Haunted House
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Os eventos aqui se passam no começo de 2009, durante o freshman year das garotas na McKinley High (que aqui significa nosso nono ano do ensino fundamental), onde temos uma Quinn bitch e uma Rachel loser.
Terá três ou quatro capítulos, no máximo - ou o quanto minha imaginação der para que eu possa continuá-la. Bem, espero que vocês gostem :)
07:57 PM
— Preciso mesmo entrar?
— Se quiser fazer parte do grupo, sim.
— Não é uma seita, pelo amor de Deus.
— Eu trouxe a câmera, então suas reações de total medo e pavor serão mostradas para todo mundo na escola amanhã.
— Isso é babaquice, eu vou voltar para casa.
— Onde você prometeu para os seus pais que faria amigos?
Rachel derrapou em seus tênis e voltou-se para Quinn Fabray, a maldita líder das Cheerios do McKinley High. Os olhos dela faiscavam e a expressão estava divertida. Seus guarda-costas, Santana e Brittany, ombro a ombro com a amiga, também lhe encaravam esperando uma resposta convincente para aquela provocação.
O pior era que Quinn estava certa. Elas estavam em fevereiro e a única pessoa com quem Rachel conversava no colégio era a secretária, que nem aguentava mais seus papos sobre Broadway e New York. Tinha seus clubes, que frequentava assiduamente, mas ninguém com o que pudesse se preocupar em chamar de amigo.
Assim como ela, Quinn também era novata na McKinley High. Só que, ao contrário dela, Quinn era a garota mais linda do colégio e havia facilmente arranjado uma vaga nas Cheerios — as líderes de torcidas mais malvadas e burras que Rachel tivera a infelicidade de conhecer — e desde outubro andava desfilando pela escola com o uniforme do grupo do mal liderado por Sue Sylvester. Suas escudeiras eram as garotas que também estavam no nono ano, Santana Lopez e Brittany S. Pierce.
Santana era má. Muito má. Rachel podia comprovar isso em uma cicatriz permanente em seu cóccix de quando a garota havia empurrado ela da escada. Ou pelos cabelos ainda melados pela slushie matinal que ela jogara entre os primeiro e segundo tempos naquela manhã. Santana era o estereótipo perfeito da líder de torcida de quem Rachel tinha tanto medo durante o primário.
Brittany, por outro lado, tinha um pouco de coração e parecia ser a única a dominar Santana. Ela quase nunca jogava slushie nas roupas de Rachel, apenas para não molhá-las, o que ela julgava ser um grande avanço. A garota também não entendia muito bem as aulas e passava a metade delas rindo a um canto com Santana e Quinn — um dia, Rachel a havia pegado perguntando às outras duas quanto era cinco vezes dois. Mas, do trio maligno que dominava os corredores do nono ano, Brittany era com quem Rachel mais se simpatizava, pela garota não entender o que estava acontecendo ao seu redor e simplesmente não ter culpa em quase nada.
E Rachel sinceramente não sabia o que estava fazendo ali com as três na calada da noite, observando a casa mais antiga de Lima. É claro que ela queria entrar para o grupo delas, o mais popular do colégio, sua patológica necessidade de atenção a obrigava a fazer isso, mas quando se inscreveu para entrar nas Cheerios, não imaginava que as audições incluíam entrar numa mansão mal-assombrada e passar a noite toda lá.
— Hobbit, estamos esperando — disse Santana impaciente.
Rachel mordeu o lábio. Ela queria fazer parte das Cheerios, queria ser popular. Não havia passado pelo menos dois dias na McKinley High sem levar um slushie na cara. Ela tinha três mudas de roupa dentro do armário, apenas para se prevenir, e tinha que trocá-las a cada dois dias. Ela estava cansada daquela vida de perdedora, embora não fizesse nem oito meses que estava naquele colégio.
Se Quinn estava interessada nela para as Cheerios, então era por que seu talento impressionava. É claro que nunca vira a garota ou Sue no clube Glee ou no clube de teatro ou até mesmo em seu horário para o RPG nas sextas — ainda que tivesse visto uma garota muito parecida com Quinn neste último durante a primeira semana de aulas —, mas o fato era que tinha talento suficiente e não poderia recusar uma chance daquelas.
Lentamente, então, ela balançou a cabeça numa afirmativa quase imperceptível. Santana meneou a cabeça negativamente e disse:
— O quê? Eu não ouvi.
— Vamos entrar logo, caramba! — exclamou Rachel, batendo o pé no chão, irritada. Quinn refreou uma risada.
