Haruma

1 Capítulo 1 - O dia em que eu a conheci


Notas iniciais
Essa fanfic se baseia na nona edição do musical "Rock Musical Bleach" (Burimyu).

Capítulo 1 – O dia em que eu a conheci


– O garoto é órfão, nunca soube quem são seus pais. Ele está sendo transferido.

– O que houve com o orfanato dele? O limite é quinze anos. Ele só tem seis.

– O orfanato teve problemas e fechou, as crianças foram distribuídas entre outros orfanatos ou adotadas.

Ele estava dentro do carro, esperando, mas podia ouvir o que falavam em frente ao hospital. Agora cochichavam.

– É uma criança um tanto estranha. Disse que machucou-se porque havia um monstro terrível, com uma máscara feita de osso e um buraco no peito, correndo atrás dele e caiu quando tentava fugir. Falou ainda que um homem vestindo kimono preto matou o monstro com uma espada. As outras crianças tinham medo dele.

– Não diga isso. O garoto está machucado, triste e assustado. É só uma criança. Sempre há algumas com uma imaginação mais fértil que as outras. Ele é um bom menino, ficará bem.

Sentiu afeto pelo homem que o defendeu e ao mesmo tempo ódio, aquilo não era mentira. Fora perseguido por um monstro gigantesco que usava uma máscara feita de osso e tinha um buraco no peito. Os dois pararam de conversar e o homem jovem que falara em sua defesa se dirigiu até a janela aberta do carro, onde estava sentado.

– Iruma...?

Ergueu os olhos para ele, que lhe entregou uma caixa branca com uma cruz vermelha no centro.

– Isso vai ajudar você a cuidar dos machucados nos seus pés e pernas. Tem remédio, algodão, bandagens e esparadrapo aí. Trate todos os dias até melhorar.

Ele acenou com a cabeça positivamente.

– Não fique assim. Essas coisas acontecem. Você vai encontrar amigos novos agora. A chance de um recomeço, mesmo que não programada ou forçada pode ser sempre algo bom. Cuide-se – falou, afagando seu cabelo castanho com uma mecha fios quase dourados.

– Obrigado – sussurrou.

O homem sorriu e afastou-se. O outro entrou no carro e o olhou.

– Ouviu o que ele disse, tem que cuidar disso. Agora vamos para seu novo lar.

Sem falar mais nada, olhou para frente e deu partida no carro. Em cerca de quinze minutos entravam num orfanato em uma das ruas de Karakura. O local tinha dois andares, era grande e espaçoso. Havia também um belo jardim na entrada, rodeado por uma pequena cerca azul-clara e forrado com grama esmeralda, de onde brotavam arbustos, pequenas árvores e flores, incluindo chamativas rosas brancas.

– Olá. Eu me chamo Yui. Você deve ser Iruma. Seja bem vindo, querido – uma moça simpática de cabelo ruivo, preso num coque, que devia chegar até pouco além dos ombros, veio cumprimentá-lo na porta – Já está tarde, lhe mostrarei o quarto dos garotos, depois vamos jantar e nos aprontar pra dormir.

O homem que o trouxera conversou com ela durante alguns minutos, se despediu dos dois e partiu.

– O que houve com suas pernas e pés?

– Eu cai.

– Deve ter sido uma queda feia. Quer ajuda pra subir as escadas?

– Não, obrigado.

Subiram até o segundo andar e ela o levou até um corredor com duas portas. Entraram na porta da direita. O quarto continha cerca de doze camas. Nove já pareciam estar ocupadas, a julgar que apenas elas tinham travesseiro e coberta.

– Bom, temos três camas vazias. Você pode ficar onde quiser.

Caminhou até as três camas vazias perto da janela e deixou sua mala em cima da mais afastada das já ocupadas.

– Você é corajoso. Os outros não gostam de ficar aí porque têm medo das tempestades.

– É só luz e um monte de água.

– Tem razão. Mas não gostaria de ficar mais perto dos outros?

