Heart of light in the black night
8 Capítulo 8 - "Protraction"
Marlene POV:
Não lembrava exatamente como tudo acontecera, só sabia que havia dormido a noite de sono mais confortável da minha vida. Além do conforto e aconchego, sentia-me protegida como jamais me sentira em algum outro momento, e, quando abri meus olhos já com o Sol tomando conta do Salão Comunal, entendi que aquilo tudo era culpa de Sirius. Não sabia que horas eram e nem há quanto tempo estávamos ali. Um de meus braços atravessava por trás de um de seus ombros e outro abraçava seu corpo, de maneira nada disfarçada. O braço direito de Sirius me envolvia e ele até parecia uma pessoa totalmente inocente naquela situação, de olhos fechados, adormecido e indefeso.
— Sirius? – eu chamei em tom baixo, no canto do ouvido dele. Não obtive nenhum sinal em resposta. Mordi levemente então a ponta de sua orelha, tornando inevitável que ele disfarçasse um sorriso em seu rosto.
— Eu gosto quando você me chama de Sirius. – ele admitiu.
— Acho que caímos no sono. – falei, virando meu corpo em sua direção. Nossos olhares rapidamente se encontraram.
— Desculpa, eu tentei ficar acordado, mas acabei dormindo também. – Sirius disse ao abrir os olhos.
— Não se preocupa com isso. – pedi, sorrindo ao perceber a sinceridade em suas palavras. Sirius retribuiu o sorriso e selou nossos lábios em resposta.
— Inacreditável, eles nem notaram nossa presença ainda. – ouvi a voz de James Potter de repente. Sirius e eu levantamos o olhar de imediato, surpresos com aquilo. Encontramos então James e Lily sentados em duas poltronas distintas ao lado do sofá, cada um com um livro na mão, os dois nos encaravam.
— Há quanto tempo vocês estão aí? – Sirius perguntou.
— Desde 10 horas da manhã. – James respondeu. – Se a intenção de vocês era ter um relacionamento discreto, lamento em dizer que tudo isso acaba de se tornar impossível.
— Não acho que tenhamos qualquer intenção. – Sirius disse.
— O que você quis dizer com esse comentário? – perguntei, imediatamente o encarando.
— Não quis dizer nada. – ele se apressou em responder. – Apenas que não precisamos de intenção alguma quando o fato de estarmos juntos é simplesmente bom por si só. – ergui a sobrancelhas, como se desconfiasse das palavras dele.
— Frase mal formulada, Sirius. – Lily comentou.
— De fato! – concordei.
— Ei, Lene, não quis dizer nada do que você está pensando. – Sirius se defendeu.
— Lene? – questionei surpresa, ele nunca me chamara pelo apelido.
— Desculpa, simplesmente saiu dessa forma. – ele se justificou.
— Você está tentando me ganhar com apelidos, Black? – perguntei, brincando com a preocupação dele. – É realmente verdade o que dizem sobre você ser um canalha.
— Essa foi pesada. – James se intrometeu, causando um olhar de reprovação vindo de Sirius.
— Posso até ser um canalha, mas isso não significa que não sou confiável. – Sirius novamente tentou me ganhar com argumentos.
— E ele também é louco por você, se for válido comentar. – James disse. Sorri discretamente.
— Obrigado, amigo, por finalmente me defender. – Sirius agradeceu.
— Disponha. – James falou, sorrindo com o divertimento daquela situação.
— Vocês não vão nem perguntar que horas são? – Lily mudou de assunto repentinamente, apesar de seus olhos estarem fixos no livro que lia.
— Que horas são? – perguntei em seguida.
— Quase duas da tarde! – ela exclamou. Olhei para Sirius espantada, ele respondeu com uma expressão de quem não tinha culpa daquilo.
— Encontramos vocês aqui de manhã e ficamos por perto para que a situação não parecesse tão esquisita. – James explicou.
— Existe algo de errado em duas pessoas dormindo juntas no sofá do Salão Comunal? – Sirius questionou, entonando uma falsa inocência. Eu ri de sua expressão.
— Sei que você não se importa com qualquer tipo de exposição, Sirius, mas vale lembrar que as pessoas em Hogwarts, no geral, não estão acostumadas a encontrarem casais dormindo juntos publicamente. – James constatou. – E, apesar de já termos quebrado a maioria das regras, esta ainda é uma escola consideravelmente rígida.
— Você está me deixando verdadeiramente orgulhosa. – Lily disse, dirigindo o olhar a James, que previsivelmente sorriu.
— Não acredito que dormimos por tanto tempo. – falei, erguendo-me no sofá e sentando.
— Eu acredito. – Sirius disse, repetindo o gesto e logo passando o braço ao meu redor novamente. Eu gostava da sensação de ser envolvida por ele. James e Lily observavam curiosos.
— Então vocês dois realmente são algo agora? – Lily questionou.
— Você poderia definir o que é algo nesse caso? – Sirius pediu. – Tive a impressão de que soou como uma coisa negativa. – eu também tivera essa impressão.
