Haru Matsuri
2 A Mentira
Notas iniciais

A MENTIRA
Acordei depois de três vezes que o despertador tocou, cheguei vinte minutos atrasada e ainda sofri a implicância de um grupo de garotos que jogavam bola e me acertaram, achando que eu deveria ficar na minha e não descontar. O dia havia começado com meu pé direito num poço de azar, mas eu estava confiante e nada me abalaria!
Adentrei a sala de aula às pressas, encontrando Ino e Hinata na janela, babando pelos seus namorados no campo de beisebol:
— O Naruto fica tão lindo como arremessador! — Hinata sorriu, corada.
— E o Sai é o melhor de todos os batedores! Nem mesmo o Naruto conseguiria passar pelo meu gatinho! — Ino se derreteu, largueando um riso de orelha a orelha.
Pigarreei, chamando atenção das minhas amigas e me sentei.
— Bom-dia, Saky-chan! — Cumprimentaram-me.
— Bom-dia. Como estão?
As duas se entreolharam e eu sorri animada.
— O que está escondendo de nós? — Ino quis saber, me obrigando a dividir a cadeira.
— Nada demais.
— Vai ter que contar — insistiu Hinata, acomodando-se na minha frente.
— Estou namorando — contei, mostrando a tela do celular para as duas.
Ali, com cara de quem estava feliz, tinha eu, abraçada com meu novo namorado. Ao redor haviam folhas verdes e metade da praça em que eu estive na tarde passada, o ambiente parecia confortável e a luz destacava as minhas bochechas vermelhas, evidenciando a vergonha que eu havia passado em procurar posições convincentes para tirar a maldita fotografia!
Ino e Hinata tomaram o celular da minha mão, correndo até a frente da classe e dando saltos empolgados:
— Ela desencalhou! — Animou-se Ino, mostrando a foto para as outras meninas. — Minha amiga desencalhou! Olhem! Ele não é um gatinho?!
— Gente! Que isso?! — Arregalei os olhos, tentando recuperar a arma do crime.
— Temos que marcar um encontro, Saky-chan! — Propôs Hinata. — Vamos sair para conhecermos seu namorado, o que acha? Podemos ir no Karaokê.
Meu coração pareceu dar uma falhada e depois voltou em disparada, meus pulmões meio que obrigaram o oxigênio a sair de tão travados que ficaram. Eu tinha que inventar algo. Inventar algo urgentemente para que não descobrissem a verdade, pois, se o fizessem, eu seria tachada como perdedora, além de mentirosa.
— Ele não pode — gemi.
Sem graça, elas pararam com as brincadeiras, devolvendo-me o aparelho e me puxando para sentar. Pareciam aflitas e envergonhadas pela situação.
— Por que não pode? — Hinata cochichou.
— Bem, ele me chamou pra ir na casa dele, meio que quer me apresentar para os pais no dia dos namorados — menti, tentando não corar.
— Jura? — Ino gritou. — Jura que ele vai te pedir em namoro no dia dos namorados?
— Shhh… E eu não disse isso! — Calei-a, olhando para os lados a fim de me certificar que ninguém ouvia nossa conversa. — Não precisa esparramar para o colégio todo! O que eles vão pensar de mim?!
— Que agora você não é mais encalhada! — Ino gargalhou divertida.
— Você deve estar feliz — Hinata sorriu. — Eu fiquei feliz quando o Naruto me pediu em namoro, ele foi tão engraçado e…
Enquanto minha amiga contava como foi pedida em namoro, eu fantasiava comigo mesma. No dia em que o garoto da foto me pedisse para ser dele, estaríamos no meio de várias pessoas. Ele me pegaria pelo braço e colaria minha face contra seu tórax, eu ouviria o pulsar do seu coração tão mais rápido que o meu e ele me olharia. E todo mundo me olharia. E todo mundo me invejaria! E todo mundo vibraria com tanto moe! Então, depois de tanto olhar, ele diria o quanto me amava e que me quereria para sempre ao seu lado.
Mas aquilo era apenas um sonho, não? Estava me apegando demais àquela foto mentirosa… Aquele meu namorado não existia. Era tudo uma mentira!
— Sakura? — Ino passou a mão na minha frente, estralando os dedos.
— Mentira! — Falei em alto e bom som, assustando-as.
— O que é mentira? — Hinata se encolheu, delicadamente surpresa.
— É… Bem… Então… Não acredito que o Uzumaki-kun fez tudo isso! — Estremeci.
— Ele não é um fofo? — Perguntou, voltando em seu momento in love.
— Claro… Ele é… — Murmurei aliviada.
O pior daquilo tudo nem foi o fato de quase ter me entregado, mas por tentar viver a minha própria mentira. Será que aquele garoto estaria no mesmo lugar hoje? E se eu fosse até lá apenas para tirar algumas fotos a mais, teria algum problema? As garotas estavam tão divertidas que eu não me importaria em mentir mais um pouquinho –, só implorava mesmo que elas não perguntassem o nome. Nunca saberia qual daria pra ele!
