Harry Potter e os entes amaldiçoados
20 A sociedade dos Sombrios
Notas iniciais
A sociedade dos Sombrios
Há muito Alvo andava chateado com o irmão, Thiago estava sempre ocupado, ou então preferia a companhia dos amigos a andar com o irmão mais novo. Os dois quase não se viam durante os intervalos, em raros momentos Thiago vinha fazer alguma refeição junto de Alvo, apenas o bastante para ver como o irmão estava e depois relatar à mãe nas cartas que Gina insistia em receber com certa freqüência , ela gostava de estar a par do que acontecia na escola com os dois filhos mais velhos. Esta era uma das tarefas que a mãe o encarregara de cumprir sem lhe dar muita chance de se opor.
Depois que suas aulas secretas haviam iniciado Alvo conseguira um salto de qualidade com as notas e o semestre chegaria ao final sem maiores preocupações para o menino. Os olhares curiosos já não eram tão constantes e as pequenas novidades diárias pareciam interessar mais do que a existência dos filhos de Harry Potter.
A verdade é que Alvo já andava meio entediado pela rotina e pela falta de atividades interessantes. Lembrava do pai e da mãe contando algumas de suas aventuras do primeiro ano em Hogwarts e achava que sua estada era por demais sem expressão e nada emocionante. Até Hagrid parecia não estar muito interessado no que ele fazia ou como ocupava o tempo livre.
Um sorriso maroto apareceu em seu rosto assim que teve uma idéia para quebrar o marasmo da situação, saiu rapidamente ao encontro de Scorpius, desta vez ele iria participar, seria uma aventura secreta para os dois, mal podia esperar para contar ao amigo. Inveredou pelos corredores como a fugir de um perigo, mas a verdade é que a adrenalina corria livre por suas veias.
_Scorpius ,venha comigo, precisamos conversar. -O entusiasmo de Alvo contagiou Scorpius e fez com que interrompesse algo que dizia ao colega de quarto Denario Geremias.
_ O que foi? Encontrou um tesouro ou descobriu o mistério do universo?- Scorpius já estava no clima de euforia de Alvo. Tinha um largo sorriso no rosto que deixava os olhos do garoto com um brilho excepcionalmente luminoso.
_ Me diga que você também não está ficando louco com esse marasmo, nada acontece , tudo está sempre igual. Isso não te deixa enjoado?- Alvo revira os olhos e faz caretas enquanto fala, gesticula como louco e bate com as mãos nas pernas como um desabafo final.
_ E o que você vai fazer a respeito? Vai iniciar uma “Terceira Guerra Bruxa”? – Scorpius fala com afetação , imita o amigo e cai na risada.
_ Na verdade não pensei em nada tão radical._ Alvo puxa Scorpius para um canto da Sala Comunal da Sonserina e cochicha em seu ouvido.- Nós vamos seguir o meu irmão. Thiago está sempre se esgueirando por aí, vamos descobrir o que ele faz quando “some” sem deixar rastros. Eu desconfio que ele sai do dormitório à noite e vai a algum lugar fazer alguma coisa, eu preciso descobrir o que ele anda aprontando.
_ Mas como é que você sabe disso? Por acaso anda saindo escondido também?
Alvo se coloca na defensiva, bem que desconfiava que Scorpius sabia sobre suas fugidas do dormitório, mas preferiu não contar nada ao amigo, aquilo era um segredo só seu. Inventou logo uma desculpa e falou meio atrapalhado:
_Hã, é que o Nick Quase sem Cabeça me perguntou o que um Potter fazia à noite pelos corredores escuros, e como não sou eu que ando por aí só pode ser o Thiago. Nós vamos seguir ele e descobrir, pronto é isso.
_ Certo meu amigo gênio, – a ironia na voz de Scorpius dizia que ele não estava acreditando muito na história. — e como é que NÓS vamos fazer para não sermos vistos?
_ Acontece que, recentemente, fiz uma visita ao meu irmão lá na Grifinória e meio que “peguei” emprestada a sua capa da invisibilidade, então vamos usar para segui-lo.
Depois da conversa com Scorpius o dia pareceu arrastar-se, quando finalmente todos haviam se recolhido e o silêncio reinava no dormitório da Sonserina dois vultos furtivos se esgueiraram até a Sala Comunal, se enfiaram embaixo da capa e saíram silenciosamente para o corredor. No alto da escada os dois se prepararam para saltar assim que os degraus parassem na direção que desejavam. Eles ficaram de tocaia no corredor que levava aos aposentos da Grifinória, na primeira meia hora nada aconteceu, os dois já estavam pensando que tudo aquilo era uma grande bobagem quando ouviram o som de passos rápidos, eles colaram o corpo á parede fria para dar espaço ao jovem que parecia muito preocupado em ser visto. O rosto estava coberto por um grande capuz e seu manto escuro dificultava a visão naquele corredor pouco iluminado. O estranho continuou rápido mas cautelosamente o caminho para fora do castelo, seus passos ganhavam mais velocidade a medida que ia se distanciando da escola, o que dificultava grandemente os perseguidores em sua caçada, mais de uma vez pisaram nos pés um do outro, tiveram que manter o silêncio e nem podiam xingar para aliviar o desconforto. O homem se deteve próximo às estufas, olhou ao redor e cuidadosa e silenciosamente abriu os portões, lá de dentro veio uma claridade amarelada e pobre, durou apenas um momento enquanto o portão se fechava. Os meninos ficaram parados, inseguros.
