Haru No Hana
1 Apenas um broto
Notas iniciais
O sol finalmente começava a aparecer, saindo de onde estava escondido entre as nuvens. Junto com ele, a brisa fria daquela manhã balançava as folhas que se prendiam às árvores. Estavam no fim do Inverno, quase início da primavera. As férias de Julho tornavam-se um passado distante após as primeiras semanas de aula.
Ambos pedalavam tentando manter o mesmo ritmo com suas duas bicicletas. O menor deu uma olhada para o lado na direção do outro. Aproveitando o caminho reto que havia a frente, Haru fechou os olhos, sentindo a força da brisa em seu rosto enquanto um discreto sorriso aparecia em seus lábios. Aoshi já o conhecia, sempre sabia em que parte do caminho ele fazia isso, e era exatamente nessa hora que olhava atento a expressão calma e delicada naquele rosto que tanto admirava.
Estudantes do segundo ano do ensino médio, Aoshi Fuyuki e Haru Nioi se conheciam desde o primário. Ambos estudavam na mesma turma e tinham 17 anos, sendo que Aoshi era alguns meses mais novo que o amigo. Uma das paixões que partilhavam era a de andar de bicicleta. Todos os dias, iam e voltavam da escola juntos enquanto pedalavam. Adoravam aquela sensação de liberdade sempre acompanhada do vento levantando seus leves fios de cabelo.
Os olhos de Haru foram se abrindo para a curva que vinha à frente. Já haviam passado tantas vezes pelo mesmo caminho que conheciam cada reta, cada curva e cada buraco no chão que haviam nele como a palma de suas mãos. Ao mesmo tempo, Aoshi foi virando novamente seus olhos para frente sem conter uma leve expressão satisfeita com o que vira, como sempre fazia.
– Você sempre sabe exatamente quando abrir os olhos, não é mesmo? – Os dois viraram os guidões das bicicletas para fazer a curva que levava a um caminho estreito com várias árvores em volta da estradinha de terra. Nessa época do ano eram apenas discretas árvores de folhas secas, mas eles sabiam que na primavera aquela humilde estradinha se transformava num formoso tapete de pétalas coloridas.
– E também sei que essa foi a última curva antes do nosso atalho secreto – Haru agora olhava para as árvores com os olhos brilhando enquanto imaginava ver as pétalas caindo tão leves quanto penas – Estamos tão perto da primavera... Estou ansioso, mas queria poder ver sempre aquele espetáculo em qualquer estação do ano.
– Se as árvores estivessem sempre floridas, provavelmente a primavera deixaria de ser tão especial – Aoshi deu algumas pedaladas mais fortes para depois parar de mexer os pés, fazendo com que a roda da bicicleta rodasse sozinha por um certo tempo.
Haru abriu um pequeno sorriso enquanto balançava a cabeça, concordando com o menor – Tem razão.
Descendo uma pequena ladeira, o caminho de terra encontrava uma das estradas asfaltadas da cidade, por onde seguiram por mais algum tempo até chegarem à escola.
A escola onde estudavam era conhecida pela grande área aberta que oferecia a seus alunos. O pátio onde passavam o intervalo e todos os campos destinados às modalidades esportivas eram em céu aberto e com várias árvores espalhadas em seu redor. Essa característica da escola refletia a cultura dos moradores da cidade, que sempre procuravam construir casas e estabelecimentos comerciais sem prejudicar o meio ambiente da região.
Passando por um baixo murinho, típico de cidades pequenas, podia-se chegar à frente da escola, local de encontro de amigos antes do início das aulas. Aoshi e Haru deixaram suas bicicletas junto a outras encostadas num canto. Como era uma cidade pequena, não haviam preocupações com roubos ou assaltos e, quando aconteciam, não eram casos sérios comparados aos de cidades grandes vizinhas.
– Bom dia, Haru! Tudo bem? — Uma menina da mesma sala dos meninos se aproximou e o comprimentou enquanto caminhavam em direção à entrada.
– Olá, bom dia! – Respondeu o garoto com um sorriso simpático no rosto.
Era sempre assim. Haru era bastante popular não só na sua sala de aula como em outras turmas também. Quase todos naquela escola o conheciam por sua simpatia e beleza. O menino tinha cabelos ruivos naturais. A pele branca e delicada fazia contraste aos enormes olhos verdes e cílios longos desejados por muitas meninas.
