Heart on Fire

1 Your sweetheart, psychopatic crush


Notas iniciais
Vamos brincar de um jogo chamado "Quantas referências a History Maker a autora conseguiu colocar na fic?" Contem e digam no final -w-

A rush at the beginning

I get caught up, just for a minute

But lover, you're the one to blame, all that you're doing

Can you hear the violence?

Yuri não sabe quando nem por que a chama se acendeu.

É uma chama, pois algo a começou, ela consome ar para continuar existindo e há a expectativa de que ela se apague um dia.

Ele não sabe o que começou. O oxigênio, porém, era cada pequeno gesto de Yuuri que o deixava mais apaixonado. Se aquilo haveria um fim, certamente deixaria uma trilha de cinzas no caminho.

Era muito fácil se apaixonar por Yuuri Katsuki. Seus sorrisos fáceis, sua modéstia, sua gentileza, sua beleza. Tudo isso compunha a chama da paixão que queimava Yuri por dentro. E queimaduras doem.

Ele pode apontar algumas ocasiões em que ele definitivamente não estava apaixonado. O dia em que se conheceram é uma delas. Ora, por que se apaixonaria por uma pessoa patética que chorava em banheiros públicos? Por acaso ele não sabia quantos patinadores matariam para estar em seu lugar, mas não tiveram chance? E ele ainda chorava? Aquilo era ser mimado e Yuri detestava pessoas mimadas.

Ele também não estava apaixonado quando teve que caçar Victor em outro país para reivindicar seu programa curto. Mas ele admite que houve... alguma coisa em Hasetsu. Talvez fosse a coragem de Yuuri em pedir ajuda com o quad salchow, porque seu treinador idiota aparentemente não era suficiente. Ou talvez aquele momento na cachoeira em que Yuri resolveu que poderia pensar em seu avô para encontrar Ágape. Não era paixão, mas algo havia preparado a lenha dentro de si, pensando que poderia ser útil para uma fogueira depois.

Ainda não era paixão quando Yuri ofereceu pirozhki de katsudon a Yuuri, mas estava próximo. Agora a entidade interior tivera a ideia de trazer fósforos para perto. Sem motivo algum, só pelo fato de ter. Quem sabe um dia ela tenha ânimo para algo mais.

A lenha foi chutada quando Yuuri e Victor anunciaram o noivado. Por que investir em algo que não seria retribuído? Esse sempre foi seu problema ao entender Ágape: amor incondicional sem esperar nada em troca. Tudo tem um preço na concepção de Yuri. E se ele der algo, é porque quer algo.

Yuri sentiu raiva e ódio. Ele odiava Yuuri e odiava Victor. E ódio é frio como gelo. Ele conhecia gelo muito bem.

Quando ele descobriu a possibilidade de Yuuri se aposentar, ele não sentiu nada.

Era um vazio. O vazio também é frio, mas não como o gelo em que ele patinava. Era frio como o vento que entra numa casa velha à noite, que assusta crianças ao bater contra a janela.

O vazio era o medo.

Yuri sentia medo do abandono. Ele não queria ser deixado pra trás. A única chance de ele ser mais próximo de Yuuri era através da patinação. Se ele fosse embora, o que restaria? Yuri gostava do calor, de ter algo maior que a frieza de sentimentos negativos.

A lenha foi recuperada às pressas enquanto ele deslizava pelo rinque de Barcelona. Cada pedaço da madeira reencontrada era um salto que ele completava perfeitamente.

Ele caiu e por um segundo a pilha tremeu, mas ele seguiu em frente. Ele tinha que vencer. Tinha que mostrar pra Yuuri que ele não podia ir embora agora, não quando ele acabou de chegar. Yuuri tinha que ficar ali com ele.

Eles eram um par, tinham o mesmo nome. Eros e Ágape eram partes da mesma história, da mesma música. Yuuri era o fogo, Yuri era o gelo. Um a sedução, o outro a inocência. Um o sol, o outro a lua. Ele poderia continuar para sempre os paralelos e ainda não seria suficiente para dizer o quanto Yuuri era importante.

Foi com mãos trêmulas que o fósforo acendeu a fogueira, ao mesmo tempo em que Yuri descobria que Yuuri não iria terminar sua carreira. Não, ele continuaria e treinaria na Rússia, perto dele.

Era mais do que ele podia pedir.

Ele gostava do calor em seu peito, e provavelmente foi ali que ele se apaixonou. Mas Yuri não percebeu isso. Ele só gostava da ideia de ter Yuuri por perto.

Ainda havia gelo ali dentro, mas uma chama fora acesa, determinada a derreter aquele inverno sem fim no coração de Yura.

Plisetsky estava animado para o resto da temporada.

No início, ele acreditava que tinha uma chance.

Quer dizer, se alguém sorri pra você, pergunta como você está, te ajuda com os treinos, cuida de você... tem que significar alguma coisa, não?

Era assim com Yuuri. O mais velho era a presença mais doce naquele rinque. Sempre se certificando do bem-estar do russo, tirando dúvidas sobre os programas ou simplesmente estando ali ao lado.

Ele atiçava a chama sem saber.

