Três malditas semanas foi o tempo que esperei até que ouvi leves batidas na minha porta que abriu antes que eu dissesse alguma coisa.

Era ela. E o sorriso que ela me deu iluminou a sala. Ela se aproximou da minha mesa sorrindo timidamente e disse:

- Foi muito gentil da sua parte me enviar aquelas flores e o cartão. Como você sabia que jasmim eram as minhas flores preferidas?

A pergunta me fez abrir levemente a boca, o que fechei rapidamente antes que ela notasse. Como eu sabia que jasmim eram as flores preferidas de Hermione Granger?

Respondi meio seco, aquele sentimento era muito novo para mim:

-Achei que as flores combinavam com você. Fico feliz que tenha gostado. E é muito bom te ver de volta. A equipe estava sentindo sua falta.

Eu poderia ter dito que eu estava sentindo falta dela. Eu quase falei, mas primeiro precisava me acostumar com a ideia de que eu, Draco Lucius Malfoy, sentia muita falta de Hermione Jean Granger.

Percebi que o sorriso dela vacilou por um instante. Ela também percebeu e reagiu, recompondo a expressão rapidamente. Ela saiu e eu me peguei pensando o que aquilo queria dizer.


*****


Eram dezesseis horas quando bati na porta da sala dela.

- Entre — a ouvi dizer.

Entrei. Ela estava imersa nos pergaminhos, como eu já esperava.

- Você almoçou? — perguntei, já sabendo a resposta.

- Assim que terminar esse relatório. — Ela respondeu sem levantar os olhos.

Afastei delicadamente os pergaminhos dela e coloquei uma embalagem de comida em cima de sua mesa. Ela me olhou espantada. Era óbvio que estava com fome. Mas teimosa e orgulhosa como era, não sairia da maldita sala antes de terminar o maldito relatório.

- Malfoy — cada dia mais aquele sorriso me encantava. — Comida italiana. — Ela fechou os olhos sentindo o cheiro. — Como você sabia que é a minha preferida?

- Convivência — respondi, simples. — Come enquanto está quente. Se precisar de algo, estarei na minha sala.

Percebi que ela me olhava enquanto eu saía e sorri de lado.

Eu estava começando a entender algumas coisas, Granger. E você não terá nenhuma chance.


*****


Nunca gostei de lugares agitados. Música alta, gente que eu não conheço se encostando em mim.

Mas era o aniversário dela. E não consegui recusar o convite.

Ela havia chegado na minha sala com um sorriso provocador.

- Sábado comemorarei meu aniversário em uma boate em Hogsmeade. Às 22h. Te espero lá.

E saiu sem me dar tempo de responder.

E agora eu estava ali, parado na porta daquele lugar infernal, me decidindo se entrava ou não.

Entrei e fui levado para a área reservada aos convidados de Granger. Pelo menos isso. Os amigos grifinórios dela estavam todos lá: o idiota do Potter, o merda do Weasley e os irmãos detestavelmente ruivos dele. Vi a Weasley fêmea sorrir e cochichar algo no ouvido de Granger e apontar em minha direção. Ela veio sorrindo.

- Malfoy — disse com um sorriso no rosto. — Você veio.

Estendi o presente pra ela e dei um beijo na bochecha, propositadamente perto dos seus lábios. Inspirei o cheiro que veio dela. Eu estava cada dia mais viciado no cheiro de Hermione Granger.

Ela me olhou num misto de espanto e desafio.

- Da forma que me convidou, achei que não tinha alternativas.

Ela riu e segurou minha mão.

- Venha, vamos falar...

- Granger. — A interrompi. — Já conheço seus amigos. Vou até o pessoal do Ministério.

Como eu havia imaginado, ela iria me levar direto aos detestáveis amigos dela. O que ela não havia entendido é que uma coisa era a relação que construímos. E essa relação não se estendia até eles. Vi a boca dela abrir em protesto e sorri. Eu já a conhecia bem demais.


*****


Fiquei ao lado do pessoal do Ministério. E percebi que a área reservada começara a encher. Por que diabos ela precisava ser simpática e conhecer tanta gente? Com raiva, percebi a forma com que metade dos malditos grifinórios a olhavam. Ela parecia uma presa no meio deles.

O primeiro a tirá-la pra dançar foi um dos gêmeos Weasley. O que o Severus fez o favor de tirar uma orelha. Ele a rodopiava pelo salão e depois a abraçava. Perto demais pro meu gosto. A Weasley fêmea passou parte da noite me observando e cochichando com Granger, cheia de sorrisinhos que eu não conseguia decifrar.

Eu odeio toda aquela família de ruivos.

Percebi quando a música agitada se transformou em algo mais calmo. Os casais começaram a se juntar na pista. Observei de longe o momento em que o merda do Weasley puxou Granger para dançar. De onde eu estava, percebi que Patil estudava a minha expressão. Mas eu sempre fui um excelente oclumente, ela nunca saberia que a minha vontade era socar a cara daquele merda até ela virar uma massa pastosa.

