He Is Not My Son!
1 One-Shot.
Notas iniciais
- Ichigo, eu quero ver esse tal de parque de diversões – Exclamou Rukia.
Numa manhã de sábado, a última coisa que Kurosaki Ichigo desejava era sair de casa. A semana passada fora cheia de provas e trabalhos, o que havia deixado o ruivo exausto. A única coisa que desejava era tirar aquele dia para descansar. Infelizmente, Rukia não compartilhava sua ideia. A pequena moça havia visto os anúncios de que um novo parque de diversões se instalaria em Karakura. Desde então, ela não falou em outro assunto. Fizera inúmeras perguntas a respeito do “tal parque” e para piorar a situação do Shinigami Daiko, ela insistira em conhecer o local.
- Não mesmo. Por que não vai sozinha?
- Assim não tem graça! – Retrucou.
- Claro que tem! O parque vai continuar cheio de brinquedos perigosos e crianças barulhentas mesmo que eu não vá.
- Mas preciso de alguém para perguntar algo que eu não saiba! – Protestou.
- Pergunte a um funcionário – Resmungou de mau humor.
- Não tem graça... – Repetiu.
- Pare de tagarelar aí e vá logo!
A baixinha sentiu o rosto arder de tanta raiva. Fechou os punhos e golpeou com toda a força que tinha o estômago de seu interlocutor. O ruivo fez uma careta de dor e respondeu com a voz embargada:
- Tudo bem. Eu queria mesmo ver quais eram os brinquedos desse parque.
Rukia deu um sorriso triunfante e prometeu que não demoraria para se arrumar.
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- Realmente não acredito que concordei com isso – Reclamou Ichigo pela décima vez consecutiva.
Por mais que ele protestasse, a pequena Kuchiki nem reparava. Estava maravilhada com o que via: rodas-gigantes, barraquinhas vendendo vários tipos de comida, brinquedos tão altos que ela não sabia o nome e muitas pessoas se divertindo.
- Isso é tão diferente... Nem parece o Mundo Real. Nunca vi tanta gente se divertindo assim.
- Não diga essas besteiras. Eu estaria me divertindo muito mais em casa!
- Por que você protestou tanto para não vir, hein? – Indagou.
- Estou cansado.
- Está é mentindo!
- Não estou! – Exclamou.
- É por causa daquela história de Dia dos Pais? – A pequena perguntou.
- Tsc... – Limitou-se a responder.
Estava óbvio de que era esse o motivo. Isshin havia combinado com as filhas mais novas de que comemorariam a data no parque. Ichigo, que preferia dispensar as extravagâncias do pai, decidira ficar em casa alegando a desculpa de “cansaço pós-provas”.
- Você devia aproveitar essas ocasiões – Rukia disse, o encarando com seriedade.
O ruivo fez uma leve careta de susto quando a viu com aquela expressão. Odiava quando era repreendido por algo que tinha certeza de estar certo.
- Até parece que você não conhece meu pai.
- Ele é divertido e gosta muito de você.
- Ele tem problemas mentais graves. É diferente.
A morena balançou a cabeça e desviou o olhar do rapaz. Parecia decepcionada com algo.
- O que há com você? – O Shinigami Daiko perguntou.
- Só não entendo como alguém que tem a oportunidade de ficar com sua família, prefere ficar em casa sem fazer nada.
- Olha, isso não... Ah, desculpe – Ele caiu em si e deteve-se antes de dizer algo de errado.
Até onde sabia, Rukia não conhecia o pai. A única família que tinha agora era Byakuya, mas ele não era tão presente quanto devia.
- Não diga bobagens. Não precisa se desculpar por nada – Resmungou, mas a sua expressão era de tristeza.
Ichigo sentia-se imensamente culpado por cometer aquele deslize. Tinha aquele ponto fraco: não suportava ver a shinigami daquela forma.
- Se quiser, nós podemos encontrá-los por aqui... – Disse, coçando a cabeça de maneira tão característica.
- Não pre–
- Por que se interrompeu?
- Ichigo, aquilo é um carrinho de bebê? – Indagou, apontando na direção norte.
De fato, quando caminharam até lá constataram que era mesmo o que pensavam. O mais estranho de tudo, era que havia um bebê dentro e nenhuma mãe por perto.
- Quem deixaria uma criança assim sozinha?
- Alguma mãe ou pai desnaturado – O ruivo resmungou. – É só entregá-lo para algum guarda do parque.
- Olha, Ichigo! Ele tem o cabelo cor de cenoura que nem o seu! – A morena constatou, olhando o pequenino de perto. – Podia até ser seu filho.
