Heart rater
3 La femme sur le mur
Notas iniciais
Não está morto o que eternamente jaz inanimado, e em estranhas realidades até a morte pode morrer.
— H. P. Lovecraft
Diário de E. Swan
Na minha ansiedade nem almocei, depois do meu encontro estranho com Zelena corri para o quarto precisava montar uma linha do tempo, um quadro que me ajudasse a fixar os fatos e assim ordenar as perguntas mais importantes, com ajuda de fita e alguns post-its comecei primeiro com 1996 o surto inicial de Cora e os acontecimentos seguintes, apesar de pesquisar muito nunca achei nada concreto relativo a acontecimentos estranhos anterior a 96.
Os jornais não tinham nada, a biblioteca da cidade mantinha um acervo de fatos históricos nele a festa de inauguração da pensão e alguns míseros detalhes da família Mills.
Foi com muito custo que consegui conversar com um medico que fazia residência na casa de repouso na época o psicólogo Dr. Archie, ele me disse que Cora nos primeiros dias não comia, não dormia e vivia aos murmúrios, eles chegaram a ceda-la ate margem de segurança, mas ela não dormiu se quer cochilou, uma dose de sedativo desse porte teria colocado um pugilista para dormir como um bebe. Ela odiava espelhos e vivia quebrando o de seu quarto sempre que tinha chances. O fato mais estranho é que sete meses depois da internação e os tratamentos de choque ela continuava sem progresso no seu quadro, se alimentava e dormia menos do que o necessário para manter um ser humano saudável isso ate receber a visita de suas filhas que ficaram com Cora por meia hora sozinhas no quarto. Uma semana depois da visita que recebeu ela entrou em estado vegetativo, o Dr. Archie acha que a única vez que ela falou foi naquele tempo que passou com as filhas. Quando questionadas pelo medico as Mills deixaram implícito que isso de maneira nenhuma era da conta do medico.
Tentei contato com o medico depois que ele falou comigo para pedir se não tinha mais algum detalhe que ele pudesse ter esquecido, sua secretaria me informou que ele estava de licença indeterminada, todas as pessoas ainda vivas que tentei coletar informações se negaram veemente a conceder entrevista, não vendo outra saída adiantei minha vinda para a pensão. Essa é sem sombra de duvida a historia mais complexa que já estudei, me lembra em alguns aspectos um conto de Lovecraft intitulado de “Medo a Espreita”, pela falta de informações e uma relutância quase religiosa das pessoas envolvidas em falar sobre.
O relógio me informa que preciso correr para a recepção encontrar Zelena, junto na minha bolsa rapidamente meu material o gravador e saio tão apressada que sequer tranquei a porta, meu senso de pontualidade dizia vai Emma se apresse, mas era como se existisse uma lei algo que não deixava você andar a passos largos naquele pedaço de corredor ate a escada, meus pés pareciam presos ao piso de mogno. Sentia claramente um calafrio que subiu a linha da minha coluna como se gelasse minha alma com garras afiadas, a sensação de que alguém me observava era tão poderosa que me peguei olhando por sobre o ombro, pare de bobagens pensei respirando aliviada quando cheguei à escada.
Desci saltando de dois degraus, odiava chegar atrasada ao que parece o destino gostava de me ver sair toda esbaforida como se estivesse indo tirar o pai da forca, nem olhei ao redor enquanto seguia meu caminho, escutei Ruby me chamar da sala de refeições, lancei lhe um sorriso amarelo apontando para o relógio no meu pulso e segui meu caminho, deuses de pessoas atrasadas, por favor, me ajudem.
Respirei mais aliviada quando avistei Belle na recepção, apressei o passo ate lá.
— Boa tarde. –Respirei devagar recuperando o fôlego. –Então Belle eu tenho uma hora marcada com Sra. Zelena.
— Boa tarde Emma, pode respirar ela ainda não chegou. –Disse rindo do meu estado.
— Céus tinha certeza que ia chegar atrasada, bom na verdade eu estou atrasada. –Falei rindo.
— Diria que você tem sorte, de qualquer forma Zelena disse talvez se atrasasse e me pediu para mandar você esperar por ela no escritório. –Falou apontando o corredor atrás do balcão. –Ultima porta do corredor.
— Obrigada Belle. –Disse.
— Não por isso. –Escutei enquanto ia em direção ao escritório.
A porta imponente, por alguns segundos fiquei observando a madeira a minha frente, vamos Swan pare de parecer idiota ai parada nesse corredor. Girei a maçaneta entrando era um lugar que gritava requinte em cada canto. Sofás de couro preto, uma estante cheia de volumes em varias línguas, mais a frente um mesa grande com e uma cadeira de couro também preto, na verdade todo o lugar era decorado em tons de preto e cinza o que deixava o ambiente com um ar glacial, fiquei indecisa entre sentar em uma das duas poltronas a frete daquela imensa mesa optei por esperar em pé.
Já estava inquieta passando o peso de um pé para o outro, eu poderia dar uma bisbilhotada no lugar atrás de algo relevante, entretanto aquela sensação de estar sendo observada me cobriu como um manto sufocante.