Já ouvira várias confissões de garotas mas sempre as rejeitava. Tinha um jeito sincero com as palavras que machucava o coração de algumas mas que outras admiravam. Ele sempre explicava para elas que não aceitaria ficar com alguém a quem não amasse verdadeiramente pois isso acabaria machucando um dos dois cedo ou tarde. Acreditava que o amor se construía com delicadeza e aos poucos, nascendo tão naturalmente quanto uma flor na primavera. Muitas vezes, palavras como essas apenas as deixavam mais apaixonadas e outras passavam a desconfiar de que o coração do rapaz já pertencia a alguém.
Pois elas não estavam erradas.
Há alguns meses, Haru estava de olho numa menina de sua mesma série, porém, de outra turma. Eles eram amigos de infância e, quando tinham tempo livre, Haru deixava de sair com Aoshi para passar alguns momentos com ela. Seu nome, Kawa Mitsumori. Conhecida por seus longos cabelos sedosos loiros que chegavam até abaixo da cintura. Sempre quando a viam, ela estava sorrindo, independente de com quem conversasse. Animada e divertida, Haru guardava os momentos que passara com ela com muito carinho em seu coração.
Passando pela entrada, os alunos tinham acesso às salas por um grande corredor. Como era uma escola pequena, tinha apenas dois andares: o de baixo para alunos do ginásio e no segundo estavam as salas do ensino médio e dos professores.
– E aí, Haru! — Um garoto que andava pelo corredor o cumprimentou.
Os dois foram subindo as escadas para o andar de cima. Haru se distanciou um pouco de Aoshi para conversar com o amontoado de garotos que se formava ao seu redor. Os assuntos eram dos mais diversos tipos e quase sempre terminavam em risos pelo grupo. Quando se aproximaram da porta da sala, os garotos encerraram a conversa e foram cada um para suas respectivas salas depois de se despedirem. Foi preciso Haru botar apenas um de seus pés para dentro da sala para ganhar mais cumprimentos de seus colegas.
– Fala, Haru! Onde você foi no final de semana? Eu te liguei pra gente sair com a minha galera pela cidade mas você nem atendeu – Um garoto moreno de cabelos longos que chegavam até seus ombros desceu da mesa de uma das carteiras da sala.
– Ah... Então foi você que me ligou... Me desculpe, Katsuo. Eu estive meio ocupado esse fim de semana, não deu pra sair. Mas no próximo, quem sabe? Se o convite ainda tiver de pé... – Haru permaneceu ainda próximo à porta da sala de aula, conversando com o moreno enquanto Aoshi foi em direção à fileira mais ao canto da sala, a que ficava ao lado da janela.
Era o lugar perfeito para ele. Pela janela, podia-se ver algumas das muitas árvores que se espalhavam pelo terreno da escola, além das pequenas casinhas coloridas da cidade ao longe. Mas o mais importante era que Aoshi conseguia avistar também o pé da ladeira que levava até o caminho pelo qual ele adorava passar. E ainda podia sentir no rosto aquela brisa geladinha de fim de inverno que fazia as folhas balançarem e seus cabelos se agitarem. Havia lugar naquela sala melhor que esse?
Aoshi deixou sua mochila no chão, próxima a seus pés, e observou a conversa entre Haru e Katsuo, que provavelmente havia chamado sua suposta “galera” pois o número de pessoas ao redor do ruivo agora era bem maior.
Aoshi não atraía muito a atenção das pessoas. Tinha cabelos pretos levemente cacheados que cobriam parcialmente seus olhos prateados, e não era muito social. Praticamente ignoravam sua presença, principalmente quando estava junto de Haru. Os outros alunos não entendiam como um cara tão simpático e alegre conseguia andar com alguém tão antisocial e tímido.
Enquanto Haru estava sempre por dentro do que acontecia na escola com tudo e com todos, Aoshi apenas o observava sem entender como ele conseguia ser tão popular.
Esse era um dos motivos pelo qual Aoshi não gostava da escola. As vezes se sentia egoísta com relação a isso, mas não gostava de tanta gente ao redor de Haru. Gostava de andar de bicicleta e sair à sós com o amigo. O ruivo parecia ser o único que se importava verdadeiramente com ele. Aoshi sentia que, apesar de toda aquela fama e atenção, ele era a pessoa mais próxima de Haru, assim como Haru era dele. Os momentos que passavam juntos e todas as coisas que compartilhavam apenas um com o outro eram tão preciosos para Aoshi quanto aquele lugar ao lado da janela.
