Hazel & Sammy
3 Capítulo 2
Notas iniciais
Por alguns terríveis momentos, Sammy pensou que não era mais capaz de respirar.
Há muitos anos atrás, antes mesmo de Sammy completar cinco anos, seu avô, Manuel, o levara a uma praia, com o intuito de ensinar-lhe a nadar.
Os Valdez sempre acharam que o único jeito correto de se aprender era na prática e, consequentemente, no erro. Portanto, Sammy fora atirado no mar pelo seu avô, com a frase “Apenas tente não se afogar!” como instrução.
Na ocasião, o menino sentira como se todos os membros do seu corpo gritassem por oxigênio. A sensação era de sufocação, enquanto se debatia debilmente, tentando a todo custo voltar à superfície. Era como se seu cérebro estivesse sendo inundado, junto com seus pulmões. Sammy perdera a capacidade de raciocínio, e fora naquele momento que seu instinto de sobrevivência viera à tona. Em vez de se debater, ele ficara imóvel, jogando a cabeça para trás. Logo, estava boiando, com o ar fresco invadindo seus pulmões.
O que Sammy sentia agora era dez vezes pior do que a sensação de afogar-se. Era como se um gancho invisível estivesse o puxando para as profundezas, e o pior era que ele não sentia necessidade de lutar contra ele. Queria ser levado para longe dali, queria afogar-se em paz...
Mas um soluço o despertou. Olhando para o lado, seus olhos encontraram outros olhos, antes dourados e brilhantes, mas agora vermelhos e inchados, debulhando-se em lágrimas. Soube naquele instante que não poderia perder a cabeça, acontecesse o que acontecesse.
Bem devagar, começou a se aproximar da mãe.
Apoiando a cabeça de Constancia em seu colo, Sammy posicionou o ouvido em seu peito esquerdo.
Mas, em lugar de um alto e rápido tum tum,Sammy não ouviu nada.
***
Hazel daria qualquer coisa para estar no lugar de Constancia.
A menina não acreditava nem por um segundo que a morte da mãe de Sammy fora súbita e sem motivo. Sabia muito bem que aquele diamante não estava ali em vão. Mais uma vez, sua maldição tinha tirado a vida de uma pessoa inocente.
Como Hazel fora tão burra?Como não vira que deixara um diamante no quarto de Sammy?
A menina levantou a cabeça, olhado para Sammy. Se Hazel não o conhecesse como o conhecia, não teria o reconhecido. Seus olhos estavam sem nenhuma expressão, fixos em algum ponto aleatório. A energia ansiosa que o menino transmitia havia se extinguido por completo. Sua boca estava aberta em um ângulo estranho, como se um fio imaginário a pendesse para o lado.
Tudo aquilo era culpa dela.
–Sa-sammy... –ela disse, quase inaudivelmente- E-eu, sinto muito, é... é tudo culpa minha!
–Não seja ridícula –ele disse como se estivesse em transe- por que seria sua culpa?
Hazel soluçou baixinho. Escondera aquilo de Sammy por anos, receosa do que o menino poderia pensar. Não é todo dia que você chega para alguém e diz “Olá único amigo que eu tenho. Sabia que eu tenho o poder de fabricar pedras preciosas quando eu quero? Ah, elas vem com uma maldição fatal, mas quem liga? A gente vê isso todo dia, certo?”.
Mas Sammy merecia saber. Hazel não se importava se ele passasse a ignorá-la. Não era certo esconder a verdade dele.
Então ela contou o que nunca contara para ninguém. Contou como uma menina comum, de cabelos castanho-dourados muito cacheados descobriu que tinha o poder de produzir pedras preciosas. Contou como a mãe da menina pela primeira vez reparou nela. Contou como a menina abusara do luxo por vários meses. Contou como a garota nunca vira sua mãe tão feliz. Contou como, um dia um homem com distintivo apareceu na porta da menina. Contou sobre o choque da menina ao descobrir que era amaldiçoada. Contou como a garota fora perseguida pelos seus colegas. Contou como, um dia, um menino de cabelos cacheados e sorriso travesso aparecera em sua vida e a dera um novo valor. Contou, por fim, como a menina jurara nunca falar daquela maldição para ninguém.
Sammy ouviu tudo muito atento, mas sua expressão não se alterou nem por um segundo. Quando Hazel acabou de falar, ele apenas ficou encarando-a.
