quando ela reconheceu o antigo piano, agora decorado e bem polido do lado de fora da casa sendo tocado magistralmente por um musicista bruxo contratado. Segurando de maneira distraída a mão de Draco, Astoria escolheu um lugar para os dois na última fileira.
Greengrass sabia que qualquer interação familiar que fosse obrigada a suportar só aconteceria após a celebração. Naquele instante em que os primeiros convidados ainda chegavam, sua mãe devia estar dentro da casa, dando ordens como uma ditadora. Percebendo os ombros rígidos dela, Draco lhe apertou a mão em apoio, gesto pelo qual ela se sentiu grata internamente.
— No que você está pensando? – ele murmurou com a boca colada ao seu ouvido e nenhuma tensão do mundo foi capaz de evitar o arrepio de prazer que Astoria sentiu correr pela espinha.
— Que eu adoraria estar bêbada numa praia deserta. – ela respondeu no mesmo tom, os olhos fixos no piano lá na frente.
Draco soltou um riso nasalado e desfrutou de alguns poucos minutos imaginando a cena. Então o jardim começou a encher e os seus próprios pais apareceram em algum momento, o que ele já sabia que aconteceria, mas nem por isso incomodou menos. Acenando com a cabeça a distância para os progenitores, isso foi o suficiente para que, como Astoria, ele sentisse todos os músculos enrijecerem.
Ignorantes quanto às emoções de seus convidados, Daphne e Cormac se casaram ao por do sol. Eles haviam optado por uma cerimônia encerrada com um voto perpetuo em relação aos bens comuns. Tudo parecia tão bem orquestrado, tão aos moldes de Daphne que, no fim, quando pétalas de flores foram jogadas sobre os noivos, Astoria precisou secar os olhos úmidos no lenço que Draco lhe oferecera. Era ridículo, mas era bom ver Daphne tão a frente dos próprios planos, ainda que eles fossem retrógados ou inconcebíveis para Astoria.
Fragilizada, mas contente pela irmã, toda a segunda parte da cerimonia, ou seja, a festa em si, serviu como um experimento social interessante para Astoria. Foi quando ela pode notar que apesar de a guerra bruxa ainda não estar completamente arrefecida no imaginário comum, a mancha no sobrenome dos Malfoy não era grande o suficiente para encobrir todo o prestigio secular anterior.
Talvez para todo o resto da sociedade sim. Mas para aquele círculo pequeno e seleto de nobres nomes ilustres que também haviam compactuado – direta, indiretamente ou com uma indiferença silenciosa como no caso de seus pais, o que era igualmente culposo – a ascensão do lorde das trevas não. Os critérios morais eram muito flexíveis quando em perspectiva de dinheiro e poder.
Os olhares maliciosos, mas brilhantes com que as pessoas os encaravam comprovavam sua teoria. De algum modo, eles continuavam emanando a mesma aura de sempre. Aquela mistura de quem se sentia sinceramente dona do mundo bruxo e que, era, de fato, um pouco dona dele. Era uma coisa poderosa o suficiente para que funcionassem exatamente como lamparinas mágicas funcionam para bichinhos de luz.
Ao lado de Astoria, Draco não recebia a mesma atenção e assédio dos pais porque ele adotara uma expressão facial muito eficiente que parecia dizer “não ouse se aproximar”, mas Greengrass não pôde deixar de notar que 1) a Sra. Greengrass não parava de lhe lançar sorrisos surpresos de aprovação como se ela não tivesse fugido de casa há um ano e essa fosse a primeira vez que se viam e 2) Pansy Parkinson não tirava os olhos de Draco Malfoy mesmo estando acompanhada do noivo.
Draco não parecia notar, perdido que estava em se disfarçar de estátua, mas o olhar insistente de Parkinson fez com que Astoria se lembrasse, quase sem querer, que eles costumavam ser namorados em Hogwarts. De repente muitas imagens de pegação adolescente lhe vieram à mente e ela soube que não poderia aguentar mais nem um segundo estando sóbria.
— Drinques? – ela perguntou para ele, apontando com o queixo na direção do bar móvel.
— Eu achei que você nunca ia pedir. – ele respondeu, erguendo-se de imediato. Malfoy havia constatado que a mão dela estava gelada, então foi um prazer vê-la abrir um sorriso, ainda que vacilante. Astoria estava pronta para se levantar também quando uma Daphne radiante veio flutuando em sua direção. Ela pediu para que Draco fosse na frente e, dessa vez, quando Daphne ergueu os braços, ela a abraçou com força.
— Obrigada. – Daphne sussurrou, apertando-a também num gesto inédito de afeto.
— O prazer é meu. – Astoria disse, emoldurando o rosto da irmã com as duas mãos, mesmo sabendo da pequena aversão que ela tinha a muito contato físico. – Eu amo você. – declarou e observou Daphne piscar vezes sem fim, despreparada para aquele tipo de anuncio.