Na verdade, eram até mais.
Aoshi, há muito tempo, guardava um precioso sentimento por seu amigo escondidinho lá no fundo de seu coração. Já pensara em várias maneiras de como trazer isso à tona, que palavras usaria e qual o momento mais adequado, mas nunca tivera coragem de contar isso a Haru. Tinha medo de cometer algum erro e destruir aquela amizade tão forte e preciosa que havia se formado. Já vira tantas meninas serem rejeitadas por ele que não fazia a mínima ideia de como o outro reagiria. Todos esses sentimentos eram então dominados pelo medo e permaneciam enjaulados em seu coração, com uma pequena esperança de ainda serem libertados algum dia.
Esperança, essa que diminuía cada vez mais sempre que seus ouvidos escutavam o nome de Kawa Mitsumori.
A quem Haru amava.
Não teria a menor chance contra ela.
O professor entrou na sala, desviando a atenção de Haru e os outros meninos que se dirigiram às suas respectivas carteiras.
Haru sentou-se à frente de Aoshi, como sempre fazia. Ele também gostava de ficar ao lado da janela e poder sentir aquele ventinho a qualquer hora da manhã.
O professor começou a passar uma matéria nova no quadro para que os alunos a copiassem em seus cadernos. Após a matéria dada, era hora da explicação. Aoshi sempre acabava se distraindo e olhava pela janela. Observador, via cada pessoa que passava pela rua e cada passarinho que cruzava o céu.
Uma das qualidade de Aoshi, à qual apenas os professores e Haru pareciam dar seu devido valor, era sua inteligência. Apesar de distraído e de não prestar muita atenção nas aulas, conseguia entender perfeitamente a matéria simplesmente lendo seus livros didáticos. Tinha uma facilidade enorme para gravar fórmulas usadas na matemática e física. Isso lhe trazia várias notas azuis nas provas e boletins. Apesar disso, não dava tanto mérito a si mesmo por esta façanha, já que suas boas notas vinham naturalmente.
O sinal tocou pouco depois do professor terminar sua aula. Os alunos foram se levantando e saindo da sala para se juntarem à multidão que se formava no corredor.
Haru levantou-se olhando na direção da porta aberta. Agora que todas as salas estavam abertas, era possível avistar algumas carteiras da sala em frente a deles. A sala de Kawa Mitsumori.
Aoshi observou atento a expressão ansiosa no rosto do amigo. Os olhos de Haru brilharam quando encontraram Kawa passando pelo corredor enquanto conversava com uma amiga. Um tímido sorriso brotou em seus lábios antes de virar para Aoshi.
– Aoshi, eu já vou descendo. Tudo bem?
O menor não resistiu à expressão ansiosa e inocente no rosto de Haru. O ruivo parecia uma criança pedindo permissão aos pais para brincar com os amigos.
– Sim, claro.
Haru fez um gesto agradecendo o menor e saiu da sala apressado.
Não era a primeira vez que isso acontecia. Isso alimentava o ciúme que o menor tinha por Kawa, mas sabia que não poderia mudar esse fato, pelo menos por enquanto. Lacraria aquele ciúme detro de si do mesmo jeito que havia feito com seus sentimentos.
Aoshi desceu pelas escadas e atravessou o corredor, chegando até a parte aberta localizada atrás da escola. Lá estavam os campos para diversas modalidades esportivas, uma pequena cantina e um amplo espaço coberto por grama. Grandes árvores formavam sombras pelo gramado, fazendo com que grupos de estudantes preferissem sentar próximos a seus troncos do que nos bancos que se espalhavam pelo local. Havia também algumas mesas próximas à cantina, onde uma fila de alunos esfomeados crescia cada vez mais.
O garoto comprara seu lanche e foi sentar-se ao pé de uma árvore, mais isolada, no canto do pátio. Com um olhar inocente, procurou por Haru entre os alunos. Seus olhos pararam de se mover quando avistaram o ruivo sentado num dos bancos, ao lado de Kawa. Ambos pareciam felizes e riam da história que a loira contava.
Aoshi olhou atentamente com seus olhinhos prateados cada expressão que passava pelo rosto do maior. Seus fios ruivos balançavam ao vento enquanto seus olhos se iluminavam, e um discreto rubor tonalizava suas bochechas. Suas expressões se alternavam entre alegria, surpresa, atenção e constantemente seus lábios se contorciam em um lindo sorriso.
