No início de nossa pequena viagem Daniel e eu ficamos quietos. Eu estava pensando no que meus pais iriam me dizer quando estivesse lá com eles. Fui despertada de meus pensamentos por Daniel.

– Johanna?

– Sim?

– Minha mãe me disse que você não queria ver seus pais. E agora nós estamos indo até a casa deles. O que exatamente você quer fazer?

– Realmente eu disse à rainha Kathrin que não queria ver eles, mas eu tenho algumas dúvidas que, creio eu, só eles podem responder.

– E que dúvidas seriam essas?

– Ah, não se preocupe. Vai saber quando estivermos lá. Não é nada demais.

– Tudo bem. Eu só não quero ir o caminho todo em silêncio. Quer conversar?

– Ah, claro. E você tem alguma ideia de sobre o que conversar?

– Algumas, mas estou aberto a sugestões – ele me responde.

– Tudo bem. Então, conte um pouco sobre você. Tem quantos anos? Namorada?

– Bom, eu tenho 22 anos. E não tenho namorada. Na verdade eu nunca tive nenhum relacionamento muito duradouro. As garotas só se interessam em mim por eu ser príncipe e não se importam em me conhecer de verdade, saber quem realmente sou ao invés do “príncipe Daniel” – ele me responde, explicando-me os problemas com sua vida amorosa.

– Sinto muito por isso. Não vou dizer que sei como se sente porque não sei mesmo, mas imagino que seja chato isso.

– É, é chato, mas eu já me acostumei. Não procurei mais por minha “princesa”. Talvez um dia ela apareça, talvez não. Mas e você? Teve mais alguém depois de Samuel?

– Não. Samuel foi o único cara que namorei até hoje. Eu até saí com Liam, um amigo de Jasper, por um tempo, mas nós não nos acertamos. Estou sozinha desde então.

– E por que não deu certo com o Liam? – Daniel me pergunta.

– Bem, digamos que eu não era muito delicada e ideal para ele. Ele não gostava do fato de ser uma arqueira e queria que eu fosse como uma menininha comum. Eu não mudaria por homem nenhum, decidi cair fora.

– Parece que nenhum de nós teve sorte no amor.

– Pois é. Se as pessoas não julgassem tanto os outros e procurassem se conhecer de verdade, talvez desse mais certo.

– Verdade. Eu confesso que, antes de conhecer, tinha uma outra impressão de você.

– É mesmo?

– Sim. Como vi que você não é de muitos amigos, parece meio reservada. Pensei que não fosse se dar bem comigo.

– Pensei que não se daria bem comigo também. Afinal você é um príncipe. Me desculpe por isso. Parece que esse rótulo impede as pessoas de te conhecerem de verdade, não é?

– É sim. Mas aos poucos eu pretendo mudar isso.

Conversei bastante com Daniel no caminho até a casa de meus pais. Por trás daquela imagem de príncipe galanteador, ele era um rapaz legal. Eu fiquei surpresa quando soube que ele é romântico, que procurava por sua "princesa”.

Estava ansiosa, tinha muita coisa acontecendo. Resolvi continuar conversando com Daniel para me distrair.

– Então, Daniel. Já que estamos sozinhos, pode me falar um pouco sobre o livro que me emprestou?

– Ah, o livro...você não vai sossegar enquanto não te contar, não é? – naquele momento eu só o olhei, confirmando assim sua pergunta — Bem, vou te contar um pouco. Eu não sei de tudo, mas o que sei, posso te contar – ele continua.

– Tudo bem. Eu gostaria de saber o que esse livro tem a ver comigo – lhe digo.

– Bem, há muito tempo atrás existiu uma linhagem de Jotuns poderosos, mais do que qualquer outra. E eles tinham um poder diferente dos outros. Não era simplesmente gelo ou fogo, era algo incrível e, se usado de maneira errada, muito perigoso. Chamavam de Spark.

– E o que era esse tal Spark?

– Já ouviu falar da lenda de que um puro Jotun pode libertar os poderes de um meio-sangue?

– Sim, já ouvi.

– Dizem que aquele que possuir o Spark pode libertar os poderes dos meio-sangue, porque eles têm uma mágica poderosa em si. Quando conectado com outro, o possuidor do Spark pode usar seus poderes.

