Hate Everything About You
2 Encurralado
Notas iniciais
Amin hirathea- Sinto muito/Me desculpe
Seler' - Irmã
Toror' - Irmão
Amin mela lle - Eu te amo/Te amo
O Sol daquela manhã brilhava de forma pálida quando Amaess acordou com pequenas gotas caindo sobre seu rosto. Sentiu o toque de um par de mãos pequenas sacudindo seu corpo e abriu os olhos devagar, constatando que na verdade o que havia caído sobre seu rosto eram lágrimas. Por alguns instantes, sentiu-se incapaz de se mover, sentindo-se praticamente destruído.
– Toror'...– Era a voz de Claitae, o que fez o jovem se sentir um pouco melhor. A pequena sacudia o irmão mais velho de leve, assustada. O garoto se esforçou para abraçá-la como podia — seu corpo doía de forma insuportável. Um par de lágrimas escorreu dos olhos do jovem — uma mistura de dor devido ao que havia sido submetido na noite passada, e alívio, pela pequena estar bem.
– Clai...– Disse, soluçando. Agradecia mentalmente pela pequena estar desmaiada quando todo aquele horror acontecera. Sentia tanta dor, que sequer tentou ficar de pé.
– O que houve com você?– Ela perguntou, preocupada.
– N-nada... foi só a queda do barranco... lembra?– Mentiu o garoto, sem querer contar o que havia de fato acontecido. Olhou à sua volta, e quase suspirou de alívio ao não encontrar Quarfein, mas a sensação durou pouco — não demorou para que o drow jogasse o corpo de um coelho perto do garoto. Ao avistar a figura de olhos cor de rubi, Claitae se escondeu atrás do irmão.
– Que bom que acordou. Tem um lago aqui perto, vá tomar um banho ...– Disse o drow, falando como se nada tivesse acontecido na noite anterior. Porém, se abaixou perto do garoto, sussurrando. - Mas nem pense em fugir.– Disse, fingindo não ter visto a garota. Sem estar em condições de contestar, Amaess se esforçou para ficar de pé e, lutando contra o tremor em suas pernas, seguiu com a irmã até o lugar do qual Quarfein falara — conhecia muito bem aquele lago. Costumava brincar lá quando tinha a idade da irmã. Quando chegou no local, procurou qualquer coisa que pudesse distrair a mais nova — acabou encontrando uma macieira, na qual inclusive subira várias vezes quando criança.
– Clai... pode pegar algumas maçãs para nós?– Perguntou, tentando fazer a voz sair em um tom normal. A pequena assentiu com um menear de cabeça, e assim que se virou de costas, o elfo se livrou da capa e entrou no lago. Sentiu alívio quando a água gelada o tocou, deixando as lágrimas fluírem em silêncio. Deixou que a água diminuísse parte de sua dor física, aliviando a ardência de alguns cortes, e da dor psicológica, ao livrar-lhe dos líquidos impregnados em seu corpo. Olhara em volta, a fim de verificar se o drow estava ou não observando. Seus ombros tremeram quando um soluço ameaçou deixar seus lábios, mas Amaess não pretendia desmoronar — não quando acreditava ter uma chance para escapar, e não na frente de sua irmã. Lavou a capa e voltou a se enrolar nela — era a única coisa que tinha para se cobrir, e não estava disposto a voltar apenas para pegar suas roupas. Enxugou os olhos, a fim de evitar que sua irmã percebesse que havia algo errado — não queria que ela se sentisse preocupada ou ficasse se culpando.
– Mae... – A garota disse, descendo da árvore. – Estas estão de bom tamanho? – Ela disse, estendendo duas maçãs ao irmão.
– Estão... você tem um bolso aí, não tem? — Perguntou, voltando a ocultar a dor lacerante que sentia por dentro. A pequena assentiu com um menear de cabeça. – Guarde elas. E não faça barulho.– Falou. A mais nova obedeceu e Amaess olhou em volta, em busca de algum sinal do drow. Ao não ver nada que indicasse a presença do mesmo, se pôs a correr, puxando a pequena atrás de si — perto da vontade de escapar, a dor não era nada. Ingenuamente acreditava estar livre da pessoa que tanto o ferira, quando ouvira o som de uma besta sendo disparada.
