Have you seen Chris?
7 Capítulo 7: Não posso te amar
Notas iniciais
BIP, BIP, BIP! O despertador tocava alto e irritante. Pelo o que pude ver no relógio, eram seis horas da manhã e eu tinha poder de teletransporte. Olhei em volta, ou Ben tinha reformado a varanda da saída de incêndio ou eu tinha poderes mágicos. Torci para que fossem poderes mágicos.
Reparei onde estava. A cama era macia, os inúmeros lençóis brancos faziam o leito ostentar ares de realeza, bom, tendo em vista o que eu conhecia como quarto. O algodão puro da roupa de cama fazia carinho em meus tornozelos. Era o quarto de Ben. De novo. Daqui a pouco os vizinhos começam a falar. A droga do despertador continuava a apitar, dei uma cacetada no relógio, eu o odiava por me tirar daquela ótima nuvem em que eu dormia e me lembrar que eu tinha aula.
一 ÂRRF! Quero dormir pra sempre!
Joguei a cabeça e os ombros pra trás, ainda deitada, me espreguiçando. Enverguei as costas. Era muita preguiça pra uma pessoa só.
一 Bom dia pra você também, Florence.
Ben entrou rápido no quarto sorrindo. Tinha as mãos atrás das costas. Ele estava de pijamas. Não o mesmo daquela noite, mas parecia igualmente confortável. A calça era azul marinho e tinha uns minúsculos losangos brancos. O tecido da veste era refinado, provavelmente era coisa de Marisa. Benjie se vestia bem, mas cetim era exagero. Senti meu rosto aquecer, acho que fiquei ruborizada: Ben me encontrou toda contorcida na cama, que cenazinha mais ridícula.
一 Brendon, seria interessante você me explicar como eu vim parar aqui, não acha? 一 Disse, me ajeitando na cama e sentando.
一 Primeiro você me diz onde você faz aula de contorcionismo. Sua professora tá de parabéns.
Sorri sonolenta. Se referia a minha pose risível de quando ele entrou no quarto. Tirou as mãos das costas e revelou uma de suas prímulas azuis da varanda e a colocou em meu cabelo.
一 Azul como seus olhos. Que lhe traga toda felicidade que você precisa. 一 Ele disse sério e delicado.
一 Obrigada. E-eu não sei nem o que dizer.
Ele era realmente muito bom pra mim.
一 Então não diz nada, ué. As prímulas também são usadas para simbolizar votos, votos de amizade. Daqui pra frente, quero que você sempre conte comigo, Florence.
一 Você é muito especial. Agora entendo nossa conversa de ontem… Você merece alguém como você. 一 Ele sorriu com os lábios cerrados, seus olhos eram sinceros e contentes.
一 Bom, chega de mimimi. Vamos comer! 一 Ele ergueu os braços e fez uma dancinha estranha.
一 Yep, QUEIIIIIIJO. 一 Cantarolei freneticamente e segui o garoto e seu pijama de cetim.
O café da manhã estava saboroso. Mais uma vez terminei com todo o suco de uva da casa dos Brendon. Tentava ficar arrependida, mas era o melhor suco do mundo! Conversamos por uns quinze minutos e depois fomos nos arrumar para a faculdade. Fui até o estacionamento com Ben para buscar minhas bolsas que tinham ficado no carro. Peguei-as e subimos de volta. Decidimos que eu me trocaria nos Miller. Catherine devia ter ficado preocupada comigo. Quando eu terminasse, nos encontraríamos no corredor.
Estudamos no mesmo lugar. Catherine poderia ir conosco, se quisesse. Fazemos coisas extremamente diferentes no instituto, mas ainda é o mesmo lugar. Cats estuda arquitetura, Ben direito e eu estou no quarto período de literatura. Lembro de quando passamos para a faculdade. Ben começou a fazer engenharia da computação, ele realmente era muito bom com isso, mas, segundo ele, não se via a vida inteira preso atrás de uma mesa consertando bugs de computadores. No período seguinte, ele trocou pra direito e parece estar gostando muito. Ainda acho que ele seria mais feliz fazendo relações internacionais como seu pai, mas quem sou eu pra decidir isso?
Entrei no apartamento dos Miller, Diego parecia uma minhoca deitado, ou melhor: estirado, no sofá com meias azuis com verde neon misturadas a um inusitado e nada maduro pijama laranja de patinhos. Ele dormia profundamente, sua mão esquerda estava sobre a testa e pude notar os restos de algo que parecia argila sob suas unhas. O cara era um artista plástico brilhante. Era excêntrico, mas um irmãozão. Passei direto do homem que dormia e segui para o banheiro.
Me olhei no espelho por alguns segundos, a prímula que descansava sobre minha orelha esquerda era, no mínimo, linda. Pensei em como aquela beleza toda podia se esconder em um vaso de plástico marrom, numa varanda desativada da saída de incêndio cinza.