Não fazia a mínima ideia do que Kawa dizia ao outro, mas sabia que grande parte daquele brilho que iluminava seu rosto de felicidade não estava ali apenas pela história que a menina contava. Talvez a conversa não estivesse nem tão interessante quanto aparentava. Haru brilhava pelo simples fato de estar na presença da menina que amava.
O menor tentava se distrair e desviava o olhar dos dois, se concentrando em morder seu pão integral. Desejou involuntariamente que o sinal tocasse logo, anunciando o término do intervalo e, junto com ele, o do aperto em seu coração. Mas havia ainda alguns malditos minutos restantes.
Não resistiu à tentação de espiar mais uma vez a conversa dos dois e levantou o olhar. Para sua surpresa, algumas amigas de Kawa estavam ao redor do banco e pareciam chamar a loira para ir com elas até outra área do pátio. Kawa se despediu rapidamente de Haru e seguiu as amigas até o interior da escola.
O ruivo, sozinho no banco, seguiu com o olhar todo o percurso das meninas até perde-las de vista. Após algumas piscadas como se lembrasse de algo, seus dois faróis verdes procuraram pela figura conhecida de cabelos negros, vagando por toda a área até encontrar Aoshi. Seus olhares se cruzaram. Ele acenou na direção do amigo abrindo um sorriso que fez o coração do menor bater mair rápido por alguns instantes. Contra sua vontade, um suave rubor brotou no rosto de Aoshi. Envergonhado, o menor abaixou a cabeça escondendo a face com seus cabelos e dobrou os joelhos abraçando-os. Como alguem podia brilhar tanto com um simples sorriso como aquele?
Haru foi andando em direção ao amigo, um pouco confuso pelo ato de Aoshi. Sentou-se ao seu lado, cruzando as pernas.
– O que foi? – Haru tombou a cabeça de lado aproximando-se do outro, numa tentativa de enxergar o rosto do amigo que ainda se escondia.
– N-nada – Aoshi foi levantando a cabeça lentamente até dar de cara com os dois enormes faróis verdes acompanhando a expressão confusa e inocente que habitava aquele rosto a tão curta distância do seu.
Seus olhos se arregalaram e o rubor cresceu ainda mais em suas bochechas.
– N-não fique tão perto de mim assim! – Aoshi afastou o próprio corpo desajeitadamente. Sua voz saía trêmula e Haru parecia assustado com a reação do menor – Não me assuste desse jeito...!
O menor abaixou novamente a cabeça, mirando um ponto qualquer da grama no chão. Haru ajeitou o corpo, afastando-se um pouco do amigo.
– Me desculpe se te assustei, Aoshi. Eu não pretendia isso.
Haru sentiu um pouco de culpa, mesmo sem saber exatamente o por que daquele comportamento estranho. Mesmo assim, esticou o braço e levantou delicadamente o queixo do menor, fazendo-o olhar novamente na direção de seus lindos olhos verdes.
– Mas se for para conversarmos, não quero que fique de cabeça baixa olhando para o chão. Eu vou me sentir culpado assim.
Haru as vezes tinha um jeito tão inocente e surpreendente de agir que deixava Aoshi ainda mais apaixonado.
– Sim.
O ruivo recolheu sua mão com um sorriso no canto da boca.
– Eu passei o intervalo com a Kawa, você sabe.
– É, eu vi vocês sentados no banco perto do campo de volei – Aoshi virou o rosto para observar novamente o banco, agora vazio.
– Sim, esse mesmo. Ela estava me contando sobre o fim de semana dela. Sabia que ela agora está cuidando de um pato dentro de casa? Ela encontrou ele na esquina da rua com a pata machucada e resolveu ficar com ele e cuidar do machucado até que possa soltá-lo novamente. Sabe que nome ela deu para ele? Tapioca. Haha, é um nome engraçado não é mesmo? Ela depois...
Aoshi quase não ouviu a história, nem deu atenção ao que Haru contava sobre a menina. Deu preferência em atentar no jeito como Haru contava a história a ele. De modo como se tudo aquilo tivesse ocorrido com ele mesmo, e não com Kawa. Dava ênfase a algumas palavras e mudava a expressão de acordo com o que sentira ao ouvir Kawa contando-lhe os curiosos fatos pela primeira vez.
