Haus Der Schatten

1 Dia Primeiro e Segundo


Em 13 de Janeiro de 1959, às 20:58, Andrea Jones subiu ao quarto de sua filha para avisar-lhe que o jantar iria demorar um pouco àquela noite, já que seu pai estava demorando demais para voltar com a carne que ele prometera que compraria.

Às 20:59, ela bateu na porta e, ao não ouvir resposta, decidiu girar a maçaneta e abri-la.

Às 21:00, ela gritou e deixou cair no chão a xícara de café que segurava. Bateu a porta com tanta força que o barulho foi ouvido pelos vizinhos que tentavam jantar em paz.

Com as mãos tremendo, afastou-se do quarto de sua filha e pensou em descer as escadas e pedir ajuda. Porém, lembrou-se que a garota ainda estava lá e decidiu voltar, mesmo que sentisse que estava prestes a desmaiar de tanto medo que sentia.

Ao entrar, viu duas coisas:

Sua filha sentada na cama, escrevendo em um diário e, não menos importante, uma sombra andando até ela.

Não pensou duas vezes em correr até ela e a puxar para fora.

Aquela foi a primeira vez que ela foi vista, porque já haviam a ouvido e percebido muitas vezes antes.

Quando Felix Jones chegou, encontrou sua esposa estática e expressando extremo estresse, encontrando-a também na sala de estar e não no quarto ou quintal como costumava ficar. A filha estava ao seu lado, tentando acalmá-la sem muito sucesso.

- O que houve, meu Deus?! – Exclamou o senhor, indo até as duas. – Andrea, o que houve? Marie, o que houve com sua mãe?

- Não sei, pai – Disse a moça. – Ela ficou assim de repente. Acho que viu alguma coisa muito horrível ou algo assim. Mãe, pela terceira vez, quer que eu pegue uma água ou um outro café para a senhora?

Então, subitamente, a mulher começou a falar:

- Eu ia falar com Marie para não esperar por um jantar tão cedo... Mas, mas, quando abri a porta de seu quarto, vi aquilo! Aquela pessoa! Aquela coisa! Muito alta... Com a boca escancarada, sangrando, mas com um sorriso; com os olhos verdes brilhantes e rosto de uma maldade indescritível! Meu Deus, aquilo era o quê?! Um fantasma? Um monstro? Um demônio? A coisa que esteve nos chamando toda a noite e ligado e desligado o rádio e a televisão?

Naquele momento, a filha e o pai se entreolharam. Talvez fosse melhor levar a pobre mulher a um hospício.

Mas nada disseram e terminaram por apenas pegarem um copo de água para Andrea, que parecia à beira de um ataque de nervos. Naquela noite, quem fez a comida foi Marie, que, mexendo em seus cabelos castanhos e ondulados, cantarolava alguma coisa em tom desafinado demais para ajudar a acalmar sua mãe.

Todos comeram em silêncio e, por insistência de Andrea, Felix foi ao quarto tanto do casal quanto ao da filha para garantir que nada estava lá.

Ao voltar, passando pelo corredor, não notou aquilo refletido no espelho, em vez de si mesmo.

E, ao ver Marie parada no primeiro andar, na juventude e beleza dos seus dezessete anos; observando-o levar sua mãe para cima, viu a sombra vagando perto da moça, como uma massa negra e disforme se locomovendo lentamente.

Assim como Andrea, ele gritou. Marie não havia visto. Quando ela se virou, aquilo já havia ido embora.

Foram todos não dormir em seus quartos, como se nada tivesse acontecido. Quando o sol raiou, a moça acordou muito cedo e saiu de casa dizendo que tinha que comprar pão e ir visitar seu noivo, cujo sobrenome Schwarzkopf era um pouco impronunciável para o imigrante Felix.

Correu pelas ruas ensolaradas, gritou seu nome e, quando o rapaz de pouco mais de vinte anos apareceu no portão, ela sorriu.

- Daniel – Disse ela. – Como está?

- Muito bem; e você, Marie? Houve algo? Parece esquisita. – Disse ele, ajeitando os óculos.

- Houveram coisas lá em casa. Acho que meus pais estão ficando loucos.

- Estou estudando medicina, talvez eu possa ajudar.

- Era isso que eu queria que fizesse. Passe na minha casa em duas horas, certo?

Pousou um beijo em seus lábios e ia se preparar para voltar, quando ele estendeu-lhe a mão e disse, apressado:

- Mas, já vai?

- Preciso passar na padaria. Mais tarde nos falamos!

E foi.

Na hora marcada, Daniel Schwarzkopf foi até a casa de sua noiva e encontrou os pais dela um tanto assustados e quietos. Fazendo algum doce na cozinha estava Marie, que fez um gesto para que ele se aproximasse, e ele obedeceu.

Então, sentado à pequena mesa com ela, ouviu-a contar tudo que acontecera nos últimos meses. Dos sussurros que a chamavam, passando pelos gritos, poltergeists e chegando até a alguns animais mortos perto da casa, e então terminando nas aparições que seus pais haviam visto na noite passada. Ela, muito séria, tomou uma xícara inteira de café fumegante após falar tanto e esperou para que Daniel dissesse algo.

Ele apenas coçou os cabelos castanhos e ajeitou, novamente, os óculos. Havia algum jeito da ciência explicar aquilo? Talvez uma esquizosfrenia de grupo? Histeria em massa? Alucinações? Oh, claro, provavelmente havia algo como chumbo nas comidas. Ou outra substância que os fazia ver aquilo. Provavelmente tinha a ver com o suprimento de água; ou pior ainda, e se todos estivessem doentes e já alucinando? E se fosse o estresse pós-traumático da guerra que Felix e Andrea estivessem passando, e que teria influenciado a filha?

Abriu os olhos para pedir um copo d’água antes de começar a falar extensivamente e, ao olhar nos olhos castanhos de Marie, não a viu. Ou a viu, muito diferente – Ela, até pouco tempo atrás, não tinha uma enorme linha de sangue que logo virava um riacho e descia por seu nariz e pingava por seu queixo; nem os olhos quase completamente escuros e a mandíbula pendendo em um sorriso doentio.

Daniel se jogou para trás e quase caiu da cadeira, no susto. E, quando se recuperou e abriu novamente os olhos, Marie estava lá, olhando-o como se fosse um louco; e talvez fosse.

Aquele foi primeiro e segundo de dez mais quatro dias mais um.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.