Hear Me
1 Diamantes são eternos
Notas iniciais
Abri os olhos vendo tudo um pouco embasado, o chão gelado abaixo de mim, revelava que eu não estava na minha cama, e o cheiro de álcool indicava que não estava em casa.
Quando meus olhos conseguiram focar em alguma coisa, me vi deitada, escorada no chão escuro de alguma boate. Tentei me lembrar da ultima noite, em vão, eu sabia que não lembraria. Olhei pro lado dando de cara com um homem, ele cheirava a cigarro, assim como eu.
Levantei-me meio cambaleante, me escorei na parede preta onde estava dormindo, olhei em volta e vi varias pessoas, dormindo, algumas nuas, outras emboladas em grupos. Olhei pra mim mesma e me vi sem minha blusa, apenas com um sutiã cor de rosa. Resmunguei e caminhei até uma porta, mas antes de chegar lá, vomitei ao lado de uma mulher loira que dormia e pareceu não perceber a nojeira ao seu lado, e no seu cabelo.
Quando sai, o sol me cegou, voltei pra dentro e peguei o casaco de um homem que dormia ao lado da porta. Cobri meus seios com ele, e voltei a sair, mesmo não acostumada com a claridade, caminhei meio cambaleante pelas ruas. Cheguei até o cruzamento que ligava minha casa á cidade. Peguei a direita, caminhando lentamente, tentei ignorar as pontadas no estomago, fazia quanto tempo que eu não comia? Toquei os bolsos do casaco e felizmente encontrei uma carteira de cigarros. Parei um pouco na estrada, para poder pegar o isqueiro na minha bota de cano longo. O acendi e dei duas tragadas seguidas. Ouvi um ronco ao longe e não me virei para trás pra ver quem era. O mustange vermelho passou buzinando, e algumas vozes gritaram pra mim. Eu sequer dei atenção, provavelmente um grupinho do colégio, continuei caminhando a passos lentos em direção á minha casa. Pude avistar as primeiras casas do bairro afastado onde eu morava.
Passei pela primeira.
Pela segunda.
Terceira.
Até ver a construção de tijolos á vista, contornei a casa e entrei pela janela dos fundos. Assim que passei as duas pernas pra dentro do meu quarto. Pulei na cama, de bruços ainda com a roupa da noite anterior. Uma dor de cabeça se instalou no lado esquerdo da minha cabeça.
Assim que fechei os olhos o som ensurdecedor do maldito despertador tocou. Fiquei uns segundos deitada, abri os olhos de novo, me levantei da cama e fui até o espelho. Olheiras. Vomito seco nas roupas. Saia rasgada.
Segui em direção ao banheiro do meu quarto. Joguei as roupas pelo caminho e liguei na água fria, molhando meus cabelos loiros por completo, fechei meus olhos enquanto sentia a água varrer meu corpo, cerca de alguns minutos depois, saí de baixo da água, voltei ao meu quarto. Peguei uma calcinha preta e um sutiã da mesma cor. Chutei algumas roupas jogadas no chão até achar uma calça preta de cintura baixa, comum. Abri minha gaveta, ignorando a bagunça instalada ali, peguei uma regata cinza claro decotada, voltei pro banheiro, e olhei meu rosto, peguei um pouco de base, e passei abaixo dos meus olhos, depois de um tempo encarei meus olhos azuis no espelho e tentei sorrir, parecia falso, tentei novamente e o resultado foi o mesmo, desisti e apenas encarei meu reflexo, procurando falhas. Rosto fino, pele branca, olhos azuis, cílios grandes, nariz pequeno, boca carnuda.
Parecia perfeita, e não parecia ao mesmo tempo.
Escovei os dentes, sem mais me olhar, sai do banheiro, peguei uma manta preta e enrolei no pescoço, deixando as pontas grandes caírem na frente, tocando minha barriga e coxa. Ao lado da porta peguei minha mochila e a pendurei num ombro só, sai em direção a cozinha. Encontrei minha mãe olhando pela janela.
–bom dia Sofia,
Ela falou se virando para me encarar, o vestido vermelho na altura do joelho, um pouco decotado, estatura mediana, como eu, olhos verdes, nariz pequeno, cabelos negros diferentes dos meus, puxei ao meu pai, ela me falou quando eu perguntei aos três anos, acho que puxei muito a ele, não sei, não o conheci. Minha cabeça latejou.
–Oi Ester.
Eu digo, passando por ela, peguei uma maça da pequena fruteira ao lado da pia de mármore.
–esta horrível.
Ela falou, eu dei um mini sorriso, a sessão tortura começa agora.
–hm
–sabe que parece uma prostituta? E que tenho vergonha de dividir a mesma casa com você.
Peguei uma fatia de pão e me dirigi à geladeira pra procurar um pouco de manteiga.
–ninguém a impede de se mudar e ir embora. Ah sim, o doutor Julius, não é? Marido da sua “melhor amiga”, não é ele que a prende aqui?
