Haruma

8 Capítulo 8 - O apagar da luz da Lua


Capítulo 8 – O apagar da luz da Lua


- Bom dia – ouviu a voz doce dela num sussurro.

Abriu os olhos e viu um par de olhos azul-violeta o fitando. Estava emborcado, virou-se de lado para acomodar-se e vê-la melhor. O frio se fora. Sentia-se bem aquecido. Uma sensação de extremo bem estar lhe invadia, tinha a leve impressão de que tivera sua cabeça cuidadosamente afagada por boa parte do tempo em que dormira, embora algo o incomodasse.

- Você esteve dormindo desde ontem. Achei que ia morrer por hipotermia.

- Baixinha exagerada – fingiu reclamar e sentou-se, lentamente – Bom dia – sorriu.

Sentia-se tão bem... Mas algo lhe apertava o coração de uma forma terrível. Tinha um mau pressentimento. Levantaram-se e arrumaram o quarto, recolhendo as zampakutous e preparando-se para sair.

- São sete da manhã. Vamos comer alguma coisa, depois vamos voltar ao mundo humano. Do jeito que as coisas andam, precisamos de um bom número de shinigamis por lá.

- Temos mesmo que ir hoje?

- Não estou entendendo, Ichigo. Por que você quer ficar aqui? — Um longo tempo decorreu sem que ele dissesse nada – Ichigo? – Chamou-o.

- Eu tenho um mau pressentimento... – Disse quando finalmente despertou para o chamado dela.

- Mau pressentimento...? Sobre o que?

- Não sei exatamente... Sinto que algo muito ruim vai acontecer hoje se dermos de cara com Iruma de novo.

- Ichigo, não houve uma vez sequer que encontramos com ele sem que algo ruim não tenha acontecido pra alguém.

Ichigo não era de ter pressentimentos, ao menos não sempre. Talvez devesse considerar, mas precisavam trabalhar. A pequena foi interrompida em suas reflexões ao sentir-se ser apertada num abraço forte. Arregalou os olhos a princípio.

- Ichi... go...

A única resposta dele foi um suspiro profundo e pesado.

- Não vai acontecer nada, seu bobo. É só continuarmos sendo cautelosos – não era aquilo que queria dizer, mas diante da situação, pega de surpresa, foi tudo que saiu de sua boca.

Ele não conseguia falar depois de já tê-la abraçado, só a apertava cada vez mais. Um sentia o coração do outro contra o seu, batendo aceleradamente. Ambos tinham consciência do sentimento que batia ali dentro, mas nenhum tinha coragem de sequer falar a respeito. Seria isso uma iniciativa? Não... Ele estava de fato com medo, ela podia ver nos olhos dele. Não um medo qualquer. O mesmo medo de quando fora perfurada por Grimmjow, quando quase morreu ao derrotar o novena espada, pode sentir a reiatsu perturbada dele naquele instante, quando ele a abraçou pela primeira vez ao derrotar Dark Rukia e em tantas outras ocasiões.

- Desculpe... – falou, soltando-a.

Nenhum dos dois sabia o que dizer ou como agir. Ele acabara de lhe pedir desculpas por lhe proporcionar um dos momentos mais doces de sua vida.

- Temos... Que ir...

Seguiram em silêncio até o refeitório. Sentaram-se e tomaram café em absoluto silêncio. Quando deixavam o lugar para partir para Karakura, um oficial passou correndo como um louco, gritando.

- Dez mil hollows estão invadindo Karakura!

- Como?! – Hitsugaya, que também acabara de sair, alarmou-se.

Os dois não esperaram mais, praticamente voaram para o portal e em instantes estavam na cidade. O capitão de olhos verde-água, Matsumoto e mais alguns shinigamis se espalharam para combater os monstros. Uma nuvem negra no céu mandava hollows para todos os lados.

- Ichigo...

- Iruma está por perto – ele fez menção de correr, mas parou ao ver que ela não o seguia.

- Já falamos sobre a condição de vocês dois serem humanos, fique aqui. Eu vou.

