Notas iniciais
Obrigada pelos 462 comentários, 150 acompanhamentos, 72 favoritos, 9 recomendações e 28938 visualizações :) Perdão por qualquer erro de digitação e aproveitem ^^ Tradução do capítulo: Escolhas

— O que vai querer, amor? – Steve pergunta por trás do cardápio.

— Qualquer coisa. – respondo, também estudando as comidas. — Pode pedir por nós dois.

— Certeza? Você está com fome?

— Até que sim. Mas não quero nada pesado.

— Okay. – ele se vira para o garçom. — Dois salmões grelhados com porção de arroz branco e batatas assadas temperadas no limão. – sinto a boca salivar. — E, para acompanhar, iremos querer um Pouilly Fumé.

— Perfeitamente, senhor. Com licença. – o garçom se afasta.

— Como aprendeu sobre vinhos? – resolvo matar a curiosidade que há tempos habita em mim.

— Uh... – Steve parece meio perdido.

— Eu sempre fico admirada quando você pronuncia os nomes dos vinhos tão sabiamente! – descanso o queixo na mão. — Eu não sei nada disso!

— Posso te ensinar. – Steve sorri com carinho.

— Até que você já ensina.

— Eu? – ele ri.

— Sim! – sorrio entusiasmada. — Meu pai pediu um vinho quando fomos jantar naquele dia. E eu me lembrei que já tínhamos tomado. Papai ficou até surpreso por me ver bebendo vinho. Nunca fui muito fã de álcool.

— Qual foi o vinho?

— Uh... eu... acho que foi um... Franci... ér...

— Um Franciacorta, não?

— Isso! – começo a rir. — Viu só? Você sabe tudo!

— Muito bem colocado, Srta. Romanoff!

— Completamente, Sr. Rogers! – eu me debruço sobre a mesa e beijo sua boca. — Mas onde aprendeu?

— Uh... bem... não sei.

— Claro que sabe! – volto a me sentar na cadeira. — Foi com a sua família? Seu pai parece conhecer bebidas também.

— Não. – admite ao suspirar. — Não foi com ele.

— Oh. – pisco, surpresa. — Seu avô?

— Não...

— Então...

— Aprendi ainda garoto. – revela, e eu não preciso de mais dicas para entender.

— Ah! – de repente pareço perder a fome.

— Não fique brava.

— Sempre pede os vinhos que ela te ensinou?

— Quê? – Steve franze a testa. — Ah, Natasha! Não. Porra!

— Foi só uma pergunta. – dou de ombros.

— Acha que eu presto atenção nisso? – rebate. — Vinho é vinho! Eu peço os que conheço e sei que gosto. Só isso.

— Desculpa. – murmuro. — Estou sendo irracional.

— Muito.

— Okay, Steve. Já entendi!

— Desculpa. – ele suspira e me entende as mãos. — Tudo o que menos precisamos agora é de uma nova briga.

— Também não quero brigar.

— Ótimo! – ele sorri docemente. — O encontro de hoje te aborreceu muito?

— Muitas coisas de hoje estão me aborrecendo muito. – confesso, apertando suas mãos.

— Quê? Como assim?

Noto seu olhar confuso. Para Steve, meu dia foi apenas mais um dia comum. Ele não sabe que não teve nenhum paciente que me abalou. Eu apenas disse isso no intuito de não revelar o verdadeiro motivo de minha angústia. Contorne a situação, Natasha.

— Tem tanta coisa acontecendo ao mesmo tempo. – desabafo, tensa. — E amanhã ainda tem a missa de Gwen. Acho que estou sobrecarregada.

— Posso fazer alguma coisa?

— Ninguém pode. – balanço a cabeça junto de um suspiro. — Eu estou... eu... eu me sinto no escuro. Tão sozinha.

— Como pode dizer isso, linda? – questiona, visivelmente magoado.

— Por mais que você esteja do meu lado, isso é irreversível. – explico. — Está doendo, Steve. Eu não sei como me sentir. Não sei se é certo chorar, não chorar... eu estou perdida.

— Conseguiu marcar sua consulta com o Dr. Sullivan?

— Mantis ficou de resolver isso para mim.

— Mantis? – Steve enruga a testa.

— É. – confirmo, mas trato de explicar. — Agora eu tenho uma secretária.

— Que chique, Srta. Romanoff! – dou uma risada. — Que som gostoso! – Steve acaricia meu rosto. — Eu amo você.