Falei me referindo aos encontros noturnos, que ela tinha com o medico da pequena cidade. Quase a ouvi revirar os olhos.
–acha que é quem para falar de mim? Já que faz pior. Sai de noite, volta no dia seguinte, dorme com um cara diferente por noite, só não esta grávida por um milagre.
–hm.
Eu a ignoro, não encontro manteiga. Pego o pão e o como puro mesmo, depois, pego a maçã que tinha deixado em cima de mesa e dou uma mordida.
–não se preocupe Sofia, assim que o seu prazo esgotar eu vou embora. Te vejo a noite.
Ester disse deixando a cozinha, a dor de cabeça parecia ficar mais forte, olhei o relógio, faltavam quinze minutos pro inicio da primeira aula. Peguei as chaves ao lado da porta e me dirigi ao meu Chevrolet chevy – 1967 preto. Dirigi com calma até o cruzamento que ligava minha casa á cidade, liguei o som, uma musica antiga começou a tocar.
Diamante são eternos
São tudo que eu preciso para me agradar
Podem me excitar e provocar
Eles não irão embora á noite
E não tenho medo que possam me deixar
O sol fraco batia em meus olhos, era primavera, as flores floresciam com louvor, numa mistura de rosa, azul e amarelo. As casas velhas da antiga cidade, davam um ar de faroeste. Gosto disso.
Eu não preciso de amor
Que bem o amor faria a mim?
Diamantes nunca mentem pra mim
Quando o amor se vai
Eles brilharão!
Pude ver no final da rua, os portões velhos da Oldside high, é uma instituição para o ensino médio. Entrei no estacionamento, e procurei um lugar mais afastado, eu sei muito bem o que alguns espertinhos fazem com os carros por aqui. Desliguei o som e suspirei, mais um dia de tortura. Desci do carro e o tranquei, joguei as chaves na bolsa e sai em direção à entrada, passei pelas garotas lideres de torcida, que – como um atrai o outro – estavam com os garotos do time de futebol.
– Calma ai gatinha.
Um garoto, Mattew, capitão do time, se pôs na minha frente, eu tentei desviar, mas ele se moveu junto comigo.
–me deixa passar.
Eu digo baixo, sem o olhar nos seus olhos. Eu não me permitia fazer isso, eu não tenho mais honra pra olhar nos olhos de alguém, e por mais baixo que eles sejam, eu era pior.
–olha só galera – Mattew falou olhando pros outros, que estavam escorados nos carros encarando a cena ali – por acaso vocês ouviram a loirinha pedir por favor?
Eu olhei pra baixo, escutei vaias e algumas risadas femininas. Ele segurou meu queixo com força me obrigando a lhe olhar, fiquei com nojo de encarar aqueles olhos ridiculamente azuis, como os meus, cabelos negros, cheios de gel, e um corpo, composto por apenas duas coisas. Água e anabolizantes.
–diga...
Ele mandou cerrando os dentes. Ele apertava cada vez mais meu rosto, o deixando bem próximo ao seu. Eu poderia ter cuspido, eu teria feito isso, se não fosse...
–por favor...?
Eu digo com a voz fraca, ele da um sorriso, sedutor, eu acho, e me da um beijo, eu o empurro e ele ri. Volto a andar e guspo no chão, tentando tirar aquela gosma da minha boca. Entro no corredor, de cabeça baixa sigo para o meu armário.
A combinação, abri e peguei dois cadernos, o corredor vazio me dava arrepios. Sinto uma mão passar de leve pela minha bunda. Prendo a respiração.
–olha se não é a minha putinha favorita.
A voz nojenta de Johny Clainke. Quase vomito quando ele toca meu seio. Eu tento andar, mas ele não me deixa, tento empurrá-lo, mas ele gruda em mim como um chiclete grudaria na mesa.
–sai.
Digo irritada, ele me olha com raiva, vejo sua mão levantada e logo depois sinto um estalo na minha bochecha.
–cala boca, não ouse me tratar como se eu fosse como você. Mas nem isso você faz direito. Sua mãe era muito melhor, mesmo sendo mais velha.
–vai lá com ela.
Eu digo, com um pouco de raiva. Outro estalo na minha bochecha.
–Ultima vez Sofia Vanster.
O sinal toca, me salvando, me solto dele, e corro pra minha sala, chego primeiro que todos e me sento na fileira do canto, no fundo, as pessoas entram se sentam a maioria na frente, no meio e no fundo, a carteira ao meu lado e atrás de mim permanecem vazias. Olho pra fora, e vejo uma arvore ao vento, coberta de flores cor de rosa, nem percebo quando o professor entra na sala. Um senhor de idade, baixinho, soa mais que um porco, todo mundo odeia ele, aquele tipo de professor que já acorda de cara ruim.
–Bom dia alunos, bom, antes de qualquer coisa, devo apresentar um novo aluno. Entre.