O maldito falou algo no ouvido dela que a fez jogar a cabeça pra trás e sorrir. E ele aproveitou esse momento para encostar o rosto na curva do seu pescoço. Se ele não a quer mais, o que é essa palhaçada toda? Decidi ir embora.

Já estava quase na saída quando ouvi meu nome, dito por ela. Parei sem me virar.

Ela se aproximou e perguntou se eu já estava indo embora. Me virei lentamente e olhei pra expressão dela e ela me olhava de um jeito que parecia querer que eu dissesse algo.

Sorri de lado.

A música havia voltado a ficar agitada e alta. Me aproximei dela e meus lábios roçaram o seu ouvido.

- Não me provoque, Hermione. — Foi a primeira vez que eu disse o nome dela.

Olhei nos seus olhos e vi que ela abriu a boca pra falar algo. Voltei a falar antes que ela conseguisse.

- Você é inteligente demais pra me perguntar sobre o que estou falando. Nos vemos no Ministério.

Fui afastando lentamente de seu ouvido, meus lábios roçando levemente em seu rosto até que puxei sua mão e dei um beijo nela, me virando em seguida e indo embora.


*****


Depois do aniversário dela, mal nos vimos pelos corredores do Ministério. O máximo que acontecia era participarmos de alguma reunião em conjunto, mas sem muitas conversas e oportunidades para aprofundar a interação.

Recebi, exultante, a notícia de que trabalharíamos novamente juntos em um novo projeto. O Ministro precisava com urgência de um parecer sobre a aprovação de um novo feitiço e de uma nova poção. Eu, como especialista em poções, e Hermione, como especialista em feitiços, precisaríamos trabalhar juntos em tempo integral durante setenta e duas horas.

Bendito Ministro.

Durante esse período fui me especializando em Hermione. A forma como ela mordia a pena quando precisava pensar. Os sorrisos que ela dava quando sabia que a ideia dela era genial. A forma como se trancava em sua sala quando precisava de concentração.

Faltavam apenas algumas horas para entregarmos o parecer e eu estava terminando de revisar minha parte quando ela bateu na minha porta e entrou. Tinha algumas ideias que queria que eu avaliasse. Na verdade, ela já sabia que estava certa. Mas ela precisava provar que estava certa. Me levantei da cadeira e me encostei em minha mesa enquanto ela explicava a tese: o porquê de não podermos aprovar aquele feitiço. Ela já estava falando há cinco minutos e eu já não conseguia mais me concentrar no que ela dizia. Meu olhar ia dos lábios dela para a porta da minha sala. Com um feitiço mudo, tranquei a porta e não aguentei mais. Paciência nunca foi o meu forte.

-Ahhh cala essa sua boca, Granger.

Ela arregalou os olhos, surpresa. Não por eu tê-la mandado calar a boca, mas porque na sequência eu a puxei para os meus braços e a beijei com sofreguidão. A resistência foi mínima.

E eu me perdi no beijo doce da doce Hermione.

Ela se deu conta do que estávamos fazendo e com um olhar assustado pôs a mão no meu peito, me empurrando levemente, e olhou para a porta. Falei arrastado em seu ouvido.

- Fique tranquila. A porta está trancada.

Ela sorriu e puxou minha camisa pelos colarinhos e me beijou. Só nos soltamos porque já não havia mais ar para respirarmos. Nossas respirações estavam entrecortadas e eu olhava avidamente para os lábios inchados dela querendo mais e mais.

Ela sorriu.

-Deixarei minha parte com você para revisar. Espero o relatório completo em uma hora.

Ela só podia estar de brincadeira com a minha cara. Como eu conseguiria me concentrar em qualquer coisa que não fosse a lembrança de seu beijo? Ela saiu da minha sala sorrindo e não me restavam alternativas. Eu a conhecia bem demais, se não entregássemos o trabalho no prazo, eu seria um homem morto.

Concentrei-me em finalizar a minha parte e revisar a parte dela. Como se precisasse. Estava impecável, como sempre.

Dez minutos antes do combinado bati em sua sala e entrei. Ela me recebeu com um sorriso.

-Deixei ressalvas do porquê a poção também não pode ser aprovada. Esse ministro é um imbecil. O seu parecer está impecável. — ela arqueou a sobrancelha e eu sabia que só dizer que era impecável não era suficiente para ela. Ela precisava ter a prova de que eu havia refletido sobre o que tinha escrito. — Não há evidências concretas sobre a efetividade desse feitiço só porque um grupo de amigos resolveu criar. É preciso ser testado em um ambiente controlado.

Ela concordou com a cabeça. Peguei um pergaminho e uma pena em cima da mesa dela e escrevi algo rapidamente, entregando para ela na sequência.

-Acho que devemos comemorar o fim desse trabalho exaustivo. — Vi que ela acenou positivamente com a cabeça. — Tome, meu endereço. Te espero às 20h para jantar.

-E por que você acha que eu iria à sua casa, Malfoy? — ela perguntou num misto entre ofendida e desafio.

-Detesto lugares cheios, Granger. Você sabe bem. Está com medo de ir até minha casa? Você é uma grifinória ou não é? — Perguntei, sorrindo de lado.

Ela me olhou profundamente.

