Hate Everything About You
21 Amor e Morte - Parte IV - Recomeço
Notas iniciais
O sangue respingou sobre a neve, tingindo-a de vermelho. Faeremma forçou um pouco mais o punhal, talhando os símbolos de algum ritual, com precisão espantosa. Símbolos que Amaess desconhecia e temia, e que a mulher talhava sobre a própria pele, apesar da dor que as vezes fazia o braço onde eram talhados tremer em um espasmo.
– O que... o que está fazendo? – Perguntou Amaess, sem saber como reagir.
– O veneno usado no subterrâneo... é tão forte... que nem mesmo alguns animais peçonhentos resistem a ele... não há forma convencional de combatê-lo. – Explicou a drow, pegando no braço de seu irmão. O braço de Faeremma começou a tremer, mas a jovem manteve os olhos fechados. Amaess permaneceu em silêncio, sem saber como reagir. – Se meu irmão perguntar o que aconteceu, diga que não sabe... ele... não precisa saber de tudo... ainda... – Disse Faeremma, se esforçando para não deixar a dor transparecer.
– Do que está falando? O que- A ex-sacerdotisa forçou um sorriso, apesar do espanto que transparecia na voz de Amaess.
– E-eu... causei muitas coisas ruins... para o meu irmão... eu fiz ele acreditar em uma deusa cruel, eu fiz ele segui-la... eu acreditei em algo horrível... e matei em nome desse algo... – Disse, fazendo com que o elfo estremecesse. Uma lágrima escorreu dos olhos de Faeremma. – Eu fiz meu irmão acreditar nesse algo... m-me seguir... na medida do possível... mas... ele não pôde me seguir... por sua causa... m-mesmo com todos os dogmas de Lolth na cabeça dele... mesmo... assim... e-eu... é o mínimo... que eu posso fazer... – Falou, à medida que o veneno corria por suas veias. – É devolver... a ele... o futuro que eu roubei... devolver a vida... que eu... eu...
Os lábios da drow se moviam, mas nenhuma palavra se formava. O silêncio se estabeleceu quando o corpo da mesma tombou de forma suave sobre a neve.
"O que foi isso?" Perguntou-se o garoto, ainda sem compreender o que havia ocorrido. "O que-" Amaess saiu de seus pensamentos ao ouvir a voz de Quarfein. O elfo se afastou, com medo.
– A-ai... o que... o que houve? – Perguntou o rapaz, levando uma das mãos ao ferimento em seu rosto, vagarosamente se lembrando do que acontecera. – Amaess... – Murmurou, respirando de alívio quando seu olhar focalizou a imagem do garoto. – Amaess, você está bem? – Perguntou, se esforçando para se levantar. O elfo se aproximou, abraçando-o.
– N-não se esforce... – Disse o garoto, preocupado: o ritual que Faeremma havia feito, fosse qual fosse, havia livrado Quarfein apenas do veneno — os ferimentos ainda estavam lá.
– Eu estou bem... – Falou o drow, abraçando Amaess com força. – Me desculpe... eu te coloquei em perigo... eu quase... não pude te proteger... – Um tremor vindo do corpo do elfo fez com que Quarfein se detivesse. – Amaess... você está chorando? Por que?
– E-eu... você... você podia ter morrido, seu tolo! – Disse o garoto, soluçando. –E... o seu olho... é culpa minha...
– Você é que é um tolo Amaess. Primeiro porque a culpa não é sua. – Falou Quarfein, enquanto Amaess o abraçava da mesma forma que uma criança abraçaria os pais depois de acordar de um pesadelo. O drow riu um pouco daquilo — ele próprio havia proporcionado ao garoto experiências piores do que muitos pesadelos — e aquilo tornava a situação irônica. – E segundo... porque você... não deveria chorar por minha causa... – Disse Quarfein, odiando a si mesmo ao pensar em quanta dor havia causado a Amaess.
Se por um lado o elfo se acalmava diante do fato de que tudo parecia prestes a ficar bem, o drow se sentia mais perdido do que nunca: era doce e amargo ao mesmo tempo pensar na possibilidade de que Amaess lhe perdoaria — Quarfein desejava tal perdão, mas ao mesmo tempo não se considerava digno dele — pensar na possibilidade de ter um futuro ao lado de Amaess era ameaçador e reconfortante, era doloroso e prazeroso, era desejável e incômodo... era enlouquecedor, mas ao mesmo tempo era o único refúgio para que sua mente não se quebrasse em pedaços por causa da culpa.
– Amaess é minha culpa, eu — O drow se viu interrompido.
– Quarfein por favor... vamos voltar para a cidade, você está ferido... – Disse Amaess, preocupado. Quarfein suspirou, cedendo com um "está bem" e, a contragosto, permitindo que o elfo lhe amparasse.
