Haru Iro
3 3: Namari no Sora.
Notas iniciais
"Quem sou eu?"
...
Eu não sou ninguém;
eu não sou nada, mas
eu sou podre.
Eu sou lixo, eu sou resto.
Eu sou escória;
eu sou podre.
Eu sou a enésima opção, eu sou o escanteio,
Eu não valho a pena..
Ninguém precisa de mim,
porque eu sou podre.
Jaggerjagez, Grimmjow.
xxxx
Grimmjow cresceu num orfanato, e hoje tem dezenove anos.
Chegou ao local com apenas alguns dias de vida; era uma criança de saúde boa, mas com certeza ainda era muito cedo para o separar da mãe. O abrigo, mesmo munido de alguns bons profissionais não podia suprir a falta do leite materno: devido à sua ausência a criança ficou com algumas sequelas, como diversas alergias.
Sua vinda causou demasiado espanto devido ao seu cabelo. Muitos casais chegavam a se interessar por ele, mas mudavam de ideia quando viam aquela falha pensando ser algum tipo de doença contagiosa ou até sarna. Com dois anos e começou a falar e entender as primeiras palavras; entendia que estava naquele lugar procurando uma nova família, e as palavras iniciais gravadas em sua memória foram "eca" e "credo".
Aos quatro anos já tinha um pouco mais de ciência e tentava agradar os casais, fazendo gracinhas e mostrando que era alguém que valia a pena ser adotado, mesmo assim nada aconteceu. Nesse período começaram as agressões vindas das crianças mais velhas, que carentes -e frustradas- precisavam extravasar a raiva. Há quem diga que crianças são inocentes, eu prefiro dizer que elas são cruéis. Faziam questão de espancar o pobre coitado diariamente, jurando que fariam coisa bem pior caso ele decidisse contar para alguém. Grimmjow apanhou bastante.. Até o dia que aprendeu a bater. Levantou a mão e espancou um de seus agressores, deixando bem claro que os dias de saco de pancada acabaram; a partir desse momento começou a fazer parte do time dos contraventores. Gostava de bater na crianças mais novas, ainda mais quando alguma outra era adotada. Chega até a ser atroz: uma criança que tem a sensação de não ter nada a perder.
Agora você se pergunta: por que ninguém nunca quis adotar ele?
Bom, até seus quatro anos pode-se dizer que foi ignorância. Pura ignorância. Tudo bem que seu cabelo era diferente, mesmo assim ele era uma criança dócil e esperta; por que não tentar a sorte? O destino foi mal com ele. Mas isso até os quatro anos.
Após os quatro anos começou a solidificar uma personalidade terrível, vinda da ausência de instrução e de carinho. Fazia a vida de qualquer novato um inferno, com agressões não só físicas, mas verbais e psicológicas. Em pouco tempo era o "rei" entre as crianças e todas elas se aproximavam dele por medo. Causava algazarra no dormitório, na hora de comer.. Mas sabe o que era pior? A cara de piedade das funcionárias: "ele nunca vai ser adotado" diziam elas. Tornou-se cheio de si, petulante e arrogante. Conforme o tempo passava essas qualidades tornavam-se mais expostas, fazendo a probabilidade de adoção chegar à zero.
Começou a fazer algumas poucas amizades, mas dentre as crianças do orfanato somente três serão importantes a ponto de serem lembradas: Halibel, Ulquiorra e Szayel. Hallibel era uma criança chorona que precisou a aprender a ser forte; devido a sua barulheira suas chances de ser adotada também eram poucas. Com o passar do tempo pôde acalmar a tempestade dentro de si e com 10 anos foi adotada por um casal onde a mulher não podia ter filhos. "Ulquiorra, o Lacaio" por outro lado era uma criança completamente calada e sombria. Juntou-se a Grimmjow pelo conveniente, e em pouco tempo era seu braço direito. Seu vocativo era "Lacaio" e ele o respondia sem problema algum. Por último mas não menos importante Szayel: outro que juntou-se pela conveniência, mas desde pequeno mostrou-se uma criança desprezível e dissimulada. Sentia prazer em ver Grimmjow batendo em órfãos menores, mas sempre dava um jeito do "líder" ser pego por algum superior. Possuía um jeito sonso e era alguém que Grimmjow tinha certeza que, assim como ele, nunca seria adotado.
Mas foi.
Por mais que o ódio disfarçado entre os dois fosse mútuo, Grimmjow nunca pôde esquecer o colega de abrigo. Um dos motivos foi, muito precocemente, as experiências sexuais; Szayel era afeminado provavelmente desde quando um feto. Não tinha vergonha alguma de se oferecer para qualquer coisa que andasse, e em pouco tempo Grimmjow tornou-o propriedade sua. Nessa época tinham por volta de doze anos e não se passava uma noite em que os dois não transavam.