— Também amo você. – descanso a bochecha em sua mão.

— Natasha?

Steve ergue os olhos e tranca o maxilar antes de eu me virar.

— Nate? – fico de pé.

— Oi! – ele me abraça. — Parece que vamos nos encontrar com frequência, não?

— É, parece que sim!

— Do que estão falando?

A interrupção de Steve faz com que eu me solte de Nathan.

— Ér... bem...

— Como vai? – Nathan estende sua mão.

— Banner. – Steve fica de pé e aceita seu cumprimento. — Encontrou com Natasha antes?

— É. – Nate assente após se soltarem. — Passamos o dia de sábado juntos.

— Ah! – Steve me encara de cima a baixo. — Passaram o dia de sábado juntos!

— É. – encaro Steve nervosamente. — Encontrei com Nathan logo depois que saí. E fomos almoçar.

— Almoçar? – Steve repete, com um sorriso irônico. — Por isso deu um perdido em Quill e recusou minhas ligações?

— Steve...

— Eu... ahn... tenho que ir. – Nathan anuncia. — Vim só comprar meu almoço antes de voltar para o hospital.

— Hospital? – repito. — Então deu tudo certo?

— Absolutamente! – ele sorri.

— Parabéns, Nate! – toco brevemente seu ombro, não querendo irritar Steve com outro abraço.

Como é, Natasha? Vai deixar um macho ditar sua vida? Ele que se foda! Abraça seu amigo agora! Tem razão, Little Red.

— Estou muito feliz por você!

— Obrigado. – Nate acaricia meus ombros antes de me soltar.

— É. Parabéns, Banner. – Steve estende a mão. — Seja lá para o que for.

— Nathan iniciou sua residência em Psiquiatria. – resumo amargamente.

— Hmm!

— Bom, vejo que estão almoçando. – Nate comenta quando o garçom volta à nossa mesa com as taças de vinho.

— Acabamos de chegar. – informo, notando que ainda estamos de pé. — Aceita nos acompanhar?

— Natasha. – Steve repreende baixinho.

Ou ele achou que seria baixinho, ou ele simplesmente não ligou que não fosse. A questão é que foi alto o suficiente para Nathan escutar.

— Ahn... não. – responde, indeciso. — Eu preciso voltar para o hospital.

— Mas disse que veio comprar comida. – contesto. — Então está no seu horário de almoço, não?

— É. – Nathan confirma, pensativo. — É, sim, estou. Mas... eu... vou... almoçar no hospital mesmo.

— Nathan...

— Ele está com pressa, Natasha. – Steve reverbera quando o garçom termina de servir o vinho. — Mas podem se encontrar outra hora. De novo.

— Steve...

— Ele tem razão. – Nathan toca meu ombro. — Preciso ir. Tenham um bom almoço.

— Nathan...

— Até. – ele beija meu rosto.

Eu me viro a ponto de ver Steve avançar, mas consigo segurá-lo antes que Nathan perceba.

— Pare com isso! – espalmo seu peito. — Ficou louco?

— Por que não me disse que ele estava na cidade?

— Steve! – eu o sacudo, chamando sua atenção. — Está dando um espetáculo de vexame!

— Que se foda! – Steve emburra ao sentar.

— Steve, por favor. – peço. — Você está sendo muito infantil.

— Ele gosta de você, Natasha! – vocifera, nervoso. — Quer que eu aplauda a isso?

— Isso? Mas de que isso está falando? – eu me sento também. — Nathan veio para Nova York pela residência.

— Ótimo! – ironiza. — Agora vai ficar colado na minha mulher sempre que...

— Olha o respeito. – repreendo. — Quem você pensa que eu sou para falar assim?

— Não gosto dele. – afirma. — Nunca vou gostar. E nunca vou deixar de ter ciúme.

— Nós não somos nem amigos, Steve!

— Estranho passar um dia inteiro com uma pessoa que nem amiga é!

— Qual o problema? – jogo os ombros para cima. — Não tem nada de errado nisso!

— Não tem nada de errado nisso? Porra, você não me atendeu nenhuma vez enquanto estava com ele, Natasha!

— Mas isso não tem nada a ver com Nathan! – exclamo. — Eu podia estar com qualquer outra pessoa ou até mesmo sozinha. Não mudaria. Eu estava com raiva e magoada.

— E passar o dia com ele não te influenciou em nada?

