Hate At First Sight
2 Um desconhecido vai ser meu Babá
“Mas eu acho que você só pode ser adotada!”. Essa foi a frase que eu não conseguia expulsar da minha cabeça nem a base da paulada (mas é claro que eu não tentei fazer isso). Eu sou adotada? Isso é bom ou ruim? Talvez eu possa ser filha da Clarice Lispector. É melhor fazer o exame de DNA antes da dancinha da vitória.
– Pai! Você viu o cadarço do meu tênis? – Engraçado. Se eu não fosse a irmã dele eu não reconheceria a voz da mistura de taquara rachada com pato engasgado do Logan. Que filho de dezessete anos fica perguntando para o pai onde está o cadarço do tênis? Vamos levar em consideração que há centenas de empregadas aqui, elas são tantas que ficam se esbarrando uma nas outras o dia inteiro, uma é responsável só pelas nossas roupas e acessórios.
– Pergunta para a Camila! Ela que cuida disso. – Ouço meu pai gritando para o idiota do meu irmão que estava no quarto “A procura do cadarço” (devia existir um filme com esse nome).
A Camila é a empregada que eu tenho mais amizade. A pouca diferença de idade nos aproximou bastante, ela começou a trabalhar em casa quando tinha só quatorze anos, enquanto eu tinha doze. Ela é diferente das outras, não fala sobre a novela, nem da vizinha que engravidou. É flexível, me conta sobre baladas e livros. Como se esses assuntos fossem muito parecidos...
– Bom dia papai! – Eu digo descendo o ultimo degrau da escada. Se eu estou nervosa? Isso é muito óbvio. Quando se é filha de comediantes não costuma haver muitas reuniões sérias, há não ser que alguém tenha morrido. Sim, comediantes só não fazem piada em velório porque o morto não pode rir.
– Bom dia filha. – O senhor Victor Miller também conhecido como “Mestre das gargalhadas”, ou ”Meu pai”, diz mantendo a voz firme enquanto lia um jornal qualquer e bebia café. Isso é típico de um pai normal, não é? Aí que entra o meu medo. A conversa vai ser muito séria para ele tentar parecer uma pessoa normal.
– Está tudo bem? – Eu pergunto sentando na cadeira ao seu lado e fazendo a cara mais fofa e inocente possível. Preciso incorporar o papel de vítima antes que eu saiba qual é o assunto, assim vou estar mais protegida quando a terceira guerra mundial começar.
– Não está tudo bem. – Papai afirma colocando a mão na testa com cara de panda que acabou de ter um infarto. Ele realmente deveria pensar em atuar em novelas mexicanas, que pessoinha mais dramática.
– Para com isso! Você não é uma pessoa normal. Fui eu, está bem? Fui eu que joguei o Iphone do Logan do terceiro andar, feliz? – Eu digo querendo acabar com aquilo logo. Foi um desperdício quebrar o celular dele, eu poderia passar trotes para o açougue. O que importa é manter o espírito de ser vegetariana.
– Sim, fico muito feliz por ver que sua pirraça está voltando. Você está menos doente do que eu pensava. – Ele diz exibindo um sorriso e fazendo cócegas em mim. Já disse que eu sou insensível, não disse? Não são só meus sentimentos, eu também não tenho cócegas. Isso é muito estranho!
– Eu já disse que não estou doente! – Eu falo pacientemente em um sussurro quase inaudível.
– Você está doente! Se fosse a minha menininha sentiria cócegas e não ficaria sussurrando como se fosse normal, você iria gritar comigo. Não ia estudar cálculos e ler livros mais pesados do que sua avó. – Lá vem as piadinhas do meu pai contra a vovó. – Não vejo você berrando como antes, ou brigando que nem uma vaca prenha! – Que tipo de pai compara sua filha com uma vaca prenha?
– Não me compare com uma vaca prenha. Eu brigo com o Logan...
– Desculpe, havia me esquecido que você não gosta de vacas. Você é vegetariana! – Papai fala com um longo suspiro de desespero. — Ele é seu irmão, não faz mais do que a obrigação brigando com ele. Filha, fora o Logan você fica excluída no seu quarto. E as pessoas novas? Quando eu tinha sua idade...
– Ainda não existia pessoas quando você tinha minha idade. – Por favor, alguém pode colocar aquele vídeo do cavalo dando um coice bem na cabeça do homem?