O segundo motivo foi a maior decepção do Jaggerjack: alguém quis adotar aquele lixo em forma de pessoa. Conseguiu superar a adoção de Halibel, que mesmo sendo sua parceira e não intervindo pelas outras crianças ainda tinha um coração bom, mas o Aporro não. Ele era nojento e sádico, ainda assim alguém preferiu o levar ao invés de si.. Essa foi uma grande cicatriz em sua memória. O novo pai era um tal de Aizen: um político muito bonito e bem apessoado, além de ter uma ótima situação financeira. Ele poderia ser o sonho de qualquer criança, mas mais futuramente Grimmjow descubrirá que os céus interviram por ele, fazendo Szayel ser levado.. Mas voltando ao assunto: depois da adoção de Szayel, Grimmjow decidiu fazer uma mudança radical; se todo mundo se queixava do seu cabelo diferente, decidiu dar um motivo pra isso o tingindo de azul. Foi a cor mais bizarra que pôde pensar e que justamente dava a ideia que ele procurava, a de "não quero ser adotado" (obviamente uma mentira).
Muitos dias se passaram e muitos aniversários se foram sem presentes. Um dia que o azulado ficava especialmente violento: 31 de julho. Após os quatorze anos e o tingimento do cabelo desistiu completamente de encontrar um lar, passando a se dedicar aos estudos. Com a entrada do conhecimento um pouco da ignorância se foi, fazendo com que ele parasse de bater nas outras crianças. O que se manteve foi a promiscuosidade sexual, já que ele transava (desde que consensualmente) com outros internos sem problema nenhum.
Aos 18 anos via o resultado das horas de estudo aflorarem e percebia uma grande melhora acadêmica. Como terminou o ensino médio decidiu se aplicar ainda mais por um ano e fazer um cursinho, chegando à idade limite de permanência no abrigo que eram dezenove anos. Deu o melhor de si e fazia questão de passar em um dos melhores cursos para que assim todos percebessem o quanto ele era importante e o desse valor. Junto a ele estava o Lacaio, não exatamente um amigo mas digamos.. Um companheiro. Era muito prestativo e servia com excelência em seu cargo de mão direita. Ao fim do ano de cursinho se inscreveram somente em uma universidade, a melhor de Tóquio. Grimmjow quis apostar tudo de uma vez só, esperando um sinal dos céus se deveria ou não continuar nesse mundo. Caso não passasse, sua história seria somente algo coadjuvante nesse escrito: um jovem, sem pais ou sorte que cometeu suicídio.. Mas ele foi aprovado. E o curso era Engenharia Civil.
A tão renomada Universidade de Tóquio tinha lá suas excentricidades: tratava-se dum prédio enorme recluso às margens de uma rodovia estadual, com caráter de internato. A estrutura era demasiada grande e seduzia alunos e visitantes não só pela qualidade do ensino, mas também pela arquitetura. A entrada principal ficava a pelo menos quinhentos metros da rodovia, sendo que as margens da instituição eram envoltas por portões altos. Nesse espaço ficava o estacionamento e haviam duas catracas nos portões, uma no sentido da faculdade e outra no sentido da saída. Passado o estacionamento chegava-se à reitoria, um prédio de três andares onde a secretaria era instalada e subdividida; desagregado à reitoria ficava o prédio onde as aulas eram aplicadas: podia ser visto de longe e assustava devido ao seu tamanho, tanto altura quanto largura. Por fora era um só, mas por dentro separava-se conforme disciplinas, sendo exatas à esquerda, humanas ao meio e biológicas à direita (próximo ao laboratório animal). Adjacente ao bloco de exatas ficava o refeitório, e ainda mais à sua esquerda os dormitórios: os da frente (e bastante distante) eram os masculinos, e os de trás eram femininos. Não eram permitidos dormitórios mistos e os parceiros eram sorteados ao acaso, sendo fixos e imutáveis. (...)
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Eram sete horas da manhã e Kurosaki Ichigo levantava para checar a caixa do correio, pois estava ansioso para saber se receberia ou não a carta de aprovação na Universidade de Tóquio. Por estímulo de seu pai desenvolveu atração pelas matérias de biológicas e decidiu prestar Odontologia. Ichigo vivia com seus pais e suas duas irmãs, tinha dezessete anos e levava uma vida "normal". Terminou o ensino médio e foi sorteado para prestar o vestibular, cujo qual ansiava pela resposta. Era muito apegado à mãe e possuía boa relação com as irmãs.. Mas com o pai não. Nem mesmo o morango sabia quando a relação começou a desandar, mas atualmente não podiam dividir o mesmo cômodo por mais de uma hora sem confusão. Disputavam a atenção de Masaki, que sempre que possível intervia e apaziguava a situação.
