Harry Potter: O Leão do Ringue
4 A Primeira Luta de Harry
Era tarde na Columbia Road. Ainda não chegara o frio noturno, mas a brisa já trazia coisas inesperadas. Dentro do pet shop, Luna organizava produtos nas prateleiras. Pouco depois, ela foi tirando uma enorme mecha loira do rosto quando terminou de pôr uma gaiola velha num dos cantos da loja. Ela sorriu para o periquito na gaiola nova.
- Pode falar, você gostou da gaiola nova. – dizia a loira sonhadora para o periquito. – Não precisa me pagar, é por conta da casa!
A ave começou a fazer barulho e Luna olhou para a direção que o periquito farfalhava. Do outro lado da rua, havia três rapazes de moletons de treino pretos. Eles estavam encostados no vidro da frente da academia e pareciam olhar com atenção para dentro dela através do vidro. Luna ficou com rosto de dúvida, mas uma coisa era certa pra ela: os três não irradiavam boa energia.
A tensão na Academia de Boxe Dumbledore estava palpável. Todos pararam o que estavam fazendo para assistir: Gina Weasley vs. Harry Potter estava prestes a acontecer. Angelina se prontificou a ser a juíza da luta, ela deu para Harry um protetor de cabeça azul e luvas azuis para lutar. Gina já estava pronta com o equipamento dela. Ela estava pulando em seu corner, já esquentando o corpo para o que iria acontecer.
Abaixo, os outros se reuniram para ver. Dino estava bem animado, tudo o que ele planejou estava acontecendo perfeitamente. Cho também sorria de seu modo reservado, com os braços cruzados. Neville estava bem preocupado, com medo de qualquer um dos dois se machucar. Simas só estava aguardando o desfecho que sua personalidade negativa antecipara. Rony olhava com uma cara cheia de desdém para o que estava acontecendo e Hermione preparava seu celular pra filmar.
- Só... só por registro. Primeira luta do Harry... – disse a garota.
Rony arqueou uma sobrancelha ao ver. Depois olhou para Gina, que parecia pronta pra caçar. Ele gritou pra irmã:
- Gina...! Só... Pega leve, tá bom?
A ruiva nem deu ouvidos, ela olhava para Harry, que terminava de colocar o protetor bucal após calçar as luvas e o protetor de cabeça. Ele estalou os ossos do pescoço, olhando sério para Gina.
- Ei, não tá esquecendo nada, não? – perguntou Angelina.
Harry arregalou os olhos. Ele se esqueceu de tirar os óculos. "É, levar soco usando isto não vai ser nada divertido...", pensou. Ele tirou os óculos e os colocou no chão, encostados no poste de seu corner.
Porém, ao fazer isso, Harry ficou incrédulo. Tudo mudou. As cordas ficaram borradas. O rosto da Gina, a alguns metros à frente, era uma mancha ruiva mal definida. Ele não estava enxergando bem e finalmente se deu conta de algo que deveria ser óbvio: Ele sempre usou óculos desde criança. O fato de Dumbledore ter permitido que ele tivesse treinado todo esse tempo com os óculos o fez esquecer completamente da visão ruim. Ele apertou os olhos, tentando ajustar o foco. "Vai passar. Eu só preciso me acostumar.", pensou Harry.
Angelina subiu ao ringue com um apito, tal como o de Dumbledore. Ela chamou os dois para o centro do ringue. Harry andou com os olhos estreitados, vendo o borrão de Gina se aproximando dele e ficando ligeiramente mais nítida.
- Vai, amor! – gritava Dino. – Mostra pro moleque que aqui não é lugar de brincadeira!
- Caramba, espero que fique tudo bem... – dizia Neville, preocupado com os dois.
- Regras de luta amadora. – dizia Angelina. – Três rounds de três minutos. Um minuto de intervalo. Sem pancada depois do apito. Sem desrespeito. Prontos?
Gina assentiu com a cabeça, olhando sério pra Harry. Harry fez o mesmo, agora era tarde pra dar pra trás. Eles levantaram suas guardas e começaram a gingar.
- Lutem! – autorizou Angelina.