Me viro e vejo um garoto entrar, pele branca como a minha, cabelos não muito curtos e não muito longos, um liso desarrumado e um pouco sexy, olhos negros, boca fina, traços leves, um rosto angelical, ele usava uma calça preta, folgada que pendia abaixo da cintura, uma camiseta branca, e um moletom aberto, preto na frente, combinado com um all star preto.
–Bom, este é Jonathan Couton. Se apresente.
O garoto olhou pro professor e negou.
–qual é? Nós já somos obrigados por lei a aguentar esse inferno todo dia,não vou ser obrigado a fazer outra coisa que não quero, obrigado.
Ele disse e caminhou em minha direção. Quando ele veio, tive noção de sua altura, estava entre 1,80 ou 1,82. Uns 15 centímetros a mais que eu. Ele passou e se sentou na carteira atrás de mim.
O professor o olhou com uma cara de brava, mas acho que por ele ser um novato decidiu deixar assim. Eu coloquei meus fones e me desliguei da aula.
(...)
–ei.
Escutei uma voz ao meu lado. Abri os olhos devagar. E encontrei dois pares negro me encarando. Virei o rosto e voltei a dormir, em cima da classe.
Uma risada.
–ei a aula acabou boneca.
Ele diz me cutucando.
–e daí?
Eu respondo com um murmuro.
–e daí? E daí que sua mãe deve estar esperando você em casa.
Ele diz me cutucando de novo. Eu viro o rosto e o encaro nos olhos, depois olho pra baixo.
–eu lhe garanto que não está.
Ele me olha com pena, dou risada por me tocar à forma que ele entendeu.
–não, ela não morreu. infelizmente
Essa ultima parte eu falei bem baixinho. Ele suspira aliviado. Eu levanto minha cabeça da classe e olho em volta, não havia ninguém alem de nós.
–nossa, eu pensei que ia ter que te consolar e fazer você parar de chorar.
Eu dou um dos meus sorrisos falsos.
–não sou dessas.
–mas parece.
–hm?
Eu digo com uma sobrancelha arqueada.
–você parece uma patricinha.
–hmm.
Eu digo cruzando as pernas, pego um cigarro do bolso e o acendo.
–ok, eu retiro o que disse.
Eu dou três tragadas rápidas. Respiro e repito.
–é, as pessoas me confundem com esse tipo de garota. Bom, na verdade eu era assim. Usava vestidos, saias, perfumes, brincos e essas coisas que as garotas usam. Mas...
Não, eu não iria contar pra ele, Sofia? O que esta fazendo?
–mas?
Ele me incentivou a continuar.
–mas... Eu cresci e agora sou os restos do que eu já fui.
Digo, dando uma tragada de leve. Abaixo a cabeça fitando seu all star.
–então parece que estamos no mesmo barco.
Levanto minha cabeça, me permitindo encará-lo por alguns segundos.
–hm? Você parece um cara tão legal.
– pois é, as aparências enganam boneca.
Ele piscou pra mim. Eu olhei pro chão.
–qual seu problema em encarar as pessoas?
Ele me pergunta me deixando surpresa, eu demorei alguns segundos pra responder.
–Isso me trás lembranças ruins.
–Olha nos meus olhos Sofia.
–NÃO. ME LARGA.
Minha bochecha ardeu quando eu senti sua mão contra ela.
–CALA A BOCA.
Eu chorava baixinho, amarrada naquela cama idiota.
Eu gritava mais e mais quando ele passava a mão em mim.
–Sofia, olha pra mim.
Aquele homem mandou, segurando meu queixo pra cima.
Eu gritei de novo.
–ah, desculpe.
Ele olha pro chão, dou uma tragada e prendo o ar, soltando-o pelo nariz em seguida.
–eu já fui uma pessoa muito ruim, e sofri e ainda sofro por causa disso.
Digo encontrando seus olhos por algum tempo, era estranho olhar alguém assim. Continuei por um tempo até ele perguntar e eu desviar os olhos.
–não, você não é pior do que eu. Eu sou um inseto que mereço ser esmagado, por tentar fazer o que eu estou fazendo.
Eu dou mais uma tragada, e ofereço a ele que aceita. Vejo ele se escorar melhor na cadeira e me olhar com o canto do olho. Sinto um calor quando ele encosta os lábios no meu cigarro.
–o que exatamente esta fazendo?
Ele da uma risadinha, meu rosto esquenta um pouco, dou uma olhada pela janela e o escuto sussurrar.
–estou te seduzindo.
Dou uma gargalhada sincera. Que tipo de idiota ele acha que sou? Tento reprimir o riso, mas é quase impossível.
–e acha que esta conseguindo?
Ele da de ombros.
–eu já consegui boneca.
Ele diz me devolvendo meu baseado.
–cale a boca.
Digo ainda rindo um pouco. Me levanto da cadeira e pego minha bolsa. Ele me olha de lado, analisando meus movimentos.
–até mais boneca.
Ele diz quando eu saio andando, sem me despedir. Eu não olho pra trás.
(...)
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