Haunted
2 Capítulo 01
Capítulo 01
Isso já foi há alguns anos atrás, quando a pequena Aneeta ainda era literalmente a pequena Aneeta. O dia estava normal para ela, o crepúsculo chegava. O céu cobria todos com um tom rosado e as nuvens azuladas eram despeças para dar lugar às estrelas da noite.
– Aneeta, vem para dentro! Já está escurecendo! – Gritou a mãe que vinha até a porta chamando pela menina um pouco a frente da casa de madeira fosca que mexia no jardim.
– Já vou mãe! Só um minuto!
– Nem mais um minuto, você sabe que não gosto de você aí nesse breu!
– Gritou e entrou começando a fechar a porta, o que fez a criança correr para dentro com medo de ficar trancada do lado de fora até o próximo amanhecer.
As noites da Noruega, independente da estação eram quase sempre frias, principalmente para quem morava ao pé da Montanha do Pico Gelado, conhecida por suas baixíssimas temperaturas, como eles. Naquela noite tomaram chocolate quente preparado por Hilde, sua mãe e logo após isso sentaram-se em frente à lareira da sala de estar. Enár contou como foi o dia de trabalho e Aneeta falou sobre o dia na escola. Ela estudava da parte da manhã até o meio da tarde. Sua escola não era ali na esquina, então tinha de acordar bem mais cedo. De carro levava um pouco mais que meia hora, já que moravam numa parte um pouco afastada da cidade.
–-x--
Era uma quinta-feira, a jovem acordou cedo, saiu de sua cama de madeira branca e de seu quarto lilás, descendo as escadas de toras de árvore partidas ao meio que fazia um leve rangido quando se pisava nelas. Caminhou até a cozinha onde sua mãe preparava o café da manhã.
– Acordou mais cedo, meu bem...Nem precisei chamá-la!
– Acordei? Droga, podia ter dormido mais!
– Ah, veja pelo lado bom, agora pode tomar esse café da manhã que preparei pra você com calma!
– É verdade, né?
Encheu o copo de vidro até a boca, quase derramando, com o leite quente da própria fazendo que sua mãe havia aquecido. Passou geléia no pão de forma levemente tostado e comeu. Repetiu o copo de leite e o pão, este mais umas 4 vezes. Quando acabou voltou para o quarto, vestiu uma saia vermelha até quase os joelhos, colocou uma meia-calça branca de lã, uma blusa de mangas compridas também de lã, um cachecol laranja e galochas pretas, levando também uma japona cinza com capuz.
Entrou na caminhonete vermelha do pai e foi até a cidade. Alguns minutos depois já estavam na escola. O portão ainda não estava aberto, então se sentou numa muretinha que circundava a rampa da entrada principal esperando por sua melhor amiga do colégio, Amora. A amiga era magra e loira, tinha olhos azuis, seus cabelos chegavam na cintura e eram levemente ondulados. Os meninos tinham grande atração por ela, apesar de ainda ser nova. Aneeta já era ruiva, tinha cabelos lisos, bem pouco ondulados na altura do ombro, franja e gostava sempre de usar rabo de cavalo, tinha sardinhas no rosto e seus olhos eram verde-folha, também magra e até que chamava a atenção de alguns garotos, mas nada de mais. Enfim, Amora Hutenberg e Aneeta Mendeleev eram melhores amigas ali naquele colégio, apesar de Amora nunca ir muito na casa da ruiva por causa da distância. A amiga chegara e o sinal tocara, as duas juntas entraram para a escola e logo depois, para a sala de aula, que era a mesma de ambas.
O dia estava chato como sempre, aula entediante após aula entediante, não viam a hora de bater o sinal para o intervalo. Porém, antes de bater o sinal para ele, receberam um recado avisando que não teria aula na sexta, a escola estava com alguns problemas na iluminação e precisavam arrumar no fim de semana. Talvez por isso as piscadas da luz — A ruiva achara que era ela quem estava piscando sem perceber.