E Yuri realmente acreditou que em cada segurar do ombro, cada toque sobre seus cabelos, cada abraço; havia um sinal de que Yuuri o queria também, de que ele não estava sozinho em seu romance não correspondido de adolescente. O calor poderia sim chegar ao ápice de ser reconhecido.

Mas uma luz incomodava os olhos de Yuri. Ela era pequena, quase insignificante, mas machucava.

O reflexo da aliança de Yuuri.

E com ela, vinha Victor.

Victor era a lembrança da dura realidade em que Yuuri era casado e amava outra pessoa. É claro que se podia amar dois ao mesmo tempo, mas Yuuri não era desses. Ele era fiel e isso só o tornava mais adorável.

Então seu ódio foi para Victor. Antes ele podia dizer que a lenda viva era suportável. Ele ajudava com seus treinos, fez um programa que o ajudou a chegar à Final do Grand Prix e tinha colocado Yuuri em sua vida. Ele tinha muito que agradecer a Nikiforov.

Mas Victor era um obstáculo. Sempre a frente dele, seja nas competições ou nas suas ambições amorosas. Sinceramente, ele já não tinha tudo que queria? Ele podia ter qualquer um que quisesse aos seus pés, por que justo Yuuri? Seria pedir demais Yuri ter alguma coisa facilmente, sem precisar brigar com Deus e o mundo para alcançá-la?

A forma que Yuuri sorria para qualquer coisa que Victor fazia já era uma resposta.

Como em tudo em sua vida, ele teria que lutar para ter Yuuri ao seu lado. O calor não permaneceria inerte por muito tempo.

Por anos, Yuri se perguntou se realmente amava Katsuki. Por causa de sua experiência ao patinar Ágape, ele sabia que havia muitas formas de amor. Alguma delas tinha que servir para explicar o que Yuuri significava pra ele.

Sua primeira ideia foi justamente Ágape. Amor incondicional, sem paixões ou expectativas. Bem longe da realidade.

Yuri tinha muitas expectativas. Se fosse Ágape, ele não se importaria de ser uma peça sobressalente na vida de Yuuri. Não, ele queria mais. Ele queria ser a razão dos sorrisos do mais velho, queria que seus olhos brilhassem para ele e ele apenas. Ele era muito egoísta para Ágape.

A próxima alternativa era Storge e ele demorou um bom tempo para descartá-la. Amor platônico entre familiares. Talvez ele só visse Yuuri como um irmão mais velho, um pai? Acontece quando você é carente de carinho parental adequado. Ele poderia só estar confundindo as coisas, afinal. Mas não, ele concluiu. O fulgor em seu peito era mais do que o aconchego de um lar.

Yuuri poderia vê-lo como Storge, mas a visão não era recíproca. Precisava de algo mais forte. Essa força ele encontrou em Eros.

Paixão sexual e desejo, um romance intenso. Era algo bem próximo da realidade. Yuuri despertava coisas em si que nunca sentira antes. Sua voz acompanhava seus sonhos desde as manhãs no rinque até as noites solitárias em seu quarto, onde ele pateticamente tentava aliviar o calor físico pensando em Yuuri sussurrando coisas obscenas em seu ouvido. Ele daria o mundo e algo mais para ter o mais velho ali ao seu lado, e não como um mero pôster na parede.

Sim, Eros era algo que podia descrever o que ele sentia. Mas Eros era efêmero, uma chama que se apagava depois de queimar maravilhosamente. O amor que sentia por Yuuri estava longe de acabar. Era algo ininterrupto, que só teria um fim quando Yuri estivesse morto e enterrado. Tinha que haver um amor mais específico.

Foi então que ele descobriu a definição de Mania. Um amor que leva à loucura e obsessão. Para quem sente, é uma forma de se salvar. Alguém que quer amar e ser amado. É possessivo e ciumento. Parecia a opção mais precisa. Yuuri era a razão de viver de Yuri. O russo dedicaria o resto de seus dias a tê-lo ao seu lado e fazê-lo feliz. Uma vida sem Yuuri era apenas sobrevivência. Cada segundo longe dele era uma tortura. E a ideia de ele com outro era o próprio inferno.

Muitos artigos falavam dos perigos de Mania, com as chances de a pessoa amada ser machucada por atos violentos provocados por ciúmes. Yuri achava tolice, ele nunca machucaria Katsuki. Ele era o motivo de sua devoção, por que ele faria algo do tipo? Ele arrancaria o próprio dedo antes de fazer mal a ele.

A pesquisa, então, surtiu efeitos. Yuri sabia o tipo de amor ali. Era Mania, e parecia muito mais fácil de explicar do que Ágape e Eros. Se Eros era uma chama que se apagava, Mania era a luz que queimava para sempre e só seria saciada se Yuuri aceitasse o seu amor.

Porque ele iria aceitar, de um jeito ou de outro.

Yuri esperou sete anos antes de tentar algo.

Sete anos é muito tempo cuidando de queimaduras.