A menina nunca se sentira tão desesperada em toda a sua vida. Abaixou a cabeça, incapaz de olhar nos olhos de Sammy. Lágrimas escorreram pelas suas bochechas.
Depois do que pareceram muitos séculos, Sammy disse:
–Entendo.
Hazel levantou a cabeça tão rapidamente que estalou seu pescoço.
–Entende? –ela perguntou.
–Entendo –Sammy respondeu- Isso deve estar sendo tão doloroso para você quanto está sendo para mim.
–M-mas Sammy –Hazel soluçou com a voz embargada- Sammy, você não entendeu! Isso tudo é culpa minha! Sua mãe ainda estaria aqui se não fosse...
–A Maldição –Sammy a cortou- E não é sua culpa se você a tem.
–Não, não é –Hazel concordou- Mas é culpa de alguém.
De repente, uma raiva muito intensa tomou conta da menina. A única coisa que ela sabia era que queria estar cara a cara com a pessoa que a fizera daquele jeito, com a pessoa que infernizara sua vida, com a pessoa que matara Constancia e que deixara seu melhor amigo naquele estado. Queria dizer umas poucas e boas para ela.
Hazel sentia sede de vingança. Alguém pagaria pela morte da mãe de Sammy e de muitas outras pessoas inocentes. Ela faria alguém pagar.
Então, de repente, tudo ficou preto.
***
Quando abriu os olhos novamente, Sammy não se encontrava mais na oficina de sua mãe.
Estava em pé em frente a um grande e suntuoso palácio negro. O chão era coberto de ossos empilhados. Sammy se perguntou, mesmo sem querer saber a resposta, de onde eles viriam. À sua esquerda um estreito e turbulento rio negro se agitava. O garoto não sabia o porquê, mas, ao olhar para o rio sentiu uma imensa vontade de pular nele. Desviou rapidamente o olhar. Tinha a estranha sensação de que não deveria estar ali.
Hazel estava ao seu lado, parecendo tão atordoada quanto ele.
–Onde nós... –Ela perguntou.
Mas, nesse momento, uma outra figura se aproximou. Vestia um capuz negro que cobria todo o seu corpo. Levava uma espécie de cajado em sua mão, e Sammy não queria saber o que aquilo era capaz de fazer. De súbito, a figura ergueu os olhos para ele.
Sammy sufocou um grito. Estava olhando para órbitas vazias e escuras, situadas no meio de uma cara que era apenas feita de ossos.
–Bom-dia –disse o esqueleto com um sorriso malicioso- Têm horário marcado?
–Ah, hum... –Sammy respondeu- Temos, claro.
–Não minta para mim, filhote de deus –o esqueleto resmungou. Então, virou-se para Hazel- Ah, sim. Perdão, senhorita, não tinha a visto. Com certeza o senhor irá recebê-la. Já esse aqui...
–Não! –Hazel exclamou- Ele está comigo.
Sammy percebeu que Hazel fazia tanta ideia quanto ele do que estava acontecendo, mas estava tentando salvar sua pele.
–Sim, sim, estou com ela –ele respondeu, erguendo os braços- Vai com calma, cara.
–Hunf –fez o esqueleto, mas mesmo assim conduziu os dois para o palácio.
Toda a decoração tinha sido feita com ossos. Desde o rodapé até os detalhes do papel de parede. Sammy não gostava nada da ideia de entrar na casa de um maníaco por crânios.
Depois de passarem por muitas salas, finalmente pararam à porta de uma delas.
–Deixo vocês aqui –o esqueleto informou, sorrindo diabolicamente- Boa sorte. Acreditem em mim, vocês irão precisar.
E, dando uma enorme gargalhada, retirou-se, deixando Sammy e Hazel sozinhos em frente à porta.
Os amigos se entreolharam, e, respirando fundo, Sammy girou a maçaneta.
Se encontravam em uma sala grande e espaçosa, e, em seu centro, reluzia um grande trono, negro como o rio que Sammy havia visto.
Uma figura de cinco metros de altura se sentava no trono. Tinha os olhos e os cabelos muito negros, contrastando com a cor do elmo que usava em sua cabeça. Ao olhar para ela, Sammy sentiu um medo inexplicável. De repente, se afogar no tal rio pareceu-lhe uma ótima ideia.
–Bem vindos –disse Plutão- Ao Hades.
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