A orla da cidade exalava vida naquela noite abafada, pessoas corriam, exercitavam-se. Casais enamorados enroscavam-se e namoravam à luz do luar, rodas de amigos curtiam pequenos luais, nada disso passou de um mero borrão na visão periférica de César, ao esticar sua bela Harley a mais de 110 km/h, sem respeitar semáforos ou pardais eletrônicos. Seguiu diretamente por toda a parte nobre da cidade, em instantes viu-se adentrando favelas e subindo morros. O ronco característico de seu motor chamava atenção de transeuntes e moradores, mas ninguém ousou se quer mexer com ele, a essa hora, nesse local, era apenas mais um playboy viciado vindo buscar mais drogas.

Deparou-se com um beco mal iluminado, aparentemente sem saída. Não sabia o que fazer, sacou seu celular do bolso do jeans, ligou-o: duas mensagens e três ligações perdidas da Camilla. Ignorou-as, acionou o GPS, as coordenadas não faziam sentido. Brilhou o farol de sua moto, viu uma pequena estrada de chão batido à esquerda, no final do beco, e seguiu cambaleando por ela. Agora deparava-se com uma íngreme e inclinada encosta, de onde podia ver todo o contraste surreal da cidade. Um lixão às suas costas, e uma orla linda, rica, e imobiliariamente inchada à sua frente, uma dicotomia gritante. Censurou-se, por se permitir divagar em tal momento. Encostou a sua moto, alisou-a como em despedida, e seguiu com os olhos vidrados em seu aparelho celular, rumo à localização do celular de seu antigo companheiro de peladas.

Numa subida mais íngreme, a cerca de 20 metros do local sinalizado no visor, César teve um ataque de ansiedade. Mal podia esperar para pôr fim a tamanha angústia, porém, temia o que acharia em tal local. Temia que encontrasse um ponto de desova, onde o corpo de seu amigo fosse mais um, entre outros tantos. Temia ser ele a vítima mais nova de o que quer que fosse que tivesse acontecido com seu amigo, temia por muitas coisas, e temia temer, pois não estava acostumado a sentir tal emoção. Tal fraqueza. Decidiu seguir em frente levantou a cabeça quando ZUUUUM ...algo passou rodopiando rente à sua fronte, e por pouco não o acertara! Era um objeto disforme à luz tênue e prateada do luar, algo que deixou respingos em sua camisa e seu rosto. Esse odor que agora exalava de sua camisa, de onde os respingos estavam, um odor férreo, carregado, convidativo, algo que César ainda não aprendera a ignorar nesses anos de cirurgião: SANGUE. Agachou-se, rastejou lateralmente até onde o objeto repousara, na curiosidade de sanar suas dúvidas. Apalpou sob a fraca luz, encontrou. Suprimira um grito de horror ao perceber que era um braço o que lhe jogaram por cima da cabeça. O horror de tal constatação só foi suplantado pelo impactante choque ao perceber que o braço, embora lembrasse vagamente, não era humano. Tinha contornos e formas humanos, porém era dotado de uma característica pelugem acinzentada, com enormes garras negras, agora rajadas de um sangue roxo, que escorria de onde um dia fora a junção entre o úmero e a clavícula.

Após alguns segundos de intenso temor, César percebeu que o que quer que houvesse atirado aquele braço humanoide em sua direção, não sabia de sua presença naquela encosta, ou ele já não estaria mais vivo à essa altura. Sacou o celular, na intenção de ligar para a polícia, mas ninguém jamais acreditaria no que ele tinha a relatar, e, caso o fizessem, nunca chegariam em tempo hábil para fazerem algo de útil. Num primeiro impulso, levantou-se e pôs-se em direção à descida, dando as costas ao declive que estava além da encosta. Parou, olhou em seu celular, uma pequena luz azul que piscava na direção oposta: 132. 46. 52. 30. 41 era a sua localização atual, 132. 46. 52. 30. 46, era onde ele deveria ir, onde suas respostas se encontravam. Respirou fundo, subiu toda distância até o topo, onde agachou-se e vislumbrou aquilo que seria o divisor de águas em sua existência.