Haven't we met?
2 Capítulo 2
Darcy Williamson viu sua afeição pelo Brasil renascer pouco tempo após chegar no país. O inglês havia se mudado para as terras tupiniquins há cerca de um ano, junto a sua irmã Charlotte e seu pai, que tinha planos de iniciar a construção de uma ferrovia que ligava o Vale do Café, cidade do interior do estado, à capital. A cada dia que passava, Darcy se lembrava como aquele era um país acolhedor e, apesar do clima bastante quente e de algumas burocracias para iniciar novos negócios em São Paulo, a instalação das empresas da família já estava encaminhada. Sua rotina começava a normalizar e, assim, ele pôde visitar pontos turísticos da cidade, relembrando como amava aquele país.
Praticamente todas as suas lembranças do Brasil envolviam sua falecida mãe, brasileira, que ensinou Darcy e Charlotte a falar português ao mesmo tempo em que aprendiam inglês. Ela havia sido uma mulher encantadora, considerava seu marido e seus filhos seus maiores tesouros, de modo que a família sempre foi muito unida. Eles se mudaram para o Brasil quando Darcy tinha 13 anos, pouco tempo após sua mãe descobrir uma doença terminal. Ela desejava passar seus últimos momentos de vida onde nascera e fora tão feliz, mas desfrutou de sua terra natal por poucos meses antes de sucumbir à morte. Após o período de luto, Darcy retornou à Inglaterra para iniciar seus estudos em Eton, renomada escola para garotos.
Darcy não havia retornado ao Brasil desde então. Se formou na Universidade de Oxford e, por possuir certo tino com negócios e empreendedorismo, tomou frente das decisões referentes aos negócios da família. Assim, quando seu pai lhe apresentou uma proposta de criação de uma ferrovia que ligava o um importante município produtor de café a São Paulo, em parceria com Julieta Bittencourt, sócia brasileira dos Williamson, Darcy achou o projeto promissor. A família inglesa decidiu, então, se mudar para o Brasil para dar início às obras. Seu pai se encarregou dos trâmites no Vale do Café e Darcy permaneceu em São Paulo para lidar com outras questões burocráticas.
Ao se deparar com uma São Paulo maior e mais moderna do que a que se lembrava, ele estudou e percebeu a viabilidade de abrir no país filiais de empresas da família, entre elas um jornal que havia inaugurado há seis meses, onde ele atualmente passava a maior parte de seu dia. Ele sempre se interessou pelo ramo, uma vez que gostava de se manter informado e considerava os jornais importantes meios de comunicação.
Darcy sacudiu a cabeça para afastar as divagações. Precisava refletir sobre os próximos passos que deveria dar para consolidar a importância da gazeta na cidade, mas encontrava dificuldade em se concentrar. Passou a tarde preparando a lista de questões que deveriam ser abordadas nas entrevistas com os candidatos às vagas de colunista que aconteceriam ao longo do mês, conduzidas por Charlotte, que resolveu participar dos negócios da família ao se mudar para o Brasil.
Decidiu que não conseguia pensar em outras questões a serem acrescentadas e entregou o papel a Charlotte, para que ela desse suas sugestões. Convidou-a para ir a uma casa de chá que ele ainda não conhecia, mas, segundo sua secretária, se encontrava a três quarteirões do jornal. A irmã se recusou, alegando que preferiria trabalhar no planejamento das entrevistas.
Darcy caminhou até a casa de chá. A fachada do comércio não lhe era estranha, ele constatou ao observar a construção pintada de rosa. Franziu o cenho, imaginando que se tratava de um déjà-vu, mas quando entrou no local, surgiu um aperto em seu peito. De repente percebeu onde estava. Era o último lugar que sua mãe havia visitado antes de receber orientações médicas para não sair mais de casa. Darcy estava com Charlotte e sua mãe na ocasião, felizes por encontrar um lugar que vendesse uma grande variedade de chás, inclusive os consumidos pelos Williamson na Inglaterra. Sua mãe então se sentiu mal, sendo praticamente carregada por Darcy até a clínica de seu médico, que não era longe.