- Isso é loucura, Rukia! Não vai sozinha!

- Encontrarei outros shinigamis, não vá!

Ele tentou correr de novo.

- Não vá!!

Ao ouvir a voz dela com tanta autoridade, parou, e a viu ir embora. Não lhe importava o que a Soul Society pensava, iria atrás dela. Ela se afastara com o shumpo, mas podia sentir sua reiatsu. A seguiu. Ainda longe, sentiu Iruma ferir dois shinigamis, que fugiram a tempo de não ter seu sangue sugado. Provavelmente, três hollows o rodeavam. Rukia se aproximava do local. Chegou mais perto e pode ver. Iruma tinha um sorriso assassino. Rukia lutava contra dois dos hollows, enquanto o outro apenas gritava um monte de besteiras, enlouquecidamente.

- Dessa forma, acabarei com todos esses shinigamis rapidamente.

- Não devia subestimar seus adversários dessa forma! – A baixinha respondeu, ainda lutando com um dos hollows.

Logo ela livrou-se dele e começou a combater Iruma. O som metálico das espadas colidindo ressoava. Ela ativou o shikai. Investiu contra ele usando o Hakuren, mas em segundos todo o gelo quebrou-se.

- Uma bela maneira de esfriar a atmosfera num clima quente. Só é uma pena que esse gelo seja muito fraco – ele falou com um sorriso perverso, voltando a lutar com a tenente.

Elevou a reiatsu de tal forma que a shinigami quase caiu no chão. Em seguida, cortou-a e estendeu a espada em sua direção, após um pequeno grito de dor vindo dela.

- Chegou o momento... Me dê seu sangue! – Por milésimos de segundo removeu sangue através do ferimento dela.

Ela gemeu, tentando suportar a dor, sentindo o oxigênio faltar. Mas alguém interrompeu seu sofrimento. A forte reiatsu a fez ser atirada para o chão quando Iruma foi interrompido. Virou-se para ver de quem se tratava.

- Ichigo... O que está fazendo aqui?! – Tentou levantar, apoiando-se com o braço livre da espada.

- Mais um chegou para morrer...

- Já chega. Não vai tirar mais uma gota de sangue!

- Então vamos ver o que acontece! – O ódio tomou seu rosto.

Ichigo defendeu a investida e iniciaram um combate. Lutando para ignorar a dor, levantou-se e foi ajudá-lo. O hollow esquisito que segurara Iruma na noite em que quase perderam Renji, invadiu o lugar e interrompendo a luta, atacou Iruma, afastando-o dos shinigamis.

- O que?!

- O que aquele hollow fez?

- Eu vou atrás dele. Fique aí descansando!

- Ichigo! – Ignorando o pedido dele, pressionou o ferimento na lateral de seu corpo e o seguiu, mancando.

Após correr alguns quarteirões, encontraram.

- Me solte!

O hollow o largou no chão, tocou suas costas com uma das mãos e gritou.

- O que você quer?! – Desvencilhou-se da criatura, que se afastou um pouco.

Correu para atacá-lo, mas ele fugiu. Observou, intrigado, a criatura se afastar gritando.

- Muito estranho... – tocou as pétalas da rosa branca, presa em sua roupa, mas foi interrompido.

- Você está aí! – Era o shinigami ruivo.

Iniciaram uma nova luta. Esquivava-se, sem dar nenhuma brecha para a estranha zampakutou do shinigami sequer se aproximar da rosa, mas ele não saia do seu encalço. O combate tornou-se mais violento.

- O que?! – Iruma sentiu-se paralisado.

- Esse kidou te atingiu. Você não pode se mexer tão livremente agora.

Olhou confuso para a shinigami de olhos azuis, que mantinha o selo que executava o kidou.

- Chegou em boa hora – o ruivo comentou.

- Minha reiatsu está diminuindo, seja rápido – falou para Ichigo.

- Tudo bem.

- Isso não vai adiantar! Nesse lugar a reiatsu diminui ainda mais depressa!

Aproveitando enquanto ele falava, Ichigo ergueu a Zangetsu, mas ele se libertou.

