Hate Everything About You

25 Doce Amargura - Parte I - Flores


Notas iniciais
Definindo o estado da autora a essa altura: a mil!! Estamos acabando... ah a sensação de trabalho quase completo é tão perfeita, acho que eu vou grudar no teto de felicidade quando eu terminar!

Quarfein acordou com os raios de Sol tocando sua pele, e logo olhou para o lado, constatando que Amaess ainda estava dormindo. O drow deu um sorriso discreto ao observar a expressão serena no rosto do garoto enquanto ele dormia — os lábios rosados entreabertos... os olhos fechados de forma calma... era quase como uma pintura, de tão perfeito.

"Não o acorde... ele pode estar cansado... ele ainda vai ter de lidar com a irmã... A IRMÃ! A FEDELHA, A PIRRALHA, A MA- não... ela não era uma mala... e também não era como Aunbryn... ela só ficava no caminho tentando proteger ele, a pobrezinha..." Pensou o rapaz, pegando o balde e começando a encher a banheira. Tentou esquivar a sensação de culpa pensando em como a irmã de Amaess se esforçara para proteger o elfo, enquanto sua irmã se esforçara para lhe matar... tentou se sentir melhor dizendo para si mesmo que cada um tinha a irmã que merecia, mas era tarde — encarou seu reflexo no espelho, e ele lhe encarava com um olhar cheio de angústia e culpa... o drow desviou o olhar, pensando que seu reflexo estava encarando um monstro.
Quarfein voltou a encher a banheira, e se concentrou nisso — não conseguia se perdoar pelo que havia feito. Estava prestes a se despir e imergir na água, esperando que esta levasse embora suas memórias e sua angústia, quando ouviu batidas na porta, e temendo que a camareira pudesse acordar Amaess, correu para atendê-la.

– Como ele está? – Perguntou Nádia, preocupada com o elfo. Quarfein suspirou.

– Nem mesmo um bom dia? – Provocou o drow — se sentia culpado demais para agir com cinismo, mas ao mesmo tempo esperava que Nádia respondesse com algo que o fizesse se sentir melhor.

– Bom dia, como está Amaess? – Disse a garota, de forma ríspida. O drow abaixou o olhar.

– Eu não sei. Ele está perdido e confuso, mas pelo menos não dormiu chorando, que nem costumava a ser um tempo atrás. – Informou o rapaz, fazendo com que Nádia desse um sorriso otimista — o que levou um pouco de conforto à mente atormentada do drow. – Eu estou preocupa-

– Ele vai ficar bem... se o que você diz é verdade, então ele já não está completamente abatido... é um bom começo... – Falou a jovem, fazendo com que seu otimismo levasse um pouco de alívio ao drow. – Não espere que seja um processo rápido... pode ser que seja, pode ser que não... mas seja paciente... a maioria das pessoas da superfície são como flores... são diferentes e diversas em suas necessidades e características... mas todas elas demoram a se recuperar quando sofrem um golpe muito forte... elas também podem precisar de apoio para conseguir a força da qual precisam...

– Mais alguma coisa? – Perguntou o rapaz, lembrando-se de que a água na qual iria tomar banho estava esfriando.

– Eu vim regar as flores. Posso? – Disse a garota, erguendo um regador. Quarfein hesitou.

– Pode. Mas não faça barulho, ele está dormindo. – Exigiu, voltando para o banheiro. Imergiu na água, esperando que com isso sua angústia talvez se afogasse, e ficou um bom tempo observando seu reflexo. Pôde ouvir os miados agudos de Daxunyrr, que não demoraram a cessar — provavelmente, Nádia havia pensado na gata e colocado um pires de leite para a mesma, pois quando prestava atenção, Quarfein podia ouvi-la ronronando. Subitamente, o drow pegou-se prestando atenção nos ruídos que vinham do outro cômodo e imaginando o que estaria acontecendo:

– Ah... você acordou... bom dia... – Disse Nádia, fazendo com que Quarfein imaginasse Amaess erguendo parcialmente o rosto e preguiçosamente esfregando os olhos. – Você está bem?

