Hastryn: Ascensão
24 II - A Árvore Mágica
Notas iniciais
Hastryn: Ascensão (Parte II) — Cinco Anos Depois...
Wolfric
Aquelas foram viagens longas, repletas de aventuras e momentos de tensão. Durante os cinco anos que se passaram, Wolfric e Susan percorreram Hastryn do Sul por completo, em busca de descobertas novas nos territórios e interagir com os habitantes das diferentes cidades que faziam parte do continente. Além disso, seus objetivos estavam começando a se realizar.
Foram bem recebidos ao retornar mais uma vez a Horgeon. Suas respectivas famílias preparavam deliciosas refeições e novas vestimentas de acordo com o clima do momento. Ambos perderam a noção de quantos agasalhos receberam nas épocas de inverno ou das roupas de calor, nas de verão.
Estavam na primavera, a estação do ano que deixava a cidade mais bela do que já era. Flores coloridas se espalhavam pelos vastos campos gramados e pelas diferentes árvores que formavam a flora sulista. Wolfric aproveitou essa época para apanhar as rosas mais bonitas que encontrou e as ofereceu de presente para as duas mulheres que ajudavam em sua criação: Aubrey e Arianna, mães que sentia orgulho de ter. Para o pai, o rapaz ofereceu uma aljava de flechas novas e um novo arco, para que praticasse e se divertisse quando tivesse tempo.
Depois das intensas cerimônias de boas-vindas, cada um retornou à sua moradia. Já era noite e Wolfric decidiu passar o restante do dia com a família biológica, para passar mais tempo com o pequenino Aaron, a criança que mais amava naquele mundo. Estava crescendo muito rápido e o irmão não queria perder nenhum dos anos preciosos de sua vida. Wolfric já tinha dezenove e Aaron seis.
— Que saudade!! — No momento que o viu, Aaron correu para abraçá-lo, desarrumando o tapete esticado e quase tropeçando. Era uma criança desastrada e às vezes irritava a mãe ao quebrar algum copo ou objeto de importância. Tinha cabelos cacheados negros e a pele branca como a de todos os Trannyth. Os olhos tinham uma tonalidade clara e brilhante que variava entre a cinza e a azul. — Como está?
— Estou bem. Temos muito o que conversar, garotinho!
— Aaron não sossegava enquanto você não vinha. — A mãe disse, verdadeiramente feliz com o retorno do rapaz. Thorfin já tinha ido dormir, pois havia trabalhado durante todo o dia, parando apenas para a celebração noturna. — A cada dia que se passava e não o víamos chegar, era uma grande tortura para ele. Chegou a ter pesadelos.
— Pesadelos? Com o que?
Wolfric tinha medo dos sonhos. As lendas diziam que alguns deles poderiam ser visões verídicas de um futuro não muito distante. As pessoas costumavam não dar importância a esses fatos, mas o rapaz sempre prestava atenção nos mínimos detalhes. Eles poderiam ter um grande significado.
— Florestas escuras, mortes... Nada muito claro.
— Entendo. — Wolfric preferiu não dizer o que pensava na frente do garoto, pois poderia deixá-lo com medo do que sonhava e piorar a situação, atrapalhando seu sono e descanso. — Bom, estou de volta e prometo que ficaremos mais tempo em Horgeon. Não viajarei com Susan tão cedo, já que fizemos tudo o que desejávamos. Montamos nosso mapa e concluímos algumas obrigações pendentes.
— Mapa? — Aaron demonstrou interesse. — Como aqueles que os piratas usam para caçar tesouros?
— Um pouco parecido. — Wolfric riu, bagunçando os cabelos do menino com suas mãos. — Mas isso é coisa de gente grande. Você precisa comer e treinar bastante antes disso, certo?
Aaron assentiu.
Wolfric jamais desejaria abrir mão da criação do caçula. Quando a família Trannyth se estabilizou em Horgeon, todos entraram em acordo e resolveram não mentir para Aaron sobre a história de Elliot em Arroway, ensinando o menino a identificá-lo pelo nome falso e não chamá-lo de irmão na frente das outras pessoas.
Os três ficaram conversando por horas, quando já se passara muito tempo após o toque de recolher.
— Está na hora de dormir! — Aubrey disse a Aaron, obrigando o filho a subir os degraus da escada e ir para seu quarto se preparar para mais um dia de treinamento pesado com os amigos. A criança talvez tivesse mais experiência nas lutas do que o próprio irmão, já que estava treinando com uma idade mais jovem.
Quando voltou, restaram apenas ela e Wolfric na sala de estar. Os dois teriam mais possibilidades de um diálogo mais maduro, abrangendo assuntos que não seriam ditos na frente de uma criança.
— Filho, gostaria de saber uma coisa... — Ouvindo essas palavras, o jovem ficou assustado com o que viria a seguir. Aubrey não tinha costume de interrogá-lo. — Quais são seus verdadeiros sentimentos por Susan?