Soou o sinal. Aneeta pegou a maçã que levara e Amora seu sanduíche natural, a mãe da loira fazia ótimos sanduíches! Comeram seus lanches de forma mais alegre, afinal, não teria aula no outro dia! Combinaram então de passarem a sexta feira juntas. Aneeta iria para a casa da amiga e elas fariam...coisas que garotas de 13 anos costumam fazer quando estão juntas e fora da escola.
O dia letivo acabara e as duas se despediam na porta da escola. A mãe de Amora, que sempre vinha buscá-la, conversou com Enár e eles decidiram ceder ao pedido das garotas de passarem a tarde juntas. Cada uma voltou para sua casa, adiantaram as tarefas para a segunda-feira como boas alunas que eram e no fim do dia foram dormir.
–-x--
Era mais ou menos umas 7 horas da manhã quando Hilde cutucou Aneeta para que ela acordasse.
– Hmm...Que foi mãe? – Resmungou ainda com a cabeça enterrada no travesseiro.
– A mãe de Amora ligou, disse que não vão poder se encontrar mais...
– Ué...Por que? – Disse ela sentando-se na cama, esfregando os olhos e olhando para a mãe.
– Ela disse que Amora passou mal a noite inteira. Teve febre e vomitou bastante. Está de cama, talvez seja a maionese do sanduíche de ontem. Ela irá levar a menina hoje a tarde no hospital...
– Ah... – Disse ela olhando pro assoalho coberto por um tapete felpudo branco em um tom triste. – Tudo bem então, né!? Já que ela não está bem...
A garota se levantou da cama com seu pijama de flanela, calçou as pantufas e saiu descendo as escadas que rangiam pouco. Chegando da porta do quarto e tentando animar a garota, que ainda estava praticamente no topo da escada pela lentidão com que descia, a mãe disse:
– Fiz aqueles biscoitos que você gosta...Só tome cuidado para não queimar as mãos no tabuleiro, ele ainda está quente! – Sorriu e entrou novamente para dentro do quarto infantil pretendendo arrumar a cama cheia de cobertas emboladas.
Aneeta desceu, pegou alguns biscoitos que a mãe tinha feito e saiu na varanda. O dia estava meio nublado e ventava um pouco mais que o normal. O pai, um pouco acima do peso que vestia uma blusa vermelha xadrez e colete de pele, afiava o machado sentado no banco da varanda. Ela se sentou ao lado, olhando para o instrumento, enquanto dava algumas mordidinhas pequenas no biscoito. Pequenas como sua boca. Soltou um suspiro de desânimo.
– O que foi, meu amor? – Disse Enár virando-se para a filha.
– Nada, papai...- E depois de uma pequena pausa continuou – Amora cancelou. Está passando mal e não vamos poder nos ver...
– Ah...O que ela tem? – Apoiou o queixo barbado, um cavanhaque, em uma das mãos, observando-a melhor.
– Não sei direito, acho que ficou vomitando ontem...E agora? O que vou ficar fazendo o dia inteiro? Já fiz tudo o que tinha pra fazer...! — Dava a última mordida no último de seus biscoitos.
- Por que não pinta? Você adora pintar, pinta tão bem...!
- Ah...Não estou com criatividade...
O pai pensou por um tempinho, então colocou seu braço sobre o pequeno ombro da filha.
– Não quer ir comigo?
– E cortar lenha? Não sei se consigo...
– Não precisa cortar, sua companhia já me ajuda, minha florzinha...! – Ele recebeu um sorriso de volta da pequena.
– Então ta! – Se levantou depressa e entrou para dentro.
– Onde vai?
– Vou colocar meu colete de pele! Ou você acha que vou de pijama?!
Enár rui-se brevemente e continuou afiando seu machado, esperando o retorno da menina.
Fale com o autor