Logo que a luta foi autorizada, Harry sentiu o peso. O peso do medo. Aquilo não era uma simples briga de rua, não era como as que ele teve na escola depois que decidiu nunca mais apanhar quando tinha nove anos: Era um combate com regras, com riscos. Um que a pessoa diante dele era bem treinada, com foco, com técnica. Ele estava pronto pra sentir dor se fosse preciso, o que não queria era se sair mal depois de aceitar subir ao ringue. O peso era o medo de fracassar, ainda mais com todos assistindo. "Vamos, Harry", pensava. "Você acabou com onze idiotas no final do ano passado! Você tem garra...!", ele tentava se incentivar.
Gina assumiu a sua postura de combate. Era a famosa peek-a-boo, a postura icônica de Mike Tyson. Mãos altas, próximas ao rosto, com os punhos juntos, quase encostando às bochechas. Cotovelos próximos ao corpo, protegendo as costelas e o tronco. Era um muro de proteção, especialmente com o corpo ligeiramente inclinado pra frente, com os joelhos flexionados e o centro de gravidade baixo. O queixo era quase colado ao peito. Só era possível ver os olhos furiosos de Gina, enquanto ela começava a gingar e se mover como um pêndulo, já avançando.
Harry, com sua guarda ortodoxa e tentando não se intimidar pela habilidade, foi ao ataque. Deu dois jabs na direção de Gina. Ela deu um passo lateral como se tivesse lido a mente dele, desviando. Ela deu um poderoso jab na têmpora de Harry, que o protetor de cabeça recebeu, mas ainda assim, o impacto foi duro. Harry, com um olho fechado pela dor, sacudiu a cabeça. Ele não estava enxergando o quanto precisava. "Vou ter que usar o instinto aqui, ou estarei perdido...", pensava.
O garoto avançou e tentou um cruzado, um direto e outro cruzado. Gina desviava com categoria, usando os balanços do estilo peak-a-boo, deixando os espectadores impressionados. Harry ajustou a postura e lançou um gancho, mas Gina desviou de novo. Ela se aproximou com sua guarda, ficando bem junta ao corpo de Harry e disparou poderosos cruzados. O som alto dos golpes atingindo Harry na guarda e na lateral do corpo foi assustador. Harry rangeu os dentes, mas lançou um direto. Gina passou por baixo dele. Deu um cruzado na barriga e outro no rosto do garoto. Harry gemeu de dor e se afastou. Ele ofegava ao sentir que o rosto tinha sido cortado no lado esquerdo, tamanha a velocidade do cruzado que Gina disparou nele. Harry olhava e só via um borrão. Os golpes que levou prejudicaram ainda mais sua visão. O borrão se aproximava e lançou duros golpes que ele não conseguia prever, ele não conseguia VER. Harry foi pressionado até as cordas e se fechou na sua guarda enquanto Gina o castigava com diversos golpes. "Ainda não!" Harry gritava em sua própria mente.
BAM!
Gina encaixou um gancho no queixo de Harry por dentro da guarda. Ele cambaleou para o lado, saindo das cordas desajeitadamente. Gina levantou sua própria guarda e gritou:
- Vamos!
Hermione filmava, com muita preocupação. Rony já sabia o desfecho daquilo e só queria que Harry não se machucasse tanto. Dino aplaudiu quando Gina acertou o gancho.
- É isso aí, lindona! E aí, Potter? Quando vai começar a lutar? Estamos esperando!
Angelina deu um olhar feio para Dino. Harry levantou a guarda, ofegante. Ainda que estivesse em completa desvantagem, ele não ia cair tão facilmente. Ele se acalmou e tentou se lembrar dos fundamentos que praticou pelos últimos dois meses. "Machucado eu já estou. Então vamos lá tirar a diferença.", pensou.
Mesmo sem ver direito, ele foi se aproximando de Gina. Ela ficou nervosa pela audácia dele – ele já deveria ter percebido que não vai vencer. A ruiva lançou um cruzado. Harry se defendeu. Lançou outro, Harry desviou. Lançou mais um, ele se defendeu de novo. Harry trocou a posição das pernas e lançou um direto, mas Gina desviou com facilidade. Não foi tão bem mirado nela.
- Você viu aquilo? – disse Simas. – Se tivesse pegado...
"Ele errou de tão perto... Será que não está enxergando?", pensou Neville.
Harry se fechou na guarda quando a ruiva lançou mais cruzados de seu estilo explosivo. Ele foi levado às cordas novamente e agora era bombardeado sem piedade. Gina colocava toda a sua força, querendo terminar logo.
