Mary Margaret pôs água na chaleira e a colocou para ferver no fogão, enquanto continuava checando os cookies assando no forno e mexendo o brigadeiro- receita de um doce brasileiro que experimentara e amara- na panela para que não queimasse. O loft era preenchido pelo som do rádio ligado, que tocava as músicas no modo aleatório em um volume agradável.

A morena desligou a panela e colocou o doce em uma vasilha, colocando para gelar na geladeira. A chaleira chiou e ela a desligou, despejando o líquido fervente em sua xícara com o saquinho de chá. Os cookies estavam quase no ponto e, enquanto os esperava terminar, buscou sua manta e foi escolher um DVD de sua pilha para assistir sozinha.

Sozinha. Sozinha...

Era tão estranho pensar dessa forma depois de tanto tempo morando com Emma, as duas passando os finais de semanas, juntas, assistindo filmes e se entupindo de besteiras no sofá e conversando. Depois passara um tempo com David e, mesmo não sendo do jeito que sempre esperava, ao menos tinha a companhia dele. E então veio Ruby, aquela em que se lembrava de todos os momentos e sentia falta dela, querendo que elas se aproximassem novamente. No entanto ainda tinha sentimentos por David e não sabia ao certo se o que sentia por Ruby era real ou apenas uma ocupação para a mente.

E agora ali estava ela, sozinha em casa em um sábado à noite, sem ideia do que poderia fazer e sem vontade de sair, mas ao mesmo tempo desesperada para que algo acontecesse nessa noite. Pegou o celular e correu pelos contatos.

Emma havia saído com Regina e ela sabia que se ligasse para a loira perguntando se queria vir para casa ver um filme ou saírem para tomar algo no Rabbit’s Hole seria muito estúpido; Henry estava em casa e ela teria que ir lá mais tarde. Poderia pegar sua manta, o DVD, a vasilha com o doce e o chá e ir até lá mais cedo, de pijama mesmo; no entanto o garoto já pedira para ficar até o horário estipulado por sua mãe, sozinho; relutou consigo mesma e mandou uma mensagem para Ruby, quem sabe ela aceitava e as duas poderiam passar um tempo juntas.

Colocou o doce em uma vasilha e o levou para a mesa de centro, onde o chá já estava esfriando. Apagou as luzes, deitou-se no sofá e puxou a manta, cobrindo-se até a cintura. Apertou o play no controle e deixou o filme começar. Concentrar-se na tela estava difícil, já que de minuto a minuto olhava para a tela do celular, na esperança de que alguém lhe mandasse algo.

Estava, enfim, perdendo as esperanças e começando a focar um pouco em seu filme, quando a campainha toca, levantando-a do sofá em um pulo. Seu coração saltava em seu peito, batendo freneticamente contra seu tórax, tamanho susto e nervosismo com quem pudesse estar do outro lado da porta. Colocou as coisas de lado e, deixando o filme rodar, foi andando a passos longos e trêmulos até a entrada.

Ruby, com certeza... Com certeza era Ruby que estava do outro lado, aparecendo por lá sem dar uma resposta à Mary Margaret.

Ajeitou os cabelos e o pijama e abriu um sorriso nervoso. Destrancou a porta e abriu-a, espantando-se ao ver que a pessoa do outro lado não era Ruby, muito menos Emma, e sim David.

David...Tão surpreendente quanto pudesse imaginar.

Boquiaberta ficou encarando o loiro do outro lado, ambos com a respiração acelerada e nervosismo à flor da pele, perceptível de longe. Seus pensamentos estavam embaraçados e não saia uma palavra sequer de sua bocas secas, enquanto ele a devorava com os olhos.

— Posso entrar? – Perguntou-a, receando que a morena lhe estapeasse e mandasse ir para o mais longe possível dela.

Para sua surpresa Mary, hesitante, foi para o lado e o deixou passar. Fechou a porta atrás de si e dando a volta por David, sentou-se no sofá. Parou o filme e ligou as luzes, tentando amenizar o clima, que David também percebera estar estranho entre os dois. Relutando, sentou-se do seu lado no sofá e olhou para a TV, onde tinha a imagem congelada de “Cantando na Chuva”. Olhou para Mary, que o encarava ainda surpresa- porém ele podia perceber que no fundo de seus olhos tinha mágoa e medo, ainda.

— Gosta de filmes clássicos? – Pigarreou e a observou balançar a cabeça positivamente, devagar. Estava pensativa, sim. Porém pensativa sobre o quê?

Ajeitou-se nas almofadas do móvel e respirou fundo. Um silêncio estranho instalou-se no meio dos dois e a vontade de levantar-se e ir embora, deixa-la em paz, era enorme. No entanto tinha um motivo pelo o qual havia ido até lá, e iria cumprir com seu planejamento.