O rapaz corou violentamente.
- D-Do que está falando, sua doida? Como se eu tivesse idade para ter filhos!
Rukia sorriu ao ver aquela expressão de vergonha no rosto do outro.
- Quer dizer que nunca pensou em ter filhos?
- Você já?! – Indagou surpreso.
- Claro! – Mas deteve-se ao revelar tanto entusiasmo. – Er... É normal, não? Acho que todo mundo sonha com isso, um pouco.
Ichigo estava com a testa franzida e o rosto corado. A Kuchiki não parecia nem um pouco com alguém que desejasse ter filhos ou algo assim. Isso era coisa para as mulheres normais. Por ter valor a vida, preferiu não exprimir seus pensamentos em palavras.
- Toma, segura o Júnior no colo! – De repente, Rukia jogou o pequeno garoto nos braços de Ichigo.
- Tá ficando maluca?! Vão nos prender por sequestro! – Gritou.
Por sorte, as pessoas do parque estavam muito entretidas com os brinquedos para repararem na palavra “sequestro” dita com tamanha entonação.
- Deixa de ser exagerado. Estamos fazendo um favor para a mãe dele!
- Sequestrando o filho dela?
- Pare de dizer isso. Veja pelo lado bom: ao cuidar desse menininho, esse pode ser o seu primeiro dia dos pais!
Uma senhora que passava por eles, sacudiu a cabeça com veemência e sussurrou: “Meu Deus, tão jovens assim?”
Ichigo tornou a corar profundamente e se enfureceu.
- Esse menino não é meu filho e eu não vou cuidar dele! – Disse.
Tentou devolver a criança para o carrinho, mas o menino segurou o braço do rapaz com força. Os cabelos laranja eram revoltos e o deixavam com uma expressão de mau humor, o que parecia compatível com sua força repentina.
- Ei, até que você é bem forte... Até que se parece um pouco comigo – Sussurrou.
- Olha, já está se afeiçoando a ele!
- Do que está falando?! Para com isso! E você aí, não me olhe assim! – Gritou com o bebê que o olhava com uma expressão de divertimento.
- Parece que ambos se darão muito bem – Rukia riu.
- Quieta, sua maldita! Para de me olhar assim, garoto!
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- Estou cansado de carregar esse carrinho – Resmungou Ichigo.
- Está cansado de carregar seu próprio filho?!
Várias pessoas que passavam por eles estavam olhando e cochichando sobre aquela estranha cena, o que deixava o ruivo ainda mais constrangido.
- Ele não é meu filho! Quer parar de dizer isso? Você já não está tornando a minha vida um inferno suficiente?
- Essa é sua chance de entender como um pai se sente – Retrucou.
- Não quero saber como um pai se sente – Disse, virando-se para a moça de cabelos negros.
- Ah, imagine se seu pai tivesse dito isso para você, quando nasceu! – A garota apontou para ele, num tom ameaçador.
Dessa vez, Ichigo foi pego de surpresa. Tentou retrucar, mas não lhe vinham palavras à mente.
- Isso... Isso... Não tem nada a ver!
- Claro que tem, Ichigo. Você deve ser grato ao seu pai por não ter jogado num carrinho de bebê no meio do parque.
- Notou que isso não teve muito sentido, né? – Indagou, quase rindo.
Rukia, em vez de lhe dar um soco, sorriu docemente. O rapaz estranhou o fato, mas sentiu-se aliviado com o fato dela não estar brava. Ela tinha razão, mesmo que não quisesse admitir. Devia ser grato pelo pai (mesmo sendo um desequilibrado), ter cuidado dele por todo aquele tempo.
- Mesmo com essas medidas extremas, você sempre soube o que dizer.
Foi a vez da pequena shinigami corar.
- Do que está falando, seu bobo? Eu sempre sei o que dizer – E o fitou ternamente, de maneira quase inconsciente.
Ele assanhou os cabelos negros de Rukia, mas antes que pudesse recolher a mão, a garota puxou seu braço com extrema força. Estando muito próximos, o rapaz já conseguia sentir o hálito quente da outra soprando com delicadeza em seu rosto, fazendo-o se arrepiar.
- Feliz Dia dos Pais, Ichigo – Sussurrou, o puxando para mais perto e o selando com um beijo.