"Você é realmente tolo Amaess... eu é quem deveria cuidar de você, e me preocupar para que você ficasse bem, não o contrário... você não deveria se importar comigo... a morte para mim é pouco por causa do que eu lhe fiz... eu não mereço que você fique ao meu lado, ou que você se se preocupe comigo... ainda assim, eu sou uma pessoa terrível ao ponto de aceitar que você o faça... eu sou egoísta ao ponto de, mesmo tendo te machucado tanto, querer você ao meu lado de forma desesperada... e você é tolo o bastante para aceitar... é doce o bastante para continuar sorrindo... é generoso o bastante para me perdoar, e meigo o bastante para se importar... todas essas coisas ao seu respeito são tão doces, que eu as detesto... e ao mesmo tempo eu as adoro, elas me fazem querer estar ao seu lado... eu te amo, mesmo odiando tudo a seu respeito, e ao mesmo tempo adorando tudo a seu respeito... é confuso... é dissonante... e também ilógico... mas eu parei de me importar... eu te amo como você é..." Pensou o drow.
~*~
Claire olhou para os dois envelopes, se perguntando se de fato seria necessário entregá-los. A garota observou o horizonte com um ar de tristeza, mas ao mesmo tempo, com uma sensação reconfortante.
"Você disse que uma vida sem amor não fazia sentido... que não valia a pena viver quando se é incapaz de amar... mas... você foi capaz de amar... e amou de uma forma mais profunda do que muitos daqueles que julgam saber o que é o amor..." Pensou, guardando para si pensamentos que outras pessoas de sua idade jamais entenderiam. "Emma... pelo menos você partiu satisfeita com o que fez... provavelmente entregar essas cartas não vai ser necessário para que aconteça o que você almejava quando as escreveu... mas, uma vez que foi seu último desejo... eu irei entregá-las..." Uma imagem se formou na mente de Claire, e a garota corou — não era algo que pretendia ver. Um sorriso se formou em seus lábios enquanto a garota tentava afastar a visão, que continha cenas inapropriadas para alguém de sua idade. "Em um momento mais oportuno.".
~*~
Nádia terminou de enfaixar o rosto de Quarfein — apesar de ter conseguido curar por completo a maioria dos ferimentos sofridos pelo drow, a garota nada pôde fazer pelo olho esquerdo do jovem, que agora havia sido irremediavelmente perdido.
– Sinto muito por não ser capaz de fazer nada pelo seu olho... – Disse a garota. Quarfein deu um sorriso debochado.
– Bem, para alguém que me odeia, você fez até demais. – Falou, fazendo Nádia suspirar — a garota detestava o jeito cínico e arrogante do drow, e definitivamente não aceitava que Amaess pudesse ficar ao lado dele. Mas tendo em vista o que Faeremma lhe dissera, a jovem apenas observava -e como observadora, notara mudanças profundas no comportamento de Quarfein — mudanças dificeis de admitir, mas que se encontravam lá, de forma inegável.
– Tem razão. Mas se não fosse por Amaess e por Emma, e pelo fato de eu ser devota ao deus da clemência, eu deixaria você sangrar até a morte. – Resmungou a garota, fazendo Quarfein se intrigar.
– Emma? – Perguntou o rapaz — aquele nome lhe lembrava o de sua irmã, mas não era como se ela fosse deixar qualquer pessoa chamá-la daquela forma — pelo menos não de acordo com as lembranças de Quarfein. Nádia se sobressaltou, vendo que havia falado demais.
– Bom, de qualquer forma, não seja tão imprudente. Dentro de dois dias, talvez três, Alvina estará de volta com a irmã de Amaess. Tente providenciar um lugar mais estável para ficarem nesse meio tempo. – Falou, em um tom de voz severo. Quarfein se levantou.
– Então... sobre isso... eu acho que seria o caso de conversarmos mais tarde... – Disse, indo em direção a Amaess e abraçando-o. – Por hora, eu tenho um assunto mais importante para resolver.
O elfo corou, abraçando o outro rapaz de volta. Quarfein sorriu ao sentir uma das mãos pequenas do garoto deslizando por seu rosto — aquele toque tão meigo... tão gentil... irritantemente e adoravelmente doce.
– Eu quero falar com você... a sós... – Sussurrou o drow no ouvido do jovem. Amaess corou, seguindo Quarfein até o quarto onde estavam hospedados. O drow trancou a porta, deixando seu olhar repousar sobre a figura do elfo por alguns instantes, e então suspirou em negação ao notar a forma como o garoto lhe olhava com receio. – O que foi? – Perguntou.
– Me desculpe... pelo que aconteceu com seu olho... – Disse o elfo, se sentindo culpado — se não tivesse saído dos muros da cidade, aquilo não teria acontecido — era o que pensava. Quarfein suspirou.
– Não tem como eu te desculpar por algo que não foi sua culpa Amaess, pare com isso. – Falou o drow, olhando com um desejo angustiante para a figura doce e angelical parada à sua frente. Queria tocá-lo, e queria tê-lo, mas... "Eu não o mereço... eu sou uma pessoa terrível, eu não o mereço..." — esse pensamento o atormentava . – Sobre o que aconteceu... – Começou a dizer.