— Também sou fã dos clássicos. Principalmente comédia, como “Tempos Modernos”, com Chaplin. Sou um grande fã do trabalho dele. O cara conseguia encantar milhares de pessoas sem falar uma palavra sequer, e era um ótimo ator. Também gosto de romances, como “Casablanca” e “A Noviça Rebelde”, são histórias emo...

— O que você quer, David? – perguntou, rispidamente.

Por mais que estivesse sem ações, o tempo pareceu lhe lembrar que ela não estava contente com as atitudes de David de algum tempo atrás, fazendo-a fechar a cara e a raiva agora transbordar de seus olhos e transparecer em seu rosto.

— E-eu só... – Respirou fundo e fechou os olhos, encontrando forças para continuar a falar com Mary.

— Queria conversar com você. Gostaria de sair e conversamos um pouco?

— Não. O que você quiser, fale aqui. E sem enrolar.

David a olhou, surpreso com o tom rude, e perdeu a fala. Desde quando Mary aprendera a ser tão grossa? Foi então que percebeu que a havia magoado profundamente e teria que trabalhar bastante para conquista-la novamente, para que no lugar de raiva e magoa, pudesse ver o brilho de paixão estampado em seus olhos novamente.

— Estou me divorciando. Conversei com Kathryn e falei o que eu realmente sentia e por quem. Ela ficou arrasada, porém concordou, já que prefere que eu dê amor de verdade a ela, e não finja os meus sentimentos. Já demos entradas nos papéis e estamos esperando o dia da audiência.

— E quando será o dia?- perguntou Mary, fingindo indiferença.

Seu coração saltava em seu peito com a notícia recebida e ela gostaria de poder jogar-se nos braços de David, após tanto tempo.

— Semana que vem. – Suspirou e franziu os lábios. – E eu quero ficar com você, após terminar tudo com ela. Não consigo parar de pensar em você, sonhar com você e querer estar com você.

— David, não é bem assim...

— Porque não!? Eu lhe amo, Mary Margaret, e demorei para perceber isso de uma vez por todas. E por causa desse tempo perdido, eu sinto que possa ter lhe perdido. Mas eu não quero te perder, quero ficar com você para o restante de nossas vidas.

— Você me magoou, David. E ainda tive que escutar a cidade inteira falar coisas horríveis de mim, por sua culpa. Eu, por ser mulher, fui chamada de tudo um pouco, e o que mais escutei foi que estava destruindo um casamento. Sabe como é difícil sair na rua e ser olhada com repugnância por pessoas que te admiravam?

— Eu lhe entendo. — David foi mais para perto da morena e puxou sua mão, entrelaçando seus dedos. – Mas agora eles não terão mais o que falar. Não estou mais junto de Kathryn e ela entendeu meu lado. Não fala de você para ninguém, e não diz que a única culpada é você de nosso casamento ter acabado.

— Mas eles irão comentar. Irão comentar quando virem nós dois, juntos, de mãos dadas. Vão comentar quando virem eu sozinha, ou você sozinho, na rua. Irão comentar, culpando-nos sempre e vitimando sua esposa. Nós somos os sem vergonhas da história toda. Não importa, eles sempre irão comentar.

— E daí se comentarem? Deixe que comentem! Somente nós sabemos pelo o que passamos; somente nós sabemos o que sentimos. E se falarem algo para mim, vou dizer que lhe amo e que se houve algum culpado, fui eu. Eu que lhe procurei, eu que traí. Você tentou se afastar para não se machucar e não estragar as coisas... E se afastou, e me machucou ficar longe de você.

Mary sentiu o ar esvair de seus pulmões e seus olhos encherem de lágrimas. Sua boca abriu-se e seus dedos apertaram-se ao redor dos de David. Sua mente girou de tantas possibilidades para fazer após escutar David lhe abrir o coração, porém o seu ainda doía só de pensar em tantas magoas que já sofrera por causa dele.

— David...

— Mary, por favor, me dê mais uma chance. – Pediu, interrompendo-a.

Uma lágrima escorreu dos olhos de Mary Margaret e o loiro a secou com o polegar, passando sua mão pelo rosto dela. Mary fechou os olhos e aproveitou o toque de David, relembrando-se das carícias quando dormiam juntos. A dor da saudade lhe pegou de surpresa e então as lágrimas se soltaram, rolando por seu rosto.

David a tomou em seus braços e lhe apertou, aninhando-a em seu peito. Tão reconfortante...

— Eu sei que lhe magoei, Mary Margaret... – sussurrou ao pé de seu ouvido, suspirando por ter de vê-la dessa maneira. – Mas eu lhe peço que me perdoe, que me deixe lhe mostrar que a amo como nunca amei alguém. Por favor...

— Ainda não estou pronta, David. – soluçou, soltando-se dos braços do maior e fungando. – Não estou preparada para isso. Gostaria de não apressar as coisas.