Os lábios da morena eram ávidos, o que não condizia com sua aparência delicada. Se não estivesse tão desnorteado e dominado, Ichigo teria achado aquilo tudo muito estranho, mas não teria oferecido resistência. Não poderia negar o que sentia, mas nunca imaginou que tais acontecimentos se concretizassem... Ainda mais no Dia dos Pais. A moça tinha um ritmo incansável, o que deixava o rapaz ainda mais zonzo e em êxtase. Seus pensamentos se embaralharam, até que nada mais fazia sentido. Não ligou para o que as pessoas poderiam pensar quando os vissem assim com um carrinho de bebê do lado. Apenas concentrou-se em acompanhar o ritmo da garota.
Separaram-se depois de alguns minutos. Pareciam ainda surpresos com aquela atitude inesperada, até a própria Rukia que tomara a iniciativa. Ichigo a encarou, muito encabulado, mas decidiu desviar o olhar antes que ela o retribuísse. Iria olhar para onde estava o Júnior, mas ficou horrorizado quando constatou que não havia Júnior nenhum. O carrinho havia sumido!
- Rukia!
A morena arregalou os olhos quando percebeu que o pequeno não estava mais onde haviam deixado.
- Sequestraram a criança que seqüestramos! – Exclamou Ichigo.
- Para com isso! Não o seqüestramos! Viu? É tudo culpa sua!
- Minha?! Foi você que me agarrou sem aviso! – Já estava corando de novo.
- E você achou ruim? Então pronto! Vamos procurar pelo Júnior.
Tendo dito isso, ambos começaram a esquadrinhar o parque em busca da criança perdida. O ruivo sentia-se incrivelmente culpado por abandonar o garoto daquela forma... Mas diante os tais acontecimentos passados, não havia como evitar!
Andaram durante longos minutos, mas o pequeno ruivo não foi encontrado.
- Aquele maldito... Onde se meteu?! – Indagou-se, olhando para os lados.
- Ichigo! – Rukia exclamou. – Olha ali.
O rapaz voltou-se para olhar e viu uma mulher morena com um carrinho de bebê que era idêntico ao que estavam procurando. Era a mãe do Júnior.
- Vamos até lá.
- Ei... Que?! Não!
Mas a moça não ouviu os protestos. O arrastou pelo braço e chamou a atenção da mulher com o carrinho.
- Oi, dá licença. Nós encontramos o seu filho na ala da roda gigante. Ele estava sozinho e cuidamos dele até que a senhora o encontrasse, há alguns minutos.
- Ah, sim! – Respondeu com um sorriso. – Ele estava mesmo perto de um casalzinho lindo. Agora vejo que são vocês.
O ruivo já ia protestar dizendo que não eram um casal, mas preferiu escutar o que a mãe tinha a dizer.
- Eu estava comprando algumas coisas em uma barraquinha do lado e num minuto ele sumiu!
Ichigo aproximou-se da shinigami e sussurrou em seu ouvido.
- Não disse? Nós o seqüestramos!
A garota decidiu ignorar e continuou.
- Esse rapaz aqui tratou seu filho como um verdadeiro pai. Meio descuidado, mas acho que ele se afeiçoou ao menino.
A mãe sorriu.
- Então você pode se despedir dele. Já estamos indo embora.
Rukia puxou o Shinigami Daiko pelo braço e o levou diante da criança.
- Vamos lá.
- Para com isso! Eu nem olhei para esse menino.
- Deixe de birra. Você mesmo assim parece ter gostado dele. Despeça-se! – E a morena o retirou no carrinho e entregou nos braços fortes do outro.
Ichigo olhou para sua versão em miniatura e tentou dar um sorriso, mas saiu algo muito assustador.
- Então... É... A gente se vê por aí, baixinho.
O bebê riu daquela expressão e moveu os lábios levemente até formar uma palavra.
- Papá...
O rapaz arregalou os olhos, mas por fim deu um sorriso sincero. Era uma sensação estranha que estava em seu peito... Era quente e parecia estar se espalhando. Assanhou os cabelos revoltos do menino e o devolveu para a mãe. Assim que ambos saíram, o ruivo virou-se para a companheira.
- Pronto, missão cumprida.
- Estou orgulhosa de você! Virou um verdadeiro papai! – Disse entre um riso.
- Pode rir quanto quiser. Esse garoto ainda vai ser alguém de quem vou ouvir falar!
A moça deu uma cotovelada “carinhosa” no estômago dele.
- Aposto que sim, papá. Vamos, temos que encontrar o seu pai.
Ichigo revirou os olhos, mas não estava realmente irritado. Por incrível que pareça, aquela breve experiência o havia ensinado muitas coisas. Uma delas é de que não queria ser pai tão cedo! Deixaria toda a dor de cabeça para Isshin por alguns longos anos...
FIM
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