– B-bom... dia... ah... um pouco...– Respondeu o garoto, um pouco sonolento. O que o elfo dissera a seguir fez o drow imaginar que o mesmo vasculhara o quarto com o olhar logo após fazer isso. – Onde está Quarfein?

– Ah... ele está tomando banho... mas você disse que está um pouco bem... por que um pouco? – Falou a garota, enquanto provavelmente regava o pequeno vasinho de plantas que ficava em um dos criados mudos.

– Eu me sinto meio confuso... eu não sei que decisão tomar... eu ainda tenho medo... do que pode acontecer... – Disse Amaess. Ouvir aquilo e imaginar o elfo se encolhendo na cama fez com que Quarfein sentisse vontade de estrangular a si mesmo.

– Fala... com medo de que ele te machuque? – Perguntou Nádia. A essa altura, Quarfein imaginou a humana sentada na beirada da cama de Amaess, segurando a mão do mesmo sem que ele começasse a tremer e a soluçar... doía pensar em como tudo parecia estar melhor na sua ausência. O drow imaginou Amaess confirmando com um menear de cabeça devido ao que ouviu em seguida.

– Se isso acontecer de novo... eu não sei... N-Nádia... eu estou com medo de que ele... de que — A humana interrompeu o elfo.

– De que ele esteja fingindo, não é? – Falou a humana, indo direto ao ponto. Quarfein mordeu os lábios para não suspirar — era óbvio: como poderia esperar ter a confiança de Amaess depois de tudo o que fizera? Novamente a imagem do elfo confirmando com um menear de cabeça assombrou seus pensamentos. – Eu não acho que ele esteja. – Disse Nádia, para espanto e alívio do drow. – Os riscos que ele correu foram altos demais para tudo ser um mero teatrinho. A pessoa precisaria ser muito burra para permitir que alguém enfiasse uma faca no olho dela apenas para fingir se importar com alguém, ainda mais levando em conta o quão perigoso seria se esse tipo de ferimento infeccionasse. – Falou a humana, no seu tom otimista. Quarfein sentiu alívio ao ouvir o que Nádia estava dizendo. – Eu mesma também duvidava... mas... ele realmente está se esforçando... eu já conversei com ele... ele realmente se importa e se arrepende... mas não é só isso que você deve levar em conta... o que importa é a sua vontade, Amaess. Você realmente quer perdoar o que ele fez e ficar ao lado dele?

O elfo permaneceu em silêncio por alguns instantes, e Quarfein o imaginou levando a mão ao peito com uma expressão de angústia. Nádia respirou fundo.

– Está bem, eu vou ser mais direta... você sente algo por ele? – Perguntou a garota que, para alguém que havia ido apenas regar dois vasinhos de violetas, já estava demorando demais. O que veio a seguir surpreendeu Quarfein, e logo o drow se lembrou do que a humana disse sobre as pessoas da superfície serem como flores, que podiam ser muito diferentes, mas que às vezes podiam ser frágeis e delicadas, necessitando de ajuda para obter as forças das quais precisavam.– Então... não precisa ter medo do que está fazendo... apenas acredite na sua convicção, e saiba que eu e Alvina estaremos aqui para te ajudar se precisar. E nós vamos contar com a ajuda de Claire também. Ela geralmente não usa o dom dela para mudar o destino das pessoas, mas concordou em fazer isso caso as coisas tomem um rumo ruim. Bom... eu tenho que trabalhar... depois conversamos mais... – Disse a humana. Quarfein deu um sorriso ambíguo na banheira — Nádia, a pessoa que ele antes havia considerado apenas como um obstáculo para a realização de seus desejos, estava se revelando uma pessoa incrível — e o mais irônico de tudo era que agora era ela quem estava ajudando-o a conseguir o que mais desejava.