Ele se sentiu atordoado ao observar o local. A cor, as decorações, os móveis – tudo estava inalterado. À sua cabeça lhe vieram diversas memórias envolvendo sua mãe e Darcy sentiu a necessidade de se sentar na cadeira mais próxima que encontrou.
Uma jovem atendente se aproximou de sua mesa, e disse com voz animada:
— Boa noite, senhor. Seja bem vindo à casa de chá. Como posso servi-lo hoje?
Darcy a ignorou, pois sequer escutava o que a moça dizia, tão absorto que estava em seus próprios pensamentos. E então a moça prosseguiu:
— Temos em nosso cardápio, além do chás tipicamente consumidos no Brasil, infusões de origem britânica e indiana. Mas, para enfrentar este calor ininterrupto, recomendamos o chá gelado de hortelã com morango; é uma mistura realmente deliciosa. Gostaria de experimentar?
Darcy sentia que precisava de um tempo só para enfrentar aquela estranha sensação de relembrar a última vez que esteve com sua mãe fora de casa, quando a bela mulher ainda mostrava tanta vivacidade. Sua educação, jamais negligenciada pela família, lhe sugeria que agradecesse a moça e que se fosse do local, mas ele se encontrava atordoado demais para se levantar. E então respondeu à moça que, ele percebeu vagamente, usava um vestido vermelho e possuía cabelos castanhos claros:
— Earl grey. — Ele precisava tomar o sabor de chá preferido se sua mãe, mas não foi capaz de formular uma frase inteira.
A moça entendeu e se afastou. Quando ela voltou com o chá, perguntou-lhe se ele gostaria de algum quitute para acompanhar a bebida. Novamente Darcy ignorou sua pergunta, e então ela baixou a voz e indagou:
— O senhor se encontra bem?
Ele sequer olhou para ela quando, exalando um cansado suspiro, contestou rispidamente:
— Quero ficar só. – Não havia sido sua intenção ser rude com a moça que estava apenas sendo gentil, mas ele precisava de um tempo para si, para colocar em ordem seus pensamentos, pois a saudade que sentia de sua mãe, ele percebeu, era sufocante. A moça não saiu do lugar e, após alguns segundos, disse algo que ele não compreendeu. Ele se virou para ela, a confusão clara em seu olhar, mas seguia sem dizer nada. A vontade de ficar sozinho com suas lembranças drenava sua paciência naquele momento. Ela respirou fundo e exclamou:
— Acredito que, em nome da civilidade, o senhor deveria se esforçar em praticar gentileza e boa educação para com os demais. – Darcy sabia que ela tinha razão. Ele tentou conter sua indelicadeza. Estava prestes a pedir perdão para ela e agradecer por ela ter sido tão atenciosa, quando ela se virou e sumiu dentro do estabelecimento.
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Elisabeta havia se mudado para São Paulo há três dias. Após se inscrever no processo seletivo da vaga de colunista de um jornal de São Paulo e enviar textos de sua autoria para serem analisados, a jovem passou as próximas semanas bastante ansiosa pela resposta, que alimentaria ou frustraria seus sonhos. Quando foi até o correio e percebeu que havia chegado uma carta do jornal, se dirigiu à casa de chá de Dona Ágatha para ler o conteúdo. Descobriu que havia sido aprovada e não conteve a felicidade antes mesmo de terminar de ler. Abraçou o pedaço de papel e agradeceu aos céus. Ao se acalmar, finalizou o conteúdo e seu sorriso se esvaiu parcialmente. A carta dizia também que, caso se interessasse em participar das próximas etapas, deveria ir à São Paulo em um mês para realizar uma entrevista com a chefe do Departamento de Gestão de Pessoas e, caso fosse aprovada, fazer testes de datilografia, inglês e francês — o jornal possuía edições internacionais e consideravam importante que autores pudessem traduzir os próprios textos para manter a fidelidade das ideias, além de participarem de convenções que eram promovidas anualmente na Europa.