Dos 15 aos 22 anos, ele aguardou em silêncio o momento que Yuuri manifestaria um interesse maior que afeto platônico. Ele segurou suspiros toda vez que suas mãos se tocavam, fingiu indiferença quando Yuuri penteava seus cabelos, chegou ao exagero de reclamar dos abraços para não se machucar ainda mais. Foram os sete anos mais longos de sua vida e não resultaram em nada. Yuuri ainda o via como uma criança.

Ele havia crescido bastante. Estava mais alto que Victor, seu corpo e feições haviam perdido todos os traços femininos da infância e seu cabelo estava mais longo também. Era mais uma desculpa para fazer Yuuri trançá-los antes de cada competição.

Mesmo com a aparência de um homem feito, Yuuri não dava a mínima para o mais novo. Yuri até tentou ser mais sugestivo. Um olhar menos inocente, um elogio, um toque diferente durante o balé. Nada. Yuuri era cego. Não foi à toa que Victor sofrera por semanas até conseguir alguma resposta.

Ou talvez ele estivesse se fazendo de difícil. Yuri ficaria pouco surpreso se essa fosse a razão. Yuuri não se deixaria ir tão facilmente, ainda mais casado. O loiro precisava ser mais direto.

Foi assim que, numa noite onde estavam apenas os dois no rinque revisando as músicas para a próxima temporada, Yuri o encurralou no vestiário. Yuuri pareceu surpreso ao ver o braço do garoto contra os armários, bloqueando sua passagem e deixando seus rostos a palmos de distância.

— Yuuri, — ele disse sério, olhando naqueles olhos castanhos que o assombravam desde os 15 anos — você gosta de mim?

Katsuki piscou algumas vezes e respondeu calmamente:

— Claro, Yurio. Que pergunta é essa?

Ora, não soaria estúpido se ele soubesse ler nas entrelinhas. Yuri balançou a cabeça.

— Não, eu quero saber se você gosta de mim mais do que como um amigo.

O moreno pareceu ficar tenso com a pergunta. Se ele pudesse se pressionar mais contra os armários, ele faria.

— Yurio, você sabe que é mais do que um amigo pra mim. Eu me preocupo com você, te conheço há anos. Pra mim você é...

— Então por que não fica comigo? — ele interrompeu com um sorriso de lado, se aproximando cada vez mais — Por que ainda está com Victor se obviamente eu sou mais que apenas um aluno?

Antes que mais qualquer coisa pudesse acontecer, Yuuri o empurrou com força e se afastou aos tropeços.

— Yuri, não! — ele tinha um forte rubor no rosto e os olhos estavam arregalados. Fofo — Eu... Eu não gosto de você assim! Você é como um irmão, quem sabe até um filho. E eu tenho Vitya! O que deu em você?!

Os olhos de Yuri eram um misto de confusão e irritação. Ora, o que deu nele?

— É por causa da minha idade? — ele perguntou sincero. Será que só tinha uma chance se fosse um velho na casa dos 30 como Victor?

— Meu Deus, não! Não é isso! De onde você tirou a ideia de que eu gosto de você assim? — ele parecia tão perdido, e prestes a ter um ataque. Seus dedos trêmulos pentearam o próprio cabelo pra trás e ele voltou a dizer em voz baixa — Yuri, eu gosto muito de você. Eu posso dizer que te amo, mas é um amor de família. O meu amor romântico, a minha cara metade, minha alma gêmea, como quiser chamar; é Victor. É ele que eu amo, Yuri. E eu não o trocaria por nada do mundo.

Foi como se alguém jogasse água gelada na fogueira e a fumaça invadisse a mente do loiro. E a fumaça é algo que sufoca e não deixa você enxergar apropriadamente.

Yuuri não o queria como um amante. Mas ainda o amava. Era como estar às portas do paraíso, mas sem a chave. Uma verdadeira agonia.

— Oh. — foi tudo que ele pôde dizer, baixando o olhar e deixando que as longas mechas douradas escondessem a vergonha em seu rosto — Tá, esquece isso.

— Yuri... — havia compaixão na voz de Yuuri enquanto ele se aproximava — Yuri, me desculpe se eu...

— Não se desculpe por algo que não fez, Katsuki. — ele disse cortante como o gelo em seu peito — Eu sou o idiota nessa história. Só esquece o que eu disse. Boa noite.

Ele pegou suas coisas e saiu do vestiário sem esperar uma resposta.

Mesmo com Yuuri chamando atrás de si, ele não parou de andar até estar no estacionamento em frente ao seu carro. Ele saiu dos limites do rinque a uma velocidade que com certeza renderia broncas de Yuuri se estivesse com ele.

Yuuri.

Yuri grunhiu e socou o volante, acelerando cada vez mais. Ele nem sabia ao certo para onde estava indo, quem sabe para uma dimensão onde ele não fosse feito de bobo, onde Yuuri o amasse e Victor não existisse.

Victor.

Não importasse o que ele fizesse, Victor sempre estava no seu caminho. Parece até que fazia de propósito. Ninguém pode brilhar mais que Victor Nikiforov. Qualquer um que tentasse estava fadado a virar uma sombra. Yuri poderia conseguir tantas medalhas quisesse e quebrar todos os recordes do mais velho, mas ele continuaria sendo uma lenda. Ele não estava preocupado com a patinação agora. Havia uma única coisa que ele não conseguiria com quads e spins: Yuuri. E ele se odiava por isso.