Retirei a flor do cabelo e coloquei-a na bancada com cor de caramelo do banheiro. Tomei banho, penteei-me e coloquei um vestido floral qualquer. A roupa tinha uma alça rendada azul, descia sua extensão se armando e terminava na metade das coxas, tinha um grande corte em formato de coração nas costas que exibia a minha pele e eu gostava desse detalhe. Resgatei minha prímula, peguei minha mochila velha, calcei meus tênis verdes velhos e saí.
Fui em direção ao quarto de Catherine, a porta estava entreaberta. Nunca tivemos segredos uma com a outra, então, resolvi entrar. Aquelas luminárias dos Ursinhos Carinhosos me davam um pouco de agonia, mas ok. O quarto dela era mais colorido do que vômito de unicórnio, tinha a parede rosa bebê cheia de círculos coloridos, um pouco fóbico, nem por isso, porém, deixava de ser agradável.
Cathy estava sentada de costas para a porta em sua cama e não percebeu que eu a olhava. Ela tinha o celular em suas mãos. “ Grande novidade”, pensei. Quando Catherine não estava com seu celular? Ele era quase membro da família. Fiquei espiando da brechinha da porta, com esse furacão todo que anda ocorrendo, acabei deixando minha amiga um pouco na mão. Sinto falta de conversar com ela, de deitar em seu colo, das tranças que ela demorava horas pra fazer no meu cabelo…
一 Eu não entendo o porquê disto tudo. Não sei o que você estava pensando quando a deixou sangrando no corredor sozinha, mas eu te amo. Eu te amei mesmo sabendo que nunca poderíamos ficar juntos, te amei mesmo sabendo que você preferia a Iz. Eu...
Ela iniciou um choro doentio, abaixou a cabeça e afundou o rosto no colchão. A menina parecia um casulo humano prestes a explodir. Eu estava congelada. Pelo corpo curvado, por cima de seu ombro, acabou ficando evidente o que eu tanto temia, era ele: Chris. Do visor do celular, brotava a foto iluminada de Christopher sorrindo. Era uma foto muito bonita, mas parecia ter sido tirada escondida. A paisagem do fundo parecia com o gramado da nossa antiga escola do Ensino Médio.
Não imaginava que ela gostasse tanto assim do Chris, não desse jeito. Reparei várias vezes nela o olhando, mas encarei como um elogio, como se ela aprovasse minha escolha e não como se quisesse que fosse a escolha dela. Ela nunca tentou me passar pra trás, nos ajudou a ficar juntos.
Resolvi não me revelar e fingir que nunca tinha visto aquela cena. Recuei de onde estava, puxei furtivamente a porta para trás para aparentar que nunca havia sido aberta e bati. Bati suave e rapidamente três vezes. Ela não me respondeu. Entrei. Nunca tinha a visto desta maneira. Aonde estavam os arco-íris, a purpurina e os unicórnios quando precisamos deles, afinal? Fui até minha amiga, sentei-me ao lado daquele casulo.
一 Cats…
Ela soluçava, deitou a cabeça em minhas pernas e arranhava minhas coxas com as unhas toda vez que mais uma onda de choro se aproximava.
一 Não acredito, não acredito, não acredito. Eu sinto muito.
Logo percebi que ela desconfiava que eu tinha presenciado toda aquela cena. Era muito sofrimento para ela.
一 Cats, sente muito pelo que? Eu já estou melhor, a cabeça já está cicatrizando. Ben deveria ser enfermeiro. Não é culpa sua você ter ido a uma festinha na hora que eu tinha agendado pra cair de cabeça no chão. Da próxima vez, te mando um e-mail antes, ok?
Resolvi me fazer de desentendida. Catherine era muito leal, nunca me traiu, ela não merecia sentir que estava me esfaqueando pelas costas por gostar de Chris. Quem sabe de quem vai gostar?
一 Ei, o nosso vizinho Hi-Tech, cultivador de flores e sarado nos ofereceu carona para a faculdade. 一 Brinquei.
O choro continuava, mas se abrandava. Respirei fundo, comecei a brincar com seus cachinhos negros e segui minha fala:
一 Poderíamos ir todos juntos. Tomamos um smoothie com o dinheiro que pagaríamos o transporte até lá. O que acha? Nhaaaami, Smoothie de morango. 一 cantarolei.
一 Com bastante calda?
一 Com bastante calda. 一 Eu assenti e ela se levantou para trocar de roupa.
Ouço batidas na porta. “ Ben”, pensei. Deixei a morena se arrumando e desci as escadas. Quando cheguei na sala, Diego já havia aberto a porta e retornado para seu leito, preguiçoso e descabelado. Benjie estava tão ou mais arrumado que ontem: usava uma camisa social acinzentada de manga comprida que estava dobrada na altura dos cotovelos e uma calça jeans escura e justa ( justa demais para o meus gosto, mas como eu bem disse “ meu gosto” e eu não tenho nada a ver com o que ele escolhe). Talvez eu sempre o acharei mais bonito desgrenhado, sendo ele mesmo ao falar de suas prímulas. O rapaz observava curioso e com um riso contido a posição em que Spencer se encontrava no sofá. Tropecei na estante ao lado da escada e fiz mais barulho que pretendia.
一 Izabelle! 一 Ele ironicamente exclamou ao me ver.
一 Iz, por favor. 一 Repliquei.
