Hastryn: Ascensão
19 A Estrela que Mais Brilha
Notas iniciais
Evelyn
Beatrice Muirden jazia em sua cama, sofrendo com o intenso frio que se formava em Arroway. Em sua volta, estavam seu marido e suas pequenas filhas gêmeas, preocupados com sua saúde. A mulher estava muito doente, pois um forte resfriado havia afetado a muitos cidadãos devido ao clima da região.
— Minhas amadas filhas, quero que saibam que vou estar sempre ao lado de vocês, mesmo que não me vejam. Cumpri meu papel na terra e agora os deuses possuem outros planos para mim. Espero descansar no paraíso...
— Mamãe, a senhora não pode ir embora! O que será de nós? — disse Evelyn, segurando uma de suas mãos com carinho, enquanto Katherine estava abraçada ao pai e não conseguia largá-lo de jeito nenhum. — Quem nos contará histórias antes de dormir e será carinhosa conosco?
— Seu pai fará isso por mim, meu doce.
— Mas não será a mesma coisa sem sua presença! Não nos deixe sozinhos, por favor!
— Quando o dia anoitecer e as estrelas aparecerem ao céu, observe aquela que mais brilha. Evelyn, lembra-se da história que cita a importância delas? O que ela dizia?
— “As estrelas que mais brilham são as almas daqueles que mais amamos e estarão sempre conosco, mesmo que não possamos vê-los em carne e osso.” — Evelyn repetiu o trecho integral, pois tinha sido marcante em sua infância. Era um grande ensinamento e jamais seria capaz de esquecê-lo.
— Vejo que aprendeu direitinho. Estou tão orgulhosa de vocês.
Beatrice fechou os olhos e sua alma partiu para o mundo dos mortos.
...
Os anos se passaram, mas Evelyn jamais havia esquecido os ensinamentos de Beatrice. Em todas as noites, a jovem olhava para o céu à procura da estrela que mais brilhava, quando havia constelações. Nos outros dias, como o céu ficava inteiramente escuro, era tomada por uma profunda tristeza, como se seus pais tivessem se esquecido de sua existência.
Mas, no fundo, sabia que não era verdade. Gregory e Beatrice, juntos no paraíso, olhavam com carinho para as duas filhas que ainda estavam vivas na terra feroz de Hastryn.
Quando Katherine apareceu pela terceira vez no Rosa Indomável, correu para o quarto onde a gêmea mais velha estava e se sentou sobre o chão, nervosa.
Estava pálida, com os olhos arregalados e a maquiagem borrada. O corpo suava muito e tremia sem parar, como se estivesse em transe e precisasse de ajuda para despertar. Evelyn não sabia o que fazer: se descia e pegava um copo de água ou se sentava e pacientemente perguntava o motivo daquela sensação. Optando pela segunda opção, pois não queria deixá-la sozinha, disse a primeira coisa que lhe veio à mente, tentando descobrir o que havia acontecido.
Apesar de já saber a resposta.
— Você brigou com Mafalda?
A mais nova deitou a cabeça em seus ombros, demorando um pouco para responder. Teria todo o tempo que fosse preciso e Evelyn não a pressionaria em nenhum instante. Enquanto isso, a mais velha se recordou do passado, quando costumava ser a protetora de Katherine na ausência de Gregory. Sentindo novamente aquela obrigação de cuidar da jovem, beijou sua testa e a puxou para seus braços.
— Calma... Está tudo bem. — Sua voz era gentil e delicada. Colocou a mão em seus cabelos, ajeitando as mechas desarrumadas. Apesar de ambas estarem crescidas, Kath ainda era sua irmãzinha e alguém que precisava de amor em alguns momentos. Passava tempo demais sendo forte no castelo, sem ter alguém com empatia e ligação suficiente para desabafar quando necessário e ser cuidada com afeto e carinho. — Sabe que pode me contar tudo. Qualquer coisa.
— Evelyn, foi pior do que brigar... Eu a matei! — Ao dizer isso, foi tomada por uma imensa vergonha. Evitou o olhar de todas as maneiras possíveis, insegura com a reação que a prostituta teria. — Hoje me igualei a ele! Sou uma verdadeira assassina, exatamente como Lothar Wildshade!
