Haru No Ai

5 #5 Especialidade


Notas iniciais
Esse capítulo ficou meio longo e tem bastante coisa, mas espero que gostem, boa leitura :3

O dia estava ensolarado e quente, bem diferente da noite anterior. A luz do sol entrava pelas janelas do trem durante nosso percurso de volta. Já havíamos percorrido mais da metade do caminho quando a Chiki me ligou dizendo que já estava em casa e que o Kou estava todo preocupado.

— Já estamos chegando, não se preocupa.

— Certo. Tchau, Aika-chan.

Olhei para o rosto do Ichinose, que parecia um pouco cansado. Não o culpo, já que ele acordou às sete da manhã (dormimos depois das uma da madrugada) para me levar à estação e insistiu que eu deixasse ele me acompanhar até em casa. Eu mesma estava quase dormindo.

Descemos do trem assim que ele parou na plataforma. Estávamos no caminho de casa, quando resolvi convidar o Ichinose para almoçar por lá.

— Você está sozinho mesmo e já que está aqui, podia ficar...

— Mesmo considerando que ainda são oito horas da manhã?

— Hm... Sim. Por mim, tudo bem e acho que o nii-chan e a Chiki não se importariam. Só que a casa ainda está bagunçada pela minha mudança.

— Tudo bem, então... – ele respondeu sorrindo.

Não sei dizer se é só etiqueta ou algo do tipo, mas o Ichinose sorri bastante. Gosto disso.

Quando chegamos em casa, Chiki estava na varanda. Ela segurava uma xícara de alguma coisa e sorriu ao nos ver.

— Oi, Chiki! Desculpa por te fazer esperar! – corri até ela, abraçando-a.

— Bom dia, Tanaka-san – Tanaka? Ué... Ah, sim, esse é o sobrenome da Chiki. Nossa, quem chama a Chiki assim?

— Ah, bom dia, Ichinose-kun – ela disse um pouco surpresa. Como ele sabe o sobrenome dela? Hmmmm...

— Que que você tá bebendo, Chiki? – Perguntei pegando a xícara da mão dela e dando um gole. – Eca, café?

— Aika, você deve ser a única pessoa no mundo que não gosta de café.

— Você não gosta de café, Yoshihara?

— Não... Tem gosto de água suja – isso fez com que ele risse – mas eu gosto do cheiro de café. Estranho, né?

Já estávamos dentro da casa e eu subia em direção ao meu quarto para trocar de roupa quando fui interceptada:

— Aikaaaaaaa! – Kou pulou em cima de mim e quase me derrubou no chão.

— Waaaaaaaaaaaah! Nii-chan, que susto!

— Você está bem? Idiota, como pode ter esquecido a chave?

— Foi você quem pegou ela de mim! Não me chame de idiota! – respondi dando um soco no braço dele.

Estávamos fazendo tanto barulho que as duas visitas subiram para ver o que estava acontecendo. O Ichinose parecia surpreso.

— É normal eles brigarem?

— Não muito – respondeu a Chiki – mas mesmo que os dois sejam muito unidos, ainda são irmãos então... De vez em quando acontece.

No fim, Kou me pegou como se eu fosse um saco de batas insignificante e me levou ao meu quarto apesar de eu bater nas costas dele para ele me soltar.

— Waa! Para com isso Kou!

— Nããão!

~

Algum tempo depois eu desci, já com outra roupa, para a sala. Como ainda era cedo, resolvemos ir à quadra de basquete do bairro para jogar uma partida, apostando quem iria ao mercado comprar sobremesas e quem iria cozinhar. Eu e o Kou concordamos que seria falta de educação deixar os dois convidados tratarem sozinhos de uma das tarefas e que seria injusto fazer um time de meninos e outro de meninas, já que nem eu nem a Chiki participávamos do clube de basquete. Assim, ficamos eu e Ichinose em um time e a Chiki e o nii-chan no outro. Eu estava rezando para que ganhássemos e fossemos ao mercado, já que minhas habilidades na cozinha são quase nulas. Na verdade, eu já sabia que a Chiki não era lá muito esportiva, então minha esperança era de 30%.