Yuri estava cansado de se sentir insuficiente.

Seu carro o levou a uma parte esquisita da cidade, o tipo que estava todas as noites no noticiário das dez por conta de crimes hediondos. O certo seria ele fazer a volta e ir pra casa, provavelmente evitando um assalto ou coisa pior.

Ele se cansou de fazer as coisas certas.

Parando o carro numa vaga qualquer, ele saiu na noite fria e sem nuvens de São Petersburgo, tendo apenas a jaqueta da equipe russa para aquecê-lo. Alguns indivíduos na rua o olharam de soslaio, mas fora isso não deram muita atenção. Yuri ainda não se importava.

Ele entrou no primeiro lugar a sua frente que parecia vender álcool. Ele abusaria de sua tolerância baixa para esquecer a vergonha que passou hoje.

O bar fedia a vômito, urina, bebidas e outras coisas que ele só conhecia depois de uma festa de procedência duvidosa com os veteranos da universidade. Ele se sentiu culpado ao pensar que seu avô, em qualquer plano divino que estivesse, estaria decepcionado se o visse naquele tipo de ambiente. Victor e Yuuri também.

O último pensamento o fez ficar.

Sentando-se no assento de aparência mais limpa, ele pediu a bebida mais forte que tinham ao garçom. O homem mal olhou pra ele quando deslizou o copo sobre a superfície de madeira a sua frente.

A vodca descendo pela sua garganta queimava. Provavelmente era uma daquelas misturas ilegais que vinham por contrabando. Mas faziam um bom trabalho ao distraí-lo.

Yuri não estava apenas com raiva, ele estava triste. O que mais ele podia fazer para ter Yuuri ao seu lado? O quanto de esforço era preciso, quantas noites mal dormidas, quantas declarações falhas? Será mesmo que ele não era digno do amor de Katsuki?

Bem, ninguém é, na verdade. Yuuri era um anjo e meros mortais têm que agradecer por simplesmente ficar no mesmo ambiente que ele. Yuri tinha algo precioso: a amizade dele. Ele deveria estar satisfeito por poder ver Yuuri todos os dias e receber migalhas de sua atenção. Mas ele queria mais. Ele queria beijar Yuuri, dormir e acordar ao seu lado, fazê-lo rir, vê-lo gritando seu nome em prazer, cuidar dele... Tudo que um amante podia ter.

Tudo que Victor tinha.

Yuri pediu mais uma dose e bebeu pensativo. O loiro considerava inveja algo idiota, então se recusava a dizer que tinha inveja de Victor. Ele só estava perturbado por Yuuri ter escolhido ele, de todas as pessoas. O que Victor tinha e Yuri, não?

Para começar, Yuri não tinha um equilíbrio emocional tão patético. Ás vezes se perguntava como o casamento daqueles dois deu certo sendo Victor tão... reativo. Qualquer coisa podia quebrá-lo, ele era o mais sensível da dupla, apesar do que muitos pensam. Victor era fraco, pois usava Yuuri como um suporte para sua vida. Sem Yuuri, Victor não era nada.

Yuuri, por outro lado, sabia levantar a cabeça e seguir em frente. Ele não gravitava ao redor de Victor, apenas o considerava importante. Em um cenário trágico, ele poderia continuar seu caminho normalmente sem o russo, apesar de doer no início.

Yuri levantou a cabeça com o momento de iluminação que teve.

Yuuri não dependia de Victor. Se Victor sumisse, Yuuri não se machucaria para sempre, ele podia se recuperar. Ele podia deixar de amá-lo e criar novos relacionamentos.

Ele podia se apaixonar por Yuri.

Ele seria seu.

Yuri sorriu como uma criança na manhã de Natal. Finalmente conseguira uma solução para o seu problema. Dedushka ficaria triste, mas ele entenderia quando visse do céu o quão feliz seu neto estava.

Para conquistar Yuuri, seu marido tinha que sair de cena, e só havia uma forma de fazer isso.

Matando Victor Nikiforov.

Quando finalmente tomou coragem para ligar seu celular no dia seguinte, sua caixa postal estava cheia de mensagens e ligações perdidas de Yuuri.

Ele tinha ficado preocupado, isso era óbvio. Disse que sentia muito por tê-lo magoado e que não dissera nada para Victor sobre o que aconteceu. Era a melhor atitude considerando o clima estranho que ficaria entre os três.

Mesmo com a leve ressaca, ele apareceu no rinque pela manhã. Yuuri e Victor já estavam lá, assim como os outros patinadores que eles treinavam. Yuuri o fitou por um tempo e desviou o olhar. Victor estava com aquela expressão neutra de quem estava irritado, mas não tinha motivos suficientes para descontar sua raiva.

O platinado foi ter com ele no mesmo vestiário que a discussão da última noite ocorreu. Ele parecia desapontado enquanto dizia:

— Acho que você está grandinho demais para brigar com seu coreógrafo por causa de uma música.