O drow se ergueu, parando diante do espelho e olhando para alguns arranhões em seu braço e para os ferimentos que havia obtido na luta contra Aunbryn — ferimentos que não se arrependia nenhum pouco em ter espalhados por seu corpo: em sua visão eles eram tanto uma marca de como ele havia se arriscado para proteger Amaess, quanto uma punição relativamente leve — mas não pouco merecida. Ficou um bom tempo encarando seu reflexo, notando em seu olhar a amargura da culpa e a serenidade de estar amando alguém. Entendia parcialmente porque tanto fora ensinado a temer aquele sentimento: era um sentimento perigosamente doce, capaz de fazer as pessoas se sacrificarem por outrem; era uma ameaça ao individualismo e ao egoísmo pregado na sociedade de Lolth, pois fazia as pessoas se importarem umas com as outras; era o que ele agora sentia por Amaess, e era o que o fez enfrentar sua irmã sem temer a morte. A morte... quem ele um dia fora estava morto, e quem ele era agora sentia um alívio angustiante diante disso — tinha esperanças de que o passado morreria a medida que os cortes se fechassem, mas ao mesmo tempo temia o fato de que talvez o futuro não fosse como esperava — ainda assim, manteria suas expectativas, esperando que no final tudo ficasse bem.

Notas finais
"Olhei até ficar cansado De ver os meus olhos no espelho Chorei por ter despedaçado As flores que estão no canteiro Os punhos e os pulsos cortados E o resto do meu corpo inteiro (...) Há flores por todos os lados Há flores em tudo que eu vejo A dor vai curar essas lástimas (...) As flores têm cheiro de morte (...) Flores Flores As flores de plástico não morrem" - Flores, Titãs. Ok, pelo menos na minha interpretação essa é uma música sobre suicidio, o que não tem muito haver aqui... mas músicas podem ser interpretadas de formas diferentes, e eu peguei esse pedaço em particular para pensar um pouco com uma perspectiva da fic... Tendo em vista as falas da Nádia sobre pessoas, é bem fácil ver onde a primeira parte se encaixa: ela se encaixa na perspectiva do Quarfein e da mistura de sentimentos que ele reprimiu por tanto tempo e que agora está sentindo - e o "chorei por ter despedaçado as flores que estão no canteiro" não se refere apenas ao arrependimento dele pelo que ele fez ao Amaess antes, mas também ao fato de que agora ele está parando para pensar em tudo o que fez e em quantas vezes fez algo negativo pelo temor à morte e pela fé cega em uma religião (no caso, o culto a Lolth, mas eu queria aproveitar a deixa para alertar todo mundo que fé cega não é saudável e em 99% das vezes só leva as pessoas a fazerem merda). A parte de "as flores tem cheiro de morte" é mais tensa - a morte nessa distorção interpretativa que eu fiz tem uma caráter positivo e libertador, pois não se refere a morte de uma pessoa, e sim à morte do temor do Quarfein não apenas às suas irmãs e a uma divindade, mas também ao medo que ele tinha dos próprios sentimentos. As flores tem cheiro da morte do passado, o que dá mais espaço para que o futuro possa ser de qualquer forma que se possa desejar. "As flores de plástico não morrem" - As flores de plástico não sentem, elas são invulneráveis e portanto não morrem - não por não poderem ser destruídas, mas sim porque para morrer precisa estar vivo antes. Portanto, as flores de plástico só não morrem porque não vivem - elas não tem sentimentos e portanto não correm o risco de morrer em nome dele ou da segurança de alguém que amam, mas a existência que levam é desprovida de um significado maior e elas também podem ser destruídas - o que faz com que a diferença delas para uma flor normal seja basicamente que a flor normal vive e as flores de plástico não. Bom, é isso... novamente encho o saco para deixarem sua opinião no review, até porque foi uma das reviews recentes que postaram aqui que acabou com minha falta de inspiração