Heartlines
2 Lover to Lover
There’s no salvation for me now, no more space amound the clouds and I feel I’m heading down… But that’s alright.
That’s alright.
Comecemos então pela garota emocionalmente indisponível, uma personagem mais suscetível a cair no gosto do público.
No ponto em que a conhecemos, Astoria Morgaine Greengrass era uma bruxa de vinte anos que vinha de uma das famílias pertencentes ao Sagrado Vinte e Oito. Isso significava, simultaneamente, muitas coisas como, por exemplo:
Por conta da posição social de sua família, Astoria havia crescido em um ambiente polido muito controlado, rígido e asséptico em um casarão do século 18 que, desde a morte dos avós, era administrado pela mão de ferro de sua mãe, a Sra. Greengrass – com o auxílio, é claro, de um pequeno batalhão de elfos domésticos.
Isto porque fazer parte de uma das poucas famílias bruxas europeias de sangue puro (apesar de diversos estudos alternativos colocarem em xeque essa informação) produzia um sentimento de comoção: os Greengrass se sentiam muito orgulhosos de serem Greengrass. E eles haviam conseguido passar o orgulho do nome com sucesso para Daphne, a primeira herdeira, mas algo saiu muito errado na segunda tentativa com Astoria.
Se o Sr. e a Sra. Greengrass tivessem a sensibilidade de compreender minimamente a natureza inteligente e desconfiada da segunda filha, eles teriam entendido que a propaganda massiva dos bons costumes apenas reforçava na menina a ideia de que havia algo profundamente errado com o que diziam que era adequado. Mas como eles não tinham conseguido compreender o seu gênio do mesmo modo que Astoria não havia conseguido compreender porque manter a postura era importante, entraram em um acordo silencioso de que ela era um caso perdido e, desde que não causasse muitos problemas, não seria tão atormentada.
Assim, com todas as expectativas dos pais voltadas para Daphne, Astoria desfrutou de uma liberdade que não era muito comum em famílias tão tradicionais. Ela aprendeu que tudo lhe era lícito – desde que longe o suficiente dos olhos dos pais. Contanto que ela arrumasse confusão de maneira escondida e sem deixar rastros, ninguém lhe perturbaria.
Quando Astoria completou idade suficiente, ela foi enviada para Hogwarts e, talvez pela força do sangue combinada com sua astúcia, foi selecionada para a Sonserina como todo mundo que conhecia. Esse foi o único momento que Daphne Greengrass, à época, uma secundarista, teve orgulho de sua irmãzinha. Astoria guardaria para sempre a imagem de Daphne sorrindo e batendo palminhas logo após o anuncio do chapéu seletor.
No entanto, a memória boa logo foi substituída, pois no momento que percebeu que ter sido selecionada para a Sonserina significava que agora tinha dois nomes a zelar, Astoria decidiu que realmente não gostava de nenhum deles, embora apreciasse bastante a cor verde, as masmorras, a visão do lago e também a sua melhor e única amiga de dormitório e de casa, Susan Hastings.
Sua convicção contrária ao rio de tradições que tentara moldá-la até ali e os fortes ideais progressistas com os quais teve contato na escola e sobretudo com o diretor Dumbledore, no entanto, não a impediram de ir em silêncio junto com todos os outros alunos de sua casa para as masmorras quando a Batalha de Hogwarts começou.
Astoria havia ficado paralisada ao descobrir que ela era uma Greengrass ao fim e ao cabo, ao menos no que concernia a tendência a autopreservação. Ela se lembrava bem demais daquela noite de 2 de maio de 1998. A voz de Voldemort incitando a entrega de Harry Potter até a meia noite e o modo como aquela mesma voz havia ressoado e atingido um lugar muito primitivo e escuro dentro dela composto por puro terror.
Greengrass se lembrava, ainda, do modo como Pansy Parkinson havia guinchado (mas ele está ali! Potter está ali! Agarrem ele!) e como seus próprios pés pareciam pesados quando saiu com os outros sonserinos do salão. Lembrava-se, em especial, do modo como ela prendeu a respiração quando, algum tempo depois, Susan e mais alguns sonserinos voltaram atrás e decidiram se juntar à guerra contra Voldemort e seus comensais. A amiga nunca retornou.
Então sim, as coisas tinham ficado bem obscuras para Astoria por um tempo depois disso e não melhoraram mesmo depois da reconstrução de Hogwarts ou de sua formatura. Em muitos níveis ainda estavam exatamente do mesmo jeito quando, passado o período escolar e alcançada a maioridade bruxa, Astoria decidiu que precisava ir embora e furtou a própria poupança, antes de fugir casa. E elas continuavam esquisitas quando Draco entrou em seu bar pela primeira vez. E na segunda. E na terceira. E em todas as outras ao longo daqueles seis primeiros meses.