Aoshi admirava o jeito do amigo enquanto este se concentrava em tentar transmitir toda a essência da conversa que tivera com a loira. Aoshi apenas balançava a cabeça de vez em quando, fingindo estar atento à conversa. O jeito como seus olhos brilhavam alegremente e sorrisos brotavam tão naturalmente em seus lábios fazia Aoshi sorrir também de vez em quando. E Haru nem imaginava que o motivo pelo qual seu amigo sorria não tinha a ver em nada com a história de Kawa.
O sinal tocou pouco depois de Haru terminar de contar a história. Todos os alunos do ensino médio subiram as escadas e se dirigiram a suas respectivas salas. Aoshi e Haru tiveram mais algumas aulas com diferentes professores. O menor via o fim da tarde se aproximando pela janela da sala. Os pássaros se recolhiam e o céu ganhava um tom rosado. Ao tocar do sinal, os alunos foram se retirando de suas salas. Haru viu Kawa passando pelo corredor e fez Aoshi se apressar em guardar o material escolar para descerem logo.
– Kawa! – Haru conseguiu alcançá-la antes que ela saísse da escola.
– Ah, Haru! Até amanhã! – A loira abriu um largo sorriso ao ver o amigo e acenou.
– Até amanhã, Kawa! – Haru deixou um sorriso brotar eu seu rosto enquanto acenava para a menina que seguia a pé pela estrada ao lado da escola.
Haru e Aoshi pegaram suas bicicletas e puseram-se a pedalar de volta pra casa. Ambos moravam próximos, a apenas uma quadra de distância um do outro.
Durante todo o caminho de volta, Haru permanecia com um olhar distante e um discreto sorriso no rosto. Provavelmente, era Kawa quem povoava seus pensamentos. Aoshi tentava se distrair com o assobio do vento para não começar a se sentir mal.
Se despediram quando chegaram na casa de Haru, e Aoshi continuou pedalando até chegar em sua própria casa algum tempo depois.
Aoshi morava com sua irmã mais velha, Mei. Seus pais haviam morrido em um terrível acidente de carro quando Aoshi e sua irmã ainda eram pequenos. Ambos foram criados por seus avós durante um bom tempo, mas quando Mei completou dezoito anos, passaram a morar sozinhos.
– Olá, Aoshi – A irmã o cumprimentou assim que ouviu o som da porta da frente se abrindo.
– Boa noite, Mei.
Aoshi notou que a irmã estava na cozinha assim que o aroma da comida recém pronta chegou até ele.
– Chegou bem na hora, acabei de tirar a lasanha do forno – Mei o cumprimentou com um sorriso assim que o viu entrando na cozinha.
O mais novo olhou para a enorme lasanha que a menina segurava enquanto dava um sorriso orgulhosa de si mesma.
– Não precisava ter feito isso justo hoje...
– Por que não? Eu sei que você adora lasanha, e você tem andado com uma carinha triste esses dias. Não posso nem ao menos tentar roubar um sorriso seu?
Aoshi se sentiu meio culpado e olhou novamente para a lasanha antes de levantar a cabeça e forçar um pequeno sorriso na direção da irmã.
– Obrigado.
Os dois passaram a noite comendo a deliciosa lasanha e vendo filmes de comédia que Mei havia alugado. Algumas cenas conseguiam arrancar algumas risadas do mais novo, mas não chegavam aos pés das gargalhadas estridentes que sua irmã deixava escapar.
Horas se passaram até que Mei notou que Aoshi havia fechado os olhos e já estava em sono profundo. Desligou a TV para depois deixar um delicado beijo na testa do mais novo.
– Não deixarei que te façam chorar... Nunca mais.
Cobriu o menor com um cobertor antes de deixa-lo em seus profundos sonhos.
~*~*~
– Aoshi.
– O que foi, Haru?
– Eu estava pensando.
– Pensando... Sobre o que?
– A Kawa.
– Ah... O que tem ela?
– Eu quero me casar.
– Com quem?
– Com a Kawa. Kawa Mitsumori.
– Você tem certeza?
– Sim.
– E se ela não te amar de verdade?
– Eu sei que ela me ama.
– E se ela não for uma boa esposa?
– Ela será.
– E se ela te trair?
– Ela não trairá.
– Você não tem medo?
– Medo de que?
– De cometer um erro.
– Como assim?
– E se existir alguém que ame você mais que Kawa Mitsumori?
– Não compreendo.