— Seria difícil definir. – ela admitiu.
— E não é como se vocês dois estivessem nos informando muito sobre os acontecimentos ultimamente. – James acrescentou.
— E por que exatamente nós deveríamos fazer isso? – Sirius questionou.
— Porque sempre foi dessa forma. – James respondeu. – Tanto eu quanto a Lily estamos sentindo que vocês dois estão se afastando do resto do mundo desde que essa história começou. – ressaltou em tom forte.
— James, não é dessa forma que devemos dizer as coisas. – Lily interrompeu.
— Terapia de casais em conjunto é uma maneira muito pesada de se começar o dia. – Sirius falou. Se o tom daquela conversa não fosse sério, eu provavelmente teria rido do comentário ou sorrido pelo fato de ele ter usado a palavra casal no plural, mesmo que ainda relutasse em me render à toda a situação.
— Lily, você concorda com ele? – perguntei.
— Não exatamente. – ela disse sem firmeza. Fixei meu olhar no dela, não sabíamos mentir uma para a outra. – Só sinto um pouco a sua falta. – sorri com a sinceridade dela.
— Juro que não estou tentando gerar discórdia, mas se analisarmos como tudo isso começou a acontecer, vocês dois são meio que os grandes culpados. – falei.
— Ei, mas nada é por acaso. – Sirius argumentou, como se tentasse defender a singularidade com a qual nos relacionávamos no último mês. Ele olhou para mim e eu imediatamente sorri.
— Eu sei que nada é por acaso. – concordei. – Não quis dizer o contrário.
— E nós não estamos querendo dizer que não apoiamos essa junção inusitada. – James engatou o argumento. – Mas da mesma forma com que vocês dizem que eu e a Lily brigando somos capazes de gerar uma guerra, vocês dois juntos podem funcionar como uma bomba capaz de estourar a qualquer momento em intensidade indefinida.
— Então vamos explodir o mundo. – Sirius disse, fazendo com que mais uma vez eu não pudesse evitar o sorriso. Seus olhos estavam fixos em James.
Sirius POV:
— Não leve tão na brincadeira, Almofadinhas. – James alertou.
— Pode acreditar, eu estaria rindo muito disso tudo se estivesse levando na brincadeira. – falei, quase verdadeiramente me irritando. – Não consigo entender, vocês dois pareciam grandes apoiadores da nossa junção até o dia de ontem...
— Nós somos! – Lily disse, parecendo preocupada. – E podem ter certeza de que ninguém está mais feliz do que nós dois em ver que vocês descobriram que a melhor maneira de acabar com essas provocações é estando juntos, só esperávamos que isso fosse acabar com os conflitos pela escola, mas não foi o que pareceu com o recente atraso de vocês nas aulas e até a falta em algumas.
— Com licença? – Marlene questionou perplexa. – Não estou dizendo que não apreciamos a preocupação de vocês, mas creio que isso seja problema meu e do Sirius. – não poderia concordar mais com um comentário.
— E como diabos vocês saberiam de tudo isso? – perguntei. – Sei que não estavam em nenhuma das aulas as quais faltamos ou nos atrasamos ontem.
— Espera, eu sei o que está acontecendo aqui... – Marlene interrompeu antes que um dos dois pudesse dizer algo. – Vocês estão falando como monitores ou nossos amigos? – Lily e James se entreolharam, sem resposta. Agora sim tudo fazia um pouco mais de sentido. – É, agora faz mais sentido.
— Sério, James? – questionei, quase incrédulo.
— Temos uma grande chance de ganhar o campeonato das casas esse ano. – ele se defendeu.
— E mais importante do que isso, este é o ano dos N.I.E.M.s – Lily lembrou.
— Não podemos perder pontos por bobagens. – James acrescentou.
— Consigo enxergar os motivos pelos quais estão preocupados, mas mesmo assim isso soa um pouco ridículo. – Marlene disse. – O dia de ontem foi uma exceção dentre muitos, faltamos uma única aula. – argumentou. – Se esse discurso for usado com cada aluno que faltar uma aula, todas as casas terão pontos negativos no campeonato.
— Já mencionei que você é fantástica? – perguntei em tom baixo, fazendo com que Marlene erguesse um disfarçado sorriso, esforçando-se para manter a seriedade de sua fala. Ela lançou um olhar divertido a mim.
— Eu sei, Lene, deve estar parecendo uma preocupação precipitada, mas por favor interprete apenas como um alerta. – Lily disse. – Melhor prevenir do que remediar.
— Eu só sei que não aguento mais essa conversa. – falei, um tanto quanto agoniado e irritado. – Estou morrendo de fome, e você? – virei em direção a Marlene.
— Igualmente! – ela exclamou concordando.
— Então, se me permitem, sugiro que eu leve essa bela moça para se alimentar, ainda mais se não poderemos perder mais aulas para ganhar tempo juntos, já que nossos melhores amigos começaram a agir como nossos pais, professores, ou pior... – pausei minha fala, ao mesmo tempo em que me levantava. – Monitores.