– Mae...– Disse a pequena, enquanto o irmão a puxava. Logo a garota caiu no chão e, ao que Amaess parou para socorrê-la, recebera um violento soco no estômago. Colapsou sobre os braços do drow e no que tentara se soltar, fora atingido com um chute nas costelas.
– Pare!– Gritou Claitae, mas Quarfein ignorou, atingindo o irmão da garota com um chute no peito. O ar faltou aos pulmões do elfo que, ao tentar se levantar, fora impedido por um chute vindo de cima, atingindo-o no ombro e prensando-o contra o chão.
– O que eu disse sobre fugir?!– Falou o rapaz, atingindo o outro com um chute no estômago. – Você lembra, não lembra?!– Disse, enquanto o elfo se contorcia de dor, sem brechas para tentar escapar. Antes que Amaess pudesse dizer algo, um chute veio em direção ao seu rim. A garotinha entrou em pânico diante daquela violência.
– Pare! Pare! – Suplicou a pequenina, enquanto via o irmão ser espancado sem sequer ser capaz de se mover. Lágrimas escorreram do rosto da garota, enquanto a mesma lutava desesperadamente contra o veneno paralisante. Amaess tentava se defender dos golpes, mas era em vão — o drow o golpeava com tal freqüência que o garoto nem tinha tempo para abrir a boca a fim de implorar para que parasse. Quarfein o ergueu pelos cabelos, atingindo-o com um chute no rosto antes de ergue-lo novamente pelos fios dourados, fazendo com que o outro emitisse um gemido baixo e sufocado de dor.
– Então, o que eu devo fazer para você notar o tamanho do seu erro? – Disse Quarfein, observando o filete de sangue que escorria dos lábios do elfo. Amaess tremeu, mas tentou não demonstrar o quão vulnerável verdadeiramente estava — um erro terrível, visto que o outro queria fazê-lo implorar por clemência, ou até mesmo por uma morte rápida. – Devo matar essa pirralha, que aliás já está me irritando com esses gritos?– Diante daquelas palavras as orbes azuisdo elfose arregalaram, mas antes que Amaess pudesse dizer algo, o drow continuou. – Ou quem sabe arrancar um ou dois dedos dela e fazer você comê-los?– Prosseguiu Quarfein, puxando a cabeça do garoto para trás de forma a impossibilitá-lo de dizer alguma coisa, e então se voltando para a pequena enquanto o irmão da mesma se debatia, tentando afastar as mãos do drow de seus cabelos. — Talvez a língua, já que se ela gritar mais uma vez eu vou quebrar cada osso do corpo dela...– Ameaçou, fazendo com que a pequena e seu irmão mais velho se desesperassem ainda mais.
– N-não... ela não tem culpa...– Disse o elfo, com dificuldade não apenas pela forma como o outro o segurava, mas também pela dor excruciante que sentia.
– E daí? Ela só está viva por causa do acordo que nós fizemos e você quebrou, lembra?– Falou Quarfein, atingindo o garoto com as costas da mão e permitindo que seu corpo colapsasse. Iria fazê-lo pagar por ter se atrevido a fugir — se as palavras não haviam sido o bastante para deixar claras as novas condições, a dor certamente seria — foi o que pensou.
– Me desculpe... por favor me desculpe...– Falou o elfo, a despeito do fato de que até mesmo respirar estava sendo uma tarefa dolorosa. Temia o que o outro pudesse fazer não apenas com sua irmã, mas também consigo — ainda assim, não havia muita coisa que pudesse fazer. Quarfein ignorou e prosseguiu.
– Ou quem sabe eu deva refrescar sua memória mostrando para sua irmã o tipo de puta que você é?– Disse o drow, virando o garoto de barriga para cima. A irmã do rapaz chorava, assustada.
