Haruma
2 Capítulo 2 - O dia em que eu a perdi
Capítulo 2 – O dia em que eu a perdi
Estavam sentados no quarto dos garotos, observando os outros pela janela. Estavam todos brincando no jardim, menos os dois. Haviam se passado duas semanas da chegada dele. Após ela convencê-lo a deixá-la ajudar com os arranhões, ainda um pouco presentes, estavam sentados, de mãos dadas, na cama dele, que ficava ao lado da janela.
- Por que não quer ir brincar com eles também?
- Se você quiser ir, fique à vontade. Estarei bem.
- Não. Por que você não quer ficar perto deles? – Insistiu.
- Eles tem medo de mim.
- Os fantasmas?
- Sim.
- Podemos falar com Yui-chan ou Satsu-san.
- Não. Mesmo que Yui falasse com eles, eles se forçariam a mudar só porque ela pediu, ainda teriam medo.
- Está vendo algum agora? – Ela mudou de assunto, não adiantaria insistir.
- Há um no jardim. É uma criança também. Não sei porque, mas eles sempre têm uma corrente presa no peito, quebrada. Às vezes parece que está ligada a alguma coisa bem longe. Quando é assim, depois eles aparecem com a corrente quebrada, aparecem vivos ou não aparecem nunca mais.
- Queria poder ver também.
- Não entendo você. Por que não sente medo?
- Mesmo que você não visse, eles ainda estariam aí, não é? Então não faz diferença.
- Mas se eu não visse, como você ia saber que eles estão mesmo aqui?
- Já vi outras pessoas falarem disso por aí, na TV de vez em quando, mas Yui-chan e Satsu-san não nos deixam ver, porque alguns não dormem de noite.
- Como sabe que não é mentira?
- Não é bom quando todos têm medo de você. Se é mesmo tão ruim, você não inventaria algo assim. Eu nunca vi alguém que goste de fingir que está triste ou que é bom ficar sozinho.
Olhou-a encantado. Não tinha uma resposta à altura. Aquilo era tudo que sempre esperara ouvir de alguém. Ao menos um pouco do queria ouvir. Tornou a olhar à janela, uma semana atrás duvidara dela, passou horas pensando se a confiança dela não era falsa, já acontecera antes. Tivera a prova no dia anterior.
{Flash Back}
- Garoto, por acaso não viu alguém de kimono preto aqui por perto? – O fantasma de um idoso lhe perguntou, no jardim.
- Ali – ele apontou mais adiante, onde uma mulher de kimono preto se aproximava, no fim da rua.
- Obrigado – o fantasma se afastou, correndo rapidamente até ela.
- Yui-chan e Satsu-san não nos deixam ver programas de fantasmas e você fica querendo assustar os outros com essas histórias. Até parece que tem um espírito e uma mulher de kimono preto aqui na rua – Shota, o esquentadinho do orfanato, apontava a rua.
- Para Shota! Não fala assim com ele! Você diz isso porque você não pode ver?
- Você também não, Haruka! Por que não prova que é verdade?
- Por que não prova que é mentira, então?
- Não fala assim com ela!
- Crianças! O que é isso?! – Yui veio correndo de dentro do orfanato junto com duas garotas, que se chamavam Megumi e Sawako.
- Shota – ela sussurrou, se abaixando e segurando-o pelos ombros – Eu entendo que você não acredite em fantasmas, mas não pode tratar Iruma assim. Todo mundo tem uma habilidade diferente e essa é a dele. Você já soube de outras pessoas que também podem ver, não é? Se ficou com medo, então acreditou nelas.
O garoto balançou a cabeça positivamente, em silêncio.
- Vou contar uma coisa a vocês. Sei que são medrosos, mas diante dessa situação merecem mesmo um susto.
- O que? – Kouta perguntou.
- Quando eu era criança eu também podia ver fantasmas, ou podiam ser anjos.
Após alguns segundos em que alguns ficaram pasmos, ela prosseguiu.
- Depois de um tempo eu parei de ver. É comum que alguns da idade de vocês possam. Não há razão para ter medo. Um dia todos nós vamos envelhecer e quando menos esperarmos seremos fantasmas também. Os fantasmas não são maus, são só pessoas que já não pertencem ao nosso mundo e estão procurando um caminho para seguir.
Mais tarde, Shota pedira desculpas. O que Yui relatara não mudara muito a situação, afinal alguns haviam ficado com medo de dormir.
- Pra que eu fui revelar isso a eles justo no cair da noite? – Yui se lamentava.
- Eu disse que nunca devia ter contado – Satsu falava.
{Fim do Flash Back}
A reação dos outros não lhe importava muito. Agora tinha certeza de que ela realmente não tinha medo dele. Ninguém nunca o defendera numa situação daquelas, não outra criança.
- Haruka...
Ela se virou para ele com um olhar questionar.
- Obrigado – falou, abraçando-a.
A ruivinha corou, mas não se afastou e o abraçou também.
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Tinha sete anos. Imerso em seu choro e soluços, escondido atrás de sua cama no quarto dos garotos, ele não percebeu o som dos passinhos que se aproximavam. Como esperava, nada mudaria, por mais que as adultas tentassem intervir, as crianças tinham medo. Ele não queria preocupá-las e nem sempre demonstrava o que sentia. Estava sentado no chão, com o rosto escondido entre os joelhos e os braços cruzados. Chorava desesperadamente. Não aguentava mais.