– Tá, deixa eu ver se eu entendi. Se eu tenho o Spark e me “conecto” a um Jotun, eu posso usá-lo para aumentar meu poder?

– Isso, mas quando se desconectar você voltará ao normal. E se você quiser, pode libertar os poderes de um meio-sangue, se não, não.

– E Spark é mais uma lenda corrente entre os Jotuns?

– Não se sabe se ainda existe alguém que o possua. Havia duas famílias que portavam o Spark, mas muitos deles foram mortos por causa de seu poder. Alguns meio-sangue queriam exterminá-los para que eles não pudessem libertar sua mágica, e depois iam casando-se entre humanos para “enfraquecer” seu sangue até que fossem como os humanos. Outros, Jotuns, queriam aumentar seu poder e os usavam para isso. Não se sabe se ainda há algum portador do Spark entre nós. Essa mágica é algo desconhecido, nós não sabemos como funciona, só sabemos o que foi escrito nos livros.

– E por que você me deixou aquele livro? Eu tenho algo a ver com isso?

– Bem, as duas famílias que possuíam o Spark eram os Pavel, do gelo, e os Tristan, do fogo.

– Tristan? Quer dizer que eu posso ser uma portadora do Spark?

– Não sei Johanna. Não se sabe o que se diz sobre o Spark é verdade. Os Pavel já não existem e os Tristan não vivem em Svetilnik, só você e Isabella, os demais, que são muito poucos, estão em Oakley.

– Oakley? Loki está indo para lá. Isso tem a ver com Spark?

– Olha Johanna, eu já te falei coisas demais por hoje, e não deveria. Tenha paciência, eu vou te contar tudo o que sei. Mas não posso fazer isso agora, tudo bem?

– Tudo bem. Eu passei minha vida toda sem saber quem realmente sou. Posso esperar mais um pouco – logo nós chegamos à casa dos meus pais. Meu pai não estava em casa, só minha mãe. E era com ela mesmo que eu queria falar.

Chegamos e fomos recebidos por minha mãe, deixamos Snow e Rohm, os cavalos, no estábulo de meu pai enquanto conversávamos com minha mãe.

– Bem, mãe. Não tivemos a chance de terminar nossa conversa ontem, porque eu saí para o rio. Mas eu tenho uma dúvida que precisa ser respondida. Aí sim, eu poderei ter certeza do que desconfio – disse à minha mãe. Daniel me olhou confuso também quando eu disse aquilo.

– E o que seria, minha filha? – ela me pergunta.

– Bem, nós somos as únicas Tristan vivendo em Svetilnik. Eu sou uma Jotun do fogo, mas você não. Por quê?

– Madison e eu éramos irmãs somente por parte de mãe. Nossa mãe teve a Madison com seu primeiro marido, também um Jotun do fogo. Meu pai era um humano, por isso nasci sem mágica.

– Agora entendi. Bem, e você tentou salvar minha mãe no dia em que ela foi morta naquela rebelião?

– Eu tentei sim. Eu consegui te tirar deles, mas ela me disse para que me preocupasse com você. Eu tentei ajudar ela, mas não consegui, então te levei para um local seguro. Sua mãe morreu para te salvar Johanna – nesse momento eu saí da casa. Parei em frente à porta dos fundos. Lágrimas se formavam em meus olhos. Daniel veio atrás de mim.

– Está tudo bem, Johanna? – ele me pergunta próximo a mim. Ele parecia preocupado comigo. Eu olhei para ele, aqueles brilhantes olhos azuis, cheios de preocupação. As lágrimas começaram a escorrer pelo meu rosto. — Ah, por favor. Não quero te ver chorar. Eu prometi que iria cuidar de você, que nada iria te acontecer – Daniel diz abraçando-me.

– Me desculpe. Eu não queria que me vissem assim. Por isso saí – eu digo chorando em seu ombro.

– Está tudo bem. Estou aqui com você – ele diz tentando me acalmar. Um tempo depois eu olho para ele.

– Obrigada por me ajudar Daniel. Eu não sei mais em quem confiar. Minha mãe me diz essas histórias, mas sempre tem algo escondido. Eu não acredito que ela tenha tentado salvar minha verdadeira mãe. A sra. Kathrin me contou algumas coisas que me fazem duvidar – nesse momento Daniel só me olha com aquele olhar angustiado, parecia que ele queria me contar tudo, mas não podia.