– E se existir alguém que deseje estar com você mais do que Kawa Mitsumori?
– Mas...
– E se alguém assim realmente existisse, e fosse mais próximo de você do que Kawa Mitsumori?
– Alguém assim existe?
– Sim.
– Está falando sério?
– Eu sempre falo.
– Quem seria essa pessoa?
– “Quem” não é a questão principal. O que realmente importa é: Se alguém assim realmente existisse, isso mudaria sua visão sobre Kawa Mitsumori?
– Eu... Eu não tenho certeza. Eu amo Kawa Mitsumori.
– Você poderia amar alguém mais que ela?
– Mais... que ela?
– Sim.
– Outra... pessoa.
Amar outra pessoa.
Mais que Kawa Mitsumori.
Isso é realmente possível?
~*~*~
– Aoshi, acorda!
Aoshi se remexeu na cama ainda meio zonzo pelo estranho sonho e a preguiça que ainda habitava seu corpo.
– Anda logo, preguiçoso! Acabei perdendo o horário ontem a noite e fomos dormir tarde demais...
O mais novo tentou ignorar a irmã respondendo-a com um gemido e escondendo a cara no travesseiro.
– São quase sete da manhã já, vai se arrumar! Se não nunca mais faço lasanha pra você.
– Tudo bem, Mei, eu já vou. Me dá um tempo pra eu me arrumar – Respondeu com a voz ainda meio rouca.
Se vestiu e comeu rapidamente antes de chegar atrasado até a casa de Haru, preocupado se o ruivo já havia ido sem ele. Mas ele estava la, sentado no degrau da varanda com a bicicleta ao seu lado. Apoiava o rosto com as mãos enquanto tinha um expressão um tanto ansiosa e preocupada no rosto. Quando viu o moreno chegar, se apressou em pegar a bicicleta.
– Por que demorou tanto? Sabe que horas são? – Haru nem esperou uma resposta para já subir na bicicleta e começar a pedalar apressado – Eu estava prestes a ir até sua casa.
– Desculpa... Mei e eu acabamos dormindo tarde demais ontem.
– Mas então está tudo bem com você, certo? – A tensão que havia no rosto do ruivo parecia ter sumido aos poucos.
– Hã? Ah... Sim.
– Pensei que você não estivesse se sentindo bem ou que tivesse acontecido algo ruim com você... Se você não aparecesse eu teria ido até lá. Mas então que bom que está tudo bem – O maior sorriu aliviado na direção do outro, que corou de leve.
– Me desculpe se te deixei preocupado... Não era minha intenção.
– Ah, tudo bem. Não se preocupe com isso, estou melhor agora que tudo se resolveu.
Os dois percorreram o mesmo caminho de sempre, subindo a pequena ladeira, pedalando por entre as árvores até chegarem à escola. Deixaram suas bicicletas juntas à outras de outros alunos como de custume e se dirigiram até a sala de aula. O professor já estava na sala quando ambos chegaram. Desculparam-se rapidamente pelo atraso e se dirigiram até seus lugares habituais.
Sexta-feira parecia ser o dia mais animado na escola. Os alunos já trocavam ideias sobre o que fazer ou pra onde sair no fim de semana. Até os professores algumas vezes deixavam escapar um certo alívio pela aproximação dos dois dias de folga.
O sinal tocou, e com ele uma avalanche de alunos do ensino médio descia as escadas em direção ao pátio, muitos desejando um dos primeiros lugares na fila que sempre surgia rapidamente em frente a cantina. Dessa vez, Haru acompanhou Aoshi em vez de Kawa, o que deixou o menor contente. Ambos compraram seus lanches e foram à procura de uma árvore ainda vazia para se sentarem. No caminho, Haru viu Kawa andando pelo pátio enquanto conversava com as amigas. Quando seus olhares se cruzaram, Kawa sorriu e acenou, fazendo o menino responder da mesma forma.
– Aoshi.
– Que foi? – O menor havia desembrulhado o sanduíche integral e dado a primeira mordida nele. Ele notou que Haru nem havia mordido um pedaço de seu pão de queijo ainda.
– Eu estou pensando em conversar com a Kawa amanhã – Haru parecia ter uma expressão séria no rosto, enquanto encarava o pão de queijo em sua mão, o que não era muito comum para alguém com uma personalidade tão alegre e animada como a dele.
– Vocês vão sair de novo esse fim de semana?