Após alguns segundos esperando uma resposta em vão, ela o chamou de novo.

– Iruma? Há algo que queira me contar?

– A senhora acredita que é possível ver fantasmas?

– Claro que sim. Sabe... nem sempre são fantasmas, às vezes também podemos ver anjos. Algumas pessoas são mais sensíveis que outras, por isso podem ver. Não se preocupe com isso – ela sorriu segurando-o pelos ombros – Estaremos esperando você lá embaixo pra jantar. Vou pedir que uma das crianças te espere na escada pra te mostrar o caminho – ela falava enquanto tirava um travesseiro e um cobertor de um armário e os arrumava na cama que ele escolhera – Ah! Pode me chamar de Yui-chan.

Ela sorriu e deixou o quarto. Cinco minutos depois alguém bateu na porta e ele a abriu. O garoto louro, com cabelo do mesmo tamanho que o seu, indo até os olhos, pareceu assustado ao olhá-lo. Por conviver com fantasmas, aprendera a não se assustar facilmente e ser um tanto indiferente ao mundo a sua volta, por isso possuía um olhar um tanto frio de vez em quando, inconscientemente, era esse um dos fatores que assustava as outras crianças.

– Y-yui-chan pediu... pra chamar você. Está pronto?

– Sim.

– V-venha...

Os dois seguiram pelo corredor e chegaram à escada. Uma garotinha de cabelos ruivos até um pouco abaixo dos ombros os esperava.

– Haruka? O que foi?

– Você demorou Kouta. Yui-chan me pediu pra vir.

– Já que você ta aqui, eu vou indo então. Tô com fome.

Iruma pode ouvi-lo sussurrar um “bem que disseram que o garoto que viria pra cá era sinistro” quando passou do lado de Haruka e desceu as escadas.

– Seu bobo, aprenda a ser mais receptivo! – Ela gritou para o louro, que não deu importância e continuou seu caminho.

Ela o olhou e sorriu. Ele ficou paralisado, absolutamente todas as crianças que conhecera em sua vida haviam reagido da mesma maneira ou semelhante a Kouta. Ela reclamara disso e ainda sorria. Qual era o problema dela?

– Você pode mesmo ver fantasmas? Foi um deles que fez isso com você? – Disse se referindo aos machucados.

– Sim. Pode ir na frente se não gostar disso.

– Eu acho isso legal – ela sorriu de novo – Não é todo mundo que tem uma habilidade especial como essa. Com certeza um dia vai te ajudar em alguma coisa.

Ele ficou pasmo de novo.

– Você é Iruma, não é?

– Sim.

– Sou Haruka, também tenho seis anos – por algum tempo ela fitou os machucados em suas pernas e pés – Isso deve doer. Consegue andar direito.

– Dói, mas consigo.

Sem esperar qualquer resposta, ela agarrou sua mão e o guiou pela escada, devagar, até que chegassem ao térreo, e o levou para a cozinha.

– Até que enfim os dois chegaram – Yui sorriu.

– Você demorou mais do que eu!

– Kouta! Sem implicância. Ele está machucado, não pode sair correndo por aí.

O louro deu de ombros e virou-se para falar com uma das outras crianças. Deviam ser vinte ao todo, meninos e meninas. Havia outra mulher na cozinha. Esta parecia mais velha, tinha cabelos negros, que iam até os ombros e olhos cinza-azulados. Todos a chamavam de Satsu-san, era tão amistosa quanto Yui.

– Olá querido, seja bem-vindo – ela o cumprimentou, ele sorriu em resposta.

Enquanto as duas mulheres terminavam de arrumar o jantar e as crianças distribuídas na grande mesa o olhavam, algumas já parecendo apreensivas, ele pouco se importava com elas no momento. Encontrara um tesouro. Tentava ser discreto, mas não conseguia parar de olhar a ruivinha, se encantara por ela e por sua atitude com ele. Pela reação dos demais, sua estadia ali não seria muito diferente do orfanato anterior, mas Haruka parecia ser uma promessa de mudança total em sua vida.