– Sinto muito, Jo. Eu só espero que tudo se resolva logo – Daniel me diz, limpando uma lágrima em meu rosto com seu dedo. Eu não pude evitar e sorri. — O que foi? – ele me pergunta.

– Você me chamou de Jo.

– Está tudo bem te chamar assim, não?

– Claro, tudo bem.

– Se você quiser, pode me chamar de Danny, não me importo – ele me disse e eu ri de novo.

– Parabéns “Danny”. Você conseguiu me fazer parar de chorar. Obrigada.

– Não há de que. Príncipe Daniel ao seu dispor – ele se curva de novo, como fez quando nos conhecemos.

– Pare de me fazer rir. Precisasmos ir, quero me despedir de Addie e de Loki.

– Ah, claro. Há mais alguma coisa para falar com Isabella antes de irmos?

– Não. Vamos nos despedir e ir embora daqui logo – então nos despedimos de minha mãe e fomos de volta ao castelo. No caminho continuamos conversando e nos conhecendo.

– Daniel, se importa em corrermos um pouquinho para chegar mais rápido até lá? – pergunto.

– Tudo bem, mas você tem certeza de que cavalga tão bem assim?

– Sim. E eu quero chegar logo. Vamos! – dizendo isso saio com Snow à sua frente, ele então permite Rohm a correr para nos alcançar. Eu amava cavalgar, sentir meus cabelos sendo bagunçados pelo vento. Sentia uma sensação de liberdade.

Enquanto corríamos com nossos cavalos de volta ao castelo, por um momento eu esqueci de toda a confusão em que estava naquele tempo. Fazia tanto tempo que eu não fazia aquilo. Daniel parecia estar se divertindo também, corremos livremente lado a lado até próximo ao castelo dos Suolide. Quando estávamos nos aproximando resolvemos parar de correr. Quando chegamos Loki e Addie já estavam se preparando para sair, eu conseguiria me despedir deles. Eu não conseguia parar de pensar no porquê de eles estarem viajando tão de repente para Oakley. Depois do que Daniel me disse sobre os Tristan e sobre esse Spark, eu comecei a ter mais dúvidas ainda em minha cabeça. Fiquei a pensar naquilo tudo enquanto Loki e Addie se despediam do pessoal. Fui despertada de meus pensamentos por Daniel, que me deu uma cotovelada.

– Ei, posso saber por que está tão distante? – ele me pergunta.

– Desculpe. Estava pesando em.... ah você sabe.

–Johanna, eu sei que isso está te intrigando, mas tente não pensar muito nisto. Uma hora outra pessoa pode perguntar no que está pensando, e o que você vai dizer?

– Você está certo. Só que é difícil não pensar nisto, eu acabei de descobrir ser uma possível portadora do Spark. E tem muito mais ainda a descobrir, eu suponho. – nesse momento paramos de falar, pois Loki e Addie vieram até nós para se despedirem. — Ah, nós nem tivemos a chance de conversar e você já vai viajar. Espero que corra tudo bem e que voltem logo – disse a Addie enquanto me despedia dela. Depois fui despedir-me de Loki.

– Bem maninho, você vai ficar em meu lugar enquanto estiver fora, sei que fará o seu melhor, como sempre. Quero que cuide dessa garota aqui — ele diz colocando sua mão em meu ombro — se me prometer que fará isso, Addie e eu viajaremos mais tranquilos, não é querida? — ele dirige-se a Daniel e Addie.

– Você não precisa nem me pedir algo assim. É claro que vou cuidar de Johanna. Com vocês dois fora de Svetilnik tenho mais motivos ainda para não desviar um olho dela. Pode deixar que cuido dela sim – Daniel declara.

– Bem, estamos saindo agora. Uma semana passa rápido, logo estaremos de volta – Loki diz enquanto despede-se de seu irmão. Ele e Addie enfim saem e vou com Daniel até os estábulos para acomodarmos Snow e Rohm antes de voltarmos ao castelo.

Quando chegamos lá vi que não havia mais ninguém, nem Jasper. Aproveitei que estávamos sozinhos e abracei o grande rosto de Snow e assim fiquei, até que comecei a chorar de novo, eu estava sobrecarregada de emoções e pensamentos, era muita coisa que me afligia naquele momento. Nem sei por quanto tempo fiquei a acariciar Snow e chorar, até que Daniel veio até mim.