Em relação à datilografia, ela não possuía experiência alguma. Não conhecia ninguém que fazia uso de máquina de escrever, de modo que não tivera a oportunidade de praticar. Todos os textos que começara a produzir desde que era criança foram escritos a mão, uma vez que sua família não poderia arcar com os custos do instrumento.
Os idiomas eram, em sua opinião, um problema menor, mas ainda existente. Quando era criança, por quase quatro anos teve uma governanta que falava inglês e francês. Devido ao encantamento que Elisabeta sempre teve por palavras, a mulher lhe ensinou a ler e escrever estes idiomas com fluência antes de sua família dispensar seus serviços. Elisabeta pôde continuar praticando francês nos anos seguintes, uma vez que Ema convidava a amiga para participar das aulas que tinha toda semana. No entanto, a governanta da amiga não falava inglês, e embora Elisabeta se empenhava em praticar por meio da leitura, sabia que não podia mais ser considerada fluente. Não tinha com quem conversar em inglês, e então havia esquecido a pronúncia de muitas palavras. Estes empecilhos, entretanto, jamais a impediriam de continuar tentando, Elisabeta decidiu.
Ágatha, dona do estabelecimento onde a Benedito mais velha lia a carta, havia notado o misto de emoções e dúvidas que estavam explícitas em seu rosto, e demonstrou com palavras sua preocupação. Elisabeta contou a ela o que estava acontecendo e compartilhou sua dúvida em relação ao que fazer. Tinha um mês para ir a São Paulo e, nesse meio tempo, gostaria de treinar datilografia e inglês, embora não soubesse como. Não podia pedir dinheiro a seu pai, pois a família possuía poucos recursos. Ágatha perguntou a Elisabeta se a jovem não teria interesse em trabalhar temporariamente na matriz de sua casa de chá em São Paulo, administrada por sua irmã Clarisse. Sua única funcionária havia pedido demissão para se casar e precisavam entrevistar outras moças para o cargo para ajudar Clarisse a atender e servir os clientes; enquanto não o faziam, Elisabeta poderia passar um mês trabalhando para conseguir algum dinheiro para colocar em prática seus planos. Ágatha lhe informou que o salário era modesto, mas por conhecer sua família e saber que Elisabeta era comprometida, poderia lhe pagar adiantado.
Elisabeta ficou radiante com a proposta e aceitou prontamente. No mesmo dia, já havia conversado com seus pais sobre a viagem que iria fazer. Embora não tivesse o consentimento de Ofélia, que não aprovava as escolhas impróprias para uma moça de família de sua primogênita, seu pai e suas irmãs deram a ela todo o apoio emocional que precisava. A despedida da família foi muito difícil, e Elisabeta desconfiava que vira inclusive sua mãe derramar uma lágrima. Ema não aceitava que fosse perdê-la para um emprego.
— Ao menos se fosse para um marido, Elisabeta! — Ema disse antes de se jogar nos braços da amiga para abraçá-la.
Elisabeta confortou todos, dizendo que a despedida era apenas um “até logo”, pois não deixaria de escrever cartas e, assim que tivesse seu futuro definido, voltaria à sua terra natal para matar a saudade e informar sobre seus próximos planos.
Três dias depois de receber a resposta do jornal, ela já havia se instalado em São Paulo, em um cortiço próximo à casa de chá cujo preço do aluguel era bastante acessível. Ela comprou uma dúzia de jornais para procurar anúncios de tutores de inglês e datilografia, embora não encontrou nenhum nos primeiros dias.