— Se você vai continuar bancando o idiota controlador, eu irei embora.

— Não se atreva!

— Vai à merda, Steve! – rosno, brava. — Dá um tempo para minha cabeça!

— Não gosto dele perto de você. – murmura, emburrado.

— Isso não te diz respeito. – digo de volta. — Também não gosto de Blanche perto de você.

— Natasha, temos um passado.

— Mas ela continua a frequentar os mesmos lugares que você frequenta, inclusive sua própria casa.

— Nossa. – relembra. — Nossa casa. Minha e sua.

— Então não a quero mais lá.

— Por mim tudo bem. – concorda. — Só peço que faça um esforço quando minha mãe estiver por perto, por mais repugnante que seja.

— Sarah merece saber a verdade. – comento. — É horrível deixar sua mãe ser amiga de alguém como Blanche.

— Não depende de mim, Nat.

— Como não? – arregalo os olhos. — Basta contar a ela.

— Não posso fazer isso, Natasha!

— Por quê? – questiono. — A culpa não foi sua. Você era uma criança.

— Pare com isso! – ele eleva o tom de voz. — Eu não sou uma vítima.

— Ser vítima não é sinal de fraqueza, Steve. Pelo contrário! E é apenas a consequência de um trauma. Um trauma do qual você sobreviveu.

— Todos esses discursos nunca funcionaram comigo.

— Discursos? Não se trata de discursos, Steve! Não menospreze...

— Eu não acredito em nada disso, Natasha. E você não pode me obrigar.

— Não estou te obrigando a nada. – rebato. — Eu te acho muito forte, Steve! Muitas outras pessoas passam por situações mínimas, se posso dizer assim, comparadas à sua, e se perdem na vida, seja em bebidas, drogas, prostituição. Podem até se matar.

— E eu não?

— Bom... – engulo em seco. — ...você fez algumas dessas coisas?

— Tem diferença agora?

— Óbvio!

— Por quê? Preocupada em eu ter uma recaída?

— Não deboche do meu amor. – ordeno. — É óbvio que estou preocupada! Você é tudo para mim!

— Não precisa se preocupar. – ele suspira antes de acariciar minha mão. — Eu estou bem. E estou aqui com você.

— Steve...

— Já passou. Não pense mais nisso.

— É preciso pensar.

— Natasha...

— Ela pode ter feito com inúmeros outros garotos o que fez com você. Ou ainda faz!

— E a culpa é minha?

— Claro que não! Mas você pode...

— Chega, Natasha. – ele descansa os cotovelos na mesa. — Esse assunto já morreu.

— Não morrerá enquanto não admitir que...

— Eu não tenho nada a admitir! – garante. — Vamos falar de outra coisa.

E acontece que, nos próximos minutos de refeição, tudo o que fazemos é não falar um com o outro.

▪️▪️▪️

O restante do dia se passou de forma lenta, mas fiquei feliz em me distrair com meus pacientes.

Apesar de desfrutar em trabalhar na minha área, eu me senti aliviada ao saber que Mantis conseguiu agendar um horário e Dr. Sullivan me atenderia em seu consultório após o término de meu expediente.

— Aqui está, Natasha.

Ele me entrega um copo de café quente.

— Obrigada! – dou o primeiro gole.

O gosto está um pouco amargo, e Dr. Sullivan sorri ao notar meu rosto franzido e estender mais saquinhos de açúcar.

— Esqueci de avisar que não estava doce.

— Tudo bem. – sorrio e rasgo o primeiro saquinho.

— Como você está? – ele se senta em sua cadeira.

— Não sei ainda. – rasgo o segundo saquinho.

— Como assim?

— Eu me sinto perdida. – passeio com os dedos pela borda do copo, pensativa.

— Pode explicar melhor?

— Não sei. – solto um suspiro exaustivo. — Eu... ér... eu gosto da minha vida. Eu gosto dos meus amigos, da minha família, de mim... mas... ultimamente é como se eu não tivesse um propósito. Eu não... consigo me encontrar.

— Aconteceu alguma coisa que a faça pensar assim? Confesso que fiquei surpreso com seu agendamento.

— Por quê?

— Bom, nós nos vimos há poucos dias e você aparentou estar bem. Feliz.

— Bom, eu tentei estar. – murmuro. — E até estava, mas isso acaba rápido quando fico sozinha.

— Sozinha? – Dr. Sullivan pende a cabeça para o lado. — Como assim?

