Hate At First Sight

20 Isso é um decote?


Notas iniciais
Perdi meu e-mail e não pude entrar na minha conta porque sou idiota. Senti saudades de vocês amores! Boa leitura!

Parecia que eu tinha sido atropelada pela Arca de Noé inteira. E o casal de dinossauros que se atrasaram para embarcar vieram depois da Arca e pisaram na minha cabeça, eles estavam correndo com suas milhares de toneladas desesperadamente, como se aquele barquinho fosse salvar a espécie deles. Ah! Era por isso que eles estavam correndo tanto...

Eu estava com um barulho estranho na cabeça. Era aquela músiquinha irritante que só os elevadores, caixinhas de músicas baratas e caminhões de gás têm. Será que eu tinha pedido direito autorais pra que eles deixassem que eu compartilhasse daquele chiado? Se for isso, queria devolver os direitos, por que aquele som estava me matando.

Tomei coragem e abri os olhos. Uma dor de cabeça me atingiu em cheio como se fosse um taco de baseball. Malditos dinossauros! Meu Deus! Como eu estava tonta, tão tonta que imaginei que eu estava no quarto de Austin. Mas, mas, mas eu estou no quarto de Austin. O que eu estou fazendo aqui?

Puta que pariu! O que eu fiz ontem? Tentei reunir todas as rezas que eu sabia, que não eram muitas, porém minha cabeça ficava mais dolorida quando eu tentava pensar ou lembrar de algo. Eu precisava saber o que tinha acontecido naquela balada e depois dela.

Retirei todas as forças, as que eu tinha e as que eu não tinha, e gritei o nome de Austin, saiu na verdade uma voz baixinha e rouca de um ganso com pneumonia, mas foi o suficiente pra ele ouvir.

– Oi Mandy. – Ele disse aparecendo timidamente pela porta e analisando o lugar, como se pensasse se era ou não seguro entrar. Se eu estivesse em meu estado normal, teria brigado com ele por esse apelido, mas eu não conseguia nem lembrar qual era meu nome completo direito.

– O que aconteceu? – Minha voz parecia inocente e fraca. Eu estava tão sem forças que nem conseguia fazer meu olhar ameaçador pra ele. Que vilã é essa que não consegue fazer o olhar de “vou te matar” quando mais precisa? Acho que a Madrasta da Cinderela vai me expulsar da convenção das vilãs por isso.

– Ahn... Er... – Troy Austin gaguejou indo em direção a cama. – O que você realmente quer saber? – Perguntou ajoelhando perto da cama me encarando.

– Sobre tudo! Ou você acha que eu deitada aqui na sua cama com cara de estrupada e drogada é normal?

– Devia ser. – Ele falou baixinho pensando que eu não iria ouvir.

– Quê?

– Ah! Não! Só estou pensando alto. – Disse passando desconfortavelmente os dedos pelo cabelo bagunçado.

– Não é porque eu estou nesse estado que eu esteja surda. – Tentei me sentar na cama e tudo rodou. Lembrei da minha avó. Ela era obesa e tinha labirintite. Cada vez que ela ficava tonta e caia, era um estrago. Meu pai gostava de brincar que o Tsunami no Japão começou quando ela caiu da banheira.

– Você está bem? – Austin me encarou mais do que eu achava que era possível encarar alguém. No começo parecia que ele realmente devia estar preocupado, mas aí lembrei que ele tinha feito a mesma cara quando eu estava amarrada no carro dele, tendo convulsões falsas e era tudo fingimento, tanto da minha parte quanto da dele. Depois de me esforçar pra lembrar disso, veio outro choque de dor de cabeça. Parecia que o Anderson Silva estava do lado dos dinossauros e tinha acabado de me acertar.

– Aí! – Eu gemi de dor. – Não está tudo bem. Eu estou meio tonta, com dor de cabeça e com um mal estar como se fosse vomitar a qualquer minuto.