Ao fim do jogo, havíamos ganhado por um triz. Isso já era esperado, considerando que o Kou é realmente bom e joga há, no mínimo, quatro anos.

— Yeeeey! Vamos ao mercado, Ichinose-kun!

Agarrei seu braço e minha carteira e o levei comigo em direção ao mercado.

— Por que tanta alegria?

— Beem, se eu ficasse responsável pelo almoço, teríamos que comprar um obentô ou alguma coisa do tipo, mas como é a Chiki e o nii-chan, a comida ficará boa. Quero dizer, não sei se você cozinha bem, mas minha inépcia anularia qualquer habilidade sua. É uma vida difícil. – respondi rindo.

~

Por ser domingo de manhã, o mercado estava bem cheio. Nos esprememos entre as pessoas para chegar na sessão de sobremesas e paramos em frente à vitrine.

— Você acha melhor levarmos doces individuais, Ichinose-kun?

— Hmmm... De que tipo de doce seu irmão e a Tanaka-san gostam?

— O nii-chan prefere coisas com chocolate meio-amargo e a Chiki gosta de bolo de morango.

— E você?

— Bem, geralmente, eu gosto de qualquer doce. Então, quando levamos doces individuais, eu sempre roubo um pedaço do deles... Mas e você?

— Eu gosto de doces no geral, mas prefiro bolo de chocolate.

— Então vamos levar doces individuais. Assim eu posso provar doces diferentes... hehe.

Pegamos um bolo do sabor favorito de cada um e eu peguei um pudim. Já estávamos na fila para pagar quando lembrei da promessa feita ao Ichinose-kun.

— Ei, — eu disse – esquecemos de pegar o doce que eu estou te devendo...

— Ah, tudo bem... Já compramos esses bolos, acho que é o suficiente.

Eu peguei uma caixa com dois bolos enquanto o Ichinose pegava a outra. Saímos do supermercado quando eu tive uma ideia.

— Você se importa de andar mais um pouco?

— Por que?

— Tem uma padaria no fim desta quadra, eles vendem um mochi muito bom lá. Podemos comprar para você.

Ele olhou bem para o meu rosto antes de dar uma risadinha e responder:

— Você está com vontade de comer esse mochi, né?

— C-claro que não! – droga, fui descoberta – estou indo por sua causa! Mas então, vamos?

— Vamos.

Descemos a quadra e entramos na padaria, onde compramos dois mochis de morango. Dei a primeira mordida assim que saímos da loja e senti aquele gosto maravilhoso.

— Não é gostoso?

Ichinose-kun acenou um sim com a cabeça enquanto mastigava um pedaço. Decidimos não contar o desvio para os dois que ficaram em casa por vários motivos. Um deles era que só tínhamos comprado dois mochis e tanto o Kou quanto a Chiki adoravam aquele doce.

~

Já estávamos chegando em casa, quando a Chiki ligou pedindo que comprássemos alguns ingredientes.

— Nós já estamos chegando em casa, Chiki. Acho melhor irmos aí e guardarmos os doces antes que estraguem, depois eu desço correndo pro mercado e compro as coisas, pode ser?

Expliquei para o Ichinose o que havia acontecido e, como esperado, ele se ofereceu para ir ao mercado comigo. Terei que pensar em algum jeito de enganá-lo e ir sozinha.

— Tadaima! – eu disse assim que entrei em casa – Chiki, me passa a lista das coisas que vocês precisam.

Peguei a caixa que o Ichinose carregava e guardei os doces na geladeira, enquanto a Chiki escrevia os ingredientes em um papel.

— Ichinose-kun, eu vou sozinha para o mercado, certo? Você é uma visita, deveria ficar aqui em casa e descansar um pouco. Eu dou conta disso.

Antes que ele respondesse, eu peguei a lista da mão da Chiki e corri para o mercado. Acho que, no fim das contas, o Ichinose resolveu ficar em casa. Ainda bem, afinal ele era uma visita.