一 Um nome muito legal para ficar diminuindo, não acha? Enfim, já estamos todos prontos?
一 Mais ou menos. É…
一 Aconteceu algo contigo? 一 Ele me cortou afobado.
一 Não. Comigo está tudo bem. Só estou preocupada com a Cats.
一 Ela tem que entender que a prioridade agora é Chris.
Engraçado o fato de que talvez, para ela, sempre tenha sido.
一 E você, claro. Temos que achá-lo e ficar contigo até que as coisas melhorem. Você é forte, mas você sabe que eu te devo uma. Uma não, te devo eternamente, né?
一 Achei que isso já tivesse sido pago no dia que você foi obrigado a me dar banho enquanto eu estava igual a uma Maria Sangrenta de pano.
Repliquei antes do papo ficar chato, porque já sabia onde tudo isso ia chegar. O rapaz iria começar uma sessão eterna de agradecimentos e eu não achava justo. Independente do que tenha acontecido, ele me ajudou muito ultimamente, não consigo pensar em outra pessoa que fosse capaz de me fazer ficar tão pra cima em alguns instantes.
一 Vamos fingir que esse assunto terminou por aqui, ok?
Suas palavras escondiam um sorriso torto de quem estava se divertindo com o modo cômico que eu tratei um dos momentos mais trágicos da minha história.
一 Ok. 一 Confirmei a sorrir.
一 Mas não é isso que me preocupa na Cats. Não é só um mimo idiota. Ela está realmente mal. É uma história muito tensa, quando ela descer, finja naturalidade, mais tarde te conto tudo. Por hora, basta saber que, antes das aulas começarem, você não só nos levará, como também nos acompanhará na degustação de um maravilhoso smoothie com muita calda.
一 Não me parece tão ruim. Vamos chamar a Cats?
一 Vamos, sim. Deixa sua bolsa aí no sofá.
一 Mas e o Diego?
Ele deveria ter acordado há muito tempo. Peguei sua bolsa e joguei com toda a força o material no homem.
一 Quem liga? Ele tá quase morto. Vamos?
Fomos rindo até a porta da minha amiga. Chegando lá, bati na porta e entrei. Cathy secava freneticamente novas lágrimas que brotavam em seus olhos. Sorri fracamente ao vê-la.
一 Pronta? 一 Perguntei, fingindo que não estava reparando os seus olhos marejados.
一 Sim. Vamos?
Ela finalmente reparou na figura larga que se encontrava debruçada na porta.
一 Oi, Ben!
一 Oi, Miller! Fiquei sabendo que hoje temos smoothie de morango de graça pra moças bonitas. Acho melhor nos apressarmos.
Miller sorriu e, por alguns segundos, pareceu que eu nem ao menos tinha visto aquela cena de logo cedo, parecia uma nova Catherine. Na verdade, parecia a antiga Catherine, a Catherine de sempre. Benjamin fez um sinal galante com a mão para que Cats passasse na frente, a morena sorriu agraciada e o fez. Feito isso, o garoto olhou furtivamente pra mim e piscou, cúmplice, com um dos olhos.
一 Obrigada. 一 Sussurrei baixinho.
一 Damas primeiro. 一 Ele disse com ar de riso, imitando o gesto que havia feito a Cathy, porém mais divertidamente.
Sua voz me fez lembrar o garçom elegante do Orange Boutique, o que me fez rir mais ainda. Passei pelo rapaz que, logo em seguida, me acompanhou até o lugar em que Catherine estava.
Chegando no andar de baixo do apartamento, Ben ficou para trás para pegar sua bolsa. Diego continuava paralisado, dormindo. Parecia estar morto e um morto bem esquisito, diga-se de passagem. Tentei puxar qualquer assunto com Cats.
一 Seth não vem conosco? 一 Perguntei, me juntando a ela.
一 Você conhece o Seth. Deve estar sendo esquisito em outro lugar, não o vejo desde ontem a noite. 一 Minha amiga declarou sobre o irmão.
一 O fato dele não curtir unicórnios e fadas, não faz dele um sanguinário, Miller.
一 Engraçado que você defende, mas prefere andar com o Ben por aí. Acha mesmo que ele não é tão sanguinário? 一 Ela brincou, fazendo caretas, enquanto dava continuidade a sua contrapropaganda do irmão gêmeo.
一 Vocês dois precisam de terapia, amiga. Encare os fatos.
Benjie nos alcançou, pegamos o elevador do Bushwell e nos dirigimos até o estacionamento. O carro de Ben estava estacionado quase ao lado da porta da saída de incêndio, Isto é, agradavelmente próximo a seu paraíso particular. Cats comentou o quão estranho era Ben estacionar o carro em um lugar tão distante e cinzento. O moreno riu carinhosamente para minha amiga e continuou seguindo até o carro. Eu permaneci em silêncio. Ben era do tipo que não fazia nada à toa. O jardim era realmente especial para ele. Seu carro estava estacionado ali porque realmente sempre visitava o lugar que cultivava com tanto carinho. Meu coração se alegrou honrado por ter visitado aquele pequeno paraíso.
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