Mas elas cessaram por um único segundo quando, numa quarta qualquer, Daphne cruzou a porta do seu estabelecimento fora do horário comercial. A imagem da sua irmã mais velha parada como uma maldita veela em seu bar que, não importava o quanto limpasse, sempre tinha um aspecto degradante, teria feito Astoria rir com vontade, não fosse o fato de que era a primeira vez em um ano que elas se viam.
Foi com um súbito e perigoso nó na garganta que Astoria largou a varinha no balcão, parando no meio a nova combinação alcoólica que estava inventando para encarar Daphne.
— Oi, Dee. – ela murmurou, sem saber o que fazer com as mãos agora que elas estavam livres.
— Astoria. – Daphne respondeu, enfiando as mãos nos bolsos não por nervosismo, como era o caso de Astoria, mas para ter certeza de que não tocaria em nada sem querer. – Como vai? – estava claro pela expressão em seu rosto que, fosse o que fosse que a irmã mais nova responderia, Daphne já havia decidido que não era possível estar bem num lugar como aquele.
— Bem e você? — recuperada da impressão inicial, Astoria retorquiu com o tom provocativo de sempre, brindando-a com um semi-sorriso debochado.
— Bem.
— Se você veio tomar algo, nós só abrimos às sete. – implicou apenas para ver Daphne girar os olhos.
— Eu não... – a garota mais velha tentou se defender, com uma cara de completa repulsa. Astoria sorriu mais. – Eu vim apenas te mostrar isso.
Com cautela, ela tirou a mão direita do casaco rosê muito caro. Em seu dedo anelar, uma solitária e enorme esmeralda brilhava, mesmo à distância. Astoria abriu a portinhola do balcão e se aproximou, interessada. Era uma joia muito bonita e de perto ela podia observar a silhueta de uma pequena cobra entalhada na superfície polida da pedra.
— Puxa, Dee, em quem você andou sentando? – Daphne estreitou os olhos, quase arrependida de ter tomado a decisão de vê-la. Ela sabia que Astoria adorava ser especialmente vulgar em sua presença apenas para provocá-la, mas o conhecimento não a deixava menos abalada.
— Cormac McLaggen me pediu em casamento há duas noites em um jantar familiar. – anunciou num fio de voz, ignorando a pergunta de Astoria.
A mais nova assentiu com a cabeça, sabendo o que aquilo significava. O tamanho daquela pedra era uma compensação pela família dele não ser uma das 28 que importavam. A voz baixa de Daphne, quase envergonhada, confirmava.
— Você está feliz? – Astoria quis saber, genuinamente preocupada com a irmã, o que surpreendeu Daphne; ela deveria ter se lembrado que aquele tipo de detalhe sobre hierarquias sanguíneas não significaria nada para Astoria.
— Muito – respondeu em seu tom monocórdio, sem nenhum indicativo facial que pudesse validar a resposta. Astoria sorriu, porque apesar disso, sabia que ela estava sendo sincera. – Ele pode não ser um... Bom, você sabe. – Pigarreou, antes de continuar. – Mas sua família tem muita influência no ministério.
Astoria concordou, porque sabia que era isso que ela queria que ela fizesse.
— Isso é ótimo. Mesmo.
— Bom, é. – Daphne curvou os lábios um pouco para cima. Podia ser um espasmo inconsciente, mas Astoria entendeu que era um sorriso. – Eu gostaria que você pudesse ir. – Pediu e Astoria levou apenas alguns segundos considerando.
Dizer sim significava rever os próprios pais e lidar com toda a sorte de emoções e situações que isso poderia trazer. Mas a verdade é que, embora fosse mais confortável dizer não, ela nunca negaria algo daquela magnitude para Daphne. Ela era azeda, solene e fria demais para o seu gosto, mas também era a única irmã que Astoria tinha. A única pessoa que ela tinha.
— É claro. – murmurou.
— Obrigada.
Astoria soltou um riso cansado pelo nariz no lugar de “disponha”.
— Tori?
— Sim?
— Quando estiver pensando em um acompanhante... Por favor, não me envergonhe.
Astoria girou os olhos, mais por hábito do que por real irritação. Daphne era o que era.
— Hum. Veremos... – ela abriu outro de seus muitos sorrisos tortos, e Daphne ignorou o frio na espinha que sentiu por decidir assumir aquele risco. Astoria também era o que era.
— Ok – dando por encerrado o assunto, a mais velha das Greengrass olhou o bar uma última vez antes de, num impulso, estender os braços para abraçar a sua irmã mais nova. Como o ato não poderia ser mais imprevisto, Astoria reagiu acertando sem querer o nariz muito fino e empinado de Daphne.
— Oh, sete infernos! – a loira grunhiu.
— Santo Merlin, o que você estava tentando fazer? – Astoria inquiriu, rindo de nervoso.
— Abraçar você, porra.
— Ah! Nós fazemos isso agora?
— Não mais. – Daphne estendeu o braço novamente, agora para manter a distancia quando Astoria tentou se aproximar, ainda rindo.
— Tudo bem. – Astoria anuiu, bem-humorada. – Tudo certo com o nariz?