Angelina apitou. Três minutos haviam passado. Gina parou de bater e ficou ofegante, olhando para Harry. Este ainda estava com os braços levantados, ofegante também. Gina fez uma cara de quem não entendia mais o que estava acontecendo. Mas fez uma promessa silenciosa de que ele cairia no próximo round. Harry olhava para onde supostamente estava Rony e Hermione e não conseguia enxergar direito os rostos. Ele usou o tempo que tinha para recuperar o fôlego.
- Esse cara estava louco aceitando uma luta contra a Gina! – comentou Simas. – Praticamente um suicídio!
- Pessoas fracas precisam ser colocadas no lugar. – foi dizendo Cho Chang. – Ele achou que era especial só porque Dumbledore gosta dele.
Hermione olhou feio para Cho, mas voltou a se concentrar no que estava fazendo: filmar a luta.
- Gina, dá um fim nesse moribundo! – gritou Dino, torcendo bem alegre.
Depois de um minuto de descanso, Angelina chamou os dois e autorizou o segundo round. A visão ainda prejudicava Harry. Era como enfrentar um incêndio usando uma venda. – completamente injusto. Gina avançou como um touro, desferindo golpes sem piedade. Ainda estava nervosa. Mas o que realmente a estava deixando mais nervosa era o fato de que não estava se reconhecendo. Ela foi levada pelas palavras de outras pessoas – e por outras situações que eles não conheciam. E agora lá estava ela, arrebentando um iniciante. Mas agora era tarde, ela precisava terminar o trabalho.
Harry tentava jabs, tentava ganchos. Gina desviava com excelentes movimentos. O rapaz não deixou que ela começasse outra sequência de cruzados, ele se movimentou pelo tablado para dificultar para a ruiva. Ele estava cansado, dolorido e ainda não tinha conectado nenhum golpe decente, mas não queria perder. Tentava se lembrar das lutas que assistiu, tentou se lembrar de como Buster Douglas derrotou Mike Tyson... mas sua mente estava caótica, tudo de errado estava acontecendo ao mesmo tempo. Ele tentou atacar, mas Gina desviou novamente. Ela lançou um poderoso soco na barriga de Harry, com toda sua força. O garoto arregalou os olhos e gemeu de dor.
Logo, ele caiu com os dois joelhos ao chão, levando as mãos à barriga e sofrendo. Angelina apitou loucamente e até entrou na frente de Gina.
- Acabou! Acabou! Sem terceiro round! – vociferou a juíza. – Acabou!
Dino vibrou alto! Cho deu um sorrisinho. Hermione parou de filmar e ficou com as mãos tremendo. Rony se dirigiu até o ringue apressadamente. Simas e Neville olhavam preocupados para Harry, que estava prostrado de dor no chão. Gina olhava... E a angústia tomou conta dela.
"O... O que eu fiz...", pensava Gina, com um olhar horrorizado.
Dino festejava e cantava músicas de triunfo. Gina ouviu e olhou para ele com raiva – com mais raiva que jamais tinha sentido dele antes. Ela tirou as luvas e saiu do ringue, com uma expressão absoluta de frustração. Dino, feliz da vida, foi em direção à namorada.
- É isso aí, amor! Que espetáculo! Derrubou o valentão! Aposto que ele vai mudar pra balé a partir de amanhã! HAHAHAHA!
Mas quando tentou abraçar Gina, ela o empurrou categoricamente. Dino olhou incrédulo. Ela tinha pura raiva no olhar.
- Cala a boca, Dino! – vociferou Gina. – VOCÊ NÃO PRESTA! Eu já devia ter percebido! Fica longe de mim!
Gina empurrou o rapaz mais uma vez e foi andando para o vestiário feminino, sem olhar para trás. Rony, que prestou atenção na cena, viu que Gina estava se afastando. Ele foi até Harry e se abaixou para ajudá-lo.
- Ei, cara... Você tá bem? Me deixa eu...
Harry recusou a mão de Rony. Ele se levantou devagar. Tinha uma expressão totalmente humilhada. Tirou o protetor bucal, o protetor de cabeça e as luvas. Ele pegou os óculos e foi saindo do ringue. Hermione foi até ele e tentou dizer algo:
- H-Harry...