"Sim... o que aconteceu..." Pensou Amaess, hesitando tanto quanto o drow. Um silêncio marcado por insegurança preencheu o quarto. "Você fez coisas terríveis... mas ainda assim... ainda assim você salvou minha vida... mais de uma vez... está bem, algumas vezes contra a minha vontade, mas... mas ainda assim você me protegeu de outras pessoas que tentaram me machucar... você mudou tanto... eu não sei o que pensar mais... mas ainda assim... você quase morreu tentando me proteger da sua irmã... você teria morrido se não fosse aquela outra drow... então... eu sei que quando você diz que me ama não está mentindo... o que você fez ainda dói, mas..."
– Eu — Os dois jovens disseram ao mesmo tempo. Amaess se aproximou de Quarfein, tocando as bandagens que Nádia havia feito no olho esquerdo do mesmo, e então acariciando a bochecha do rapaz. O coração do drow acelerou diante daquele toque morno, suave... aquele toque tão meigo... a mão de Amaess deslizou pelo rosto do rapaz, descendo até o pescoço, e então até o ombro do mesmo.
– Eu te perdôo... – Disse o elfo, encarando o chão por alguns instantes, e então erguendo o rosto. – Eu vou... deixar o que aconteceu no passado...
– Tem certeza, Amaess? – Perguntou Quarfein. Não se considerava digno daquele perdão, mas também não iria recusá-lo — o afeto que sentia, o amor que sentia, o desejo que sentia — tais sentimentos eram maiores e mais fortes que o sentimento de culpa. Amaess timidamente beijou-lhe os lábios... um beijo doce e tímido, que se desenvolveu para um beijo mais intenso como uma flor desabrochando. Quarfein o abraçou de forma apaixonada, indo com o garoto até a cama. O elfo sentiu o colchão sob suas costas, e hesitou um pouco quanto ao que estava fazendo: as memórias de quando o outro rapaz lhe violentara assaltaram sua mente, fazendo-o sentir um arrepio — algo que não passou despercebido para o drow. – O que foi?
– Eu não sei... se eu... e-eu não me sinto pronto para isso... – Falou o elfo, sem pensar muito. Quarfein acariciou-lhe o rosto, beijando-lhe a bochecha.
– Isso você fala... sexo? – Perguntou o drow, indo direto ao ponto. Amaess corou, desviando olhar. – Está tudo bem meu amor... você não precisa fazer isso se não quiser... eu irei até apenas onde você se sentir confortável, está bem?
De forma hesitante, Amaess confirmou com um menear de cabeça, envolvendo a cintura do drow. Quarfein removeu a blusa do garoto, beijando o pescoço do mesmo e descendo para o ombro. As mãos do drow subiram para as nádegas do garoto, o que, devido às memórias do mesmo, lhe causaram desconforto.
– N-não... – Murmurou o garoto, com receio. Quarfein se ergueu, notando quando Amaess desviou o olhar. – D-desculpa... e-eu não consigo... eu não posso... – Disse o elfo, sem conseguir conter um par de lágrimas. O drow trincou os dentes.
– Por que acha que eu vou te desculpar? – Disse Quarfein, segurando o rosto do garoto de frente para o seu. Aquela frase assustou Amaess, mas logo o drow terminou de falar. – Quem tem que te pedir desculpas sou eu. Você está com medo por causa do que eu fiz, a culpa é minha! Pare de se desculpar por tudo como se tivesse feito algo ruim, você não fez nada de errado!
– M-mas... você está se esforçando tanto... para consertar tudo... – Respondeu o garoto, soluçando. Quarfein apenas o abraçou.
– E você também... você está se esforçando até mais do que eu, sendo que isso nem é uma obrigação sua... o esforço que eu estou fazendo... é o mínimo... você não me deve nada Amaess, eu é quem te devo... tudo... tentar reparar o dano que eu causei é o mínimo que eu posso fazer... – Falou o jovem, acariciando os cabelos de Amaess.
– Erdan morreu... e você perdeu um olho... por minha causa... e-eu não pude f-fazer nada... se eu não fos- Quarfein suspirou, com raiva — não de Amaess, por estar chorando em seus braços quando poderiam estar fazendo outra coisa — mas sim de si mesmo, por saber que suas ações constituíam a maior parte do motivo pelo qual Amaess estava chorando de forma praticamente inconsolável.
– Não. Erdan morreu por causa da invasão, e eu perdi um olho por causa da minha irmã. Ninguém poderia ter feito nada, e o que aconteceu foi culpa sua Amaess, perceba isso de uma vez! – Disse, sacudindo o garoto, apenas para logo depois se deter e notar que o havia assustado. – P-perdão... – Murmurou, se afastando. – Tome um banho... vai te ajudar a relaxar... e-eu... vou conversar com Nádia sobre algumas coisas...
Amaess aceitou a sugestão e confirmou com um menear de cabeça, se levantando e indo até o banheiro — um tempo sozinho certamente o deixaria mais calmo, e o ajudaria a pensar sobre todas as informações que tinha — o ajudaria a reconstruir alguns planos antigos para o futuro, e a construir planos novos. Um tempo sozinho, ainda que pequeno, era o que precisava para poder se reerguer e recomeçar.
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