– Nossa! – Ele riu da minha desgraça. Que idiota! – Você pode estar grávida.

Grávida! Como assim grávida? Claro que eu não estou grávida! Eu sou virgem. Mas e se ontem... Não, não pode ter acontecido. Mas como eu posso saber que não aconteceu se eu não lembro? Puta que pariu! Não é possível!

– Grávida? – Eu perguntei com um nó na garganta. Incrível como tudo pode piorar pra mim.

– Talvez. – Ele deu um sorriso fraco de lado. Eu conseguia ver em seus olhos uma expectativa estranha. Aí Meu Deus!

– Austin. – Chamei sua atenção e ele encarou o chão automaticamente. – Porra Austin! Olha pra mim, por favor.

– Você disse por favor? – Ele fez uma cara de surpresa e eu revirei os olhos. — Estou olhando para você, Mandy. Pode falar! – Eu estava nervosa, mas quando ele me encarou com aqueles dois olhos verdes me analisando intensamente, a dor de cabeça e o nervosismo se triplicaram.

– Aí Deuses. Não sei como eu vou falar isso. – Estava tentando achar as palavras certas para ser o mais discreto possível. Parecia tão complicado, eu estava totalmente constrangida. – Ah! Você sabe... – Tentei fazer uns gestos estranhos. Parecia mais que eu estava insinuando que eu e ele tinhamos roubado a galinha do vizinho e tinhamos feito macumba com ela.

– Amanda Miller, fala logo o que você quer perguntar. – Troy Austin disse tirando uma mecha de cabelo do meu rosto e colocando atrás da minha orelha como se isso fosse natural, como se a gente tivesse intimidade pra isso. E se a gente tivesse tido muito mais intimidade que isso ontem? Droga! Isso não poderia ter acontecido. Quer dizer, não aconteceu. Olhei para ele com uma careta de reprovação e ele falou um “desculpa” quase inaudível.

– Vou tentar ser direta. – Falei com um longo suspiro de desespero. — Eu e você...Nós...

– Dormimos juntos? – Ele me interrompeu, mas só dessa vez eu iria perdoar, por que ele me poupou de dizer isso.

– É. – Tinha certeza que minhas bochechas estavam vermelhas agora.

– Não. – Austin disse com uma leve expressão de “bem que eu queria” no rosto com direito a arquear sobrancelhas e tudo.

– Ah! Isso explica muita coisa sobre a gravidez. – Eu disse aliviada. Nossa Senhora! Imagine você, meu leitor, acordar um dia na cama do seu maior inimigo sem lembrar de nada e ele diz que você talvez esteja grávida.

– Na verdade não explica absolutamente nada. – Ele ainda não tinha entendido que eu era virgem. Essa era uma coisa que eu não ia tentar explicar, nem com mímica.

– Explica muito pra mim. Você me drogou ontem a noite? – Pulei de um assunto complicado para outro mais complicado ainda. Eu estava nesse estado por apenas ter bebido? Não que beber seja normal, você me entendeu.

– Não. Não te droguei ontem á noite. – Austin revirou os olhos. – Você acha que eu seria capaz disso? – Sua voz estava totalmente inconformada e um pouco desafinada.

– Talvez.

– Não acredito. – Ele parecia prestes a me matar. — O seu problema é que você acha... Sei lá o que você acha de mim. Que eu faço parte de alguma gangue ou coisa assim. Mas eu não ia te dar drogas e nem abusar de você enquanto você estava bêbada. – Ele foi aumentando a voz. – Você é uma garota mimada que sempre teve tudo na vida. Amanda, você tem dezessete anos e parece que tem dez, você pode ser mais inteligente, mas não tem maturidade nenhuma. Finge que ninguém está no seu nível, mas a verdade é que ninguém te aguenta.