Quando chegou ao portão, lá estava a sua tão esperada carta num envelope azul bebê com seu nome escrito no destinatário em letras douradas. Voltou para casa correndo e começou a ler em voz alta: "Parabéns Senhor Kurosaki Ichigo, você foi aprovado na Universidade de Tóquio. Compareça até o dia 07/01 (Sete de Janeiro) fazer sua matrícula e também no dia 08/01 (Oito de Janeiro) para a confraternização de abertura do ano de 2014 (Dois Mil e Quatorze)."
Recebeu um abraço e um parabéns da mãe e alguns resmungos do pai sobre "pelo menos para alguma coisa tinha que servir", mas estava tão feliz que preferiu ignorar Isshin. Subiu pro seu quarto e agora estava muito ansioso, pensando na nova vida que iria levar, agradecendo pela sorte e imaginando como seria morar num colégio interno.
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08/11
Matrícula feita e a família Kurosaki estava pronta pra sair de casa, mas antes claro, Ichigo e Isshin precisavam dar seu show. Novamente não se sabe a origem, mas dentro do carro ocorria uma gritaria, já que entre as ofensas gratuitas havia o orgulho e a necessidade de dizer a ultima palavra. Ichigo clamava o quanto ficava feliz por finalmente sair de casa, enquanto Isshin até que concordava, pois não via a hora de se livrar do filho. A discussão de manteve da saída de casa, entrada na rodovia e entrada na faculdade, já que obviamente nenhum dos dois queria dar o braço a torcer. Enquanto rumavam a secretaria, Ichigo saiu pisando duro e decidiu entrar sozinho; sua mãe logo o seguiu para tentar acalmar os ânimos. Perto dali, sentados num banco estavam Grimmjow e o Lacaio. O azulado ouviu uma barulheira e irritado se virou pra ver o que estava acontecendo:
– Ichigo, seja mais dócil com seu pai.. Não faz assim..
– Por que você só fala isso pra mim? Vai falar pra ele também!
– Mas Ichi, ele é seu pai..
– A gente se odeia! -
–Não fala isso, você deve muito ao seu pai!-
– Vai ficar do lado dele? Ótimo, espero que vocês morram! Deixa que eu me viro sozinho!
"Espero que vocês morram.."
"Espero que vocês morram.."
Pra sorte de Ichigo o Lacaio salvou seu rosto de levar um soco. Grimmjow ficou tão possesso com o que ouviu que amassaria o rosto do Kurosaki como se fosse uma latinha de refrigerante. Decidiu que não esqueceria o que ouviu, e assim que tivesse a oportunidade acabaria com a vida daquele egoísta imbecil.
Kurosaki Ichigo está preso num rancor.
– Oe Lacaio, por que você me parou?
– É melhor não arranjar briga, Grimmjow-sama.
– E desde quando você me diz o que eu devo ou não fazer?
– Só estava pensando em seu bem, Grimmjow-sama.
– Tá, tudo bem. Vai comprar uma água pra mim, daqui a pouco começa a cerimônia.
– Entendido. (Grimmjow-sama).
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– Filho, por que você diz palavras como essas?
– Tá legal mãe, eu exagerei, me desculpa..
– Depois que saem da boca não podem retornar. Pense um pouco antes de falar, Ichi!
– Foi mal mãe, eu tava nervoso, esquece isso por favor.
– Pede desculpa pro seu pai também.
– mas mãe..
– Ichi!
– Ah, tá, desculpa vai — Disse revirando os olhos.
Após ter se entendido rumaram pra um grande palco onde alguns professores e colaboradores da faculdade se encontravam. Nele havia o tradicional discurso do reitor Genryuusai, um professor aposentado de matemática que fazia parte do corpo docente desde a fundação da instituição. Dada as boas vindas aos alunos, dizia o quão importante era essa oportunidade na vida deles, pedindo então que se esforçassem. Para finalizar a solenidade convidava os alunos com melhor desempenho no vestibular, juntamente com seus pais, para subir ao palco:
– Inou Orihime, por favor. -
– Olá, sou eu! — Dizia sorridente. Orihime faria o curso de Letras.
– Quem é esse rapaz que te acompanha?-
– É meu irmão mais velho! Infelizmente meus pais partiram muito cedo e ele cuida de mim desde então.-
– Parabéns irmão! Você fez um ótimo trabalho. De agora em diante prometemos cuidar bem de sua princesa — Disse, convidando os dois a se sentar em algumas cadeiras reservadas.