– Não... por favor... me perdoe por favor...– Suplicou Amaess. Passar por aquilo já era extremamente doloroso e humilhante, não queria ter uma experiência ainda pior passando por aquele suplício na frente da própria irmã. O rapaz de olhos vermelhos se abaixou ao lado do elfo, a fim de observar a expressão de pavor e as lágrimas no rosto do mesmo — aquele medo quase tangível... aquele desespero quase concreto... sabia que não iria se cansar tão cedo de vê-los refletidos nas orbes cor de safira de Amaess. Deixou as mãos deslizarem pelos cabelos dourados do outro.
– O que você me diz, minha vadia? Bem, lógico não há apenas uma forma de- O drow se viu interrompido.
– Pare! Por favor... pare... eu não vou fugir de novo eu juro... eu prometo... por favor me desculpe...– Falou o elfo, tentando afastá-lo, em prantos. Não queria passar por aquilo na frente de sua irmã... não queria que ela visse aquilo, não queria que ela soubesse o que havia acontecido enquanto ela estava inconsciente. Não queria passar por algo ainda mais degradante.
– Não se preocupe... cedo ou tarde ela iria saber o quão indecente o irmão dela é.– Falou o drow, puxando para si a capa que cobria o corpo do garoto. As orbes azuis se voltaram na direção da garota, que estava de olhos arregalados.
– Tae... não olhe!– Disse o elfo, pouco antes de Quarfein erguê-lo pelos cabelos, fazendo-o emitir um gemido baixo de dor.
– Olhe. Olhe e veja o fato que seu irmão não passa de uma vadia. — Disse, enquanto puxava os cabelos do garoto para trás, se deliciando com as lágrimas que agora escorriam em abundância. Por mais que os olhos de Claitae aparentassem fitar aquela violência, eles encaravam nada mais nada menos do que o vazio. O som de um zíper sendo aberto fez com que Amaess fechasse os olhos, deixando escapar um soluço. Ainda assim, precisava proteger a única coisa que lhe restava — precisava proteger sua irmã, mesmo que isso significasse permitir que o outro lhe fizesse em pedaços.
– Por que está chorando? Eu te avisei o que aconteceria caso você fugisse.– Disse o drow, enquanto o elfo soluçava se perguntando que tipo de tortura lhe seria infligida daquela vez. Amaess sentiu algo quente ser pressionado contra seus lábios — não sabia o que era e não queria saber — apenas tentaria manter sua mente afastada do que acontecia para que aquele inferno não fosse talhado em sua memória, de forma que apenas abriu os lábios, permitindo que Quarfein inserisse o que quer que fosse em sua boca. Engasgou enquanto o drow o puxava pelos cabelos em direção à sua virilha, chegando a sufocar algumas vezes. Ainda assim, mantinha os olhos fechados, se recusando a abri-los e saber que aquilo que pulsava dentro de sua boca era o órgão reprodutor do outro.
– Você ao menos sabe o que está fazendo?– Perguntou Quarfein. O elfo se recusou a abrir os olhos. – Olhe para mim.– Exigiu, fazendo com que o outro abrisse os olhos devagar. Mais lágrimas escorreram quando Amaess fora obrigado a ter a confirmação do que acontecia, e o garoto engasgara. — Use sua língua. E não fique apenas parado me encarando .– Falou o drow. O garoto sequer sabia o que fazer, mas ainda assim começou a mover a língua devagar. Quarfein riu ao notar o quão inexperiente o mais jovem era, agarrando-o pelos cabelos e forçando-o a fazer não apenas movimentos circulares com a língua, mas também de vai e vem com o rosto. O elfo reprimiu a vontade de vomitar e prosseguiu, tendo o choro abafado.
"Alguém... alguém por favor salve meu irmão... por favor... eu não posso fazer nada..." Chorou a pequena em pensamento, enquanto Quarfein forçou ainda mais seu órgão na garganta de seu irmão, fazendo com que ele estremecesse e sufocasse. Apesar disso, o garoto não parou — queria acabar com aquele inferno o quanto antes, e intensificou os movimentos de sua língua. Podia ouvir a respiração do drow aumentando de ritmo, mas não reagiu — apenas se mantinha concentrado em acabar com aquilo o quanto antes. Se encolheu em meio a dor quando sentiu o sêmen de Quarfein jorrando no fundo de sua garganta, fazendo-a arder.