— Tudo bem, eu concordo com você. Não apressaremos nada e eu ficarei aguardando até quando estiveres pronta.

— David...

O telefone tocou e Mary levantou em um pulo novamente. Seus olhos foram logo para o relógio na parede, onde os ponteiros a mostravam de que ela deixara Henry vinte minutos a mais sozinho. Correu para o telefone e congelou ao ver o nome de Regina escrito na bina.

— Merda... – pego o aparelho e o levou ao ouvido. – Alô?

— Ainda em casa, senhorita Margaret? – Mary sentiu o tom frio de Regina lhe congelar as têmporas.

— S-sim. Acabei perdendo o horário. Mas já estou indo para lá.

— Irei ligar daqui a quinze minutos para a minha casa e se não for a senhorita que atender, estará encrencada... – Mary pôde escutar Emma protestar pelo tom de voz de Regina. – Ora! Ela não está cumprindo com o combinado! ...— Regina bufou — Desculpe-me pelo tom, Mary Margaret. Mas irei ligar daqui a quinze minutos e quero você lá. Até.

Regina desligou o telefone e Mary sentiu seu ar voltar aos pulmões. Largou o aparelho e correu para o quarto, pegando a primeira roupa que estava pela frente e seu sobretudo. Pegou sua bolsa, colocou o celular dentro dela e o molho de chaves do loft.

David a olhava, estranhando a correria dela pelo quarto.

— Vai sair? – perguntou-a, levantando-se e indo para perto dela.

— Tenho que cuidar de Henry. Até Regina voltar para casa.

Desligou a TV e as luzes e correu para a porta, abrindo-a. David a puxou pelo cotovelo e seus rostos ficaram próximos, narizes colados e respirações misturadas.

— Posso lhe acompanhar? – seus olhos percorriam o formato da boca de Mary, mordendo os lábios.

Mary perdera-se ao ficar tão próxima de beija-lo, que já não se lembrava mais o que precisava fazer.

— Posso? – David repetira a pergunta, tirando-a de seus devaneios.

— Ahn? O quê?

— Posso lhe acompanhar até a casa da prefeita?

— Ah... Claro. Mas vamos logo, ela já está querendo minha alma por ter deixado o filho dela vinte minutos a mais sozinho.

Mary virou-se e deu de cara com Ruby, olhando os dois com raiva estampada nos olhos.

— Ruby! Mas que surpresa! – Mary não sabia o que estava acontecendo.

— Oras, eu que diga. Fui convidada a vir aqui e quando chego já está de saída com... ele.

Os dois, Ruby e David se olharam, um fuzilando o outro. Os olhos de Ruby fumegavam e o de David congelavam a mulher a sua frente.

— É, tenho que ir cuidar de Henry. Passe aqui amanhã, podíamos sair para beber algo.

— Ah, com certeza. Adoraria sair com vocês dois para ficar de vela.

— Não é nada disso...

— Não, apenas estava imaginando vocês se beijando na minha frente

— Nós não nos beijamos! – Mary protestou e bufou. – Amanhã conversamos, ok? Agora me deem licença.

Mary passou pelos dois e foi descendo as escadas, sentindo o clima, dos dois que estavam atrás dela, piorar a cada passo.

Mary saiu do prédio e viu o rastro de Ruby passar por ela, batendo os saltos e os cabelos voando. David parou ao seu lado e os dois caminharam lado a lado, o clima estranho entre eles novamente.

— Comentaram que vocês duas estavam saindo... – David quebrou o silêncio e Mary Margaret desejou que ele não o tivesse feito.

— Somos apenas amigas. Estávamos saindo porque ambas precisavam de um pouco de diversão.

— Ah... Pelo jeito que comentavam parecia mais que amizade...

— Todos comentam mais do que deviam nessa cidade, e a maioria do que comentam são boatos. – Desconversou. Mary suspirou e acelerou o passo, para que logo chegassem à casa de Regina. David manteve-se quieto ao lado da morena, pois percebera que era a melhor coisa a se fazer no momento. Foi diminuindo o espaço entre os dois e, quando chegaram em frente a mansão, puxou Mary Margaret para seus braços, abraçando-a fortemente.

— Gostaria de ver você depois do divórcio. – sussurrou no ouvido da morena, aspirando o doce perfume de seus cabelos.

— Eu... Vou pensar. – Mary soltou-se dos braços dele e se afastou. – Obrigada por me acompanhar, David.

E com um sorriso fraco e os olhos marejados, virou as costas para o loiro e entrou na mansão, o telefone tocando bem na hora em que fechou a porta atrás de si. E David ficou olhando-a se distanciar até sumir de vista, virando as costas e voltando sozinho para casa. E esse era seu medo, que ela cada vez se distanciasse mais e aos poucos ele não conseguir mais alcança-la.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.