- Droga! Se soltou!

Começaram a lutar de novo. Rukia não conseguira mais manter o kidou. O ferimento doía e sangrava.

- RUKIA! – Chamou-a quando ela caiu no chão.

- ICHIGO! – Ele escapara por pouco de ser atingido bem no rosto.

Ele arregalou os olhos e ficou paralisado por um segundo quando foi atingido e caiu no chão.

- ICHIGO!

Iruma preparava-se para desferir um golpe fatal. Ichigo estava indefeso, caído no chão. A tenente correu. Tinha que dar tempo!

- PARE! – Ouviu Iruma gritar no mesmo instante em que atacou.

Uma dor mortal a invadiu vinda do ferimento que ele causara na batalha anterior, agora mais grave. Sentiu seu corpo completamente imobilizado durante dois segundos. Lentamente, abaixou a espada.

- Rukia...! – Ainda no chão, ele não conseguia assimilar o que acabara de acontecer.

As pernas dela começaram a enfraquecer, a lâmina da espada tocou o chão quando seu braço também perdeu a força. Tentou levantar-se para correr até ela, mas a dor o atingiu por dentro e caiu de novo. A respiração dela tornava-se mais ofegante enquanto Iruma se aproximava. O assassino olhou a shinigami caindo e fitou a rosa branca em sua mão. A dor cruzou seus olhos e quase chorou. Queria vê-la mais uma vez. Sem pensar duas vezes, atravessou o corpo de Rukia com a espada. Ela gritou. Só o próprio Ichigo sabia o quanto aquele grito fez seu coração doer. Quase podia sentir a dor dela. E mesmo não sentindo, já fora atravessado por uma espada, conhecia bem aquela dor mortal.

- Eu vou tomar... Todo o sangue dessa shinigami! – Falou, começando a puxar o sangue dela, sabe-se lá como, com a lâmina vermelha da espada.

Ichigo nada conseguiu fazer. A dor o impedia de se mover, estava horrorizado. Via sua pequena tentar gritar e respirar, sem sucesso, enquanto sentia o sangue deixar dolorosamente seu corpo. Lágrimas nasceram em seus olhos azuis. Segundos após, Iruma puxou a espada violentamente para fora do corpo dela. Ela cambaleou e seus joelhos fraquejaram, dobrando-se. Ela virou a cabeça com dificuldade para tentar olhar para o ruivo, que mantinha-se de olhos arregalados e os lábios entreabertos, completamente chocado, mas caiu. Um baque no chão. Os olhos dela fecharam-se.

– Rukia... RUKIA! – Correu até ela – ei, aguente firme, Rukia!! Rukia!! – A sacudiu, sem resposta – EI, AGUENTE FIRME, RUKIA!!!! – Sentiu seus olhos se encherem de lágrimas, não podia ser o que ele estava pensando.

– Você também não é capaz de proteger o que é importante pra você – Iruma disse lembrando-se da morte de sua querida companheira, com o olhar mais triste que Ichigo já vira nele, e desapareceu.

“Você também?”. Então ele estava mesmo procurando alguém, mas aquilo pouco importava para o shinigami no momento. Só aquele belo ser caído e inconsciente na sua frente tomava seus pensamentos. Estava desesperado, a ponto de ficar louco. O coração parecia que ia deixar seu peito a qualquer momento. Estava com medo, as lágrimas escorriam em seu rosto. Apertou a mãozinha dela, estava ficando fria. O sangue de ambos se misturava, o dela, principalmente, banhava seus kimonos e o asfalto. Sua respiração estava ofegante, a dela quase inexistente.

– Rukia... Rukia...! – Nada.

Num ato de total desespero, pressionou o colo dela e sentiu que o coração ainda batia. Não podia correr com ela dali, iria piorar a situação. Não havia ninguém por perto, só um milagre traria ajuda a tempo. Pressionou o ferimento, mas era inútil. Estava muito profundo e aberto. Deitou ao lado dela, abraçando-a e apertando a mão fria na sua, tentando ao menos aquecer o corpo da shinigami. Chorou como nunca antes. O ser mais precioso em sua vida estava morrendo e nada pode fazer além de alertar o esquadrão quatro pelo celular.

