Hate Me
1 Hate Me
Notas iniciais
Havia se tornado um ritual perder o sono lembrando de todas as merdas que fizera nos últimos anos, era acostumada a viver sozinha, a se virar por aí desde os 18 anos, quando conquistara a alforria dos orfanatos pela maioridade.
Era uma criança problemática, não sabia lidar muito bem com as perdas e muito menos com o abandono de seus pais, não conseguia entender os motivos deles, não conseguia nem imaginar algum motivo para abandonar o próprio filho.
Mas desde que começara a trabalhar no escritório da prefeita da pequena cidade onde havia se instalado essas coisas passaram a mudar. Emma passou a acreditar em si mesma, era mais fácil de fazê-lo quando Regina parecia tão confiante a respeito de tê-la escolhido para ajudá-la com a papelada.
Com o passar do tempo, aprendera a dormir melhor, principalmente quando o fazia com ela. Aprendera que as noites haviam sido feitas para dormir e descansar e não para admirar o teto, vendo as imagens de um passado todo errado que vivera.
I have to block out thoughts of you
So I don't lose my head
They're crawling like a cockroach
Leaving babies in my bed
Dropping little reels of tape
To remind me that I'm alone
Playing movies in my head
That make a porno feel like home
E por algum tempo, aquilo era algo fácil de ser feito. Fácil e extremamente agradável. Mas o presente era algo dolorido de se viver, o passado parecia querer se repetir várias vezes numa mesma noite.
A loura estava sozinha na cama, no quarto pequeno e sujo de um motel de beira de estrada. A televisão ligada como se pudesse distraí-la mostrando os filmes clichê da madrugada com a imagem bastante travada, o que, provavelmente, se devia ao aparelho antigo que devia apenas enfeitar o lugar com um clima ainda mais Noir do que aquele local já se mostrava ser.
Precisou fechar os olhos com determinada força na tentativa inútil em impedir que a prefeita de Storybrooke viesse à sua mente.
Os braços passaram ao redor do próprio tronco, em uma atitude quase desesperada por colo enquanto os olhos abriam e fechavam, perdidos, sem saber qual atitude tomar para que as lágrimas silenciosas cessassem. Estava sozinha, e pior do que estar sozinha, tinha merecido aquela solidão depois de todo o caos provocado.
There's a burning in my pride,
A nervous bleeding in my brain
An ounce of peace is all I want for you.
Will you never call again?
And will you never say that you love me
Just to put it in my face?
And will you never try to reach me?
It is I that wanted space
Emma sabia que depois daquela última conversa, depois de, mais uma vez ser a responsável por deixar suas atitudes inconsequentes colocar em risco o trabalho de Regina na cidade e tudo pelo quê ela realmente prezava.
Olhava o visor do celular com uma ânsia tola, esperando um sinal de vida que ela já sabia que não viria. Conhecia o orgulho da mulher que amava e ela não viria atrás de si depois de tê-la abandonado como fez. Depois de ter forçado aquela reunião que só atrapalhara a morena em alcançar os objetivos de adoção de um menino que havia perdido os pais.
Óbvio que ela queria ajudar, mas obviamente, ela tinha razão ao dizer que fora inconsequente. Talvez estivesse certa ao dizer que isso, provavelmente, fora herdado de sua mãe, que não pensara duas vezes antes de largá-la na beira de uma estrada qualquer, com mínimas chances de sobrevivência para uma recém-nascida.
Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things
I didn't do for you
Hate me in ways
Yeah, ways hard to swallow
Hate me so you can finally see what's good for you
A loura levantou-se da cama, arrancando o resto de roupa que tinha sobre o corpo para se permitir entrar na banheira encardida, gemendo baixo pela água fria que começara a enchê-la tão lentamente que chegava a ser agonizante.
Ou teria sido em outra circunstância. O som da água caindo parecia se misturar ao chiado da televisão velha e enquanto as lágrimas continuavam seu curso gravitacional, sua mente permitia que ela quase sorrisse com pensamentos positivos, queria acreditar que deixá-la era algo bom. Ainda que lhe corroesse a alma pelos 93 dias que sobrevivera em sua ausência, Regina merecia algo melhor.
O gelado da água era algo que nem incomodava mais. A dor causada pelo frio excruciante e até mesmo a ardência em consequência as marcas finas que tinha sobre as coxas parecia não ser nada comparado ao que todos aqueles pensamentos lhe causavam.
I'm sober now for 3 whole months
It's one accomplishment that you helped me with
The one thing that always tore us apart
Is the one thing I won't touch again
In a sick way I want to thank you
For holding my head up late at night
While I was busy waging wars on myself,
You were trying to stop the fight
You never doubted my warped opinions
On things like suicide or hate
You made me compliment myself
When it was way too hard to take
So I'll drive so fucking far away
That I never cross your mind
And do whatever it takes in your heart
To leave me behind
Ao sair da banheira se enxugou porcamente com a toalha largada sobre a pia e a deixou no mesmo lugar, chutando as peças de roupa enquanto caminhava em direção ao quarto e vestindo a calcinha antes de alcançá-la, abrindo a pequena geladeira enferrujada no canto do local para encontrar várias garrafas de cerveja e até mesmo alguns destilados.