-Te encontro às 20h. — ela respondeu e eu saí sorridente de sua sala.

*****

Faltavam 15 minutos para as 20h quando a campainha da minha residência tocou. Willy, minha elfa doméstica, atendeu e eu já me posicionei perto da porta, certo dos protestos que a Granger iria fazer.

-Senhorita Granger — Willy fez uma reverência a ela, que abriu a boca em espanto. — Entre, por favor. Meu senhor...

-Estou aqui, Willy. — olhei para Granger e ela parecia petrificada. — Você vai ficar aí fora? — perguntei à ela.

-Eu não acredito que você tem elfos domésticos, Malfoy.

-Eu libertei todos os meus elfos, Granger. Mas Willy...ela simplesmente não quis ir...ela me criou. — falei rapidamente antes que Granger aparatasse da minha residência e nunca mais olhasse na minha cara.

-Willy não queria se afastar do menino Malfoy, meu mestre deixou que eu ficasse com ela. — Willy disse orgulhosa e eu vi a expressão da Granger suavizar e, finalmente, entrar em minha residência.

Fomos diretamente para a sala de jantar. Willy havia preparado os pratos preferidos da Granger e ela olhou abismada para mim. O jantar transcorreu calmo. Durante um tempo, apenas o som dos nossos talheres nos pratos eram ouvidos.

-Você sabe meus pratos preferidos. — Ela disse. Não era uma pergunta. Era uma constatação. — Sabe minha sobremesa favorita, o chá que eu tomo quando preciso me acalmar... E hoje mais cedo no ministério...O que é tudo isso, Malfoy? — a voz dela era suave, calma. Ela estava genuinamente curiosa.

-Você realmente quer saber? — perguntei olhando em seus olhos.

Como já havíamos terminado a nossa refeição, levantei e a puxei para vir comigo até a sala de estar. Sentei no sofá e ela sentou na minha frente.

-Um dia você me perguntou se eu já amei realmente alguma mulher em minha vida, Hermione.

Vi os olhos dela brilharem, mas não consegui continuar imediatamente. Passei a mão pelo meu rosto, desviando o olhar por um segundo antes de voltar para ela.

-Eu não tinha.

Me aproximei mais um pouco dela.

-Mas também não planejava isso. E eu não me importava.

Ela franziu levemente o cenho, como se tentasse entender onde eu queria chegar com tudo aquilo.

-E ainda assim… — minha voz saiu mais baixa — eu sei qual é o seu chá depois de um dia ruim. Sei quando você vai morder a pena antes mesmo de você perceber.

Me aproximei mais.

-Sei quando você está prestes a sorrir… e quando está prestes a se fechar. Eu não entendia o que era amar. Mas agora eu sei. — era difícil falar aquilo, mas reuni toda a minha coragem sonserina e falei de uma vez. — Eu te amo, Hermione.

Inclinei o rosto, próximo ao dela. O silêncio entre nós pesou e ela me olhou por um segundo mais longo, como se estivesse decidindo e então puxou minha camisa. Há tempos eu também percebia os olhares furtivos dela para mim. Há tempos eu sentia que aquele sentimento que insistia em rondar a minha barriga não era solitário.

Eu amava Hermione Granger e tinha certeza que era recíproco. Ela sorriu ao fim do nosso beijo. Eu não tinha mais nenhuma dúvida. Eu amava aquela mulher.



Epílogo


Nos casamos numa cerimônia pequena. Do jeito que Hermione sempre sonhou.

Certa noite, ela marcou um jantar, para nós dois, em nossa própria residência. A mesa estava posta com os meus pratos preferidos, feitos pela Willy, que mal conseguia esconder o sorriso. Estranhei.

Hermione colocou uma pequena caixa na minha frente, sem dizer uma palavra. Me olhou com aqueles olhos que eu já conhecia tão bem, uma mistura de ansiedade e excitação que eu conhecia muito bem, tentando me decifrar antes que eu a decifrasse.

Abri a caixa devagar e minha boca abriu. Olhei imediatamente para ela.

- É o que estou pensando? — tentei disfarçar o embargo da minha voz. Mas nada que eu fazia passava incólume por Hermione Malfoy. Ela assentiu, os lábios presos num sorriso que tentava conter.

Eu levantei e a puxei para perto de mim. Beijando-a possessivamente. Minha. Minha Hermione.

-Antes mesmo de você engravidar… — passei o polegar pelo rosto dela — Eu já sabia.

Ela riu, mas havia um brilho nos olhos que não era só humor.

-Cabelos impossíveis. Vai achar que sabe mais do que todo mundo. -Inclinei o rosto, observando cada reação dela. — Vai ser insuportável. -Fiz uma pausa curta. -Exatamente como você.

Hermione riu e os olhos marejaram ao mesmo tempo.

Sim, eu entendia o que significava amar uma mulher de verdade. Eu via nossa filha que estava começando a se formar nos olhos de Hermione. E eu via o nosso futuro inteiro nos olhos dela.


Notas finais
Obrigada para quem leu esse surto. Faça uma autora feliz, diga o que achou dessa shortfic.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.