– Não é bem isso... Eu... Vou pedir pra ficar com ela.
Aoshi simplesmente parou. Sentiu dificuldade em engolir o ultimo pedaço do sanduíche. Seus olhos foram tomados por vários tons cinzentos deixando-os sem vida por um instante. O ar parecia mais pesado de se respirar. Não conseguira mexer um músculo do corpo. As vozes e conversas altas que antes eram possíveis de ser escutadas agora eram substituídas por um silêncio fúnebre em sua mente. Tudo pareceu ter parado naquele momento.
O dia que tanto temia havia chegado.
– Ah... É mesmo? – Sua voz falhou, saindo tomada por desânimo que não se preocupou em disfarçar.
– Sim. Eu talvez convide ela hoje na saída e falo com ela amanhã – Haru também parecia nervoso com a situação e se remexia de forma estranha expressando sua ansiedade – O que você acha?
– Eu... – Aoshi tentou com todas as suas forças voltar a si, reprimindo a enorme tristeza que tomara seu coração – Acho bom pra vocês... Você gosta dela, e ela também gosta de você... – Parecia tão difícil encontrar as palavras certas enquanto disfarçava o que sentia – Se você quer mesmo... Boa sorte.
Nem Aoshi conseguia compreender direito toda aquela mistura de palavras que foram saindo automaticamente por entre seus lábios.
Haru pareceu meio confuso por um instante, mas entendeu aquilo tudo como um incentivo. Deu um de seus lindos sorrisos, confiante e contente. Estava certo do que deveria fazer.
– Obrigado.
Aoshi respondeu com um sorriso quase imperceptível. O prateado vivo de seus olhos voltou enquanto substituía seu egoísmo por pensamentos confiantes. Claro que apoiaria o amigo, sempre fora assim. Sabia que aquela pequena chama de esperança que ainda havia no seu coração apagaria mais cedo ou mais tarde. Ele não podia fazer nada. Se era isso que faria o maior feliz então ele permaneceria ao seu lado. Nunca destruiría sua amizade por um desejo impossível de ser realizado. Apenas aprenderia a viver com aquele aperto no coração.
De um jeito ou de outro, não queria nunca perder Haru.
– Mas e você, Aoshi? – A voz do maior fez com que o moreno interrompesse seus pensamentos.
– Hã? – Levantou o olhar, confuso.
– Queria saber sobre você também... Você gosta de alguém?
Aoshi sentiu seu estômago se revirar enquanto pensava no que responder naquela situação um tanto irônica. O ruivo percebeu o incômodo do outro e completou:
– Você sabe que pode confiar em mim – Soltou um longo suspiro enquanto direcionava seus faróis verdes para o rosto do amigo – Não vou te pressionar nem nada, mas sinta-se à vontade pra conversar comigo sobre esse tipo de coisa.
– Sim... Eu gosto de uma pessoa.
Afinal, não havia nenhum mal em falar apenas isso certo?
– Ah, sério mesmo? – Haru pareceu um pouco surpreso – Você costuma não demonstrar muita coisa...
Aoshi não respondeu. Apenas dobrou as pernas abraçando os joelhos e desviou o olhar. Haru também permaneceu por algum tempo em silêncio.
O clima foi preenchido po uma leve melancolia no ar.
– Como você consegue... – O ruivo tinha a voz num tom totalmente sério agora e até com um pouco de melancolia – Lacrar tudo dentro de si?
Antes que Aoshi tivesse sequer a chance de reagir o sinal tocou, anunciando o fim do intervalo. Mas o menor permaceneu paralisado por alguns instantes no chão.
Por um breve momento, era como se Haru tivesse entrado em seu coração e compreendido tudo o que ele sentia.
Nem mesmo Aoshi sabia a resposta para tal pergunta.
Haru balançou de leve os fios ruivos enquanto tentava expulsar aquele clima estranho que se formara.
– Vamos, antes que levemos outra bronca do professor.
O resto da tarde passou bem rápido. Quanto mais se aproximava do fim das aulas mais a ansiedade de todos crescia, principalmente a de Haru. Com o fim da aula, os alunos foram formando a típica avalanche na escada até chegarem à porta da escola. Os alunos foram formando pequenos grupos que deixavam o terreno aos poucos. Entre conversas e despedidas, o ruivo estranhou a falta de Kawa.
– Se você vir ela por aí, me avise ok? – Nem olhou na direção do menor enquanto falava. Estava nervoso demais enquanto tentava localizar a garota.