Procurou nervosamente algo não alcoólico para beber, por não querer desperdiçar os 3 meses de sobriedade, já que era, basicamente, a única coisa que havia prometido para si mesma que faria, que faria por ela, já que o abuso de químicos era um dos vários motivos para as brigas constantes.
Era a sua forma de agradecê-la por todas as noites mal dormidas lidando com suas crises existenciais e pesadelos intensos que tinha na maioria das noites.
–Aaaargh!
O som do grito desesperado fora cortado pelo som dos estilhaços de vidro se chocando contra a parede e derramando o líquido amarelado pelo chão escuro. O corpo mirrado bateu com certa força a porta da geladeira, podendo ouvir o ranger das dobradiças de uma forma que teria causado dor de cabeça a qualquer um e sentou-se no chão, completamente domada pelas lágrimas insistentes que caíam, pela tremedeira de seu corpo naquela abstinência infindável.
Os dedos, apesar de trêmulos no caminho de alcançar um dos estilhaços afiados do vidro quebrado, foram firmes ao continuar o padrão de feridas sobre a pele pálida das pernas, admirando de forma febril as gotas de sangue que por ali escorriam, pingando ao chão ensebado aos poucos, até formar uma pequena poça de memórias, lágrimas e sangue, permitindo que o corpo cedesse ao cansaço e adormecesse no chão do quarto insípido de uma cidade qualquer.
And with a sad heart I say bye to you and wave
Kicking shadows on the street
For every mistake that I had made
And like a baby boy I never was a man
Until I saw your blue eyes crying
And I held your face in my hand
And then I fell down yelling
"Make it go away!"
Just make a smile come back
And shine just like it used to be
And then she whispered
"How can you do this to me?"
Acordou bastante tarde. A cabeça latejava e o sangue seco em seus dedos e coxas era uma visão depressivamente insossa para uma pessoa já acostumada.
Sentia-se fraca e precisou juntar forças inexistentes para levantar e voltar para o banheiro, usando a toalha usada para molhar na água congelante e lavar as marcas de uma forma porca.
Demorou uma eternidade olhando a si mesma no espelho, as olheiras e marcas de expressão bastante visíveis. Parecia 10 anos mais velha do que realmente era.
Fechou os olhos para se lembrar que depois de ter estragado todas as chances de Regina conseguir adotar o garoto, depois de encarar a decepção naquele olhar simplesmente saiu de casa. Não teve a capacidade de contar quantas doses engoliu naquela noite, nem de saber como ou que horas apareceu na porta da grande mansão.
Regina estava com cara de sono. Sono de quem tinha dormido mal a noite e olheiras de quem havia passado a maior parte dela chorando. Tempo esse que fora insuficiente para que elas cessassem, já que em questão de segundos a morena segurou a loura pelo braço, ajudando-a a chegar no sofá e no meio do caminho já se debulhava em lágrimas.
Emma segurou em seu rosto de forma bastante débil e tentou esboçar um sorriso.
“Faça essa dor toda ir embora!”
A voz arrastada pelo excesso de álcool ecoou pela grande sala vazia. A loura se permitiu cair no choro também e tentou, mais uma vez, animá-la.
“Apenas sorria daquele jeito lindo e brilhante como você costumava fazer! Sorria pra mim, Regina...”
O olhar arrasado da morena era nítido. Sua expressão era da mais intensa dor.
“Como você pode fazer isso comigo, Emma?”
Apesar do estado quase inerte da loura, ela engoliu em seco todo o orgulho, tudo o que sentia. Era óbvio o que fizera. Era óbvio que partira o coração da única pessoa que pareceu se importar com ela. Era óbvio que estava fodendo tudo para alguém que, desde o começo, só queria ajudá-la.
Agira como uma criança mimada, de forma ridiculamente irresponsável esse tempo todo e esperou que a morena saísse para um dia de trabalho, acenou e aproveitou para ir embora, levando apenas o que carregava normalmente consigo. O fusca amarelo e algumas roupas suficientes para sobreviver nas ruas por aí.
Deixou um recado sobre o travesseiro da cama que por muitos dias partilharam. Um recado que dizia mais do que ela poderia ter dito.
“Hate me today
Hate me tomorrow
Hate me for all the things
I didn't do for you
Hate me in ways
Yeah, ways hard to swallow
Hate me so you can finally see
What's good for you.”
A ideia era recorrente. Sabia que sua vida não valia de nada. Nunca valera. Nem para si, nem para ninguém. E a única pessoa capaz de fazer sua visão sobre isso mudar, capaz de fazê-la tentar ver ao mundo e a si mesma de outra forma fora a pessoa que mais machucara em toda a sua vida.
As mãos eram incapazes de controlar o volante de forma devida e secar as lágrimas que impediam uma visão perfeita da estrada mal feita, na qual pisava fundo no fusca velho que dirigia, sem se importar com os riscos que corria.
Até imaginar vê-la na estrada e tentar desviar sem o mínimo de reflexo para realmente fazê-lo e sentir o carro capotar em câmera lenta.
O coração parecia bater forte e rápido demais. Flashes vinham em sua mente. Todos os dois anos que viveram juntas voltaram em milissegundos. Estava tonta. O carro dava muitas voltas e sua vista fora escurecendo.
A última coisa que a loura ouviu foi o barulho absurdo de uma explosão.
E depois? Depois, mais nada. A dor havia acabado.
Tudo havia acabado.
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