Haruma

3 Capítulo 3 - A dor que rasga o coração


Capítulo 3 – A dor que rasga o coração


Entre toda a escuridão que rondava aquele lugar abandonado, às três horas da manhã, escondido pela capa e capuz, que ocultavam toda a sua aparência, ele sentou-se no que anos atrás deviam ser os degraus de acesso até a entrada. Apenas a luz da Lua e de poucos postes de luz incidia ali. Finalmente voltara depois de tantos anos. Ele observou a rosa branca em suas mãos, sendo brevemente interrompido por um homem bêbado que vagava sem rumo e disparou, assustadíssimo, ao ver a rosa flutuando, uma vez que não podia ver quem a segurava. Retirou-se.

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Ele esperava impaciente enquanto Rukia andava de um lado para o outro no quarto falando ao telefone com alguém da Soul Society. Parecia receber notícias graves.

– Como?! Quarenta e sete?!

– Rukia!

– Espere! – Ralhou com ele.

Ele rendeu-se, emburrado. Cerca de cinco minutos depois, ela desligou e o olhou, parecia triste, séria e preocupada.

– O que aconteceu? – Ele insistiu.

– Alguém ou alguma coisa já matou quarenta e sete shinigamis.

– Como?!

– Não sabemos ao certo o que ou quem, mas pelos rastros que deixou, ele suja todo o sangue depois que mata. Não sabem porque.

– Um vampiro?!

– Não, Ichigo. Não sabemos de nada ainda, só que ele veste roupas vermelhas, tem uma zampakutou vermelha e rouba todo o sangue dos shinigamis que mata. E cada vez que isso acontece, a Lua fica mais vermelha. E provavelmente tem aparência humana.

Ele fitou a Lua vermelha no céu. Eram três e meia da manhã. Desde quando assumira aquela cor?

– Vamos sair agora?

– Não. Por hora ele não está atacando. Vamos esperar uma segunda ordem – seguiu-se um momento de silêncio – Perdi o sono agora. Ainda bem que não tem aula amanhã – ela falou sentando-se na cama, ao lado dele.

– E quem disse a você que eu não vou dormir?

Ela o fitou com um olhar bravo tão fingido quanto as palavras dele. Sabia que ele nunca dormia quando ela não conseguia dormir. Muitas vezes o percebera em pé em frente à porta entreaberta do armário quando estava acordada.

– Até parece. Não vejo um traço sequer de sono na sua cara.

– Sua baixinha chata!

– Mesmo sem sono não há nada a fazer agora. Eu vou tentar dormir.

O shinigami sentiu a mesma dor no peito de todas as noites quando ela levantou e seguiu para o armário. Queria poder abraçá-la e protegê-la durante todas as horas de escuridão, enquanto velava seu sono, mas nada podia ser feito. Ela entrou no armário após lhe desejar boa noite, apesar de o relógio marcar quase quatro da manhã, e fechou a porta. O shinigami afundou-se no colchão, puxou as cobertas por cima da cabeça e tentou dormir.

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De longe, fitava um grupo de shinigamis que caminhava pelas ruas quase ao anoitecer do dia seguinte ao que visitara as ruínas do orfanato. Não gostava de estar fazendo aquilo, mas a antiga dor que rasgava todos os dias o seu coração era ainda mais difícil de suportar.

{Flash Back}

Ele chorava com os olhos cobertos pelas mãos, sentado em uma das cadeiras do corredor daquele hospital como no dia em que a conhecera. Suas mãos estavam enfaixadas. Não havia sido atingido pelo fogo, mas o mormaço lá dentro era imenso e terrível. Os enfermeiros garantiam que ele nem teria cicatrizes, mas pouco se importa com qualquer uma dessas coisas no momento, nem com a dor em suas mãos, que voltava a incomodá-lo.

Algumas crianças também haviam sido atendidas. Ninguém se ferira gravemente. Seriam todos abrigados até que encontrassem outro lugar. Satsu sobrevivera, mas permanecia desacordada. Yui tivera as pernas e braços levemente machucados devido ao tempo que permanecera lá dentro procurando as crianças que faltavam, inclusive Haruka, a quem ela não conseguiu chegar. Ele acordara no hospital, infelizmente acordara, com as mãos enfaixadas. Yui estava sentada ao seu lado, chorava, e ele sabia o queria dizer aquilo, alguém não havia sobrevivido. Lembrou da cena na rua dos fundos do orfanato e seus olhos se encheram de lágrimas e da mais profunda dor.

– Iruma... – Escutou-a chamá-lo, mas não deu importância.

– Você... quer vê-la? Mais uma vez? Todos já se despediram. Amanhã você não terá mais essa chance de estar tão perto... – Ele podia sentir dor em cada palavra que Yui proferia.

Se sentia culpada. Sentia raiva dos bombeiros. Era uma criança, sua vida pela dela seria uma troca justa. Queria ter tido a mesma audácia que ele. Mas como ficariam os outros? Sentou-se ao lado dele e o abraçou.

– Eu sei que está doendo – sussurrou – Mas ela gostaria de você por perto. Por favor, se sentir medo de estar lá sozinho, eu vou com você.

– Não – soluçou – Não tenho nenhum medo dela.

Yui o guiou até um quarto. Entrou sozinho e fechou a porta. Era um quarto de repouso como vários outros no hospital, só que um pouco menor. Só havia uma cama, onde ela estava, do mesmo jeito que ele a encontrara no orfanato em chamas, com o vestido branco que usava, a não ser pela falta do casaco, que estava dobrado num canto da cama. Durante longos dois minutos foi incapaz de dar um passo sequer. Tudo que conseguia fazer era chorar. Unindo o que lhe restava de força, caminhou até ela e a abraçou e chorou com toda a sua força. Ela estava tão fria. Constatou mais uma vez que o coração não batia. Não a teria por perto nunca mais. E mesmo que a encontrasse, logo ela desapareceria. Era sempre assim. Eles ficavam vagando quando morriam, apareciam após algumas horas ou dias, e sumiam com o tempo.

Forçou-se a parar de chorar, mas não queria sair dali. Não havia mais sentido nem motivos para viver.

– Haruka... – sussurrou com a esperança de que ela pudesse ouvir onde quer que estivesse – Aishiteru... Arigato.

Ele não sabia, mas fitando certa janela de um orfanato em chamas, há alguns quarteirões dali e rosas brancas jogadas ao chão, destruídas pelo fogo, o espírito de uma garotinha ruiva chorou.

Momento depois Yui o chamou, mesmo contrariada. Sabia que se permitissem ele ficaria ali a madrugada inteira e tanto tempo quanto pudesse.

– Iruma – uma voz gentil o chamou e sentiu um toque em seu ombro – Pode levar isso com você – o enfermeiro de anos atrás lhe estendeu o casaco.

– Não... Eu quero que fique com ela.

As lágrimas voltaram aos seus olhos, virou-se e andou rapidamente pelo corredor em direção à saída daquele lugar.

– Estaremos esperando que você volte para arrumar a garotinha. Vou deixar isso onde estava para que você possa atender ao pedido dele – referiu-se ao casaco usado para protegê-la do fogo.

– Tudo bem, eu voltarei logo. Vou falar com ele. Obrigada – Yui agradeceu e apressou-se em segui-lo.

{Fim do Flash Back}

Olhou novamente para o grupo de shinigamis. Sabia que estavam atrás dele por ordem da Solul Society. Mas pouco se importava. Queria vê-la.