— Quando não tem ninguém comigo. – esclareço. — Se eu estou rindo na companhia de um amigo, eu esqueço dos meus problemas e acredito que conseguirei seguir bem com minha vida.

— Mas depois...?

— Mas depois, quando esse amigo vai embora e eu fico sozinha vendo TV, lendo ou até mesmo sem fazer nada, começo a me sentir culpada e triste de novo.

— “...Culpada e triste de novo”? Por quê?

— Uma amiga muito próxima faleceu recentemente. – revelo após suspirar.

— Oh! – Dr. Sullivan franze a testa. — Eu sinto muito, Natasha. Não tinha ideia. Permite que eu pergunte como?

— Acidente de carro. – explico. — O enterro foi na terça.

— Terça?!

— Exatamente.

— Imagino ter sido difícil.

— Foi, mas... – faço uma pausa e sinto a garganta apertar. — O mais difícil é continuar.

— Como assim?

— Eu não sei! – lágrimas escapam. — Eu... ela... no mesmo dia do enterro, eu recebi a carta da Minds Manhatttan. E por um momento, por um breve, estúpido e maldito momento, pude me esquecer de toda dor que estava dentro de mim.

— E o que mais?

— Eu consegui sorrir e comemorar quando, na verdade, havia acabado de presenciar seu sepultamento! – exclamo, horrorizada. — Que tipo de pessoa eu sou? Que tipo de pessoa faz uma coisa dessas?

— Daí se sentiu culpada por isso.

— Óbvio! Quem não se sentiria? Foi egoísta!

— Por quê?

— B-bom... p-porque... eu... não podia!

— Não podia o quê?

— O senhor sabe! – elevo o tom de voz. — Não tinha o direito de comemorar nada! As circunstâncias não me permitiam!

— Não pode se sentir culpada por sua vida não ter parado, Natasha.

— Não é isso!

— Então é o quê?

— Eu não... quer saber? A verdade é que não sei como me sentir. – furiosa, limpo o rosto.

— Tentou conversar com alguém?

— Com minha amiga Rebecca, que também era amiga da moça que faleceu, com meu namorado, com meu pai... mas parece que tem sempre uma lacuna faltando.

— E se sente pressionada?

— Eu me sinto sufocada! – aspiro. — Eu não sei como agir. E percebo que as pessoas ficam amedrontadas ao meu redor!

— Como assim?

— É como se todos usassem filtro perto de mim. Sabe, como se eu fosse uma coisinha frágil e indefesa. Todo cuidado é pouco. Tudo o que falarem, pensarem ou até mesmo fizerem tem que ser com extremo cuidado.

— E isso te irrita?

— A quem não irritaria? – eu me frustro. — Eu sou uma adulta! E me tratam como se eu... como se eu.. ah! Eu nem sei mais! É como se... como se eu não fosse mais eu. E isso está me enlouquecendo! – nervosa, mexo nos cabelos.

— É normal ter a sensação de que nunca mais será a mesma. – diz Dr. Sullivan, chamando minha atenção. — E talvez não seja, mas isso faz parte da vida. Sabe, são acasos que muitas vezes não podem ser evitados, Natasha. Sua amiga faleceu num acidente. Ela não pediu por isso.

— Eu... e-eu sei! – exclamo. — E eu nunca disse o oposto!

— Pode não ter dito, mas a verdade é que, ainda que não perceba, está se comportando como se houvesse um culpado.

— E que diferença faz ter ou não? Ela já se foi.

— Tem razão. Talvez não faça diferença nenhuma.

— E então? O que está tentando me dizer? – questiono, frustrada. — Eu preciso de respostas, Dr. Sullivan!

— São o tipo da coisa mais difíceis de se conseguir, Natasha.

— Então o que eu posso conseguir com o senhor? – indago ao bufar.

— As consequências do luto são diversas. Inclusive, antes mesmo da pessoa se entender em posição de luto.

— Como assim?

— É uma mistura: medo, angústia, confusão, tristeza, raiva.

— E o que me resta agora? – limpo o nariz com o lenço.

— Apenas viver, Natasha. Não podemos nos tornar responsáveis por consequências. Nem por escolhas.

— Quê? Escolhas? Gwen não escolheu morrer! – rebato, brava.

— Gwen?

— É. É esse... hm... era esse o nome dela.

