"Como conseguir o colapso moral do inimigo antes da guerra ter começado — esse é o problema que me interessa. Quem já viveu uma guerra no frente de batalha vai querer evitar todo o inevitável derramamento de sangue". Esta frase foi dita por uma das vítimas da Segunda Grande Guerra, mas não do jeito que pensam: esta frase fora dita por Adolf Hitler. Vítima de sua humanidade, Hitler deixou a vingança consumir seu interior, de forma que ela passou a se tornar sua vida, seu corpo, sua alma. Ele não tinha mais vida própria, sua vida era seu povo, seu povo tinha sede por vingança; todos haviam se tornado vítimas de sua humanidade.

De mesmo modo ocorreu em outra realidade, num mundo de imortais em que as pessoas pereciam decorrente de sua arrogância, ganância, luxúria, avareza, ira, inveja, preguiça, gula e esperança. Cansado de perder bons soldados cedo demais por estarem cheios de ira e esperança, um rei ordenou ao seu mago mais forte que reunisse os seus melhores soldados e feiticeiros para combater Deus. Marcharam eles por dias e noites, sem cessar, até chegarem numa cadeia de ilhas flutuantes, cuja única passagem seria pelo ar. Eles aguardaram durante séculos até chegar a hora em que o Sol e a Lua se unissem, fazendo com que os pedaços flutuantes de terra sucumbissem ao solo e pudessem ir de encontro com seu criador.

Boa ou não, aquela escolha resultou num caminho sem volta: matar Deus ou morrer tentando. O único jeito de matá-lo era dividindo seu poder em dois e os separando até outro tempo. Soldados morreram e outros os substituíram no decorrer deste século, porém o mago que fora encarregado de organizar ainda estava vivo, pela ausência de emoções que demonstrava.

Passaram por inúmeras provas, adversidades que nenhum outro ser queria experimentar, derrotaram titãs, dragões, hidras e criaturas que nem conseguem ser caracterizadas por nenhuma de nossas mitologias. Quando enfim chegaram ao encontro de Deus, o mago disse que apenas ficassem aqueles ausentes de emoções, eis que ao seu lado ficaram Heretri, Murai, Ivridt e seu filho único Kravz. Eles lutaram durante muitas eras, sem nunca perecer, muitos reis passaram a viver e morrer suas vidas sem nunca ver a paz em seu reino.

Até chegar o dia em que o mago descobriu a fraqueza de Deus: o erro. Errar era fatal para o homem, e mais fatal ainda para Deus, porém ele deveria reconhecer o erro e, desenvolvendo sua função como Deus, julgar a si e banir-se da existência. Para isto, o mago pediu para que Heretri se sacrificasse, dizendo para o deus que não mais pertencia aquele mundo e que seu erro foi de deixá-lo a continuar existindo. Ele concordou e assim fez, mas a resposta do deus não foi nada confortante:

-Suas razões e ambições o tornam fruto da existência, o fato de eu falar contigo o torna fruto da existência, sua essência permanecerá viva até que todos acreditem em você.

-Eu não posso existir, não tenho família nem amigos, não tenho casa, não tenho nada. Só tenho a mim e minha espada. -respondeu o soldado.

-Pois então eis que lhe darei a prova.

Dito isto, foram retirados de Heretri sua espada e seu corpo e este foi dado como morto pelos outros, embora continuasse existente em seus pensamentos.

O mago entendeu e procurou não repetir o erro e, desta vez, utilizou da perspicácia de Ivridt para contrariar o próprio deus. Ansioso, não esperou o término da explicação, indo ao encontro do deus com esperança de vitória, o fazendo perecer ao meio do encontro. O mago lamentou sua morte e lembrou os outros de que, mesmo que pense que um bom plano possa ser a chave, não significa que a porta ainda foi aberta.

Restaram apenas o mago, seu filho e seu vassalo Murai. Murai pensava nas coisas com simplicidade, o mago com profundidade e o Kravz não pensava, apenas fazia o que lhe era ordenado. Todo aquele tempo rejeitaram a presença de Murai, que "havia ficado apenas para morrer", ao pensamento do mago. Contudo, ainda precisavam de um plano, e a fragilidade de Murai fora contada nesta última tentativa de vitória: o mago iria sacrificar seu filho para cumprir a ordem de um rei morto. Sua lealdade àquele rei era tanta que ainda via a possibilidade de trazê-lo de volta à vida como um imortal de verdade.

O mago então pôs-se à frente do deus, colocando uma faca à garganta de seu filho. Ele a havia encantado para que não o incapacitasse, como as outras faziam, e sim o matasse. O mago, que nunca havia sentido nada, fora comovido pela tristeza, que se tornou ira contra o deus, que rapidamente percebeu isto. O filho, que parecia não ter cérebro, estava comovido por esperança. Ao matar seu filho, sua ira cresceu, e este então gritou:

-Ele estava cego de esperança, Deus! Não vai puni-lo, bani-lo da existência? Não é isso que você faz com aqueles que se tornam mais humanos?

-Não preciso fazer isto, pois você já o fez. Morrendo como um mortal o fez ser eliminado de toda a existência. Você é o mais puro exemplo do porque eu bano aqueles que pecam da existência. Você está cheio de ira pela morte de alguém que nem lembra mais. Você não tem nada pelo que se enfurecer e mesmo assim continua cheio de ira. O motivo pela qual irei te exilar da existência é simples e já ficou bem entendido, não?

-Então, este é o meu fim?

-Sim.

-Que assim seja.

E, antes que fosse completamente banido da existência, Murai refletiu o que acabara de acontecer e gritou ao deus:

-Pare! Não vê que está cometendo um erro?

-Murai, por que me dizes isto? Não percebeste que este homem está completamente envolvido pela ira e maldade?

-Mas você demorou tanto para bani-lo da existência, errou e o permitiu levar tantos homens a um fim terrível, podia ter banido ele da existência! Você foi arrogante assim como ele foi, e isto o torna humano e pecador!

-De fato, Murai. Mas... -antes que terminasse sua fala, fora interrompido.

-Não há nada que contradiga o fato de que você errou, Deus. Você errou. Assuma seu erro e sua penitência.

Dito isto, um vento enorme levantou-se entre todos os homens, tão forte que os separou em dois. Sua imortalidade já não mais existia, estavam livres para serem humanos e não temerem seus sentimentos. Já não mais nasciam da fonte da vida, logo mais se matariam e também adoeceriam. Sua segunda metade se tornou a mulher, e como uma flor ela encantou a todos e por muito tempo fora louvada como símbolo do marco da salvação.

As últimas palavras do deus foram escritas por Murai e até hoje são guardadas: "para não tornar o mundo numa tremenda desordem, criei novos desejos e qualidades para redimir meu erro, e isto me custará minha própria existência. O que foi separado de cada homem é sua alma gêmea, e cada metade estará sempre a procura da outra, porém nunca estarão completos, preenchendo o vazio do seu coração com a metade de outro. Chegará o dia em que duas metades se encontrarão e se tornarão um novo ser". Os dizeres nunca foram levados à sério por muitos, enquanto outros acreditam que a união entre um casal gera um novo modo de ver o mundo.

Com o tempo, a história se tornou lenda, e a lenda se tornou um conto de crianças, o tornando menos relevante para as pessoas daquele mundo, um mundo sem deus.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.