Nossa! Eu já tinha ouvido algumas vezes o que ele tinha falado, mas na voz dele parecia mais terrível do que já era. Minha cabeça estava a ponto de explodir e a voz dele ficava ecoando nos meus pensamentos. Malditas lágrimas começaram a escorrer pelas minhas bochechas se juntando com soluços que eu não conseguia controlar. Eu normalmente conseguia disfarçar minhas emoções muito bem, porém eu estava tentando acabar com aquilo, sem nenhuma eficácia.

– Desculpa. – Ele sussurrou tentando me abraçar.

– Não me toque! – Ameacei tentando ser forte e levantando da cama.

– Amanda, desculpa. Eu não sabia que a verdade ia te afetar tanto. – Austin disse inocentemente, depois pareceu entender o significado do que ele tinha acabado de falar quando ouviu mais soluços. – Eu não queria dizer isso.

– Não me afetou. Nada me afeta. – Tentei forçar um sorriso confiante, mas parecia que ele sabia que eu estava mentindo. — É só a ressaca. – Falei como se tivesse bebido muito e tivesse passado por ressacas várias vezes. Eu estava culpando a ressaca, como minha mãe culpava TPM para falar mal do meu pai.

– Eu sei que você está mais sensível. Mas eu não suporto ver garotas chorando, mesmo que seja você. – Ele fez uma careta de nojo rapidamente pra mim.

Troy Austin estava entrando no meu jogo de que toda desgraça do mundo era culpa da ressaca. Em uma parte era, eu realmente estava mais sensível, parecia que tinha álcool no meu sangue ainda. Porém, a outra parte não tinha nada há ver com as bebidas. Por mais que eu tentasse negar pra mim mesma, ele tinha dito a verdade e o pior é que ela doía.

– Você não vai mais me ver chorando, por que eu estou indo para o meu apartamento, pode ficar despreocupado. – Tentei parecer forte. Estava até ensaiando para só gemer de dor quando chegasse no apartamento e estivesse sozinha.

Levantei da cama com um pouco de dificuldade e fui caminhando com passos firmes e sem parar em direção a porta. Eu estava indo muito bem, mas a tontura resolveu me dar um “oi” e eu me senti como a vovó. Tudo começou a girar como se eu estivesse em um carrossel por toda vida e só tivesse sentido os efeitos agora.

Troy Austin correu pra me pegar antes que eu caísse. Eu odiava precisar da ajuda dele! Pensando bem, eu estava desse jeito por culpa dele. Mesmo assim eu não gostava quando ele ficava me tocando.

– Te peguei. – Ele sussurrou de um jeito sexy no meu ouvido. Não posso negar que um arrepio percorreu todo meu corpo fazendo eu ficar tensa. Merda! O que você está dizendo, Amanda? Eu devo estar louca.

– Droga! – Praguejei.

Austin virou meu corpo fazendo com que eu ficasse de frente pra ele e me prensou com força na parede mais próxima. Ele estava segurando meus braços e os deixando em cima da minha cabeça. Fiquei até sem ar de tanto susto.

– Você está brincando comigo garota e isso não se faz. – Ele disse balançando a cabeça em sinal de decepção. — Você não pode ir para o seu apartamento agora. Não que eu me importe com você. Mas o que eu vou dizer para os seus pais se você cair e bater a cabeça?

– Hum... Que tal “Ela caiu e bateu a cabeça”? – Falei provocando ele. Eu queria ver até onde ele iria.

– Incrível! Até quase morrendo você fica me zuando. – Austin apertou mais meus pulsos contra a parede, mas eu não reclamei, não iria me passar por fraca.

– Acho que é o meu dom. – Dei um sorriso forçado.

– Não. O seu dom é dançar bêbada com o Barman. – Ele deu outro sorriso forçado tentando me imitar.

– O quê? – Eu perguntei incrédula.

– Você é muito melhor quando está bêbada, sabia?

– Eu dancei com o Barman? – Perguntei incrédula, ignorando a parte de que sou melhor bêbada do que sóbria.