– Engula.– Disse o drow, segurando o garoto. Um som sufocado de dor e agonia foi tudo o que o outro emitiu enquanto se esforçava para acatar à ordem. Por fim, Quarfein finalmente o soltou, permitindo que o corpo do elfo colapsasse enquanto o mesmo arfava em busca de ar, chorando.
– Toror'...– A garota tentava se mover, em vão, enquanto o outro tremia. – Amin hiraetha... Amin hiraetha... – Disse, soluçando.
– Seler'... não foi sua culpa... – Disse o garoto, tentando recuperar o fôlego. – Amin mela lle... seler'...
O rapaz ignorou os dois, se sentando perto do garoto, que mantinha os olhos fixos na irmã. Quarfein achava estranha a forma como o elfo a observava — como se fosse a coisa mais valiosa do mundo. Considerava mais estranha ainda a forma como o outro se submetia à sua vontade apenas para protegê-la — e achava tudo aquilo estúpido, mas não se importava — estava se divertindo com aquilo... estava se divertindo com a dor e a agonia dos dois... e enquanto achasse aquilo divertido o bastante não se importaria em ficar algum tempo na superfície, atormentando os dois irmãos e vendo até onde iria a insistência de Amaess em tentar proteger a garota — insistência essa que, diga-se de passagem, estava determinado a destruir.
– Vai fugir de novo? – Perguntou, puxando Amaess para si e rindo da forma como ele desviara o olhar, tremendo.
– Não...– Disse o garoto, com um fio de voz.
– Nesse caso, eu vou voltar e pegar suas roupas. Tente fugir de novo e a pirralha está morta.– Ameaçou, fazendo o elfo se encolher. Amaess esperou o outro se afastar para engatinhar até a irmã.
– Amin hiraetha...– Disse a pequena, considerando que se tivesse ficado quieta na noite anterior aquilo não teria acontecido — não levava em conta a possibilidade de que talvez tivesse acontecido algo pior, mas no fim das contas, era algo que jamais haveria como saber.
– Sh... vai ficar tudo bem... eu prometo que não vou deixar ninguém te machucar...– Falou o garoto, abraçando a irmã com as forças que tinha.
– Mas... e você?– Perguntou a pequenina, sem ser capaz de se mover para corresponder o abraço.
– Não precisa se preocupar... depois que você estiver a salvo, eu dou um jeito... apenas... apenas não fique triste por minha causa...– Falou o mais velho, forçando um sorriso.
– Você está passando por isso por minha culpa... está sofrendo por minha culpa...– Disse a garota, se sentindo não apenas impotente, mas também culpada diante da situação.
– Não... não é sua culpa, nunca foi e nunca vai ser... agora, que tal descansar, hã?– Perguntou o garoto. — Quer que eu cante para você dormir?
A pequena balançou a cabeça em uma negativa muda. - Você fez muito por mim... deixa eu fazer algo por você...– Falou a criança, se esforçando para se mexer. Sorrira de leve ao conseguir mexer os dedos, e depois as mãos... – Deixe que eu cante para você dormir...– Disse a garota, abraçando o irmão e acariciando-o. Um par de lágrimas escorreu dos olhos do rapaz.
– Seler'...– O garoto disse, apertando a irmã contra si. A pequena pressionou o rosto do irmão contra seu ombro ao notar que o mesmo estava chorando. — Eu... eu vou ficar bem, contanto que você esteja a salvo...– Disse. Sua irmã era tudo que lhe restava, era tudo o que não havia sido tirado de si... e Amaess a protegeria com a própria vida se preciso.
Passado mais tempo que o esperado, Amaess ouviu o som de passos vindo em sua direção e se afastou de sua irmã, temendo que qualquer coisa pudesse servir como uma desculpa para o drow torturá-lo. Algo que de fato chegava a acontecer.