– Sim, claro – O menor conseguia sentir o nervosismo do amigo pelas expressões que este fazia.
Ambos estranharam uma pequena multidão que se formava na calçada em frente a escola, do lado de fora do baixo murinho. Se aproximaram para ver o que acontecia.
– Ele vai pedir pra ela! Ele vai pedir! – Uma menina falava alto com a amiga do lado enquanto as duas riam e davam pequenos pulinhos de animação.
Haru notou que as duas meninas eram da mesma sala de Kawa e não hesitou em perguntar.
– Com licença, meninas. O que está acontecendo aqui?
– Olá, Haru. Você não sabe?! A nossa sala inteira já desconfiava, mas só agora ele resolveu tomar a iniciativa.
– Hã? – A menina parecia tão animada que mal se preocupava em transmitir claramente as informações.
– Explica direito, sua boba! – A amiga do lado completou – O Shion. Ele tava a fim dela a bastante tempo, mas nunca teve coragem pra falar, só agora. Eu tenho quase certeza de que ela vai aceitar. Ele até faltou a aula hoje pra conseguir ir até a floricultura da cidade, só esperando ela agora na saída.
– Ela? Ela quem?
– A Kawa, claro!
As duas amigas voltaram a conversar entre si.
Aoshi estava atrás do maior e não conseguia ver seu rosto daquela posição, mas ele não precisava ver sua expressão pra imaginar o que sentira.
– Haru...
O ruivo avançou em silêncio até conseguir ter visão da cena. Kawa estava de pé com uma expressão surpresa enquanto o outro garoto lhe entregava um buquê de rosas vermelhas. Não conseguia escutar o que ele dizia daquela distância mas pôde ver o grande sorriso que brotou nos lábios de Kawa enquanto ela balançava a cabeça num gesto afirmativo e completava com um discreto “sim”.
Várias meninas ao redor, amigas de Kawa, começaram a fazer uma pequena comemoração. Kawa cheirava o buquê com um sorriso e um pouco envergonhada.
– Aoshi – O ruivo não se virou para falar com o menor.
– Fala...
– Eu já vou indo – Sua voz estava baixa e repleta de desânimo – Vou voltar sozinho hoje.
– Mas...
– Por favor.
Aoshi agora sentia seu peito mais apertado que antes. Não sabia o que responder. Não sabia o que fazer. Apenas via a figura do ruivo deixando o local apressado e pedalando para o alto da ladeira conhecida.
Passado algum tempo desde a partida do amigo, o moreno pegou sua bicicleta e pedalou até sua casa pelo mesmo caminho. Quando passou pela casa do amigo, viu algumas luzes acesas. Haru morava com os pais, mas estes sempre estavam viajando a trabalho para a cidade grande vizinha. Portanto, raramente estavam em casa. Um lado seu queria entrar lá e envolver o amigo num abraço, mas não podia fazer isso agora. Sabia pela forma como Haru conversara com ele que ele não queria companhia nesse momento. Sem falar também que não queria se atrasar e deixar Mei preocupada. Não tinha outra escolha a fazer.
Seguiu em frente pela rua até chegar em casa. Mei estava na cozinha, quando o moreno entrou.
– Oi, Aoshi. A janta está quase pronta, ok? – A irmã mexia no fogão – Tome um banho rápido enquanto eu termino.
– Obrigado, Mei, mas eu estou sem fome hoje. Vou tomar um banho e dormir.
– Tem certeza? – A mais velha pareceu descontente.
– Sim, não é nada, ok? Só estou cansado. E me desculpe.
– Tudo bem então... – Mei pareceu um pouco triste por um instante.
Tomou um banho longo, numa tentativa em vão de lavar os problemas e os maus sentimentos juntos com o corpo.
Aquela foi uma noite longa em que o sono demorou a chegar. Seu corpo estava cansado mas os pensamentos e preocupações continuavam a vagar por sua cabeça, impossibilitando-o de pegar no sono facilmente. Estava preocupado com o ruivo. Queria abraçá-lo, faze-lo sorrir. Já tinha se conformado com a escolha do maior. Se ficar com a Kawa o faria feliz, não atrapalharia o relacionamento deles com seu egoísmo. Mas agora... o que ele poderia fazer?
Haru teria de aprender a ser forte, mas não aprenderia sozinho.
Aoshi faria o possível para ver seu sorriso novamente.
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