Haunted

1 Capítulo Único - We are never alone


Notas iniciais
A ideia me veio enquanto eu escutava a música Haunted, do Radical Face. Deem uma procurada por aí, se quiserem, a tradução e tudo mais. A banda também é ótima.
Mas isso aqui é só uma coisinha que eu queria postar, nem conto como uma fic, de verdade. Eu só... não queria escrever e guardá-la. Ah, e o final não faz sentido mesmo. Mas se encontrarem sentido nele, ótimo. Bem vindo ao meu mundo, então.
Boa leitura.

Um ruído distante me desperta do sono leve – não tenho conseguido dormir muito bem desde o acontecido. O barulho se aproxima cada vez mais e então reconheço o chiado. Um carro. Não. Arregalo os olhos e olho em volta, adaptando meu olhar sob a luz clara da lua.

Todas essas noites – ou dias, pois raramente consigo adormecer de noite, sempre penso que eles virão de madrugada, então costumo dormir quando o sol está ao meu favor –, tenho estado ao lado da janela, de onde consigo ter uma visão de boa parte do lado de fora. Não me atrevo a sair do lado da janela, pensando que se por um segundo eu me distanciar, eles chegarão. Pois esse momento chegou e eu estou grudada à janela. Eles vieram mesmo assim.

Não consigo olhar através da cortina de renda gasta. Olhei por ela todo esse tempo, mas não consigo agora. Talvez seja medo, ou apreensão, ou ansiedade. Não sei.

Como todas as vezes em que ouço algum barulho estranho aos que estou acostumada, levo a mão ao meu pescoço. Meus longos dedos frios e pálidos tocam a corrente dourada e igualmente gelada até acharem a cruz de ouro pendurada ali. Aperto o pequeno crucifixo contra minha palma – que começou a tremer sem eu perceber – e rezo. Rezo como faço todos os dias. Rezo para que eles não me encontrem. Rezo para que eu consiga ficar escondida pelo maior tempo possível até que o inevitável aconteça. Desta vez, rezo para que o carro não seja deles.

Rezo em vão, eu sei. Eu sinto que são eles.

Algo dentro de mim grita desesperadamente para que eu me levante e corra, mas outra parte minha sabe que eu não seria capaz. Há algo mais forte me prendendo a este lugar.

Encolho-me embaixo da janela e olho para cima, de alguma forma esperando eles entrarem. O vidro sujo reflete a imagem que tira meu fôlego todas as noites – e não de um jeito bom.

Seu rosto angelical olha de volta para mim pela janela e eu viro meu rosto para constatar mais uma vez que meu maior pesadelo realmente é real. O cabelo castanho, no qual eu tanto adorava passar meus dedos, perdeu o brilho; a pele macia e bronzeada adquirira um tom pálido e cinza; eu ainda conseguia sentir seus lindos olhos cor de chocolate, há muito fechados, me fitando de volta com intensidade. Em sua volta, crescia grama – o casebre abandonado não tinha piso – e o mato começava a ficar alto, quase a escondendo por detrás do verde natural. O luar sorri em sua direção, deixando uma aura prateada em torno de seu corpo pequeno e frágil – nunca fora mais frágil do que agora, percebi – e fazendo o contraste perfeito com a escuridão da noite e do resto do lugar.

Examinando seu rosto por todas essas semanas, percebi que ela estava sempre rindo, feliz com algo inimaginável. Porém, em seu semblante risonho, também havia medo. Muito medo. Como os dois sentimentos se mesclam, eu não faço ideia nenhuma. Talvez fosse um segredo que ela manteria consigo para sempre.

Acho que somos assombradas.

Sempre seremos. Para sempre.

Cubro meu rosto com as mãos, assustada pelo o que pode acontecer conosco; comigo. Se bem que eu não me importo tanto comigo. Ela é mais importante – sempre fora. Pelo menos para mim. E que dia fatídico aquele! Não gosto de lembrar. A culpa é toda minha.

Lágrimas alcançam meus olhos e caem deles, deixando trilhas molhadas para trás. E as trilhas queimam como fogo.

Enquanto sofro em silêncio olhando o corpo pequeno estirado ao meu lado, ouço seu choro – como costumava ouvir todos os dias e continuo ouvindo, mesmo sabendo que é impossível ser realmente seu – e ele preenche o casebre sujo. Um som melancólico e distante, parecendo abafado por alguma coisa. Talvez por água. Água. Choro mais e o som de meu choro se mistura ao que escuto na casa.

Por um breve momento, me esqueço do barulho de carro que ouvi há minutos – mas o tempo para de vez em quando, então não sei se o ouvi há segundos ou horas – e o pensamento me retorna à mente quando ouço o ronco do motor de novo, desta vez mais perto.

Nós nunca vamos estar sozinhas.

Nuvens começam a descer a chaminé e saírem pela lareira, meus olhos não enxergam mais direito. As árvores aos arredores caem pela casa, delatando-nos. Peço que elas fiquem quietas, mas agora elas estão no teto. Serão mesmo as árvores? Os fantasmas passam por nós. Uma chuva fraca e revigorante começa a cair no telhado sem vida, e eu relaxo um pouco. Nós somos assombradas. As mesmas nuvens de antes estão nas paredes frágeis agora. Nós nunca vamos estar sozinhas. O chão da cozinha se enche de água.

Água. Uma vez ouvi que viemos da água. Será que retornamos à água? Ela retornou. Talvez meu destino fosse o mesmo. Ouço a água no telhado e no chão ao meu lado. Tudo me leva para aquele dia em que ela morreu.

Talvez nós tenhamos ficado tempo demais aqui.

Ela já se foi.

É hora de ir embora.

Minha vez chegou, finalmente. Podemos ficar juntas em outro lugar.

Nunca estamos sozinhas.



Fim.

Notas finais
E novamente, elas morrem. Não, eu não tenho nenhum problema. Talvez. Mas... gostaram desta aqui? Deixem-me saber se sim.
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!