Era essa a desculpa que Yuuri tinha dado? Victor sem dúvida deve ter reparado na mudança de humor do marido e perguntado o que houve. Uma história bem idiota em sua opinião, mas Yuri não tinha muito que discutir nesse caso. Dance conforme a música.

— Eu sei. — ele respondeu enquanto guardava suas coisas no armário — Vou pedir desculpas.

— Ele ficou muito triste por você ter saído sem dar nenhuma explicação. — Victor pelo visto não tinha terminado a bronca — O que estava pensando quando foi embora sozinho à noite? Pior, quando deixou Yuuri sozinho para fechar o rinque?

Você o deixa sozinho comigo todas as terças e quintas, ele quis retaliar, mas era um daqueles momentos em que ele tinha que morder a língua e ficar quieto. Vingança é um prato que se come frio.

— Eu não vou fazer mais, eu juro. — ele disse calmo enquanto olhava para o chão.

Os dois permaneceram naquele silêncio pesado por um tempo até que Victor suspirou e disse:

— Tudo bem, vamos esquecer isso, então. Comece a se aquecer e depois vamos revisar os giros.

Ele assentiu e saiu do recinto, sufocado por ter que passar mais um segundo no mesmo ambiente que aquele homem.

Hipócrita.

Victor Nikiforov era um hipócrita.

Fala sobre cuidar de Yuuri quando ele mesmo não o faz. E ele se dizia um bom marido? Tsk. Yuri queria rir, mas teria muito tempo para isso quando seu plano se concretizasse. Um mundo sem Victor parecia bem alegre, pra dizer a verdade.

Yuri demorou pouco mais de dois meses para organizar uma estratégia. Nesse tempo ele tomou o cuidado de marcar o evento fora da temporada, pois assim seria menos drástico para o público.

Ele pensou algumas vezes em fazer tudo em segredo, sem o conhecimento de Yuuri. Parecia um plano bom. Ele faz Victor desaparecer e fica consolando o nipônico solitário. Seria uma cena bonita. Mas Yuri não conseguiria mentir para Yuuri por muito tempo, ele se sentiria culpado. E ele suspeitava que teria dificuldade em esconder o sorriso enorme toda vez que entrasse no rinque e não ouvisse o desagradável "Amazing!" de Victor.

É, isso poderia chamar atenção. Por isso ele decidiu que Yuuri estaria presente na hora. Ele gostava de fazer um bom show, afinal. Seu amado poderia ficar triste no início, mas eles teriam uma vida agradável depois, longe das câmeras e dos olhares bisbilhoteiros do resto do mundo. A imagem dos dois vivendo na datcha isolada de seu avô parecia alegre o suficiente.

Nesse período de preparo, ele fez questão de agir naturalmente e talvez um pouco mais gentil. Yuuri parecia esquecer aquela fatídica noite a cada dia e até Victor voltara a sorrir pra ele. Eles continuavam a mesma Podium Family que todos amavam, apesar de só ele estar competindo e secretamente odiar o nome do grupo.

Ugh, como se Victor e Yuuri fossem seus pais. Nesse caso ele tinha algum tipo bizarro de Complexo de Édipo? Ele não queria pensar muito a respeito. Mesmo que o final preferido dessa história fosse ver seu "pai" morto.

Ele estava apenas esperando uma oportunidade para agir. Um momento em que os três estivessem sozinhos e o casal estivesse confortável o suficiente para não suspeitar de nada, então ele entraria em ação.

Esse momento chegou com uma notícia. Victor chegou ao rinque com o maior sorriso que tinha no inventário e Yuuri atrás de si não era muito diferente.

— Estamos oficialmente na lista de espera da adoção! — o russo disse praticamente pulando no lugar — Vamos ter um bebê! Nosso primeiro bebê!!

Todos que ouviram deram seus parabéns e Yuri apenas conseguiu sorrir. Yuuri deveria estar tão feliz, ele já estava dando pistas de que queria ser pai.

Yuri gostava da ideia. Ele e Yuuri tendo um filho juntos, talvez dois. Ele sempre teve um fraco por crianças, apesar de nunca admitir isso em voz alta. Yuuri seria um pai adorável. Será que ele deixaria Yuri escolher o nome do bebê? Só o pensamento o fazia suspirar e sorrir como um idiota.

Ele já até tinha algumas ideias. Alexei se fosse menino e Yulia se fosse menina. Yuki para ambos, se Yuuri quisesse um nome japonês.

A única coisa que estragava a imagem era Victor, como sempre. Ele teria que se livrar dele antes que conseguissem adotar alguém.

— Parabéns. — ele disse em voz baixa a Yuuri quando o tumulto tinha acabado — Vocês dois são meio melosos, mas sei que serão ótimos pais.

O mais velho pareceu surpreso com o que ele disse. Yuri viu um milésimo de hesitação em seus olhos antes de ele sorrir suavemente e dizer:

— Obrigado, Yura. É um momento muito importante para nós. E ficaríamos muito gratos se você estivesse conosco em cada etapa.

Se havia alguma forma de deixar Yuri mais emotivo, aquelas palavras seriam um ingrediente importante. Ele não conseguiu esconder o rubor das bochechas ao entender que ele era importante para Yuuri, que mesmo depois do fiasco de sua confissão ele ainda tinha direito a fazer parte daquele círculo.