Elisabeta se encantou pela diversidade e modernidade que havia em São Paulo: tantas pessoas com inúmeras histórias para contar; diversos carros que permitiram às pessoas transitar por toda a cidade, que era enorme!; tantos comércios e produtos advindos do mundo inteiro. Apesar da saudade que sentiria do Vale do Café, Elisabeta suspeitava que adoraria viver em uma cidade grande. Era o primeiro de tantos lugares que conheceria na vida, ela dizia a si mesma.
Sua única decepção em relação a São Paulo era a indiferença de muitas pessoas, o que era um contraste com o Vale do Café. Muitos indivíduos passavam uns pelos outros sem sequer notar que havia alguém próximo, sem desejar um “bom dia”. Para Elisabeta, que sempre vivera em uma cidade acolhedora e onde conhecia todos, era estranha aquela individualidade.
Era seu primeiro dia de trabalho, e Elisabeta já havia notado que grande parte dos clientes pareciam sempre ter demasiada pressa para ter seu pedido atendido para que pudesse ir embora rapidamente, e muitos deles sequer olhavam para ela. Elisabeta inventava histórias para justificar a correria daquelas pessoas, imaginando que algumas delas tinham compromissos de trabalho e outras não aguentavam de saudade da família: queriam logo correr para dar um abraço nos filhos.
O fim do expediente se aproximava, e Elisabeta se dirigiu para o interior do balcão para organizar as embalagens de chás recém-chegadas da Europa, prosseguindo com seus devaneios. Ela imaginava que, se fosse difícil fazer amizades na cidade, seria igualmente difícil se adaptar à solidão de São Paulo, apesar de que este preço seria pequeno se ela realmente conseguisse trabalhar num jornal, se pudesse se expressar, se pudesse começar a construir sua vida de maneira independente… se pudesse ter certeza que o amanhã chegaria, e este amanhã traria aventuras, lugares diferentes, pessoas diferentes. Gostaria de viajar o mundo, e só de imaginar já se animava.
Em meio a seus pensamentos, Elisabeta avistou um homem bastante alto, de olhos verdes e cabelos pretos, adentrar o estabelecimento. Ele possuía uma beleza estonteante, ela percebeu, mas parecia alheio ao seu redor e possuía um semblante fechado, com as sobrancelhas franzidas. “Espero que tanta beleza não seja desperdiçada em uma personalidade sisuda”, ela pensou.
Ela se aproximou dele com seu melhor sorriso para se dispor a servi-lo, informando sobre o cardápio do estabelecimento, mas, após ser ignorada constantemente e receber respostas cortadas e pouco corteses, mesmo após sua tentativa de fazer um bom atendimento e se preocupar com seu bem-estar por conta de seu olhar distante, disse em voz baixa:
— A amargura do café combinaria melhor com seu humor. — Ela percebeu que ele não entendeu o que ela disse, pois ele a olhou com um olhar confuso, mas severo e gélido. Elisabeta não se conteve e prosseguiu, falando claramente:
— Acredito que, em nome da civilidade, o senhor deveria se esforçar em praticar gentileza e boa educação para com os demais. — e se virou, mordendo sua língua ao se dar conta que não deveria dar lições aos clientes. Precisava daquele trabalho para conseguir pagar as aulas que procurava. Ágatha e Clarisse haviam sido muito gentis ao depositar tanta confiança nela; Elisabeta não poderia decepcioná-las por não se conter diante de indelicadezas.
Ela entrou na dispensa no estabelecimento para se acalmar, onde encontrou Clarisse. Perguntou-lhe se poderia atender o cliente que havia acabado de chegar, pois ele não parecia querer ser atendido por ela. Clarisse respondeu afirmativamente e saiu. Ao retornar, disse:
— Ele já se foi. Tomou pouquíssimo de seu chá, me agradeceu e deixou um pagamento bastante generoso em cima da mesa.
E então Elisabeta desejou jamais voltar a cruzar com aquele homem tão bonito, mas tão sisudo.
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