— Tudo. Eu vou indo. – Daphne suspirou, recompondo-se. – Nos vemos, sim? – seus olhos adquiriram um tom de súplica que Astoria não deixou passar.
— Nos vemos. – ela garantiu, pegando o convite que a outra estendeu antes de se despedir.
Astoria se permitiu olhar para as costas da irmã e observar os passos dados em saltos muito altos para longe, cada vez mais longe dela. Dobrando com cuidado o envelope com a data e o horário da cerimônia, ela o colocou no bolso interno das vestes antes de voltar ao trabalho.
Os dias de Greengrass, com exceção daquela visita surpresa Daphne, eram quase todos iguais. Ela acordava tarde depois de dormir igualmente tarde e então dedicava a sua energia mental em tudo que envolvia o seu pequeno negócio. Umas quatro vezes por semana, no entanto, ela se permitia espairecer satisfazendo pequenos desejos carnais. Quase sempre – precisava admitir – com Draco Malfoy.
Isso, no entanto, nunca tinha sido planejado. Mas agora Astoria apenas não podia evitar. Talvez sua mãe estivesse certa e ela tivesse mesmo um faro, um pendor para problemas. Astoria o vira naquela primeira noite e sentira que a angústia que parecia emanar dele tinha algo de parecido com a sua própria e isso fez com que ela quisesse tirar a prova.
Ela não imaginou sequer por um instante naqueles quinze primeiros minutos que eles passaram trancafiados no banheiro o quanto as coisas seriam fisicamente fáceis com Draco, e ainda assim, por alguma estranha razão, eles deslizaram daquele instante para o lugar-comum atual, onde Astoria apreciava o fato de Malfoy ser quieto e taciturno e usar bem a boca em outras funções.
Era o máximo que se permitia pensar sobre. Sua vida já era uma coleção miserável de escolhas suspeitas sem que ela admitisse para si mesma que as vezes sentia falta dele.
— O que você estará fazendo daqui há três luas? – ela lhe perguntou, duas noites após a visita de Daphne e muitas considerações pessoais.
O bar já estava fechado há algum tempo e, como de hábito, eles tinham se encontrado no segundo andar onde ela mantinha um pequeno apartamento para si.
— Honestamente? – ele a encarou e Astoria pensou pela terceira vez que havia alguma coisa estranha no jeito como ele estava se portando aquela noite, mas Greengrass não conseguia colocar o dedo no problema. — Eu espero estar morto até lá. – Draco encolheu os ombros magros, vestindo novamente a camisa escura de manga.
Ele nunca se permitia passar muito tempo com os braços despidos e ela suspeitava saber a razão.
— Você é mesmo um cara alegre, Malfoy. – Astoria ironizou, antes de reformular a pergunta: — O que você acha de ir ao casamento da minha irmã comigo? – e como ela estava olhando para ele, pôde ver o exato instante em que uma pequena nuvem do que parecia ser ressentimento cruzou seus olhos.
— Até onde sei, você tem opções melhores – a voz dele saiu seca, bem aos moldes do seu antigo tom de voz. Ele se arrependeu no mesmo instante em que ela arqueou a sobrancelha.
— Ah, é? – Greengrass inquiriu, não ofendida, mas genuinamente interessada. – E até onde você sabe? – um sorriso desafiador dançava em seus lábios, o que o fez praguejar internamente por denunciar de maneira tão estúpida a sua própria posição.
Draco não estava preparado para dizer que a tinha visto com Theodore Nott. Isso significaria dizer também que na semana anterior ele havia pensado tanto nela que decidira visitá-la um dia antes do combinado. A simples ameaça da descoberta fazia seu coração falhar. Ele se sentia patético.
— Desculpa – pediu sem responder a pergunta. – O que estou querendo dizer é que não faço isso, Greengrass.
— Isso...?
— Aparições públicas – esclareceu, incomodado e envergonhado demais para se manter ali. Levantando-se da cama de maneira abrupta, ele localizou as calças e terminou de se vestir às pressas, muito consciente do olhar interrogativo dela às suas costas.
Astoria pensou em perguntar como ele chamava todas as idas ao seu estabelecimento, mas ela não era uma pessoa que insistia. Os dois tinham isso em comum e Greengrass não estava disposta a mudar a dinâmica da relação por conta de um convite. Já era estranho o suficiente que ele estivesse tão agitado e nervoso.
— Tudo bem. – ela disse com cautela, sentando-se para observá-lo melhor. A meia luz, ele parecia ainda mais pálido do que o normal. – Me avise se mudar de ideia, sim?
— Ok. – Draco murmurou, antes de vestir o pesado sobretudo com o qual tinha chegado. – Acho que preciso ir agora. – Avisou, sem sequer conseguir encará-la nos olhos.
E assim, Astoria o viu ir embora também. No lugar em que ele aparatara agora só sobrava a sua própria sombra projetada na parede. Greengrass encarou a silhueta e se permitiu sentir a dor fina de saudar a velha sensação de que ela era muito sozinha.
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