Ela aproximou a mãozinha dos cabelos dele e os afagou. Estava descalça, a fim de ocultar sua presença dos demais enquanto se dirigia até ali. Na outra mão segurava as sandálias e uma das rosas brancas, que tanto gostava, do jardim. Ele se assustou e ergueu os olhos para a garotinha ruiva que o olhava de maneira triste. Ela não tinha medo dele.
A ruiva sentou-se ao seu lado e o puxou para seu colo. Ele aceitou e chorou mais do qualquer outra vez em sua vida enquanto a sentia deslizar as mãos suaves por seu cabelo e suas costas.
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Yui entrou silenciosamente no quarto das garotas e encontrou uma cena que a comoveu. Não era preciso nenhuma palavra ou relato para qualquer um saber que o tempo fizera aqueles dois se apaixonarem um pelo outro. Ambos agora tinham nove anos. Só havia os três ali. Haruka dormia em sua cama, ao lado da janela como a dele, protegida pelos cobertores. Ele dormia recostado à parede. Sua mão segurava a dela.
- As outras crianças não podem ver isso ou teremos problemas – ela sussurrou para si mesma e sorriu.
Haruka estava resfriada. Algumas crianças sempre adoeciam com as mudanças climáticas entre as estações. Sentou cuidadosamente ao lado dela, no lado oposto ao que Iruma dormia, e checou a temperatura. Ela já parecia bem melhor. Levantou-se e deixou o quarto cautelosamente para não acordá-los.
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- Vamos ficar juntos pra sempre?
- Não sei, temos só dez anos. Mas se você for embora, eu vou atrás de você, mesmo que eu tenha que fugir.
- Mas podem adotar você também.
- Eu duvido. Você é muito melhor do que eu pra eles. Não gostariam de saber que estão rodeados de fantasmas.
- Eu não acho. Deve haver outros como Yui-chan.
Estavam sentados na grama do jardim, perto das rosas brancas que ela adorava. Ambos, agora, mantinham o cabelo mais comprido e estavam mais altos, mas fora isso nada mudara, senão o sentimento que crescia a cada dia. Abraçou-a.
- Eu te amo, Haruka – cochichou em seu ouvido.
- Eu também, Iruma – sussurrou em resposta.
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Tinha onze anos. Ninguém sabia ainda como o incêndio começara. Satsu perdera a consciência após inalar considerável quantidade de fumaça enquanto saía com algumas crianças. Yui, sozinha entre as chamas, não tinha condições de salvar a todas as crianças que permaneciam ali dentro. Levou para fora as que encontrara. Estava em pânico. Muitos choravam.
– Haruka! Ela não está aqui! – Se precipitou na direção do orfanato.
Kouta o agarrou.
– Iruma! Os bombeiros já estão aqui, vão procurá-la! Yui quer voltar pra buscá-la, mas eles não deixam! Só falta ela, vai ser fácil pra eles!
– NÃO!!!! ME SOLTE!!!!! HARUKA!!!! HARUKA!!!!! HARUKA!!!!! – Passou por entre os bombeiros com tamanha fúria, que não pode ser barrado.
– Iruma!!! Você vai morrer!!! Volta aqui!!!!! – Sawako gritou.
Ele nem se quer ouviu as palavras que ele nem se preocupou em saber de quem eram. A única coisa que importava na sua vida estava lá dentro, entre as chamas. E ele não sabia quanto ela poderia aguentar. Pouco lhe importava que morresse. Só queria que ela ficasse viva. Entrou no orfanato em chamas e seguiu pelos poucos lugares que o fogo ainda não atingira. Até que a encontrou encolhida num canto.
– HARUKA!!!!
– Iruma... – ela estava chorando, falava quase sem fôlego e parecia prestes a perder a consciência.
Avançou até ela a tempo de escapar de mais uma viga que despencara. Tirou o casaco, que levara com aquele propósito e a envolveu com ele, de modo a protegê-la das chamas e a abraçou forte. Ela se encolheu no peito dele. Analisou o caminho por alguns segundos. Pegou-a no colo e começou a correr dali como podia.
– HARUKA!!! Resista! Não falta muito!!!
– Iruma... eu não sei se posso... – seus olhos se fechavam – me desculpe... – as duas últimas palavras não passavam de um sussurro.
Finalmente chegou ao lado de fora. Saíra pelos fundos. Pousou o corpo dela no chão da rua, vazia no momento.
– Haruka! Haruka! – A sacudiu várias vezes, mas não teve nenhuma resposta – não, não!
Pressionou o tórax dela com as mãos e tentou respiração boca a boca a fim de reanimá-la, mas passados quinze minutos nada surtia efeito e não ouvia o coração dela bater.
– AAAAAAAAAAAAAAAAAAHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHHH!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!! – Aquele gritou ecoou pela rua junto com suas lágrimas.
Pouco lhe importava que os bombeiros estivessem procurando os dois no orfanato em chamas, acabara de perder a única coisa que lhe importava e lhe mantinha vivo. Como queria morrer no lugar dela... o mundo precisava de pessoas como ela. E se a perdera, que ao menos fosse junto com ela. A abraçou com força e chorou até não poder mais, perdendo a consciência em seguida, com a esperança de nunca mais acordar, ao menos não naquele mundo sem ela.
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