— Eutambémamovocê. – Daphne disse nervosamente, dando por encerrado o assunto e Astoria riu, fazendo um último carinho em sua bochecha. Talvez fosse a volta para casa, talvez fosse a relação agridoce com sua irmã mais velha, talvez fosse o modo como o seu pai havia desviado os olhos dos seus como se ela não existisse ou o modo como a mãe só aprovara sua presença por estar acompanhada de Malfoy, mas Astoria sentiu que poderia cair ali mesmo de joelhos e chorar.
— Vá. – ela disse antes que a voz ficasse embargada demais. – Vá cumprimentar os seus outros convidados antes que eu faça algo que envergonhe a nós duas. – Piscou. Daphne a olhou por um segundo a mais, preocupada, mas a deixou por fim.
Respirando fundo, Astoria tentou refrear a própria comoção. Seus olhos encontraram Draco que estava sendo abordado por Pansy enquanto aguardava as bebidas. Ela sentiu a nuvem cinza mental ficar um pouco mais densa e estava se encaminhando para eles quando esbarrou, sem querer em uma passante que vinha na direção contrária à sua.
— Me desculpe! – ela pediu pela trombada e quando a bruxa desconhecida se aprumou para lhe tranquilizar, Astoria sentiu o cheiro do perfume de flor de figo que emanava de sua pele. E então a memória olfativa a nocauteou e a fez cambalear para trás.
De repente, Greengrass não se lembrava mais como respirar. Um zumbido fino insuportável estourou em seu ouvido direito e ela arqueou o corpo para frente em desespero, o coração batendo muito apressado. Lágrimas começaram a brotar nos olhos, turvando-os e a cegando por um instante. Ela não soube dizer quando tempo ficou nesse limbo, os pulmões ardendo e o cheiro do perfume bom lhe queimando as narinas.
Em algum momento, no entanto, as mãos de Draco a alcançaram e, no instante seguinte, ela não estava mais ali.
— Greengrass?
Ela piscou enquanto ele a segurava pelo braço, tentando capturar sua atenção. Astoria não respondeu de imediato, mas puxou o ar e foi com alivio que conseguiu soltá-lo. Com os lábios trêmulos, ela o encarou de volta para que ele soubesse que ela estava ali.
A expressão de preocupação de Draco suavizou apenas um pouco. Ele tirou a longa capa que usava e a estendeu sob o cascalho da praia para que eles pudessem se sentar. Astoria soltou uma risada dolorida quando viu o mar à sua frente e decidiu agradecê-lo pousando a cabeça em seu ombro. Ventava muito e o barulho que o ar produzia era reconfortante. Draco tirou do bolso do paletó um cantil metálico e ofereceu para ela, que aceitou ainda em silêncio, se permitindo chorar enquanto bebia o conteúdo alcoólico.
— Alguma vez o cheiro de algo já te atingiu em cheio? – ela perguntou com a voz trêmula depois de meia hora.
— Sim. – ele respondeu, olhando para ela. Agora o seu cabelo quase branco de tão loiro dançava de um lado para o outro e a visão aqueceu o coração de Astoria.
— A minha melhor amiga usava perfume de flor de figo. – confidenciou, por fim. – Eu não me lembrava. Até senti-lo hoje. – esclareceu, sentindo os olhos ficarem perigosamente irritados mais uma vez. – E então... Foi como se cinco anos não fossem nada. Como se o tempo nunca tivesse passado. Como se ela não tivesse morrido na batalha.
Draco entendia sobre a imobilidade do tempo e a perpetuação da dor. Ele entendia o suficiente para se manter em silêncio, até que ela tornasse a falar:
— Eu nunca pensei que Hogwarts me foderia tanto assim. – Astoria disse, rindo e chorando ao mesmo tempo e Malfoy achou que não poderia amá-la mais.
— Ao inferno com Hogwarts. – ele grunhiu simplesmente.
— Ao inferno com Hogwarts! – ela repetiu gritando e então Draco esboçou um semi sorriso.
— Eu também perdi alguém. Ele não era meu melhor amigo. Não acho que eu saberia ter um melhor amigo há cinco anos atrás, de qualquer modo. – Murmurou, sem encará-la. – ...mas eu ainda o escuto gritar.
Ela assentiu, olhando para o braço esquerdo dele. Astoria o vira nu vezes o suficiente para saber da marca negra e das muitas cicatrizes que a acompanhavam. Ela colocou a mão propositalmente acima de seu pulso, na parte interna de seu antebraço. Draco continuou olhando para o mar.
— Eu sinto muito, Draco.
— Eu também sinto muito, Astoria. – Era a primeira vez que ele a chamava pelo primeiro nome.
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