Foi uma pergunta que o pegou de surpresa. Wolfric não esperava que seria obrigado a responder aquilo. Parou para refletir, pensando por um longo tempo antes de quebrar o silêncio constrangedor que se formou.
— Susan é alguém que surgiu em uma época muito necessária para mim e mostrou ser muito especial. Com toda a certeza, é alguém que merece ser tratada como tal.
— Pensa mesmo em se casar com ela em breve? — Seu tom de voz era gentil, sem a intenção de deixá-lo confuso com suas perguntas. Era apenas uma preocupação comum nas mães.
— Sim. — O Rei Vincent gostava de Wolfric e dizia que seria um bom esposo para sua única filha. Era o oposto de Lothar Wildshade, que não via pontos positivos em sua amizade com Charlotte. Wolfric com certeza usaria a simpatia do rei a seu favor. — Mesmo que... não consiga esquecê-la.
— E as pessoas ainda costumam dizer que afastamento resolve todos os problemas quando o assunto é amor...
— Mas nossa vida agora é no sul. Devemos nos concentrar nisso e prosseguir com o que os deuses nos concederam. Nós poderíamos estar todos mortos, mas tivemos uma grande sorte.
— Você não poderia estar mais certo.
...
Após desejar boa noite para a Aubrey, Wolfric subiu os degraus de dois em dois e foi para o quarto que dividia com Aaron nas noites em que dormia ali. Antigamente, havia apenas uma cama, mas o crescimento do bebê os obrigou a colocar outra.
Sempre que estava com a família de sangue, Wolfric esquecia toda a pressão exercida pela pessoa que foi obrigado a criar em si mesmo. Ali, podia mostrar seu lado verdadeiro e amável sem sentir medo.
Dentro do cômodo, encontrou o menino ainda acordado e olhando atentamente para o lado de fora. Fitava as ruas vazias e o céu estrelado através da janela aberta. Provavelmente estava sem sono e tomado por uma grande ansiedade por ter Wolfric de volta.
— Já deveria estar dormindo, irmãozinho. — Ele se sentou na mesma cama, disposto a passar a noite inteira conversando e brincando com Aaron, se preciso fosse. — Estava esperando por mim?
— Sim! Quero saber tudo o que aconteceu com vocês na última aventura. Não vejo a hora de ter as minhas e contar as histórias para outras pessoas!
Wolfric riu. Era maravilhosa a empolgação do menor em saber tudo o que acontecia em sua vida. Aaron era uma versão mais ansiosa de si próprio na infância, desejando que tudo acontecesse mais rápido e sem ter que esperar muito para conseguir realizar seus sonhos.
— Isso é assunto para outro dia, mas posso contar uma história nova e interessante. Um conto bem divertido que aprendemos ao conhecer um pouco da cultura dos cidadãos de Sarenth.
Aaron sorriu, empolgado. Fechou a janela e se encostou cama, pronto para ouvir.
— Em uma cidade cujo nome não foi dito até os dias de hoje, existia uma árvore mágica. Essa árvore era diferente de todas as outras, sendo especial e extremamente resistente a tudo que você pode imaginar. Homens que trabalhavam nas florestas pegando lenha não conseguiram destruí-la para usufruir de suas madeiras e de suas propriedades. Todos os que tentavam eram lançados para longe pela grande força exercida por ela.
Fazendo uma pausa, refletiu sobre todos os detalhes que lhe foram contados. Sempre que colocava Aaron para ouvir algo, tinha o hábito de contar tudo integralmente, sem ocultar ou passar rapidamente por nenhum fato.
— Era uma árvore bem gigante, muito maior do que as outras que conhecemos. E bem diferente também, já que tinha uma grande porta de madeira em seu centro, como se houvesse algo grandioso por trás daquela entrada. A grande questão é que ninguém sabia o que estava ali dentro. Um mistério que permaneceu em aberto por anos.
Aaron ergueu as sobrancelhas, curioso para compreender o desenrolar daquilo. Suas reações eram engraçadas, mudando conforme os fatos eram narrados.
— Muitas pessoas lutavam e até mesmo brigavam para descobrir quem seria o primeiro a descobrir o artefato da árvore. Até que, certo dia, um homem realizou uma profecia. Afirmou que somente aquele cujo coração era completamente bondoso conseguiria encontrar o conteúdo mágico. A partir daí, todos pararam de se enfrentar e faziam de tudo para que um deles fosse o escolhido.
— E nenhum deles era, no fim das contas. Estou certo?
— Exatamente! Eram pessoas cheias de ambição, fazendo de tudo por outro, riquezas e descobertas que fossem capazes de torná-los importantes de alguma maneira. Entretanto, dentre os cidadãos, um garoto tinha uma mãe portadora de uma doença grave e incurável. Nenhuma erva ou medicina era capaz de impedir sua morte, mas ele não perdia as esperanças de salvá-la. No momento em que ficou sabendo da existência daquela magia, tentou de todas as formas chegar até a árvore. Foi ali que todos o rejeitaram, dizendo que se não eram capazes, o garoto também não seria. Ele foi impedido de se aproximar, até que um dia se rebelou e resolveu sair de casa durante a madrugada.