– Isso que eu quero ver filha. Sabe, você tem que mostrar sua opinião para o mundo. – Impressão minha ou meu pai quer que eu brigue com ele? Normalmente os pais querem filhos bem educados e inteligentes, mas meus pais querem que eu seja uma retardada viciada em cogumelos falantes laranja.
– Pai, eu cresci! Não sou mais aquela menina que apresentava o programa da televisão. Eu tenho vergonha, sou tímida e não gosto de televisão. Prefiro meu cantinho e meus livros.
– Nunca mais repita essas palavras. – Papai disse ficando vermelho de raiva. – Eu já sei do que você precisa!
Ele tirou do bolso um celular, eu jurava que aquele aparelho telefônico iria ser atirado em mim. Estava agradecendo aos Deuses por aquele modelo não ser um Nokia antigo quando ele simplesmente discou algumas teclas e começou a falar coisa aleatórias que eu não entendia. Consegui identificar meu nome no meio, mas fora isso parecia que estavam falando em mandarim.
– Tenho uma ótima notícia pra você! – Ele disse finalmente depois de quase uma hora com aquele maldito celular grudado na orelha.
– Qual? O governo proibiu de comer carne 587 dias por ano?
– Eu achava que lendo tantos livros você seria inteligente o suficiente para saber que um ano tem menos que 587 dias.
– Conta logo! É sobre o aquecimento global?
– Acho que eu tomei a decisão certa. Você está muito doente mesmo! Seus assuntos são totalmente estranhos. Você falaria sobre o aquecimento global com seu namorado enquanto estivessem na cama? Esqueci! Você não tem um namorado. –
Esse é meu pai totalmente cruel e malicioso. Na maioria das vezes malicioso!
– Pai. Você não vai me internar em um hospital psiquiatra. – Eu falo virando a cabeça de um lado pro outro, mas tive que parar minha acrobacia, eu fico tonta muito fácil. Não que eu não seja tonta...
– Não. É bem melhor! Você vai ser totalmente independente! – Ele diz com um sorriso perverso no rosto. Quem precisa do curinga quando se tem meu pai?
– Como?
– Eu lembro que sua mãe gostava de ler livros também. Mas ela se afastou desse mundo obscuro quando o meu querido sogro e minha linda sogra que está com obesidade mórbida.
– Olha o foco.
– Então, vamos continuar. Onde eu parei mesmo? – Não é possível! Ele faz isso só para me irritar.
– Pai!
– Nossa! Não aguenta nem uma brincadeirinha. Eles resolveram esse problema mudando ela de cidade e obrigando ela a trabalhar. Não é uma história incrível? Sabia que a Disney vai patentear e fazer um filme com esse conto?
– Não, eu não sabia! Agora me responda. O que você vai fazer comigo?
– Vou te mandar pra Nova York, lá você vai trabalhar e fazer um cursinho de teatro. Simples, não?
– Que? Isso não é simples. Prefiro o hospício! Cadê a camisa de força?
– Tarde demais querida. Isso é uma atitude drástica, eu não precisaria fazer isso se você soubesse viver.
– Eu sei viver!
– Você precisa sentir felicidade, insegurança, adrenalina para viver. Mas você não tem amigos, nem histórias interessantes para contar.
– Claro que eu tenho histórias interessantes para contar.
– Sobre livros?
– Não!
– Sobre engenheira?
– Tá, é sobre livros de engenharia.
– Você não sabe o desgosto que você traz para nossa família falando isso. Vou te dar exatamente um ano para essa experiência. Se não gostar você vai para melhor faculdade de engenharia que existir nessa galáxia, mas eu duvido que isso aconteça.
– Mas e tudo que eu vou deixar para trás? – Eu também consigo ser dramática as vezes.
– O Logan?
– Não, meus bebês!
– Você está me surpreendendo. – Ele diz voltando a incorporar o espírito pervertido.
– Eu chamo meus livros de bebês.
– Ainda não acredito que tenho uma filha tão antissocial, excluída, forever alone... Você vai ser aquelas tias solteironas que ficam falando com gatos, ou melhor, com livros.
– Chega de tacar na cara! Eu não conheço ninguém em Nova York!
– Nem na nossa rua. – Nossa! Como ele consegue me dar patadas tão naturalmente?
– É sério.
– Tem um novo comediante, está começando a carreira dele agora. Ele é bem gente boa! Chama Troy Austin e ele vai cuidar de você lá. Vou combinar tudinho com ele!
– Eu não acredito que você vai colocar uma pessoa desconhecida pra ser minha babá!
– Adivinha o melhor? Ele é solteiro!
Fale com o autor