Senti o cheiro de perfume francês no ar, cada célula do meu corpo paralisou sabia no fundo da minha alma que não era Zelena ali na sala, concentrei-me na grande janela atrás da mesa o céu nublado respirei fundo e me virei devagar. La estava toda imponente e fria em cima daqueles saltos absurdamente altos, trajando uma saia preta com abertura lateral e uma blusa social cinza com alguns malditos botões abertos dando o vislumbre de sua peça de renda preta, como se a sua mera presença não fosse distração suficiente. Os olhos me analisavam, senti um golpe na minha autoestima com minhas simples roupas de sempre jaqueta e jeans. Ela seguiu para a mesa o salto mais uma vez ecoando, droga como eu não a ouvi chegando, quando passou por mim seu perfume dominou meus sentidos, Emma sua idiota fecha a droga da boca precisamos de respostas aqui.
Ela sentou na cadeira cruzou as pernas ainda me analisando.
— Sente-se Miss Swan. –Falou com aquela voz rouca apontando a poltrona em frete a mesa.
— Antes que pergunte Zelena teve um imprevisto, sua entrevista vai ser comigo. –Arqueou a sobrancelha. –Seja breve, tenho mais o que fazer. –Curta e grossa.
— C...Claro. –Controle-se idiota pensei. –Se importa se eu gravar nossa conversa. –Ela estreitou os olhos. –Não vai ser divulgado é somente para nota.
— Sem gravadores Miss Swan. –Disse a impaciência dando sinais em sua voz.
— Tudo bem. –Sorri sem mostrar os dentes e peguei meu bloco de notas. –O que a senhora se lembra do dia 13 de junho de 1996.
— Miss Swan, eu não sou casada não me chame de senhora. –O mar castanho a minha frente estava gélido. –Minha mãe surtou esfaqueou meu pai com uma tesoura foi para um hospício e quando voltou para casa degolou meu noivo e se enforcou.
— Certo, mas Srta. Mills isso foi exatamente o que os jornais publicaram na época pensei que como uma testemunha que estava no local pudesse saber de algo que não foi publicado, qualquer detalhe. –Falei hesitante e vi sua expressão ficar carregada, estou morta pensei.
— Miss Swan, já perdeu alguém que amava tragicamente. –Suspirou buscando se acalmar. –Não é fácil ser lembrada constantemente da mãe psicótica e assassina. –Disse entre dentes. –Certamente você não sabe o que é isso, imagino que tenha tido uma família perfeita de comercial, então toma como trabalho desenterrar as dores alheias. –Terminou me fuzilando com os olhos.
Seu comentário abriu um buraco na barreira em minha mente que eu mantinha a todo custo erguida, lembrei de como perdi meus pais, como nunca os conheci a não ser através de fotos, um acidente de carro David e Mary, mortos eu ainda estava na barriga dela, eu nasci de uma mulher que já estava morta, as lembranças vem com uma força que eu não consigo parar, lembro como James meu tio resolveu sair de Londres depois da tragédia e veio comigo para Toronto, fui criada por ele e mais tarde seu noivo e agora marido Killian. Eles foram ótimos pais, mas não mudava o modo como eu cheguei a este mundo.
Respirei fundo tentando bloquear essas lembranças enquanto Mills me encarava não ousei olhar em seus olhos, foquei minha atenção no bloco de notas na minha mão.
—C..Certo. –Finalmente olhei em seus olhos a testa franzida o olhar frio. – Srta. Mills não ouse de forma alguma supor algo sobre minha família, meu trabalho é contar historias não revirar a dor das pessoas, não estou aqui para julgar sua falecida mãe, eu quero entende-la. –Vi sua expressão abrandar olhar porem ainda se mantinha frio.
— Certo, não vou supor nada, sabe eu conheço seus pais, James e Killian os melhores advogados de Toronto, não faça o papel de órfão perdida não vai me comover, então Swan de que orfanato eles te tiraram. –Ela queria me provocar e estava conseguindo, aquelas palavras me dilaceraram como alguém podia ser tão babaca.
— Desça desse salto Mills, usar arrogância e babaquice para afastar as pessoas é clássico e patético, acho que eu vou esperar para falar com sua irmã. – Tentava o máximo controlar minha voz, as lágrimas ardiam para sair mais eu não surtaria na frente dela que mantinha uma expressão vitoriosa no rosto. Peguei minhas coisas e levantei rapidamente, senti uma tontura. A sala girou eu queria chegar à porta o mais rápido possível porem minha cabeça parecia ter saído de um liquidificador, quando escutei os saltos ecoando no chão sentindo uma mão segurar meu braço.
— Miss Swan, espere sente-se. –Sua voz agora desprovida de arrogância e ao que parecia preocupada, a Emma não seja idiota essa mulher é uma víbora. Ignorei a sensação daquela mão no meu braço e puxei ainda sem olhar para ela disparei.
— Vai para o inferno Regina.
Então minha visão escureceu, antes de cair na inconsciência total a ouvi chamar meu nome e senti suas mãos em meu rosto.
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