Yuuri era muito bom para aquele mundo e talvez ele não devesse prosseguir com o plano. Katsuki ficaria arrasado. Mas era por uma boa causa, não? E ele estaria lá para ajudá-lo na recuperação.

— Obrigado, Katsudon. — ele disse ao final — Vocês vão comemorar de alguma forma especial?

— Na verdade, só queríamos um jantar comum. Nós três. — ele parecia incerto sobre a última parte — Não se sinta obrigado, é só que...

— Não, tudo bem. — ele consertou rapidamente — Eu posso cozinhar dessa vez. Você sempre faz tudo sozinho. E Victor não consegue nem ferver água.

O moreno riu tocando seu braço por um segundo. Agora aquele pedaço de pele ficaria formigando por dias.

— Ok, acho que vou aceitar a proposta. Vocês já devem ter cansado de katsudon, de qualquer forma.

Yuri apenas revirou os olhos. Como se ele pudesse se cansar de qualquer coisa que viesse de Katsuki.

— Eu tenho um compromisso hoje à noite. — ele disse soando um tanto culpado — Podemos fazer o jantar outro dia?

— Claro, sexta-feira é melhor?

Ele assentiu e a conversa terminou aí, Yuri fazendo o seu melhor para esconder o sorriso enorme que queria espaço em seu rosto.

A melhor parte disso? Os três estariam sozinhos, em um jantar comum. O diferencial? Yuri iria cozinhar.

Era bem útil o fato de que ele era um estudante de medicina veterinária.

Os dois dias até o jantar pareciam uma eternidade.

Mesmo ele usando uma boa parte desse período para organizar tudo e ainda manter uma aparência comum, ele estava ansioso. Como os minutos antes de entrar no rinque para uma competição, ele estava enérgico para ver o quão bem aquilo ocorreria. E se desse errado, ele poderia consertar depois.

Antes de sair de casa naquele dia, ele rezou. Yuri nunca foi uma pessoa religiosa e ele não estava pedindo sorte para qualquer ser onisciente por aí. Ele estava pedindo perdão ao seu dedushka, porque ele certamente não aprovaria o que ele faria hoje. Mas ele sabia que seu avô o protegeria de onde quer que estivesse, mesmo com sua conduta questionável. Isso era Ágape: amor incondicional.

Ele trancou o apartamento com a consciência limpa e a certeza de que não voltaria lá nunca mais.

As horas se arrastaram até todos estarem na residência dos Katsuki-Nikiforov.

Yuri agora não conseguia mais esconder seu sorriso de excitação e o casal percebeu, achando graça de sua animação por um novo membro na família. Ah, sim, com certeza ele estava animado. Mas ele também estava interessado na subtração de um membro daquele lar.

Para sua surpresa, eles cumpriram com sua palavra de deixá-lo cozinhar tudo sozinho. Ele já esperava ter que delicadamente expulsá-los da cozinha para poder trabalhar em paz, mas eles apenas vez ou outra entravam na cozinha para pegar um copo d'água ou elogiar o cheiro do borscht. Poderia ser um dia comum se Yuri não esvaziasse um frasco de cetamina no suco de laranja.

Não foi difícil conseguir, o laboratório da universidade não tinha segurança nenhuma. E ele tinha notas boas o suficiente para saber a dose necessária para apagar um ser humano. Yuri suspirou satisfeito enquanto levava a comida para a sala de jantar.

Foi uma refeição como muitas outras que eles tiveram juntos. Eles conversaram sobre as competições, sobre as aulas de Yuri na faculdade, sobre a próxima viagem de férias que fariam. O último tópico pegou o loiro de surpresa.

— Yura, o que você acha de ser o padrinho do bebê? — Victor perguntou enquanto finalmente servia um copo de suco para si.

— Quê? — ele perguntou em dúvida sobre o que tinha ouvido.

— Queremos que você seja o padrinho do nosso filho. — Yuuri disse pegando o jarro de suco assim que Victor o soltou — Mais do que um padrinho, acho que você seria um ótimo onii-chan.

Yuri sentiu suas bochechas esquentarem. Uma gota de arrependimento o tocou ao ver os dois já com copos cheios de uma droga usada para fazer pessoas desmaiarem. E eles queriam que ele fosse o padrinho do filho deles. Eles pensaram nele enquanto Yuri só pensou em si mesmo, querendo ter Yuuri só para si.

Mas assim ele se lembrou de todos os anos que ele sofreu com seu amor não correspondido. Essa era a sua única chance de se livrar de Victor e dar a Yuuri o amor que ele merecia.

Yuri sorriu e serviu suco em seu próprio copo.

— Obrigado. É uma honra ser parte dessa família melosa pra caramba.

Os mais velhos riram e Victor levantou seu copo.

— Um brinde ao novo membro da família Nikiforov!

Os três encostaram seus copos, mas apenas Victor e Yuuri beberam logo depois. Yuri assistiu com expectativa enquanto eles tomavam longos goles da mistura de fruta com anestésico. Yuuri apresentou os efeitos mais rápido, com Victor o seguindo logo depois. O japonês ainda teve tempo de olhar para Yuri confuso antes de cair sobre o prato sujo de borscht a sua frente. Victor fez o mesmo e derrubou um copo de suco.