Evelyn sentiu um forte aperto no estômago, pensando nas inúmeras maneiras que poderiam ter sido utilizadas para torturar e matar alguém como Mafalda.
— Vou buscar um pouco de água para falarmos melhor sobre. Lembre-se: não estou em posição para julgar nenhum de seus atos, pois sempre são feitos pensando no bem de alguém.
Retornou ao aposento com um copo e uma jarra, tomando o devido cuidado para não deixar cair o vidro sobre o chão. Serviu a água para a rainha, que se apressou a apanhar o copo e ingerir todo o líquido contido neste.
Katherine contou de forma rápida e resumida a história do monstro gigante, chocando Evelyn com a revelação a respeito do mistério das florestas proibidas. A jovem concluiu que ainda existiam muitos segredos para serem desvendados sobre Arroway e aquelas matas, pois a cada instante algo diferente surgia em meio ao caos.
O aposento se tornou sombrio quando finalmente chegou à parte em que Mafalda foi jogada no fosso para servir de alimento ao bicho. Katherine cometera seu primeiro assassinato a sangue frio, e algo dizia a Evelyn que ela tinha gostado do que fizera. Que tinha sentido prazer.
— Sou igual a Lothar. Não posso mais julgar suas atitudes quando as minhas são semelhantes. Evelyn, nunca mais serei a mesma pessoa depois de hoje!
— O rei faz o que faz por maldade. Não posso achar que foram corretos seus atos, mas sei que fez o que fez para minha proteção e de todos os outros. Mafalda causava um verdadeiro inferno aqui dentro e sua intenção foi acabar com isso.
— Fui muito radical...
— O que está feito, está feito. Usaremos isso para que a população tema sua rainha e saiba que não deve desrespeitá-la apenas por ser uma pessoa bondosa e preocupada com o reino.
— Tenho uma decisão. No entanto, irei dizê-la apenas na presença de todos. Reúna todos os funcionários e me encontre no salão. Não podemos demorar muito.
...
As gêmeas subiram sobre o palco, quando todos se sentaram sobre as mesas, como em uma apresentação normal. Os cidadãos presentes, que tinham expressões de preocupação e medo em seus olhares, aguardava até que fosse feito o comunicado.
— Mafalda não importunará a vida de mais ninguém. Ela não voltará mais para o Rosa Indomável, portanto, outra pessoa deve ficar no comando para dar continuidade ao funcionamento daqui. Alguém de confiança que não lhes fará o mesmo mal que aquela mulher.
— Quem será essa pessoa? — Alguém em meio aos grupos perguntou. Evelyn não soube reconhecer a voz da mulher, que estava entre muitas outras.
— Estão olhando para ela! A partir de hoje, Evelyn Muirden será a nova responsável pelo bordel. As suas ordens deverão ser obedecidas com rigor e, acima de tudo, respeitadas!
— É verdade? — Ela sussurrou no ouvido da irmã caçula, se aproximando lentamente para não chamar muita atenção das pessoas que as observavam.
— Infelizmente, ainda não posso tirá-la daqui e conseguir uma moradia própria. Isso seria abusar de minha autoridade, e Lothar faria questão de me punir por isso. É o que posso fazer, por enquanto.
— Não estou reclamando! É que... realmente não esperava que um dia seria a proprietária do Rosa Indomável. Ainda mais depois de ter sido tratada daquele jeito.
— Terá a chance de transformar esse estabelecimento em algo melhor, com menos conflitos e mais aceitação das pessoas que precisam de abrigo. Claro que não podemos ser completamente bondosas e aceitar a todos, mas não temos que torturá-las para conseguir o que queremos. De um jeito ou de outro, o trabalho que as meninas fazem é o que mantém o funcionamento do local.
— Sim...
Katherine Wildshade se virou para os outros.
— Declaro encerrada essa reunião e afirmo que qualquer desrespeito com Evelyn chegará aos meus ouvidos e não terei pena de castigar ninguém. Tenham um ótimo dia.
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