– Sim. Vamos fazer o seguinte. – Austin disse afrouxando o aperto no meu braço. — Vou te levar a uma padaria pra você tomar um chá contra a ressaca e eu te conto tudo que aconteceu ontem e depois disso, se você ficar bem boazinha, vou te dar o livro Mestres da química parte onze que o Josh me entregou.

– É uma oferta tentadora, mas prefiro ir pro meu apartamento. Estou com medo desse chá e estou passando muito mal. Eu já não estava bem, mas você resolve me espremer na parede ainda, assim eu pioro.

– Desculpa, não queria te machucar. – Austin falou examinando meus pulsos para certificar que não tinha nenhuma fratura. – Vamos Mandy! O chá vai te ajudar a melhorar. Acredite em mim! E eu sei que você está louca pra ler o livro.

– Okay! Eu quero muito aquele livro. Mas eu não posso ir assim. – Encarei minhas roupas e Troy Austin seguiu meu olhar. Não sei como tinha conseguido dormir com aquele vestido, ele era muito apertado e quase não deixava eu respirar, fora que estava mais levantado do que deveria estar, tentei abaixar o vestido antes que ele notasse, mas meu reflexo estava muito lento.

– Puta que pariu! Como você consegue ter as coxas mais grossas do que da Vanessa?

– Por favor. Para de olhar pras minhas coxas. Seu pervertido!

– Eu vou buscar suas roupas e você fica sentadinha aí no sofá. — Ele praticamente me jogou lá. — Você toma um banho e vai comigo pra padaria. Pode ser? – Dava pra notar que ele não estava mais com tanta raiva e nem eu. É estranho o modo de que a gente briga o tempo inteiro e depois nos resolvemos, só pra depois começar as brigas de novo.

– Ah... Eu não sei. E se eu cair no banheiro?

– Você vai querer que eu te de banho também?

– Quê? Eu não disse isso!

– Calma! Eu não estou reclamando.

***

Aquele chá da ressaca era meio estranho. Tinha uma cor indefinida entre verde e cinza. Até o cheiro era esquisito, tinha um aroma de pasta de dente misturado com gasolina.

Eu peguei o chá e estava prestes a provar, contudo desisti levando a xícara de volta a mesa. Estava com vontade de vomitar.

– Tem certeza que esse chá é seguro? Ele me dá ânsia.

– Pela décima quarta vez, sim, é seguro. Você está com ânsia, não é o chá que está fazendo isso, ele só vai te ajudar a combater esses sintomas. Vai! Pode beber! Você consegue. – Austin falou piscando para mim e dando apoio moral. Ele parecia mais uma líder de torcida, mas sem o pompom e o vestido curto.

– Mas é muita pressão você ficar me olhando. – Eu reclamei um pouco tímida

– Para de frescura! – Ele disse pegando o chá e virando na minha boca.

A maior parte caiu na minha blusa e o resto que chegou na minha boca me fez engasgar. Tinha um gosto bom aquele chá. Parecia feito de limão ou laranja. Melhor do que Tang pelo menos.

– Eu odeio você! Que droga! – Eu falei tentando limpar a blusa com um guardanapo.

– Nossa! O chá fez efeito, já está me insultando, parece que está bem melhor.

– Talvez tenha feito efeito, minha cabeça está melhor. Porque você pegou a blusa mais decotada que eu tenho?

– Isso é um decote? Minha avó usa vestidos muito mais decotados do que você usa. Gostei dessa sua blusa, por isso peguei. Você fica linda com ela. – Austin disse abrindo um sorriso enorme.

– Vamos parar de falar da sua avó e de como eu fico linda com essa blusa. – Tinha certeza que eu estava corada. — Quero saber o que aconteceu ontem.

– Você quer começar por onde? Pela Tequila? Pela dança? Ou pelo beijo?

– Pelo beijo?

Notas finais
Espero que tenham gostado! Não esqueçam dos reviews!