— Ótimo! — exclamou Brittany ligando a câmera. A luz vermelha piscou na direção de Rachel, para depois ir ao casarão abandonado. — Agora, todo mundo tem sal?
Quinn parou de observar Rachel por um instante para olhar para Brittany, franzindo o cenho.
— Sal? Pra quê sal?
— Fantasmas, bobinha — Brittany respondeu, dando tapinhas na bochecha de Quinn enquanto segurava a câmera, ainda apontando para a casa. — A gente precisaria de ferro também, mas acho que um círculo de sal nos manterá protegidas o bastante.
Rachel e Quinn se entreolharam, segurando o riso. Brittany abriu o portão enferrujado, causando um barulho ensurdecedor para aquele silêncio infernal em que estavam, e seguiu para a vegetação gigante que crescia pelo jardim, com Santana caminhando serelepe em seu encalço.
— Eu tenho que falar para Santana parar de ver Supernatural se estiver com Brittany — confidenciou Quinn, mais para ela do que para Rachel.
Ficou alguns segundos observando as luzes saltitantes que eram as lanternas de Brittany e Santana dançando na escuridão. Depois, deu um sorriso à Rachel. Não um escárnio ou esnobe, como sempre ela dava antes de jogar uma slushie em seu rosto, mas um até amigável. Rachel estremeceu ao seu toque enquanto sentia ser empurrada para dentro da mansão.
Engoliu em seco, se arrependendo amargamente ao ter aceitado o desafio de passar a noite ali dentro.
10:01 PM
Até que não era ruim, Rachel pensou durante as duas primeiras horas. As três a ignoravam completamente e apenas conversavam com ela para perguntar se ela queria alguma comida. No resto do tempo, ela divertia-se com o Game Boy que seu pai lhe emprestara para caso ficasse muito entediada.
Seus pais pensavam que ela havia finalmente feito alguns amigos e fora dormir na casa de um deles. Tecnicamente, ela não tinha mentido, somente omitido a verdade — como o fato de que iria virar a noite numa casa mal-assombrada e que iria fazer isso com amigos. Do seu ponto de vista, Quinn, Santana e Brittany não poderiam sequer ser chamadas de colegas.
Mas é claro que ela não podia contar isso a seus pais. Eles eram muito agitados e ficavam animados por qualquer besteira. Então, a ida à casa de algum colega, que parecia tão inofensiva para os outros pais, acabava sendo um evento enorme na sua casa. Essa era a maior razão de sua mochila estar carregada de dois pijamas, três espécies de jogos para Game Boy e mais cinco pacotes de bolacha recheada (“Para o caso de você se perder e passar fome”, seu pai Leroy explicara sabiamente). Rachel não tinha visto problema nenhum nisso até estreitar os olhos na direção das garotas e as pegarem olhando para sua mochila estufada.
— Primeira dormida fora de casa, Berry? — provocou Santana, ao notar o quão cheia a mochila estava. — Por que me parece que sim. O quê? Você não tinha amigos na sua outra escolinha de ginásio, tinha?
O tom falsete de Santana era terrível e dava tremeliques em seu corpo. Ela se encolheu, com o Game Boy bem apertado em suas mãos, procurando outro lugar para fixar o olhar que não fosse os olhos negros e maldosos da garota.
— Seus pais sabem que você está aqui? — continuou Santana, se aproximando lentamente de Rachel. — Sabem que vai passar a noite em uma casa antiga e possivelmente assombrada? Coitadinha do bebê dos papais.
— Santana... — advertiu Quinn em voz baixa, mas a garota fingiu não ouvir.
— Que tristeza seria, não é? Se o bebê do papai fosse sumir hoje, justamente no dia em que saiu de casa pela primeira vez. Aposto que ia sair na primeira página do Lima News.
Antes que Santana pudesse montar a manchete da matéria no ar, ouviu-se um barulho estrondoso. Rachel arregalou os olhos, puxando o Game Boy para si. A expressão convencida de Santana transformou-se para uma aterrorizada, até Rachel perceber que Brittany não estava na sala de estar com elas. Quinn levantou-se de supetão, gritando o nome da garota em plenos pulmões.
— Estou bem, credo! — exclamou Brittany descendo a escadaria principal munida de sua câmera. Santana correu até ela e a abraçou. — Estava fazendo umas tomadas no segundo andar e derrubei um abajur. Nada demais.