— Sirius, não aja como uma criança. – James tentou me repreender.
— Tenho certeza que criança alguma estaria falando com a mesma educação e vocabulário em um momento como esse. – retruquei e ofereci meu braço para Marlene. – Me acompanha?
— Podemos por favor não criar um clima ruim por causa de algo tão nada a ver? – Marlene perguntou enquanto se apoiava em meu braço para levantar. – Eu sugiro que a noite façamos algo divertido juntos e esqueçamos tudo isso. – ela disse. – Eu e Sirius prometemos não cometer nenhum ato exagerado de rebeldia e vocês prometem não se intrometer no que quer que exista além disso.
— Soa perfeito. – Lily concordou. – E você sabe que eu te amo, não é?
— Sei. – Marlene disse com um sorriso brincalhão no rosto.
— Não sinto a mesma certeza sobre você, James. – falei brincando, mas em tom sério. Ele riu, garantindo que tudo estava bem entre nós.
Marlene e eu seguimos em direção a cozinha após aquela esquisita e desagradável conversa. Sentia uma admiração cada vez maior por ela, era quase inexplicável como ela conseguia ser tão madura e descontraída ao mesmo tempo. Nosso almoço tardio não poderia ter sido mais divertido, discutimos quais poderiam ser os milhares de motivos para a revolta de nossos melhores amigos, desde algumas explosões em Poções até os duelos um tanto quanto escandalosos nas aulas de Defesa Contra as Artes das Trevas.
— Você acha melhor não fazermos mais dupla? – perguntei em determinado momento da conversa.
— Por que, Black? – ela questionou, já erguendo seu habitual sorriso desafiador nos lábios. – Está se sentindo pressionado?
— Pelos dois? – questionei. – Nem um pouco.
— Não pelos dois, por mim.
— Por você? – perguntei, curioso.
— Sim. – confirmou.
— O que exatamente significa essa pergunta?
— Tire suas próprias conclusões. – ela disse.
— Eu não definiria como pressão. – respondi.
— O que seria então? – Marlene perguntou.
— Acho que não existe uma palavra apropriada e eu provavelmente não explicaria em circunstâncias normais, mas nenhuma outra pessoa me fez algum dia refletir sobre ser bom o suficiente. – estávamos sentando ao lado um do outro e o olhar dela se encontrava sobre o meu.
— Isso é bastante fofo, Black. – ela comentou sorrindo.
— E nem foi proposital. – brinquei.
— As coisas geralmente são melhores ainda quando não acontecem de propósito. – falou. – Inclusive, há um mês eu tinha essa teoria de que você era a pessoa mais abominável de Hogwarts e você não é tão ruim assim.
— Ah, é? – questionei, erguendo as sobrancelhas e um sorriso divertido. – Essa é uma incrível teoria, o que fez você mudar de ideia?
— Devo ter mais de uma resposta para essa pergunta, mas não posso compartilhar com você porque elevaria muito a sua elevada autoestima. – eu ri com a provocação.
— Você não acha que eu mereço um pouquinho de elevação na autoestima depois de basicamente ser chamado de imprudente pelos nossos melhores amigos? – perguntei. Dessa vez, foi Marlene quem riu.
— É, talvez seja um pouco justo. – concordou.
— Então pode mandar a resposta. – falei confiante.
— Primeiramente, você me impressionou bastante nas aulas de poções. – ela disse. – Também vem tendo um melhor desempenho nos treinos. – acrescentou. – E o beijo foi legal.
— Legal? Só isso? – perguntei.
— É. – Marlene respondeu, escondendo a ironia na voz.
— Você não pode estar falando sério.
— Por que não? – ela perguntou.
— Você sabe porquê, foi incrível. – afirmei.
— Não consigo lembrar com clareza. – continuou brincando, quase não conseguindo mais disfarçar o sorriso.
— Então, nesse caso, acho que preciso te relembrar do quão incrível foi. – falei sorrindo.
— Nesse caso, acho que é de fato necessário. – ela também sorriu.
Previsivelmente, a distância se rompeu quase que de imediato e mais uma vez desfrutamos da sensação única que havíamos descoberto há pouco mais de um dia. Isto é, até que os elfos nos expulsassem da cozinha, fazendo com que apenas continuássemos com aquilo em outro lugar.
Durante a noite, como combinado, nos reunimos com James e Lily no Salão Comunal, após o jantar. Nenhum de nós tinha algo planejado para fazermos juntos, então acabamos jogando xadrez de bruxo; inicialmente, garotos contra garotas e depois invertendo as duplas. Acabamos por nos divertir mais do que o esperado, quando percebemos restavam poucas pessoas no recinto. E isso acabou sendo motivo de muito alívio pois, nossa noite normal estava prestes a terminar. Inesperadamente, o quadro da Mulher Gorda se abriu e um Peter Pettigrew de olho roxo e ensanguentado adentrou o Salão Comunal.
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