– Não demore.– Disse o rapaz, jogando as roupas para o elfo. Amaess se encolheu, enquanto Quarfein apenas esperava, sem ânsia ou pressa — sem nada que o fizesse querer ser rápido. O elfo não demorou, e logo estava de pé ao lado da irmã, encarando o chão. Seguiram caminho em silêncio — o silêncio do abismo que existia entre os dois. As horas passavam de forma indiferente para o garoto, que depois de alguns quilômetros já não conseguia continuar — a exaustão e a dor dos ferimentos feitos pelo outro o impediam de seguir em frente.
– O que foi agora?– Perguntou o rapaz, de forma fria.
– Não... não consigo continuar... – Falou o outro, se sentindo como se fosse perder o equilíbrio a qualquer instante. Seu corpo todo doía, e doía mais ainda por estar de pé. Suas pernas tremiam — não apenas devido à violência sofrida, mas também devido ao esforço brutal despendido na tentativa de fuga.
– Vai ter que conseguir. Parar está fora de cogitação. — Disse Quarfein, puxando o garoto pelo braço. Amaess se apoiou em uma árvore para não cair, o que fez com que o drow emitisse um suspiro de frustração.
– Está bem, nós podemos ir até a estrada e ver se conseguimos que alguém nos leve até certo ponto... mas se cogitar a possibilidade de pedir ajuda ou tentar fugir, fique sabendo que não vai ser só sua irmã que irá morrer por sua culpa. – Falou o jovem, segurando o braço de Amaess com força. O elfo abaixou o olhar, e apenas assentiu com um menear de cabeça. Queria poder ao menos fazer com que sua irmã se visse livre de Quarfein. Seguira até a estrada a passos lentos, sem notar a forma cheia de culpa com a qual a irmã o olhava. Na estrada iluminada pelo Sol do entardecer, permitiu que seu corpo colapsasse. O drow observou com descaso a figura frágil e abatida estirada no chão, e procurou um lugar para se sentar, observando com desdém a pequena aninhar a cabeça do irmão em seu colo, pronunciando diversas palavras em élfico que eram apenas respondidas por monossílabos. Ouvia a criança chorar pelo que acontecera, mas para ele nada significava, a não ser algo que podia usar para ameaçar e atormentar o elfo — inconscientemente, lá no fundo, a invejava profundamente — talvez o que o motivara tanto a atormentar Amaess: o drow sabia que suas irmãs nada fariam por ele, e que seu irmão seria capaz de matá-lo caso tivesse a oportunidade — enquanto que aquele garoto... aquele garoto simplesmente tentava suportar o que fosse para proteger a irmã. O drow não compreendia o porque, e nunca imaginaria que fosse por uma certa inveja de Claitae, que aquilo o irritava tanto. Porém, logo o som de cascos de cavalos foi ouvido, e Quarfein ajudou o garoto a se levantar. Uma carruagem vinha se aproximando, e o drow se voltou para a pequena.
– Peça a eles para pararem. Não diga nada, apenas confirme o que eu disser. – Falou Quarfein. A pequena o olhou com raiva, e depositou um beijo na testa do irmão antes de ir para o meio da estrada. O drow fingira preocupação em relação a Amaess enquanto a carruagem era parada.
– O que houve garota?!– Perguntou o homem que estava no veículo. Os olhos dele se voltaram para Quarfein e então ele pegou uma foice, mas antes que humano pudesse fazer algo o rapaz já havia elaborado uma mentira.
– Os dois foram atacados por bandidos. Eu cheguei a tempo de evitar que ferissem a garota, porém... – O drow se viu interrompido.
– Acha que irei acreditar – Temendo pela segurança do irmão, a pequenina fizera o que Quarfein lhe mandara fazer.
