Sammy's PoV

Acordei com muita dor de cabeça. O cheiro forte de comida fazia meu estômago roncar, o ar quente era difícil de respirar e minha boca seca praticamente clamava por água. Tentei abrir os olhos, mas a claridade me incomodou. Infelizmente, não podia simplesmente ficar de olhos para sempre, por isso os abri de uma vez. A luz ambiente me incomodou, mas logo me acostumei.

Obriguei meu corpo dolorido a se sentar no sofá. Eu estava na sala da base Shane. Massageei as têmporas, tentando lembrar o que tinha acontecido.

– Dormir na garagem, fábrica de mechas, — fui tentando relembrar o que tinha acontecido — batalha contra El Diablo Nacho...

É. Era o máximo que eu conseguia lembrar.

Olhei em volta e notei que Spectro não estava comigo. Tentei fazer contato mental, mas nada. O pânico percorreu meu corpo. Os caras do Black teriam...?

Levantei do sofá com um salto, correndo pela sala a procura de Spectro. Foi quando alguma coisa me segurou.

– Não! Me solta! — gritei, me esperneando desesperadamente.

– Calma! — ouvi a voz de Kord. Os outro três tinham saído de seus quartos para ver o que estava acontecendo.

– Não! Minha lesma... — continuei me debatendo.

– Essa? — Eli apontou para o próprio ombro, onde Spectro estava dormindo profundamente.

Parei de me debater na hora. Eu sabia que era Spectro. Por isso eu não conseguia encontrá-lo. Ele estava dormindo.

Kord me colocou no chão. Na mesma hora corri na direção de Eli e tomei minha enigmo dele. Assim que o toquei, Spectro acordou. Estava elétrico. Ele fez uma pequena pausa e perguntou.

– A quanto tempo não comemos?

– Não sei. — respondi, sentindo meu estômago roncar — Dormimos por quanto tempo?

– Quase três dias. — respondeu Trixie.

Na mesma hora, Spectro começou a protestar. Se tinha uma coisa que ele detestava tanto quanto o Black era ficar sem comer.

– Spectro! — falei surpresa — Mas que boca suja foi essa?

Ele abriu um sorriso tímido e deu de ombros como quem pergunta se ainda há tempo para se desculpar. Ri dele.

– Claro. Mas vai ficar sem sobremesa.

Fiz carinho em sua cabeça e comecei a descer a escada.

– Você... Entendeu o que ele disse? — ouvi Trixie perguntar.

Congelei no mesmo lugar. Eu tinha esquecido que não estava sozinha com Spectro. Virei é observei os quatro membros da Gangue Shane me encarando boquiabertos.

– Não. — respondi — Por que acha isso?

– Porque eu nunca vi ninguém se comunicar tão bem com uma lesma.

Encarei Spectro. Ele apenas sacudiu positivamente a cabeça.

– Eles já desconfiam mesmo.

– Mas...

– Sem mas. - ele guinchou – Tem que aprender a confiar nos outros. Se eles quisessem nos machucar, teriam deixado Black nos pegar.

Suspirei. Ele estava certo.

– É melhor vocês se sentarem. É uma longa história...

Fiz sinal parar que os quatro me seguissem até o sofá da sala. Pronto foi para a cozinha, preparar algo para eu comer. Eli buscou um copo de água para mim. Eu o virei goela abaixo.

– Eu sei que não confiam em mim. — eu disse tensa — Sinceramente, também não confio em vocês. Mas isso é um voto de confiança, muito provavelmente o maior que já dei a alguém...

– Mas então... Você realmente entende sua enigmo? — perguntou Trixie

– Sim. — respondi simplesmente — Eu consigo.

– Você... Como você consegue? — perguntou Eli.

Lancei um último olhar para Spectro, como se perguntasse se continuava ou não a contar. Ele apenas assentiu com sua cabeça. Suspirei.

– Digamos que minha relação com Spectro é bem mais que uma relação entre lesma e lançador.

– Não vai dizer que está apaixonada por sua lesma, vai? — perguntou Pronto.

– Claro que não! — retruquei. Como aquele toperoide era bobo — Existe uma habilidade numa lesma enigmo conhecida como "Aura de Lesmas".

– Conheço essa habilidade. — disse Eli — Eu a uso...

– ... para verificar quais lesmas são compatíveis para um ataque fusão. Eu sei. — completei a frase de Eli, deixando-o com cara de bobo — Voltando, essa habilidade permite que a enigmo sinta o que as outras lesmas sentem e pensam, permite que ela saiba os segredos mais profundos e blá blá blá. Se a lesma enigmo e seu lançador tiverem... confiança suficiente um no outro, eles podem compartilhar dessa habilidade. É um caso incrivelmente raro.

– E... é o seu caso, não é? — perguntou Kord.

Não era preciso dizer nada. Apenas abaixei a cabeça, ainda na dúvida se tinha tomado a decisão certa ao contá-los.

– Tente se acalmar. — Trixie me deu alguns tapinhas reconfortantes nas costas — Você fala como se isso fosse uma coisa ruim.

– Em certas partes é. — retruquei. Spectro na mesma hora começou a guinchar — Não fale assim, você sabe que é. A verdade é que nunca sabemos o que pode acontecer conosco. Até uns três dias atrás eu nem sabia que podia receber o impacto de um ataque daqueles. Eu sei os segredos mais peculiares e sujos dos outros, coisas que eu não gostaria de saber. Spectro sabe que ele é uma lesma que eu não trocaria por nada nesse mundo, mas às vezes é difícil.

– Não pode ser tão ruim assim. — Kord falou.

– Não? — perguntei sarcástica — Então vamos lá. Kord, você é o primeiro ogro das cavernas que resolveu trocar a vida de mecânico para se tornar um lançador de lesmas. Trixie, você fugiu de casa com doze anos e aprendeu a se virar sozinha para defender sua aldeia dos capangas do Black. Pronto, você é o rei dos toperoides e odeia seu título. E nem preciso lembrar que você, Eli, veio do Mundo Ardente. Ou seria Superfície?

Como eu imaginei, os quatro ficaram quietos. Eli era o mais surpreso de todos. Mas também, seu segredo era o maior de todos.

– Não se preocupem. Não pretendo sair por aí espalhando os segredos de vocês. Só espero que vocês também não espalhem o meu.

Me levantei, dando um fim àquela conversa. Era o bastante por um dia. Olhei para Spectro, que apenas me mandou aquele olhar que diz que você fez o certo. Pouco antes de entrar no quarto, alguém me chama.

– Mas... Você não tinha dito que o Black queria transformar Spectro numa lesma fantasma? — Eli perguntou e eu concordei com a cabeça. Ele tinha sido o único a notar — Então... O que aconteceria com você?

– Eu realmente não sei. — eu disse enquanto abria a porta e me trancava no quarto.

Eli's PoV

Parecia loucura. Eu conhecia Samantha a menos de uma semana e ela já sabia inclusive que eu não era de Slugterra.

Ficamos todos estáticos no sofá quando ela saiu do quarto apenas para dizer:

– Ah... Podem me chamar de Sammy. Eu acho...

E bateu a porta outra vez.

– Bom, — disse Kord ajeitando o capacete — pelo menos agora sabemos que podemos confiar nela.

– É. — concordei — Eu acho que sim...