– Uryuu Ishida, por favor. -
– Eu. — O monossilábico Ishida faria o curso de Veterinária.
– Esse é? — Perguntou o reitor, apontando prum homem jovem, porém com a cabeça completamente branca.
– Meu pai. -
– Ah sim, parabéns senhor pai. Esperamos muito de seu filho, assim como de todos os outros jovens! -
– Obrigado. — respondeu o também monossilábico pai.
Aproximadamente mais seis jovens foram chamados, pra não prolongar demais a cerimônia e torná-la tediosa. O último é o que nos interessa:
– Senhor Grimmjow Jaggerjack, por favor. -
– Sou eu! — Disse Grimmjow, com um sorriso convencido.
– Veio sozinho, senhor Grimmjow? -
– Eu não preciso de ninguém. -
– ... Engano seu, meu jovem — sussurrou o mais velho. — De qualquer forma, sente-se aqui, sim?
– Mas que imbecil esse cara! — Disse Isshin.
– Pelo menos nisso a gente concorda.. — Disse Ichigo. — Coitado de quem for dividir o quarto com ele, olha que cara de marginal! hahaha! -
É Ichigo, nunca se sabe.. Após algumas palavras para estimular os alunos acabou-se o discurso de Genryuusai. Agora calouros deviam fazer fila e pegar as chaves de seus quartos, que eram sorteadas ao acaso; cada "apartamento" teria duas chaves na urna, uma para cada morador.
As aulas só começariam no início de fevereiro, mas já era possível se mudar para o dormitório, caso quisesse. Ichigo enfiou a mão e puxou um chaveiro de couro com um grande "seis" talhado nele. Como não precisaria fazer mudança de nenhuma mobília, decidiu deixar pra sorte e só conhecer seu apartamento no início das aulas. Voltou pra casa de seus pais e comemoraria com os amigos, que também foram aprovados com notas excelentes.
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Grimmjow não esperou o velho Genryuusai terminar o discurso e logo enfiou a mão na urna. Puxou uma chave pequena, com um chaveiro dourado em formato de seis. Como já tinha lido o regulamento da faculdade, acenou pro Lacaio na multidão e o chamou para conhecer sua casa nova. Por coincidência (ou destino) o dormitório do Lacaio era o de número quatro, duas portas ao lado do de Grimmjow. Destrancaram a abertura e analisavam o lugar, de espaço pequeno porém bem aproveitado: a entrada já dava visão pra sala, que tinha um sofá grande e um televisor; separada por um balcão, havia um pequeno espaço para a cozinha, com mesa, geladeira e fogão. No rumo do balcão havia um corredor que dava para um banheiro; aos lados do banheiro haviam dois quartos pequenos, com uma cama de solteiro, uma escrivaninha e um pequeno guarda-roupa. Decidiu escolher o quarto da direita e deixaria o outro pro seu colega, que infelizmente não poderia ser o Lacaio.
Após visitar a casa do mesmo (que era praticamente igual a sua), o chamou para voltar ao orfanato pra pegar seus pertences. Conseguiu algum dinheiro em alguns trabalhos que fazia para a vizinhança e agora viveria com o auxílio da faculdade. Roupas colocadas na mala e ali dizia adeus pra aquele lugar, onde sofrera tanto. Se despediu de todos, funcionários e internos, mesmo que não tivesse simpatia alguma por eles: precisava virar essa página de sua vida definitivamente.
Passou no mercado e comprou algumas coisas. Após isso voltou pra faculdade e o seu cartão de identificação já estava disponível na secretaria. Tentou especular se era mesmo impossível o Lacaio morar consigo, mas novamente a resposta era a mesma. Foi para o seu quarto, tomou banho e jantou com o Lacaio. Após lavar a louça e escovar os dentes decidiu que ia dormir.
Mas.. Sua rotina na cama era igual. Mesmo quando estava cansado, mesmo quando estava bêbado, mesmo quando chovia ou mesmo quando dormia com alguém; ouvia uma voz de criança, na verdade, sua própria voz interior dizendo em sua cabeça:
"Eu sou alguém, eu existo!
Eu não sou podre!
Não, eu não sou lixo..
Eu não sou resto..
Eu não sou escória..
Eu não sou podre!!
Eu sou a primeira opção de alguém..
EU VALHO A PENA!
Por favor, alguém, precise de mim..
Eu não sou podre.."
(...)
Há quem mate um leão por dia. Talvez Grimmjow preferisse o fazer, a ter que sufocar essa criança toda noite antes de dormir..
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