— Conseguiu?
— Tenha calma, pois estou quase lá! A entrada da árvore se abriu assim que se posicionou de frente para ela, como se aguardasse sua chegada, revelando em seu interior um cálice cheio de um líquido transparente sobre o chão. Considerando que aquilo era uma oferta divina às suas preces, o menino correu de volta para seu lar antes que o descobrissem e ofereceu a bebida à senhora.
— E assim ela foi salva.
— Sim. A grande moral de tudo isso é a seguinte: Seja uma pessoa honrada, que os deuses o recompensarão por isso em algum momento. Mesmo que demore e que o mundo pareça desabar.
Quando terminou de falar, viu que a criança estava com os olhos quase fechando. Finalmente estava começando a sentir bastante sono. Wolfric posicionou Aaron sobre a cama e desdobrou os cobertores, colocando-o para dormir. Deitou na cama ao lado e os dois adormeceram rapidamente.
...
No dia seguinte, combinou com Susan de encontrá-la em uma área vazia do castelo para que pudessem ter um diálogo a sós e sem interrupções indesejáveis. A princesa o aguardava na entrada de uma sala que revelou ser feita especialmente para reuniões, onde uma mesa retangular era cercada por cadeiras altas feitas com a mesma madeira. Ao redor, nas paredes escuras, foram pendurados quadros extremamente realistas de vários momentos da realidade hastryniana. Desde a retratação da sociedade no período escravidão até os dias atuais, onde Horgeon tinha um sistema mais calmo.
— Podemos colocar nossos planos em ação? — perguntou a princesa, conduzindo o amigo pelo interior da sala e fazendo um gesto com as mãos que pedia pra se sentar na cadeira à frente. — Temos tudo o que precisamos.
— Sim. Devemos nos assegurar de que as cartas que escreveremos sejam enviadas em segurança até ela. Por isso, optei em não utilizarmos as aves. Temos que saber em qual lado Katherine está.
Os continentes norte e sul não mantinham contato entre si, de modo que nenhum sabia do que acontecia no outro. Essas leis às vezes eram quebradas por mensageiros ilegais que serviam como espiões daqueles que os pagavam. Em uma das viagens, Wolfric e Susan foram em segredo até o continente inimigo, oferecendo moedas de ouro a cidadãos que faziam tudo por dinheiro. Em troco da recompensa, revelaram tudo o que sabiam sobre a suposta rainha e as atitudes de Lothar Wildshade. Pelas informações, Wolfric concluiu que aquela era a mesma Katherine que conhecia e que seria impossível tirá-la de Arroway.
— Já conseguimos as alianças dos exércitos de Allaren e Sarenth caso uma guerra venha a acontecer. Tem certeza de que é isso o que quer? Atacar um continente que não nos pertence para que tenham um rei melhor?
— Sonho com isso há anos, Susan. — A relação entre eles se fortificava cada vez mais, crescendo aos poucos. Houve um momento em que Wolfric se sentiu pronto para confiar em Susan e revelou sua verdadeira identidade. No início, a moça reagiu com surpresa e teve dificuldades para lidar com isso, mas se acostumou. — Acredito que você me entenda... Ainda poderemos anexar os dois continentes em um só, unificando o reino e acabando de vez com o conflito entre eles.
— Sim. — Susan abaixou a cabeça, pensativa. — Mas não seria melhor manter contato com a própria Charlotte? Saber como ela está? Já que ela foi e ainda é sua grande paixão...
— Charlotte é alguém que sofreu demais. Preciso conversar com Katherine, que é minha amiga de infância e teve seu pai morto de forma cruel pelo homem com quem está casada. Por mais que doa dizer, Katherine é a pessoa mais forte para lidar com isso. Espero que ainda seja a mesma e diga o que preciso ouvir.
— E ainda existe o fato de que Charlotte está casada e se tornou uma mulher. Não é mais a mesma garotinha que você convivia sempre. Peço que tome muito cuidado, em nome de nossa amizade.
— Prometo que serei cauteloso.
Susan, mesmo com o pai jurando que não a casaria por interesses, tinha medo de que a opinião do homem mudasse e a entregasse a qualquer homem que trouxesse coisas boas ao reino. Em uma das aventuras mais perigosas que enfrentaram em Fauth, propôs a Wolfric a ideia de um casamento entre eles. Era o único jovem de toda a realeza que seria capaz de ter como marido sem sentir repulsa, pois ele a respeitava e não a tratava mal. Uma relação de apenas interesses, onde os dois encontravam benefícios através da união.
— Nesse caso, vamos esperar a resposta da carta.
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