Heartless
3 Human
Os olhos de Sirius saltaram ao verificarem que, de fato, havia sangue dentro das taças das pessoas dentro daquele salão. Ele piscou uma, duas vezes, esfregou as mãos freneticamente nos olhos e ainda assim ele continuava vendo sangue sendo servido como se fosse champagne. Uma mulher incrivelmente ruiva, de corpo magro e orelhas levemente inclinadas para fora ergueu sua taça devagar e levou-a à boca em um movimento angelical. Sirius assistia àquela cena, boquiaberto, sem conseguir acreditar que alguém poderia estar fazendo aquilo mesmo. O líquido grosso e escuro escorreu pelas paredes translúcidas do cristal e caiu na boca pequena da mulher. O rosto dela encheu-se de uma satisfação estranha ao sentir aquele gosto metálico e Sirius sentiu seu estômago embrulhar de imediato.
Sentindo suas pernas tremerem e as mãos suarem, ele voltou a encostar a cabeça na parede do corredor escuro, onde ninguém poderia vê-lo. O peito dele subia e descia com a sua respiração ofegante e a sua mente custava a acreditar no que havia acabado de ver. Apesar de ter passado anos e anos lendo pesquisas, assistindo documentários e formulando as suas próprias teorias, ele nunca havia visto um sangólatra na sua frente. Nunca havia visto ninguém engolir sangue efetivamente. Aquilo era, ao mesmo tempo, excitante e nauseante.
Ele precisava fazer alguma coisa a respeito. Sirius não podia deixar que a sua primeira oportunidade real de andar perto de vampiros lhe escapasse. Por isso, determinado, Black ajeitou a sua postura e passou as mãos na sua roupa, tentando deixá-la mais apresentável. Era isso, ele iria entrar na festa dos vampiros e arriscar a sua própria vida. Era por aquele momento que ele havia esperado sua vida toda, não era? Apenas em pensar na quantidade incrível de material comprovado pelos seus próprios olhos ele poderia conseguir para a sua pesquisa fazia seu coração disparar.
Sirius se pôs na frente da porta de onde Potter saiu e respirou fundo. Estava na hora de fazer tudo pelo que lutou por anos a fio valer.
Tentando parecer confiante, Black passou pela pequena sala de máquinas e logo colocou os pés dentro do enorme salão, onde a reunião acontecia. Sirius ficou impressionado com tudo ao seu redor. O lugar era luxuoso, assim como as pessoas que o frequentavam. As paredes eram pintadas de cor chocolate e inteiramente cobertas por quadros com molduras belíssimas douradas, brancas e em tons rosé. Ali estavam retratadas as obras mais famosas do mundo. As mesas eram todas redondas, com toalhas branquíssimas, e as cadeiras eram pretas com almofadas roxas escuras.
As pessoas que estavam ali não eram todas pálidas, como ele havia lido em alguns livros antigos. E muito menos brilhavam, como ele havia lido em um livro adolescente. Todos eles eram exuberantes, estavam exageradamente bem vestidos e cheiravam a dinheiro. Invariavelmente bonitos, qualquer um deles poderia estar em uma capa de revista. Na rua, poderiam se passar como pessoas normais facilmente, no entanto, ali, havia algo no ar. Uma aura deslumbrante de poder, magnetismo e sedução pairava entre aqueles corpos, que apenas conversavam em rodinhas, enquanto bebiam suas taças de sangue. A comunhão e ao mesmo tempo a desconfiança entre eles era quase palpável. Sirius sentia-se em um ninho de cobras lindas e hipnotizantes.
— Sangue de virgem, senhor? — um garçom perguntou, ao aproximar-se sorrateiramente de Sirius, que teve um sobressalto.
Black olhou para as taças na bandeja do homem e sentiu sua garganta secar. Sangue de virgem, ele repassou as palavras no garçom em sua cabeça. Tudo ao seu redor rodou e ele teve certeza de ter ficado pálido. Sangue de virgem. Teria alguém ali assassinado um grande número de virgens para ter toda aquela quantidade de sangue? O primeiro instinto de Sirius foi claro recusar. No entanto, a julgar pela suntuosidade daquela festa, sangue de virgem deveria ser como o melhor dos champagnes para os vampiros. Negar não seria muito prudente.
— Obrigado — disse, quase sem voz, enquanto pegou uma taça meio cheia da bandeja.
O garçom sorriu para ele e foi embora. Ao olhar para o líquido dentro da taça que segurava, um bolo subiu à garganta de Sirius e ele precisou fazer um esforço para não vomitar. Nervoso, ele olhou ao redor e procurou um banheiro em que pudesse se livrar daquilo, mas não encontrou nenhum. Apenas encontrou um vaso de plantas perto de si. A solução que tinha era, então, aproximar-se de um vaso de plantas, discretamente, para tentar despejar o sangue ali. Sirius fez como o planejado e esgueirou-se por uma parede e inclinou a taça atrás de suas costas, cuidando para que ninguém estivesse olhando.