_ E agora o que vamos fazer? Nem sabemos quem é que estamos seguindo._ falavam em sussurros e Scorpius parecia preocupado. — Vamos voltar.
_ Nem pensar, nós viemos procurar e enquanto não descobrirmos o que está havendo e quem é esse cara não saio daqui. Alvo estava resoluto.
_ Então só nos resta entrar, vamos lá dentro ver o que há._ Nesse meio tempo mais um encapuzado passou rente aos dois e entrou também, o portão se fechava lentamente, os dois aproveitaram e entraram antes que batesse. Foram atrás do segundo homem de preto. Ele seguiu por um caminho escuro no meio das plantas, eram tão profusas que formavam uma parede, como num labirinto, ele virou para a direita e logo entrou numa espécie de clareira, no centro estavam mais encapuzados, todos de preto, sentados em tocos de madeira velha colocados para as aulas que eram ministradas pelo professor de herbologia. Alvo jamais estivera naquela parte da estufa, somente os mais velhos tinham acesso aquela parte. Scorpius empurrou Alvo para o canto, atrás dos homens, rente à parede de plantas, eles mal respiravam com medo de serem descobertos, ficaram imóveis e observaram.
_Então chegaram todos os irmãos? _ O último que entrou havia se erguido. — Então todos falaram em coro: SOMBRIOS SIM, OBSCUROS JAMAIS. SEGUIREMOS O CAMINHO DA SABEDORIA E NÃO NOS DEIXAREMOS CORROMPER PELO VERNIZ DA SOCIEDADE HIPÓCRITA!
_ Declaro aberto mais um encontro da Sociedade dos Sombrios. No nosso último encontro a palavra estava com o Senhor do Tempo, não podemos ouvir todo o argumento do irmão, ele vai retomar o raciocínio e depois veremos quem será o próximo a falar. Dou-lhe a palavra irmão.
O Senhor do Tempo se levantou e foi até o centro do grupo, pareceu concentrar-se profundamente e iniciou a falar:
_ No passado e no futuro os sombrios tiveram um lugar de destaque, não podemos deixar que os meios civilizatórios façam o que querem de nós, temos o direito de sermos como somos e de nos portar de acordo com nossas crenças. Nossas famílias esperam que sejamos dóceis e colaborativos, mas no fundo dos nossos seres queremos a liberdade de ser verdadeiros. Pois bem existiu um homem que poderíamos classificar como sombrio, que nunca se preocupou em agradar a ninguém, para ele bastava ser ele mesmo. Os sombrios muitas vezes sãos vistos como desajustados, frios e sem sentimentos, mas nem sempre isso é verdadeiro. Todos nós aqui amamos nossas famílias, só não queremos ser comandados por elas.
_ O irmão fala com propriedade, nosso patrono também passou por estes dilemas, mas sempre se manteve altivo. Severo Snape foi um mal compreendido, mas no fundo fez o que fez por amor e nunca deixou de ser um sombrio. E com isto quero dizer que podemos examinar o passado para indicar quem foram os sombrios que se destacaram. Mas antes precisamos ponderar sobre as características comuns entre eles, listar os mais importantes e cada um vai fazer a defesa de seu candidato. Isso deve ser feito através de pesquisa e aprovação pelo grupo.
_Que baboseira é esta? – pergunta Scorpius no ouvido de Alvo. Os dois estão prestes a explodir em gargalhadas. Alvo passa a mão pelo pescoço, como uma decapitação, num gesto de encerramento e aponta para a saída. Os dois vão se encaminhando lentamente, procurando não fazer movimentos bruscos ou barulho. Os garotos de preto estão tão envolvidos na discussão que não percebem os dois saindo pela abertura lateral. Eles chegam ao corredor de plantas e tudo está muito escuro, vão tateando pela cerca viva e quando estão quase no fim do caminho perdem a noção do espaço, procuram o portão em vão, Alvo saca a varinha.
_ Lumos.
Uma claridade ilumina a saída, eles se precipitam para fora, saem debaixo da capa enquanto passam pelo portão. O súbito clarão chama a atenção do grupo mais ao fundo, alguém grita alertando os demais. Os sombrios se movimentam rápido, ordenada e cuidadosamente. Vão saindo devagar, olham para os lados e vão se dispersando nas sombras. Daí a instantes não se vê mais nenhum movimento, Alvo e Scorpius esperam ainda alguns minutos, ficam parados, em silêncio. Permanecem embaixo da capa até o momento certo, quando percebem que estão sozinhos olham-se e desatam a rir com gosto.
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