Sempre dramático, Yuri pensou com uma cara de desgosto.

Ele se levantou e admirou a sua obra. Ele teria talvez duas horas antes de eles acordarem, então teria que agir rápido.

Ainda assim, ele desperdiçou alguns minutos apenas olhando para Yuuri e tocando o seu cabelo. Ele teve até a coragem de beijar o seu rosto. Qualquer coisa além disso ia contra a sua moral. Até porque eles teriam muito tempo para carinhos depois que isso tudo acabasse.

Agora, às cordas.

Yuuri acordou com a cabeça doendo, as pálpebras pesadas e a sensação de que havia engolido uma sopa de pregos.

Ele se lembrava de fragmentos da noite. O jantar, o suco, então tudo começou a ficar turvo. Ele não tinha mais controle sobre seu corpo. Sua memória falha recordava Yuri o colocando em um carro no banco da frente, dirigindo por ruas desconhecidas, pop rock tocando no rádio...

Seus olhos foram para o seu próprio corpo. Ele estava amarrado a uma cadeira. Tornozelos e pulsos, um trabalho profissional. Ele olhou ao redor e percebeu se tratar de um local fechado. Um galpão, talvez? Quando ia gritar por ajuda, duas figuras entraram em sua linha de visão.

— Ah, Katsudon, você acordou. — Yuri disse com um sorriso enquanto empurrava um Victor igualmente amarrado em outra cadeira.

Aquilo tudo parecia um sonho bizarro. Yuri havia feito tudo aquilo? Mas por quê?!

— Yuri, o que está fazendo?! — ele perguntou com a voz fina de quem estava em pânico — Solta a gente, nós nunca fizemos nada pra você!

— Oh, miliy, você realmente nunca fez nada. — ele disse sincero enquanto dava voltas ao redor de Victor. Seu marido estava amordaçado e não conseguia fazer muito além de se mexer e produzir sons desesperados — Mas nosso Vitenka aqui, ele roubou algo de mim.

Tanta coisa passava pela cabeça do moreno. Ele tentava entender, mas nenhuma explicação plausível vinha a sua mente. Victor tinha roubado algo e agora os dois tinham que pagar? Nada fazia sentido!

— Você nunca percebeu que eu te via como mais que um amigo. — Yuri disse se aproximando com um quê de desapontamento na voz — Naquela noite no vestiário, eu não estava blefando, Katsuki. Eu sempre fui apaixonado por você.

Yuuri congelou.

Aquela noite... Ele havia tentado se esquecer de tudo com a esperança de que não voltaria a se repetir. Ele nem contara a Victor com medo de que Yura fosse punido de alguma forma. Agora o passado viera caçá-lo. Ele só não esperava que fosse tão extremo.

— Yura, — ele tentou com a voz mais doce que conseguia — você está confuso. Não tem como você gostar de mim... desse jeito. Você merece alguém mais jovem, mais interessante e... Eu juro, se você nos soltar agora eu esqueço que tudo isso aconteceu. Podemos voltar a viver normalmente...

Não! — Yuri gritou num acesso de fúria parecido com os que ele tinha quando mais novo — Para de se tratar como merda, para de fingir que está tudo bem, só para! Chega de ignorar o que está bem na sua frente: eu te amo, Yuuri. E o único jeito de eu ter alguma chance é me livrando dele. — ele apontou um dedo acusatório para Victor, que assistia a tudo imóvel.

O loiro respirou fundo e colocou outro sorriso maníaco no rosto enquanto se dirigia a uma bolsa esportiva caída no chão. Era a mesma que ele usava nos treinos. Ele retirou de lá luvas, que vestiu imediatamente, e... uma lâmina. Do tipo que ficava nos patins.

Yuuri começou a suar frio.

— Yuri...

— Não vamos parar agora, é o momento da verdade. — ele cantarolou ficando logo atrás de Victor — Quer dizer, por que Victor? Só porque ele ganhou umas medalhas e tem belos olhos azuis? Eu posso te dar isso, Yuuri. Eu posso te dar qualquer coisa.

— Eu amo Vitya, Yuri. — Yuuri chorou desesperado — Você não pode mudar isso. Por favor, nos deixe em paz!

Ele não te merece. — o mais novo disse friamente olhando para Nikiforov com desprezo — Ele é egocêntrico, fraco, estúpido... Ele já te fez chorar tantas vezes, Yuuri. Eu posso te dar uma vida melhor... Não, eu vou te dar uma vida melhor. E ela começa aqui, esta noite.

Não, Yuuri pensou tentando se soltar inutilmente de suas amarras, não, não, não...

— Yuri, não o machuque! — ele gritou em pânico quando o russo tocou o rosto de seu marido com a ponta do metal — Eu... Eu fico com você! Nós ficamos juntos pra sempre, eu nunca mais olho para Victor! Mas por favor, deixe ele em paz!

