Joaquim Hao Ling da Silva: o retrato perfeito da miscigenação da população brasileira. Neto de chineses com holandeses. Teve como progenitora uma holandesa por nascimento e chinesa por etnia, que se apaixonou em Berlim por um baiano mulato, arretado, que estava fugindo da ditadura tupiniquim. Alguns anos depois, nasce Joaquim, em plena sexta-feira de carnaval, no Rio de Janeiro. Branco como uma folha de papel, com cabelos crespos, vastos, duros E RUIVOS! " Um meninão! Um verdadeiro cabra da peste! Capaz de pôr o temido Virgulino com vergonha no chuveiro!" gritara o pai, empolgado e um pouco embriagado.

A enfermeira disse à mãe que Joaquim resmungava quando nasceu, como se quisesse voltar ao útero, até que ouviu a voz da mãe, e aninhou-se, de onde não saiu mais, pelas próximas 32 horas. Tem o nariz do pai, disse a mãe, uma verdadeira batata inglesa! Para riso dos presentes na ocasião. Joaquim crescera em força, vigor, habilidade e vontade. Tornara-se capitão do exército brasileiro, com 7 condecorações por missões humanitárias na África e no Haiti. Mas fora numa favela niteroiense, no ano de 2009 que sua vida mudara. Quando sua esposa, Joana, foi raptada em sua frente, na saída de um shopping local, e Joaquim passara 3 horas perseguindo os dois raptores até encontrá-los sobre o corpo inerte de sua amada, à sombra de um antigo estaleiro abandonado. Os eventos seguintes não foram naturais. Não foram, pois nenhum ser humano presente acreditaria no que se passava, não sem pairar à beira da insanidade. Dois homens lobos disputavam uma perna de Joana. Algo que deveria ter fritado o cérebro de um ser humano comum. Comum: esse não era o caso do Joaquim, que possuía uma rara habilidade de transmorfização, presente nos antigos clãs chineses. Joaquim pesquisara em sua adolescência e descobrira que os mais habilidosos transmorfos conseguiam a forma de dragões alados. Tal habilidade nunca foi mais do que um sonho distante para Joaquim, que conseguia morfar-se apenas em 3 animais.

Estarrecido com o que via, Joaquim, mal continha-se ao observar a macabra disputa. Ele não apenas não estava sozinho no mundo. Haviam outros monstros como ele, outros monstros que agora acirravam-se sobre o corpo sem vida do único ser que já lhe compreendeu e lhe trouxe paz sobre a terra. A ira não podia ser contida, dentre as sombras, Joaquim urrou e se atirou sobre as bestas cabais. Em pleno voo, Joaquim transformou-se num ENORME GORILA PRATEADO. Guiado pela sede de vingança, Joaquim agarrou o pescoço de um dos homens-lobo com suas potentes mãos e o estrangulou. Apertou e bateu com sua cabeça de forma tão brutal e violenta que no terceiro golpe não havia nada além de um patê rosáceo por sob suas mãos. O frenesi vingativo o dominava. O exultante Gorila Prateado devia pesar cerca de meia tonelada, estava urrando, desesperado, não um urro de ódio, mas um urro de dor. Encarava a Lua, majestosa, como se estivesse enfeitiçado, chorava e urrava copiosamente enquanto os restos do que outrora fora sua razão de existir jaziam sob seu corpo, sem mais se distinguir dos miolos do homem-lobo, que agora misturavam-se à poça de sangue que se formava.

O outro Lobiforme, assustado, como um predador encurralado, observava ao desenrolar das ações do Gorila, ante uma penumbra gutural. Ver seu jovem irmão ser desmantelado como um lego, instantes após uma boa refeição, por uma besta-fera prateada, era algo que o assustara. E por mais que seu instinto familiar ordenasse-lhe, com urgência, que vingasse o membro caído de sua matilha, o seu instinto de sobrevivência falava mais alto, dizendo-lhe que, em caso de enfrentamento, os seus restos estariam no chão, colaborando ainda mais com o cheiro de morte, que agora se misturava à podridão característica do enxofre exalado em regiões de mangue, como a que agora se encontravam. Com a destreza de um felino, o homem-lobo esgueirou-se até a sua moto, onde agora assumia novamente o corpo de homem, nu, alcançou uma sunga presente num compartimento, ligou a moto e fugiu, sendo perseguido e fuzilado com os olhos de morte da besta fera prateada, que agora balançava o corpo de seu irmão como um estandarte de guerra.

Onze anos se passaram, sem que Joaquim não deixasse de caçar o assassino de sua amada por um só dia. Sexta-feira, dia 21 de agosto de 2020: Joaquim finalmente conseguira encontrar toda a matilha reunida. Quatro homens-lobo alimentavam-se de cinco jovens recém chegados aos 20. Joaquim nada pudera fazer para impedir a matança, nem quisera. Esperava até que a matilha estivesse satisfeita, alimentada e pesada, para que pudesse abater a todas de uma só vez. O líder, aquele que lhe escapara onze anos antes não participava do banquete, apenas observava e mantinha-se alerta, tomando lufadas de ar com seu olfato aprimorado. Defendendo sua matilha. Joaquim posicionou-se contra o vento de forma a não ser entregar por seu odor característico, agachado e inerte, para que sua sede por morte e sangue não lhe entregasse antes do devido instante. Pisou sobre um celular, que indicava que outros encontros, outras mortes haviam ocorrido naquele local há pouco tempo. Eriçou os pelos, atento, filtrando o seu ódio. Todos alimentaram-se, o Líder abaixou-se e retirou alguns órgãos intactos dos corpos. Fato que só aumentou o ódio de Joaquim: era chegado o momento. Silenciosamente, um tigre de bengala monstruoso esgueirava-se pelos entulhos do lixão e avançava por suas presas, indefesas. Era chegada a hora do ajuste de contas.