Hazusu
1 Capítulo Único — Escapulir.
Notas iniciais
Às vezes, eles gostavam de escapulir.
Todos os dias, cada uma das células que ali vivia, fazia o seu trabalho. O trabalho era, literalmente, o que tornava aquele mundo tão saudável, sem algum membro integrante, seja uma célula comum ou uma Macrófago, tudo aquilo que construíram poderia desaparecer. Para sempre.
Entretanto, deviam admitir que precisavam de folga. Talvez fosse por isso que, por muitas vezes, no quadrante vigiado pelo Glóbulo Branco U-1146, não havia nenhum protetor. Claro que ninguém poderia culpá-lo, pois o rapaz havia conhecido uma jovem que – por alguma força superior – atraia todos os vírus e bactérias possíveis para perto dela.
Ela é a não tão famosa Glóbulo Vermelho AE-3803, atrapalhada e perdida desde muito jovem, desde quando era apenas uma Eritroblasto. As autoridades se recordaram do caso em que foi quase morta por um Pseudomonas e, por uma incrível coincidência do destino, o U-1146 também estava presente na cena.
Muitos suspeitaram que esse era o motivo para parecerem tão próximos, no entanto, questionados sobre o incidente, nenhum dos dois mencionou o número do outro. Claramente, as autoridades também não esclareceram nada. Eles nem mesmo acharam isso suspeito.
Isso não explicava as escapulidas, claramente, já que a AE-3803 parecia estar sempre fora de posição. Ao mesmo tempo, U-1146 também estava. Não que isso incomodasse o suficiente para que todos prestassem atenção, no entanto, isso atrapalhava o funcionamento do mundo em que viviam.
Eles nunca estavam no lugar certo e, por isso, sempre próximos demais do perigo. Não que fosse um problema para o agente Neutrófilo, mas era um problema quando a hemácia colocava em risco nutrientes que carregava consigo.
De toda forma, algum tempo depois, as autoridades notaram que – na presença dele ou não – algum vírus sempre a encontrava e tentava matá-la. Sempre. De maneira obstinada até. Pensaram em concentrar todas as forças que tinham entorno dela, fazendo-a ser protegida vinte quatro horas por dia, assim, o corpo estaria protegido de qualquer problema para todo sempre.
No entanto, pensaram melhor e perceberam que o Neutrófilo era suficientemente dedicado à sua causa, por alguma razão que desconheciam. Ou não desconheciam tanto, mas fingiam não perceber a forma que ele sorria depois dela lhe dedicar um pouco de atenção.
Os mais experientes chamaram de amor, mas esse era um sentimento muito vago para as células. As mais jovens, pressupuseram que era o fato do Neutrófilo ser – embora assustador – muito gentil e preocupado com as células a sua volta.
Geralmente, os mais velhos e mais experientes estão certos. Esse não é um caso para exceções. No entanto, nenhum deles realmente poderia ter certeza do que estava acontecendo, só poderiam pressupor enquanto, num beco afastado da rua principal, sentados em um banco, os dois conversavam sobre o dia.
Ela falava e ele ouvia, na verdade.
— E hoje eu finalmente não me perdi quando cheguei perto do coração, acho que só consegui isso graças a você, Hakkekkyuu-san. — disse, por fim, quando acabou de narrar os acontecimentos do dia, um sorriso nos lábios que não escapava a atenção dele. — Eu pensei em te dar um presente de agradecimento, porque é o mínimo que eu posso fazer depois de tudo.
— Sakkekkyuu-san, você não precisa me dar nada! — exclamou, a voz um pouco enrolada e uma gagueira incomum. No mesmo instante, sacolejou as mãos no ar, tentado a impedi-la, por mais que suas bochechas coradas mostrassem outra coisa. — É o meu trabalho poder ajudar todos que precisam da minha assistência.
— Mas acho que eu venho precisando demais dela, não?
Não era proposital a tristeza da agente, obviamente, porém, ficava nítido o quanto se sentia incomodada por sempre depender demais dos outros. Qualquer indivíduo que desejasse independência, mas fosse incapaz de consegui-la, provavelmente, sentir-se-ia do mesmo modo.
— Isso não me incomoda, na verdade — ele murmurou em resposta, fazendo-a encará-lo com surpresa. Por mais cabisbaixa que estivesse, a AE-3803 ficava concentrada e mudava sua expressão só de ouvi-lo falar. — Não é só porque é meu dever, Sakkekkyuu-san, eu realmente gosto da sua companhia, porque, pelo menos você, você gosta de estar perto de mim, as células não...
Por um momento, ninguém pensou que ela pudesse interromper o silêncio que habitava entre eles. Contudo, isso não a impediria em nenhum momento de ficar estarrecida com o fato de que outras células não viam o quão incrível era o agente U-1146.
Segurando-lhe as mãos entre as suas, as bochechas coradas e a expressão altiva, a agente se pôs a falar efusivamente:
— Eles não sabem o quão incrível você é, Hakkekkyuu-san! — quase gritou a sentença. — Você é alguém incrível, a sua capacidade para encontrar seus inimigos é melhor do que a de qualquer outra célula protetora do sistema inteiro! Você também é gentil, educado e muito mais prestativo do que até a senpai. Não que eu queira que ela saiba disso, porém, se não fosse você, eu tenho certeza que não estaria viva hoje. — Ela pressionou mais ainda as mãos dele, segurando-as firmemente entre os dedos femininos. — Sem você, eu...
As bochechas coradas da agente AE-3803 não passaram batidas nem mesmo para o Neutrófilo sorridente a sua frente. Ele poderia não imaginar o que se passava na cabeça dela, mas as autoridades – as mais velhas – suspiraram docemente quando observaram-na abaixar a cabeça. O coração dela provavelmente estava muito acelerado.
Um dos agentes, então, desligou o aparelho, pois até mesmo eles admitiam que, às vezes, desejavam escapulir. Não era certo ficar vigiando quando duas células, tão diferentes entre si, queriam um pouco de privacidade.
Todo mundo merece escapulir e não ser descoberto por isso, não é mesmo?
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