— Boa noite — ele ouviu uma mulher dizer ao seu lado. Sirius assustou-se e quase deixou a taça cair no chão, mas agarrou-a antes que isso acontecesse e escondeu-a atrás de suas costas.
Ao virar-se para a dona da voz, viu uma mulher de longos cabelos loiros, reluzentes, e olhos verdes claros e brilhantes. Ela estava vestida com um vestido longo cinzento com pequenos diamantes cintilantes, que marcava bem as curvas de seu corpo. Além disso, ela tinha um rosto forte e nada angelical, porém extremamente sexy, vistoso e encantador. Sirius pensou estar próxima de uma rainha.
— Boa… Boa noite — ele disse, meio abobalhado.
Ela sorriu, venenosa, como se soubesse o efeito que havia causado nele. Tanto pela beleza exuberante, como pelo susto.
— O senhor precisa me desculpar, mas eu não consigo me lembrar do seu rosto nas últimas reuniões da sociedade — disse ela, estudando-o como um leão estuda sua presa. — Você é…?
— Sirius Black.
O rosto dela iluminou-se de repente.
— Oh! Filho de Theodore e Jeanne Black?
Sirius tentou buscar em sua mente aqueles nomes, mas não conseguiu lembrar de ninguém. Ninguém a não ser os gregos, donos da maior rede de produtos esportivos da Europa. Certamente eles não tinham nenhum parentesco com a sua família, os Black do interior rural da Suíça.
— Exato! — disse ele, sem pensar. Sirius precisava se enturmar, afinal. — Conhece os meus pais?
— Eu não, mas o meu pai, Michael McKinnon, é um grande amigo da sua mãe — contou, começando a parecer mais amigável e menos ameaçadora. — Eu soube que eles estão fazendo uma grande viagem na Ásia e que não poderiam vir este ano. Mas não sabia que mandariam um representante da família.
— Sim, sim… Este ano eles estavam cheios de… trabalho e preferiram fazer uma viagem mais longa e intimista — mentiu descaradamente, inventando os fatos a medida que os dizia. — É a minha primeira vez aqui. Ouvi falar muito bem das reuniões do La Rose. Não é em qualquer lugar que nós podemos beber sangue à vontade, não é?
A McKinnon sorriu, desconfortavelmente, e olhou ao redor, como se procurasse uma saída para algo muito constrangedor. Sirius observou enquanto ela fazia aquilo e tentou descobrir o que estava acontecendo. Contudo, não precisou de muito esforço, pois ela logo aproximou-se dele, ficando à uma distância perigosa, que fez seu coração bater mais forte, e sussurrou em seu ouvido:
— Eu sei que você não é um vampiro — Sirius gelou por inteiro. Estava morto. Era o seu fim. Seu péssimo disfarce havia sido descoberto em menos de dois minutos de conversa!
Vendo claramente que os músculos dele haviam ficado rígidos e o descompasso de sua respiração aflita, ela pousou sua mão sobre o braço dele, carinhosamente, assustando-o mais ainda, e continuou:
— Está tudo bem. Caso você não saiba, é normal que filhos de vampiros não saiam com o mesmo DNA. Eu mesma passei pela fase difícil em que eu tentava me convencer de que era como os meus pais — a voz dela estava doce, muito diferente do que ele havia imaginado, e não parecia que ela queria sugar todo o seu sangue até a morte. Ainda assim, Sirius estava desconfiado e estudava meticulosamente cada palavra e movimento dela. — Está vendo aquelas duas ali? — ela apontou para uma menina ruiva junto a uma loira, no canto do salão. — Humanas, filhas de uma das vampiras mais antigas da Terra.
— Co-co-como você sabia? — gaguejou Sirius, arrependendo-se do momento em que pisou naquele salão.
Ela riu, como se ele tivesse sido muito divertido.
— Eu conheço um humano há quilômetros de distância, querido. Você não precisa ter medo. Eu não vou contar para ninguém. Seria muito deselegante da minha parte com um dos meus convidados. Eu aposto que foi por isso que você passou tanto tempo viajando pela América Central — disse ela, agindo como se entendesse perfeitamente o conflito de Sirius. — Sirius o seu nome, certo?
Ele assentiu, em choque demais para conseguir dizer uma palavra que fosse.
— Meu nome é Marlene. Se quiser, pode me procurar amanhã e nós podemos conversar sobre isso. Eu adoraria te ajudar — ela sorriu amigavelmente, apertou o braço dele e afastou-se, indo cumprimentar outros convidados.
Sirius estava atônito. Tudo havia acontecido tão rápido. Como aquela mulher assustadoramente magnífica sabia que ele não era um vampiro? Provavelmente eles poderiam sentir alguma coisa no ar. Mas, se ela sabia, não saberiam também todos naquele salão? A mente de Sirius estava ainda mais confusa e aterrorizada do que quando havia entrado ali. Tudo o que queria naquele momento era voltar à sua suíte, deitar em sua cama e processar tudo o que havia acabado de viver. Pelo menos ele não havia sido morto. Isso… Era algo bom, afinal. Não era?
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