– Mas é verdade... se não fosse, por que razão ainda estaríamos vivos? – Perguntou a garota, relembrando ao humano da inimizade ancestral entre as duas raças. Sentia nojo de si mesma ao acobertar aquela mentira, mas pelo menos por enquanto, tinha de fingir aquilo — tinha medo de que, caso dissesse a verdade, Quarfein matasse não apenas ela e seu irmão, mas também o humano e quem mais estivesse na carruagem. O homem hesitou, mas por fim se convenceu — não imaginava que aquela criança fosse mentir a respeito daquilo.
– Está bem, para onde vão? Eu estou indo para Leste. – Disse o humano.
– É exatamente para onde vamos.– Respondeu Quarfein. Amaess se consumia em agonia — o fato de que a ajuda estava tão perto, mas ao mesmo tempo tão longe, fazia o coração do garoto chegar a doer. Com a gentileza mais falsa do que as palavras "eu te amo" sendo proferidas por uma prostituta durante o expediente, o drow ajudou Amaess a subir no veículo. Um par de lágrimas escorreu do rosto do garoto diante da dor que sentia ao não poder recorrer à possibilidade de resgate, contra a qual uma barreira de ameaças se erguia.
– Querido, o que– Disse uma humana, que aninhava uma criança de colo, ao avistar Quarfein.
– Está tudo bem querida, não precisa se preocupar.– Falou o homem. Não. Não estava nada bem. O drow puxou Amaess para si, disfarçando a satisfação que sentia ao deixar suas mãos deslizarem pelo rosto do outro, colhendo lágrimas cristalinas e carregadas de dor. Um silêncio sombrio se estabeleceu, até que a mulher tomasse coragem para perguntar.
– O que aconteceu? – Perguntou, gesticulando para Amaess. – Ele não parece nada bem.
– Eu e meu irmão fomos atacados... – Disse a pequena, enquanto seu irmão dava sinais de quem não demoraria a ceder à dor e ao cansaço. Mantendo o teatro em torno da mentira que havia construído, o jovem drow aninhou a cabeça do garoto em seu colo, fingindo preocupação.
– Infelizmente não consegui impedir que o garoto se ferisse...– Mentiu Quarfein, pegando um pedaço de pano e só então limpando o sangue que havia escorrido pelos lábios do elfo. – Ele deve estar exausto.– Disse, em uma compaixão tão falsa que até um "boa sorte" nos lábios de um bicheiro soaria sincero se comparado à ela. Claitae imaginou a agonia que revirava o irmão, e fez questão de tentar encontrar uma forma de tirá-lo de perto do drow.
– Toror'... pode dormir perto de mim? Eu estou com medo...– Pediu, unindo a verdade do medo que sentia ao pedido com intenções premeditadas. Quarfein riu por dentro ao se perguntar se a garota achava que estava enganando alguém, mas resolvera lhe dar algum crédito pela tentativa — até que era esperta para uma criança da superfície.
– Vá lá.– Ele disse ao garoto, que foi para perto da irmã, abraçando-a com força enquanto soluçava. Vendo o irmão sofrer daquele jeito, a garota não pôde evitar que uma lágrima escapasse de seus olhos.
– Eles...– A mulher ia perguntar algo, mas Quarfein se antecipou, falando uma verdade pela primeira vez desde que pusera os pés naquela carruagem.
– Perderam os pais recentemente.– Falou. A mulher fez uma expressão penalizada, mas nada disse — precisava cuidar de seu filho, afinal. Se deitou com a criança ao seu lado, enquanto Claitae se agarrava ao irmão.
– Amin mela lle... toror'...– Disse a pequena. Amaess lhe deu um beijo na testa.
– Eu sei... – Respondeu o garoto.– Acontece que eu te amo mais.
Quarfein desviou o olhar. Aquele sentimentalismo o irritava. A pequena se aninhou no colo do irmão, abraçando-o.
– Estou com medo de ter pesadelos...– Disse a menina. Não sentia-se como se pudesse pedir qualquer coisa para o irmão, mas, ainda assim, queria ficar perto dele — queria se reconfortar na proteção de seu colo, agarrando-se à sua túnica, sentindo o calor de seu corpo.