– Ei, o que aconteceu? Você está chorando de novo? – Daniel diz levando uma mão a alisar meu braço, tentando assim me acalmar.

– Me desculpe. Você deve estar pensando que sou uma chorona, né? – eu digo, rapidamente secando minhas lágrimas.

– Não, Johanna. Eu não te acho uma chorona, muito pelo contrário, te acho uma moça muito forte. Com tudo o que você passou, até eu choraria.

– Bem, obrigada, eu acho.

– Está tudo bem. Vamos deixar Snow descansar um pouco, precisamos entrar. Meus pais querem falar com nós dois, acabo de ficar sabendo.

– Tudo bem. Você me ajuda?

– Claro! Vamos lá – então nós deixamos Snow devidamente acomodado e fomos nos encontrar com o rei Claus e a rainha Kathrin.

– Meus pais estão esperando na sala de reuniões – Daniel me diz enquanto fechamos as portas do estábulo.

– E por que eles querem falar comigo também? – lhe pergunto confusa.

– Eu ainda não sei. Parece que Alexei também está com eles.

– Alexei? O antigo rei?

– Ele mesmo. Depois de ceder sua coroa a meu pai, Alexei passou a ser o conselheiro de Svetilnik. Ele é também quem comanda as cerimônias ocorridas por aqui. Você como filha do general deveria saber.

– Bem, meu pai é o general, mas não me conta quase nada. Ele nunca foi muito presente.

– Sinto muito por isso. Eu não sabia.

– Tudo bem. Me acostumei com isso há muitos anos – logo chegamos à sala de reuniões, onde nos aguardavam. Entramos e meus nervos resolveram se manifestar de novo, senti minhas mãos aquecerem. Minha sorte foi que Daniel segurava minha mão, aquilo me acalmava para que eu não queimasse.

– Bem, imagino que ambos estejam pensando por que os chamei aqui, não? – o rei Claus começa a falar.

– Não tenho ideia, pai. Por que Johanna foi chamada também?

– Nós falamos com Remy hoje cedo. Por isso Loki foi para Oakley.

– E o que está acontecendo? – eu perguntei-lhe.

– Remy disse que Henry e Randall estiveram por lá. E essa não é a primeira vez, Randall costuma ir a Oakley seguidamente. Ele nos alertou para que ficássemos de olho, caso eles estejam planejando algo.

– E eu fui chamada aqui por causa de meu pai, suponho.

– Bem, Johanna, também. Mas não foi só por isso. Queria saber como está indo com seus poderes, não teve mais nenhum acidente?

– Não, graças a Daniel. Ele tem me ajudado a controlar.

– Ficamos felizes em saber que estão se dando bem e que está se adaptando aqui – a rainha Katrin finalmente começa a falar.

– Mas e o que mais vocês têm para nos contar? Ou era só isso? – Daniel perguta.

– Bem, Remy nos confidenciou algo sobre a mágica em Oakley – Alexei nos fala.

– Mágica em Oakley? Pensei que fora de Svetilnik não houvesse mágica – Daniel questiona.

– Nosso reino é protegido pela mágica, mas ela pode ser usada fora daqui. Remy disse que consegue usar seu poder de fogo enquanto está lá, mas ele evita porque mora entre humanos não cientes da existência dos Jotuns e da mágica – Claus nos explica.

– E por que ele só contou isso agora?

– Não sabemos, talvez por segurança. Se descobrem que é possível, quem sabe o que pode acontecer? – a rainha Kathrin responde.

– E Loki foi até lá para saber tudo a respeito desse assunto? – Daniel pergunta-lhes.

– Sim, e foi saber se há algo mais a respeito de Randall e Henry. Pessoalmente eles poderão conversar com mais calma e esclarecer tudo – Alexei novamente fala.

– Bem, vocês passaram o dia fora, imagino que queiram ir para seus quartos. Qualquer coisa mais, falaremos com vocês pela manhã – Claus se dirige a nós dois.

– Certo. Podemos ir então? – Daniel pergunta.

– Sim, estão liberados. Boa noite.

– Nos vemos amanhã então. Boa noite a todos – Daniel e eu nos despedimos de todos e saímos.