— Nunca mais suma desse jeito! — Rachel escutou Santana dizer a Brittany enquanto a abraçava, a voz embargada. Ela franziu a testa, e nunca quis tanto fazer parte da rede maluca de fofocas que era o jornal da escola para descobrir o que acontecia entre aquelas duas.
— Deveríamos explorar isso aqui — comentou Quinn, ignorando o momento de Santana e Brittany; Rachel pensou que Quinn já soubesse de alguma coisa e simplesmente fingia não ver o resto. — Quer dizer, eu não vim aqui para vigiar a Berry e ficar sentada.
Vigiar Berry? Rachel permaneceu quieta em seu canto, simulando ainda jogar em seu Game Boy após o ataque verbal de Santana. Mas a frase a intrigara. O que Quinn queria dizer com isso?
Talvez fosse o teste para as Cheerios, Rachel pensou, embora não acreditasse mais nisso. Pelo jeito, as três Cheerios só tinham levado ela ali para que pudessem tirar sarro dela o máximo que podiam. Não fazia muito sentido, pois as humilhações que ela passava geralmente eram de certa forma pública, o que fazia Rachel acreditar na primeira opção que pensara.
— Tem umas coisas muito legais lá em cima — Brittany disse. — Vai ser legal subir. Aqui tá começando a ficar frio.
Ela e Santana começaram a subir a escadaria principal, tal como haviam feito ao atravessarem o gramado da casa, preenchendo a sala de gritinhos e exclamações animadas. Rachel levantou de seu canto seguro e ajeitou a saia de prega. Ela lançou um olhar pelo salão, notando que Quinn a observava atentamente. A total atenção da líder de torcida fazia os dedos de Rachel formigar e seu rosto corar furiosamente.
— O que foi? — perguntou Rachel acanhada.
— Não posso mais olhar para o quadro atrás de você, não? — ela devolveu a pergunta agressivamente, tornando as mãos em punhos, se controlando para não atacar Rachel. A garota recuou, amedrontada, até bater na parede. Quinn soltou uma risada seca.
— É melhor subirmos — disse Rachel num fiapo de voz, fazendo um gesto para que Quinn seguisse na frente.
— Acho melhor mesmo ir... — Quinn pendeu a cabeça no próprio ombro, como se estivesse tentando decidir alguma coisa. Seu casaco da GAP a tornava mais humana para Rachel de alguma maneira.
Quinn sacudiu a cabeça, parecendo tentando espantar um inseto e subiu pela escada, gritando para que Brittany e Santana esperassem. Rachel permaneceu no mesmo local por alguns minutos. Num momento, jurou ter visto um pouco de humanidade no semblante daquela garota. Isso a assustava um pouco; desde quando aqueles robôs comandados pela Treinadora Sylvester tinham emoções?
Ela suspirou e, ainda agarrada ao seu Game Boy, seguiu as três, determinada a atravessar a barreira emocional de Quinn Fabray.
10:27 PM
Rachel Berry é adorável.
Espera, o que você disse? Rachel Berry é só mais uma perdedora com quem você gosta de tirar sarro.
Mas ainda é adorável.
Quinn balançou a cabeça e ignorou as vozes que dominavam sua mente. Caminhava silenciosamente pelo corredor do segundo andar; ela ouvia os passos de Rachel em seus sapatos de camurça tropeçar quase que periodicamente nas madeiras que saíam do chão. Tentava controlar o riso, mas sempre acabava soltando um som gutural que amaldiçoava francamente. Ela espiava por cima do ombro e se controlava para não ir correr ajudá-la.
Não entendia. Rachel era o alvo maior da escola desde que o nono ano começara. Vivia levando slushies e tudo o que poderia se encontrar em uma lata de lixo. Os jogadores de futebol da mesma série que elas só a perturbavam. Ninguém a levava a sério quando Rachel respondia uma questão absurdamente difícil. Todo mundo ignorava a participação dela nos clubes da McKinley High. Rachel Berry era, de longe, a garota mais odiada do colégio.
Mas ela não dava o braço a torcer. Quinn sempre a via com uma roupa diferente depois que jogava seu slushie matinal nela. Ela sempre a via no banheiro durante os intervalos das aulas, tentando se limpar e ficar apresentável para o próximo tempo. No final do todo santo dia, ela notara que Rachel trocava pelo menos duas vezes de blusa — e às vezes saia, quando Santana errava a mira. E ainda assim, a garota conseguia sorrir. Quinn simplesmente não entendia.