— Bom, Gwen não escolheu morrer assim como não escolheu que você parasse de viver. – afirma. — Todos têm consciência de que está sofrendo. E tudo bem sofrer. Não tem uma regra que determine um tempo para isso.

— Aparentemente, parece que sofrimento é tudo que me resta.

— Natasha, essa dor queima. A moça era sua amiga, é claro que machucará. Num futuro distante, no meio de uma risada, de uma música ou de uma simples refeição, você se lembrará de que teve uma amiga querida que perdeu a vida tragicamente.

— E? – indago, desesperada para continuar ouvindo.

— E que a tua vida não parou. – esclarece. — Nem a tua, nem a dos familiares dela, nem a de seus outros amigos. Cada um terá trilhado seu caminho. E isso não terá os tornado pessoas ruins.

— Mas tem tão pouco tempo! – refuto. — Amanhã será a missa de sétimo dia ainda!

— E você se culpa por já ter sorrido durante esse suposto pouco tempo? – Dr. Sullivan me encara com compaixão.

— Um pouco. – admito. — Eu entendo que preciso continuar. Essa é a orientação que dou aos meus pacientes.

— Mas...?

— Mas não consigo direcioná-las a mim. – confesso num suspiro derrotado.

— É compreensível. E isso não te diminui nem como pessoa, nem como profissional.

— Eu consegui absorver a tudo o que tem me dito até agora, Dr. Sullivan. – pronuncio, atenta a ele. — Mas ainda não consegui compreender por quê. Por que tudo isso?

— Porque você precisa fazer a tua escolha.

— Minha escolha?

— É. – afirma.

— Como assim? O que eu preciso escolher?

— Teu destino.

— Ninguém tem o poder disso! Se tivesse...

— Mas tem o poder de planejamento. – corta, e eu pisco.

— E como eu passo planejar o meu destino?

— Fácil! Quer passar o resto da vida tendo pedaços de felicidade quando condicionada a isso ou realmente viver sua vida da forma empenhada que vivia antes? Nem uma escolha nem outra trará sua amiga de volta. Mas você merece isso? – questiona. — Você merece viver triste e amargurada por tê-la perdido?

— Não. – respondo, concentrada nas palavras do Dr. Sullivan que rondam minha cabeça. — Não, eu não mereço.

— Tem razão. Não merece. – ele sorri. — E tenho certeza de que Gwen concorda.

— É. – concedo, ainda sensível por suas palavras. — Sim, ela concorda totalmente!

— Não tem nada de errado em se sentir triste, Natasha. – Dr. Sullivan garante. — Assim como também não tem nada de errado em sorrir, em conseguir encontrar alegria no meio de tristeza. Como está a mãe da sua amiga? Ela é viva? Gwen era filha única?

— Sim. – respondo. — Quer dizer, a mãe dela é viva e tem outros dois meninos. Obviamente ela está devastada, incluindo o fato de que há alguns anos também perdeu o marido.

— Oh! – Dr. Sullivan assente. — Pobre mulher! Pois agora eu pergunto a você.

— O quê?

— A dor dela, não que precise ser medida a de mais ninguém, certamente não se compara à sua ou a de seus amigos.

— Sim. – concordo.

— E ela continuará vivendo depois deste outro trauma?

— Eu... – de repente, eu me sinto acuada. — Eu não... quer dizer, eu... eu espero que sim! Bom, sim! Sim, claro que sim!

— Sim, sim, evidente! Afinal, ela tem outros filhos, não?

— Sim.

— Precisa viver por eles.

— Sim.

— E precisa viver por ter uma vida.

— Sim!

— Será que todas as coisas que você está ouvindo, Natasha, a mãe de Gwen também não ouviu? Talvez não nas mesmas proporções, mas com o mesmo objetivo.

— Sim. – assinto. — É possível. Mas...

— Alguém também deve ter segurado sua mão e dito que daria tudo certo. Dito que essa dor se transformaria em saudade. E que a vida não tem relógio.

— Eu sei. Mas, como mãe, obviamente a dor dela não se compara a de ninguém, como o senhor mesmo apontou. – rebato.

— E ainda assim ela continua a viver. – Dr. Sullivan suspira. — Digamos que seja um início padrão.

— Início padrão?

— Sim.

— O que isso significa?

— Ninguém acredita que haverá sorrisos. Nunca mais. Ou ao menos não tão cedo.

— E?

— E, de repente, alguém dá o primeiro. E essa pessoa é apontada por todos, inclusive por si mesma.