— Olhe para ela, — Hinata me chamou atenção —, está tão apaixonada que nem está ouvindo a gente!
Eu sorri, voltando aos meus pensamentos em como seria ter alguém do lado. Definitivamente, eu odiava o amor!
A semana seguiu comigo visitando diariamente a praça e, para maior desespero e alívio, aquele garoto sempre estava lá com seu grupo. Eu havia alimentando as expectativas das minhas amigas e isso me resultou em mais mentiras, acreditavam que ele era um fofo, fiel a mim e que me amava incondicionalmente, enquanto eu apenas via um modelo para uma lembrança photoshopada, no qual eu mudava de assunto sempre que me perguntavam seu nome.
Porém, na véspera do Valentine’s Day, eu fui surpreendida:
— Hei.
Eu segui a direção que vinha a voz e encontrei o meu namorado, digo, o garoto das minhas mentiras. Meu coração apertou em desespero e pareceu parar bruscamente, enquanto eu tentava impedir um sangramento nasal e o desmaio.
Ele… havia falado comigo?! Eu estava realmente vivenciando aquilo?
— O-Oi? — Gaguejei, vendo-o esboçar um riso um tanto quanto sádico, aproximando-se de mim.
— Que horas são? — Perguntou assim que chegou, olhando para trás e jogando um olhar cúmplice aos amigos.
Alguma coisa dizia que ele planejava algo.
Com a mão trêmula, peguei o celular do bolso e o abri na tela inicial, naquele exato momento senti toda a ira e vergonha que uma pessoa poderia ter e passar. Meu rosto não estava vermelho, estava roxo e rosa e branco e logo depois, todas as cores do arco-íris.
— Não cansa de vir aqui para tirar fotos nossas? — Sua voz ecoou como uma facada, tomando o aparelho das minhas mãos e deslizando o dedo na tela. — Você está cometendo um delito por usar minha imagem sem permissão. Quer ser presa?
— Devolva meu celular! — Tomei coragem, aumentando a voz.
Cada palavra soava como um soco. Meu. Kami. Sama. O. Que. Ele. Estava. Fazendo?
— Tome! — Atirou contra a minha face, após ter fuçado um pouco. — Não volte mais aqui. Odeio garotas bisbilhoteiras como você — ordenou, autoritário, me dando as costas.
Envergonhada e pronta para chorar, juntei minha bolsa e corri o mais rápido possível, passando por entre os garotos e ouvindo as zoações de como eu era uma idiota.
— Sakura, querida… — Mamãe tentou vir no meu caminho assim que cheguei em casa.
— Eu estou bem. Vou para o quarto. Não deixe ninguém entrar — pedi batendo a porta.
Atirei-me contra a cama e suspirei fundo. Meu rosto estava ardendo e meus lábios secos, eu queria chorar, mas talvez não existissem mais lágrimas que gostariam de escorrer, devido a vergonha suprema por eu ser uma "bisbilhoteira".
— Aquela foi, definitivamente, a coisa mais vergonhosa que já tive que enfrentar… — Bufei. — Mas… Será que ele viu a montagem?
Liguei o celular e busquei as imagens na pasta:
“Vazio”
— Ele as excluiu? — Fui tomada por uma sensação de peso na consciência e desgosto. — E-Ele viu as montagens? E agora? O que eu faço? Por que eu tinha que ter me enfiado naquela situação? Por que eu voltei lá? Por quê? — Reclamava, batendo com os pés. — Era demais pedir para que as mentiras funcionassem até um dia depois do dia dos namorados, Kami? E se minhas amigas descobrissem? O. Que. Eu. Faria?
Depois de uma noite mal dormida, acreditando que eu saberia contar a verdade para as minhas amigas, levantei atrasada e perdi o ônibus que me levaria para o colégio, me presenteando com meia hora a pé para ensaiar um pedido de desculpas.
— Yosh! Elas vão entender! — Sorri, convicta de que meu poder de persuasão, talvez, as convencessem de que foi apenas uma brincadeira de uma garota desesperada.
Ao chegar, diversos alunos que estavam em meu caminho cochichavam animados, mirando seus olhares curiosos em minha direção. Os enfeites do Valentine’s Day eram mais visíveis e, no meio de um grupo grande de garotas, envoltas na bancada dos bolinhos e um arco de bexigas, eu vi Ino e Hinata espreitando um provável alguém recém-chegado.
— O que estão bisbilhotando? — Perguntei, ficando nas pontas dos pés para ver quem era o artista famoso.
— Sakura, você deve estar tão feliz! — Ino me empurrou, suficientemente forte, a ponto de me fazer varar o amontoado e cair nos braços de alguém.
— Eh? — Gritei assustada.
Kami Sama planejava algo diabólico contra mim, pois, por quê, diabos, ele colocaria o garoto das fotos no mesmo colégio que eu?!
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