– Quer que eu cante para você dormir?– Perguntou o jovem . Claitae assentiu com um menear de cabeça. O garoto começou a entoar uma canção élfica que, a principio, Quarfein ignorou — porém, as palavras pareciam ganhar vida e dançarem através da voz doce e suave do elfo, graciosamente quebrando o silêncio, de forma que era impossível não se deixar cativar pela melodia entoada por aquela voz tão cândida e cativante.
O drow tentou negar a beleza presente naquela canção e no dono da voz que a entoavam, mas diante da formosura da voz do garoto fora impossível não se deixar cativar. Quarfein percebera a derrota tão tarde que, quando a pequena elfa adormeceu e o mais jovem parou de cantar, o drow notou seu coração traindo sua mente e suas convicções, suplicando por mais daquela voz. A principio lhe negara tal desejo — o desejo tolo e quase blasfemo de ouvir um elfo cantando uma canção de sua terra natal — mas a beleza naquela voz era arrebatadora de tal forma que o drow se vira obrigado a admitir a derrota perante à doçura da mesma. Amaess já estava se deitando quando o maior se rendeu ao desejo supérfluo, porém intenso, que vinha do lado esquerdo de seu peito.
– Continue.– Falou, se negando a deixar transparecer que havia tido suas defesas quebradas por algo tão frágil quanto o entoar de uma canção. Amaess ergueu o rosto, esfregando os olhos que já estavam fechados.
– Huh? Por que? – Perguntou o elfo, achando aquilo deveras estranho — tinha certeza de que o outro só queria sua dor e sua agonia, então, por que aquele pedido tão repentino?
– Porque eu estou mandando.– Disse o jovem drow, o que fez Amaess desviar o olhar. – O que foi?
– E-eu... eu nunca...– Antes que o elfo pudesse completar a frase, voltou a ser interrompido.
– É uma ordem.– Ditou Quarfein. Temendo as ações do outro, o elfo começou a tentar voltar a entoar a canção — ainda assim, a única pessoa que o havia escutado cantar até então fora sua irmã e Erdan, e o nervosismo se alastrava por seu corpo, fazendo com que gaguejasse no inicio, mas logo se concentrou no que fazia ao invés de se concentrar em quem o ouvia.
– Pode ir dormir. — Disse o drow, depois de algum tempo. Sua mente vira aquele canto da mesma forma que os marinheiros viam o canto das sereias — um canto belo e cativante, porém traiçoeiro, que tinha como objetivo lhe atrair para a morte no fundo do mar — ou, no caso, no fundo de um amontoado de fraquezas. Quarfein se deitou, se lembrando de súbito que sequer sabia o nome do garoto que violentara duas vezes, e que sequer conhecia o gosto de seus lábios róseos e macios. Achara melhor não saber — pela primeira vez teve medo — da mesma forma que marinheiros tinham medo de não retornar ao navegarem por águas distantes, o rapaz se vira com medo de se aproximar demais e se ver preso àquele garoto. Afastou tais pensamentos — era apenas um elfo, o que o fazia pensar que tal criatura poderia cativá-lo? Se deitou de qualquer jeito a fim de descansar. Em seus pensamentos, o outro não passava de um brinquedo que podia quebrar até destruir. Está bem, um brinquedo... atraente, e com uma voz extremamente agradável de se ouvir... um brinquedo do qual não pretendia se livrar tão cedo, mas ainda assim um brinquedo. E fora que não era apenas entoando uma canção que a voz do elfo lhe atraia — definitivamente não era. Adormeceu, sem se importar com a desculpa que daria a sua mãe, ou melhor, à matrona de sua casa, pelo sumiço repentino e prolongado — não que drows ligassem muito para familiares — às vezes, passavam-se semanas antes que começassem a cogitar a respeito da morte de um parente quando este falecia de forma inesperada — mas, uma vez que para suas irmãs qualquer coisa era uma desculpa para importuná-lo, era sempre bom ter uma justificativa na ponta da língua.
Notas finais
Vocês saberão quem é Erdan láá na frente!
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