— Foi o que aconteceu comigo.

— Certeza? – Dr. Sullivan dá de ombros.

— É!

— Eu não acho.

— Como não? – franzo a testa. — Eu estou dizendo que foi!

— É mesmo? Tem como afirmar que foi a primeira a sorrir? – interroga ao se debruçar e me encarar atentamente.

— Ér... bom... eu... eu acho...

— Você acha...?

— Ahn... eu... bem, eu... acredito que... ér...

— Não tem como saber, não é?

Dr. Sullivan abre um mínimo sorriso compreensível em minha direção, fazendo com que eu fique sem palavras.

— A verdade, Natasha, é que não tem como saber se a primeira a sorrir não foi a própria mãe de Gwen. Ou um de seus irmãos. Ou tem?

— Não. – respondo. — Não, mas... ela não... ela não iria...

— Ela não iria sorrir? – indaga. — Por que não? Num momento de conforto, de lembrança ou até mesmo de graça, alguém não pode tê-la feito esquecer? Ainda que por poucos segundos, alguém não pode ter feito com ela o que teus amigos têm tentado fazer com você?

— Sim. – confirmo, atônita. — Sim, pode, mas...

— E isso a transforma em quê? – questiona.

— Como assim?

— Isso a qualifica como uma má mãe?

— Não! – exclamo. — Não, nunca! Ela é uma mãe maravilhosa!

— Mas ela pode ter rido! – Dr. Sullivan acusa. — Imagine só! Ela rindo no período de luto pela filha! Você concorda com isso?

— Não! – franzo o cenho. — Quer dizer, sim! Quer dizer, não há nada para concordar! – grito. — Nem para acusar! Ela está sofrendo! E, se alguém a fez sorrir, ainda que rapidamente, ela mereceu!

— Por quê?

— Porque ela não tem que viver para sempre com essa dor! – afirmo. — Ela merece ser feliz!

— E por quê? – Dr. Sullivan dá de ombros. — O que dá a ela esse direito que nem você nem os outros têm? Só por ela ser a mãe?

— Não. – digo. — Não, que besteira! Ela só... ela...

— Ela...?

— Bom...

— O que foi, Natasha? Por que ela não merece viver para sempre com essa dor? O que a faz tão especial assim?

— Nada! – grito, irritada. — Ela não é especial por ser a mãe de Gwen! E não é só ela que não merece isso!

— Então ninguém merece?

— Sim! – bato o pé. — Ninguém merece sofrer para sempre! Não foi culpa de ninguém! Foi um acidente!

— Oh. – Dr. Sullivan sorri. — Ninguém tem culpa? É isso que está dizendo?

— Não! Quer dizer... é... não! Não, ninguém tem culpa!

— E você?

— Eu o quê? – indago, encurralada.

— Tem culpa?

— Não! – afirmo antes de suspirar espantada. — Oh! – pisco, brava. — O senhor me enganou!

— Eu fiz? – Dr. Sullivan olha para cima. — Eu enganei? Ou eu apenas fiz meu trabalho?

— Acho que o teu trabalho e o meu é enganar. Ainda que sutilmente. – solto uma risadinha.

— Então sou muito bom mesmo, a ponto de enganar outra psicóloga brilhante!

— Eu... okay. – mais aliviada, eu me dou por vencida. — Eu entendi.

— Mesmo?

— Sim. – garanto, feliz. — Obrigada, Dr. Sullivan!

— Por...?

— O senhor sabe. – rebato.

— De nada, Natasha. – devolve. — E obrigado também.

— Por quê?

— Por se permitir. – murmura. — E por fecharmos nossa sessão com esse sorriso que estava querendo por demais ser exposto.

Notas finais
Perceberam a resistência do Steve de se enxergar como vítima? Hmmmmm! Isso será bem discutido aqui ainda! Sabemos que Steve tá evoluindo, mas não pude deixar de colocar um charminho de ciúme aqui kakakaka afinal... uma vez Dominador, sempre Dominador u.u O que acharam da nossa Nat baby como paciente? Foi muito esclarecedor né? Mais uma vez vemos o poder e a importância de uma terapia, o quão fundamental é um acompanhamento psicológico em nossas vidas :3 Me sigam no Twitter e ativem a notificação no meu perfil, pra sempre serem avisados por lá quando eu postar coisas sobre a fanfic --> @NatashaRogers_ Até a próxima!!! Beijocas e comentem ^^