A ideia para levá-la àquela casa não fora de Quinn. Santana disse que seria interessante conhecer mais a garota, apenas para mais tarde usar o que tinham aprendido contra ela. Quinn, que precisava de uma média com Sue Sylvester, não pôde recusar. Se tudo saísse bem, Rachel estaria com um uniforme das Cheerios na segunda-feira e Quinn com a insígnia de melhor capitã das líderes de torcida da escola antes mesmo de chegar ao segundo ano. Dessa forma, Santana poderia atormentá-la sempre quando sentisse vontade.
Só havia um pequeno problema: Rachel Berry era adorável — pelo menos aos olhos de Quinn.
Quinn ficara observando Rachel nas duas horas que se passaram, se perguntando por que ela ainda não questionara nada, somente ficara agarrada ao seu Game Boy obsoleto como se isso fosse custar sua vida. Oferecera comida, refrigerante, alguns doces, mas Rachel negava com a cabeça e voltava sua completa atenção ao videogame. De repente, ela se sentia na obrigação de cuidar de Rachel, de fazê-la se divertir um pouco. Afinal, estavam ali para provar o mito de que não existiam fantasmas em Lima.
— Como você conseguiu? — A voz de Rachel tão próxima de seu corpo a assustou um pouco. Quinn pulou para o lado e praticamente se esqueceu de minutos atrás, quando a achava adorável. Rachel também se alarmou com sua reação e afastou-se, acanhada.
— Eu consegui o quê? — Quinn retrucou no tom de superioridade que crescera ouvindo seu pai falar. Uma das razões de ter entrado para as Cheerios era o maldito orgulho Fabray, que assombrava gerações há anos.
— Entramos ao mesmo tempo na escola, mas você tem bolsa para ir à faculdade, e eu continuo levando slushies todos os dias — Rachel falou num murmúrio contido. Quinn engoliu em seco. — É claro que a sua beleza estonteante ajuda, mas... sua maldade também.
A vida inteira de Quinn passou com um flash em seus olhos, mas mesmo assim ela não conseguiu responder Rachel. Foi como um grande tapa na cara. Rachel estava elogiando ela e também a difamando. Sue era a única pessoa que a xingava, que a colocava no lugar. É claro, ela às vezes brigava com Santana, entretanto, era somente na brincadeira. Ninguém se dirigia a Quinn daquela maneira, nem mesmo as Cheerios invejosas do terceiro ano.
— Tem que ter um pouco de ambição, Rachel — respondeu Quinn dando de ombros, tentando ignorar o peso que as palavras dela haviam causado em si. — As coisas não dão certo sem pretensão.
— Sei. — Ao seu lado, os olhos de Rachel brilharam. — Eu sei o que é pretensão, eu tenho. Mas eu não sou má, essa é a diferença entre nós.
Quinn queria socá-la exatamente naquele nariz enorme, tamanha sua indignação com as palavras de Rachel. Ela não era má — ou pelo menos não completamente má como Santana. Tudo bem, as slushies, os desenhos pornográficos, tudo era muito para uma pessoa só sofrer, mas ela precisava daquela aprovação se quisesse uma boa universidade dali a quatro anos, e o grupo de Sue Sylvester requisitava maldade em todo o sangue, ou em parte dele. Ela apenas estava seguindo regras.
— Sou diferente das outras, Rachel — Quinn falou doloridamente. — Se sou parecida com você, como disse, então sabe que estou falando a verdade.
Quinn percebeu que estavam paradas no mesmo ponto há vários minutos. Ela não iluminou o rosto de Rachel com sua lanterna para ver seu semblante. Elas ficaram se encarando no escuro, as luzes clareando o chão empoeirado da mansão. A diferença gritante de alturas entre as duas nunca havia se tornado tão clara.
— Vamos achar as outras duas — Quinn pigarreou, quebrando o contato visual que para ela parecia ter durado horas. Ela nunca tinha reparado o quanto os olhos castanhos de Rachel brilhavam no escuro.
— Boa... ideia — Rachel disse, iluminando o rosto de Quinn sem querer com a lanterna. A garota colocou a mão sobre os olhos, xingando Rachel, que rapidamente se desculpou e focou a luz no corredor.
Quinn a seguiu de perto. De repente, ela não queria perder Rachel Berry de vista.
Notas finais
E, hm, eu sei que o nome da fic é Casa Mal-assombrada, mas acho que o relacionamento delas precisava ser mais abordado que as descrições da casa, que provavelmente aparecerão mais nos próximos capítulos.
Espero realmente que vocês tenham gostado, deixem seus reviews e dúvidas e sugestões, e, bem, vejo vocês no próximo capítulo :*
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