Yuri se virou com um brilho familiar nos olhos. Era a energia positiva de quem acabara de ganhar um prêmio. Ele suspirou extasiado como um adolescente apaixonado e disse sorrindo:

Miliy, eu fico feliz que esteja tentando agilizar as coisas, mas isso — ele movimentou a mão se referindo a toda a situação — é necessário. Eu espero que me perdoe quando terminarmos. — ele se voltou para Victor.

— Yuri, não! — Yuuri gritou tentando se soltar — Por favor, não!

— Não acha muito irônico você morrer com uma lâmina de patinação? — ele disse com um sorriso divertido enquanto os olhos apavorados de Victor o encaravam — A lenda viva perdendo a vida com aquilo que trouxe sua fama. Seria muito legal se eu conseguisse fazer isso num rinque, mas — ele deu de ombros — é o que tem pra hoje. Aproveite o show, Vitenka.

Ele não deu tempo para mais reações antes de cravar a lâmina no peito de seu técnico. Victor produziu algum som alarmado pela dor e Yuuri gritou atrás de si, mas Yuri não parou. Aquilo seria muito mais fácil se fosse uma faca, mas o mais novo do trio estava determinado a fazer aquilo dar certo por questões estéticas. E a cada vez que ele via o sangue escorrendo, ele se lembrava de mais motivos para continuar.

— Isso é por Yuuri, — mais uma perfuração — por ser um exibido filho da mãe, — mais uma — por se achar o rei do mundo, — e mais uma — por ser uma tentativa patética de pai — e mais uma — e por ser tão idiota que não percebeu outro homem se apaixonando pelo seu marido debaixo do seu próprio teto.

Era inebriante, aquela sensação. Ver o terror nos olhos de Victor a cada vez que o metal o perfurava. Depois de um tempo ele parou de reagir, mas Yuri continuou alucinado. Ele não ouvia nada, apenas o som molhado da lâmina e os gritos desesperados de Yuuri atrás de si. Foram tantos anos de ódio guardado finalmente sendo libertado. Ele quase poderia rir se não fosse sua preocupação em terminar a tarefa.

Dedushka não estaria orgulhoso, mas ele não se importava.

Não sabia quanto tempo havia se passado, mas após inúmeros golpes, Victor não se mexia mais e as roupas dos dois estavam tingidas de vermelho escuro. Um toque no pescoço do mais velho confirmava a ausência de batimentos.

Yuri sorriu de lado enquanto soltava a lâmina e procurava algo nas mãos amarradas de Victor.

A aliança.

O símbolo de um amor tolo que terminava hoje. A frase era bem clara: até que a morte os separe.

Yuri riu.

— Victor Nikiforov está morto. — ele disse olhando para o círculo dourado na mão, antes de jogá-lo sobre o ombro — E esse anel é lixo. Eu vou te dar algo melhor, Yuuri.

Yuuri ainda soluçava, mas não conseguia mais produzir lágrimas, assim como nenhum outro som. Ele já chorara tanto, já gritara tanto. Nada disso adiantou. Só restava baixar o olhar para não encarar o corpo desfalecido de seu marido a poucos metros de distância.

Yuri segurou seu rosto com a ponta dos dedos, fazendo-o olhar para cima. Yuri estava sorrindo. E não o sorriso maléfico de psicopatas da TV. Era o sorriso do garoto que venceu um Grand Prix aos 15 anos, que gostava de gatos e de pirozhki, que deixava Yuuri trançar seu cabelo quando mais novo. Era o sorriso de Yuri e aquilo doía como a ponta de uma faca em seu peito.

— Katsudon, não fique assim. Isso passa. Pessoas vêm e vão, amores começam e acabam. O meu está muito longe de acabar. — ele retirou uma das luvas e secou as lágrimas de um Yuuri imóvel com o polegar — Porque toda vez que você pisa no gelo, que faz um spin, um salto, uma sequência de passos, você aumenta o fogo dentro de mim, Yuuri.

Yuuri fechou os olhos e virou o rosto para o outro lado. Ele estava triste. Ficaria um tempo assim, infelizmente. Ele podia esperar. O tempo só fazia aumentar o amor, seria o mesmo com Yuuri. Ele iria aprender, sempre fora um bom aluno.

Yura segurou seus ombros por trás e abaixou para que pudesse falar em seu ouvido:

— Vamos fazer história juntos, Yuuri. — ele sussurrou em seu ouvido, com uma satisfação tremenda ao ver que o japonês se arrepiara — Dançando sobre as lâminas, você sempre colocou meu coração em chamas.

Yuuri retomou o choro fracamente, mas Yuri era todo sorrisos. Ágape e Eros seriam um só. O tigre alcançou sua presa. O prêmio maior foi conquistado.

O objeto de sua Mania agora era seu.

Our thing progresses

I call and you come through

Blow all my friendships to sit in hell with you

But we're the greatest

They'll hang us in the Louvre

Down the back, but who cares — still the Louvre

Notas finais
A música é The Louvre da Lorde e eu recomendo o cover do Heartbreaker. Não faço ideia do que acontece depois disso, Yuri é um psicopata burro, não tem grandes planos de fuga ¯_(ツ)_/¯ Usem a criatividade. Espero que tenham gostado ♥ XOXO
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.