~

[Ichinose Yusuke]

Eu me sentei na cadeira da cozinha, já que havia sido “abandonado” pela minha parceira de basquete, que fugiu pela porta da frente.

— Deixa ela, Yu-kun. A Aika é muito teimosa, quando põe alguma coisa na cabeça, ninguém tira.

Eu ri um pouco, porque já tinha presenciado a teimosia da Yoshihara. Na verdade, estava um pouco desapontado por ela não querer minha companhia. E o pé dela ainda estava machucado, não estava?

— Ichinose-kun, no que você está pensando? – perguntou a Tanaka-san algum tempo depois.

— Ah, o que? Não estou pensando em nada – respondi um pouco surpreso.

— Está sim, — disse o Kousuke-senpai – você estava olhando fixadamente para o nada.

— Eu só estava me perguntando se... Ei, esse dinheiro em cima do balcão não é o dinheiro do mercado? – disse, apontando para o rolinho de dinheiro.

— Ah, cara, não acredito! A Aika esqueceu o dinheiro, — disse o senpai, desamarrando o avental – Shizuko, eu vou atrás da Aika, tá bem?

— Senpai, você não prefere que eu vá? Estou desocupado mesmo.

Dessa forma, eu peguei o dinheiro e fui atrás da Yoshihara.

~

Corri tanto, que cheguei no mercado em menos de cinco minutos. Uau, um recorde. Peguei uma cesta e entrei para comprar o que faltava. A lista tinha uns seis itens, então terminei a compra bem rápido. O problema era a fila. Mas, quando me dirigi ao caixa, só havia três pessoas na minha frente. A sorte está do meu lado, pensei. Em poucos minutos a moça do caixa três me chamou e passou as minhas compras.

Quando eu fui ao mercado pela primeira vez com o Ichinose eu tinha pegado minha carteira, então tinha dinheiro o suficiente para a segunda compra. Se não fosse por isso, eu teria que pegar mais dinheiro e o Ichinose acabaria me alcançando.

Peguei minhas sacolinhas e saí. O sol já estava bem alto, porque já era quase onze horas. Parece clichê, mas ao virar uma esquina eu esbarrei com um garoto e quase caí no chão. Quando olhei para o rosto dele era o...

— Ei, Jirou, essa não é a garota que te deu o fora?

Jirou? Então esse é o nome do troglodita do telhado.

— É ela mesma. O que você tá fazendo aqui, Aika? – perguntou ele se aproximando um pouco.

— Ah, — respondi dando um passo para trás – não é da sua conta.

Pensei que ele ficaria bravo e me empurraria ou algo do gênero, mas ele só suspirou e disse:

— Olha, Aika, eu entendo que você me odeie, mas aquele dia a culpa foi sua.

O quê!? A culpa foi minha? Certo, ele já estava me deixando irritada.

— Ah, — respondi surpresa – tá, mas agora eu...

— Qual é, Jirou, vai deixar uma garotinha brincar assim com você? – disse o amigo dele entrando na minha frente. Já estava ficando de saco cheio.

— Ei, – essa era a voz do... Ichinose – por que vocês não deixam a Yoshihara em paz?

Os dois garotos olharam para ele, murmuraram alguma coisa e foram embora.

— Ichinose-kun? O que você tá fazendo aqui?

— Ah, você tinha esquecido o dinheiro... mas pelo visto, deu um jeito — ele respondeu olhando as sacolas — Eles estavam te incomodando? Era o garoto do outro dia, não era?

— Era. Ele só estava falando que aquele dia, a culpa foi minha e outras besteiras, mas acho que você chegou na hora certa. – Chegar na hora certa era, pelo visto, a especialidade do Ichinose.

Notas finais
Então, gostaram? Da próxima vez, vou tentar separar melhor os assuntos para que o capítulo não fique tão cheio, o que vocês acham? Mais uma vez, conseguiram entender a mudança de narrador? Obrigada por acompanhar! Glossário: Mochi: bolinho de arroz cozido e "esmagado". Tadaima: "Cheguei em casa", geralmente é respondido com um "okaeri" que significa "seja bem vindo de volta".