Não sabia como, mas sua consciência voltou. Estava com frio, sentia dor. Alguém estava deitado em seu ombro com os braços em volta de seu corpo. Mesmo com aquele calor tão acolhedor seu corpo continuava gelado. Quem era? Por que estava chorando tanto e a apertava com tanta firmeza? Abriu lentamente os olhos e viu o asfaltado banhado com uma cor vermelha. Uma mão ensanguentada e quente apertava a sua. Lembrou-se! Quanto tempo havia passado desde que caíra? Entreabriu os lábios, precisa de força ao menos para trocar algumas palavras com ele. Lembrou-se da conversa pela manhã. Sabia que talvez seu fim fosse inevitável.

– I... chi... go... – chamou, sua voz se misturando com um gemido de dor.

- Rukia! – Arregalou os olhos e ergueu-se – Aguente firme! Já chamei Unohana! – Cuidadosamente, a colocou em seu colo.

- Minha falta... de experiência... levou a minha derrota... – sussurrava, ofegando, respirando com extrema dificuldade.

Seus olhos se encontraram com os dela e seu rosto se contorceu em sofrimento. Sentiu gotas frias de chuva atingirem seu rosto. Lentamente, elas começavam a cair em maior quantidade.

– Mas... – os olhos azuis começavam a perder a vitalidade e o brilho.

Uma angústia horrível tomou conta dele, o peito doeu. Soluçou. Olhou no fundo daqueles olhos, já quase sem vida, e pode sentir que ela também o olhava, profundamente, embora não tivesse certeza de que ela podia enxergar nitidamente. Não tinha certeza, mas a sombra de um pequeno sorriso pareceu cruzar os lábios dela tão rápido quanto um piscar de olhos. Não soltava a mão dela, apertou-a.

- Vá... e derrote Iruma... Ichi... – a última palavra não pode se completar, tudo ficou escuro, Ichigo chorando foi a última coisa que viu antes de seus olhos se fecharem.

- Rukia...! EI, RUKIA!!! – A sacudiu, mas seus olhos continuaram fechados.

Ainda pode ouvi-lo chorar por algum tempo, mas não tinha mais nenhuma força para reagir. Seu corpo estava dormente, não sentia mais dor, só sono. Sentiu quando a mão dele soltou a sua e desesperadamente tocou seu colo, tentando sentir seu coração, que provavelmente ele não podia mais ouvir ou sentir, mesmo que ainda lhe restassem algumas batidas. A mão quente voltou a acolher a sua. A respiração dele tornou-se ofegante e ele não se moveu por alguns instantes. Estaria tentando assimilar o que estava acontecendo? Aceitar ela sabia que ele não iria conseguir, não tão fácil. Queria falar mais com ele, tranquilizá-lo, ele teria que continuar vivendo, mas seu corpo não lhe obedecia mais, estava absolutamente anestesiado. Para ambos, doía tanto saber o que estava acontecendo com o outro e não podiam fazer nada... Mas ao menos ele estava vivo. Sentiu-o abraçar-lhe com força, deitando a cabeça em seu ombro, e chorar como nunca antes ela vira. E acabou. Seu coração esgotara a última batida. Nem ouvia mais o lamento do shinigami e o som da chuva, não sentia nada, nem medo nem dor. Não existia nada além do silêncio e da escuridão.

Os corpos de ambos já estavam ensopados de sangue. A água da chuva se misturava ao líquido vermelho no chão e o espalhava. As lágrimas caíram com ainda mais força de seus olhos, misturando-se com a chuva que começara há alguns minutos. A olhou sem conseguir acreditar no que acontecera. Soluçou e a abraçou de novo, ainda mais forte. Chorou no peito dela, sem ouvir seu coração bater.

– RUKIAAAAAA!!!!!! – Gritou para o nada quando finalmente ergueu a cabeça para a chuva e tornou a abraçá-la e chorar.