- Me deixem! Só... me deixem! – disse Harry.
Ele foi até o vestiário masculino. Rony olhou para Hermione e ficaram sem saber o que fazer. Angelina desceu do ringue, arrependida. Ela não deveria ter deixado a situação chegar naquele ponto. Dino estava completamente chocado. Sua namorada não só o ignorou, ela o afrontou. Ele não estava nada feliz agora.
Pouco depois, Harry saiu do vestiário, já com sua roupa do dia a dia (moletom azul e calça jeans), e saiu correndo com a mochila, sem nem olhar para trás. Hermione e Rony ficaram com a expressão de preocupação pura. Será que Harry nunca mais voltaria?
- Harry... – disse Rony olhando o amigo sair correndo.
Do lado de fora da academia, a luz do fim da tarde criava sombras longas na calçada. Harry mal passou pela porta e foi obrigado a parar. Ele arregalou os olhos quando viu três rapazes desconhecidos. Eles saíram de perto da vidraça da frente quando ele apareceu, o que fez com que o garoto de óculos entendesse que eles assistiram a tudo. Os três tinham agasalhos de treino pretos e sorrisos bem debochados. Um deles era loiro, o outro era bem alto, com cabelo escuro e o do meio era robusto e também alto, com cabelo castanho.

O loiro de cabelos escorridos e olhos azuis deu alguns passos na direção de Harry, que estava com o rosto machucado e sem entender. O desconhecido foi falando:
- Essa academia de quinta categoria é mesmo uma piada, rapazes. Vejam só esse moleque... Apanhou de uma MENINA!
O mais alto e o robusto começaram a rir sonoramente. Isso deixou Harry enraivecido, apertando os punhos. Do outro lado da rua, Luna estava vendo a cena. Ela se preocupou imediatamente. Ficou aflita, temendo pelo pior, especialmente ao ver que Harry já estava com o rosto machucado. O mais alto foi falando ao corpulento com voz provocadora:
- O que será que ele vai fazer agora, Crabbe? Correr pro colo da mamãe?
- Esse imprestável? Nem deve ter mãe, Goyle! – respondeu Crabbe rindo.
- Nem pai ele deve ter! – disse o garoto loiro. – Isso explicaria muita coisa.
Agora Harry estava com o ódio absoluto tomando conta. Eles ousaram ofender os pais falecidos dele. A mente explodiu. O mundo sumiu. Só restou a raiva. Ele partiu pra cima deles. Sozinho, sem pensar. O loiro era o mais próximo, então mirou um poderoso direto no rosto dele. O desconhecido não apenas desviou com facilidade como contra-atacou com uma sequência perfeita de boxe técnico: Jab, direto, gancho. Harry gemeu de dor e foi ao chão da calçada violentamente. A mochila caiu longe. O mundo girou. O gosto de sangue voltou à boca.
Do outro lado da rua, pela vitrine... Luna assistia. O pano de limpeza caiu de sua mão e ela soltou um sibilo alto. Pompom, o coelho, pulou assustado dentro da gaiola. Ela levou a mão à boca, mais aflita do que jamais estivera por qualquer pessoa antes.
- K.O.! – gritou Crabbe, imitando os jogos de luta de videogame com um sorriso tóxico. Goyle começou a rir ainda mais alto agora.
Harry tossia, sentindo as dores. Enfrentar Gina foi uma coisa, mas aquele garoto loiro simplesmente o destruiu. O loiro foi andando até o corpo caído, se agachou e disse apontando para si mesmo:
- Draco Malfoy ao seu dispor. Somos de uma academia que realmente deixa as pessoas fortes: a Academia Dark Cobra. Enfim, desista logo do boxe, você é muito fraco. Vamos, rapazes. Não tem mais nada que valha a pena aqui.
Draco se levantou e deixou Harry no chão. Aos risos, os três de moletom preto foram se afastando. Draco, Crabbe e Goyle ainda gargalhavam alto quando já se encontravam bem longe. Harry não se moveu por um tempo. O mundo parecia mudo agora. Era só ele, deitado no concreto. Sangrando por dentro e por fora. Ele respirava com o rosto angustiado, tendo que engolir duas derrotas no mesmo dia.
Luna, quando percebeu, já estava do lado de fora do pet shop. Ela queria correr até ele. Queria ajudar. Queria dizer alguma coisa a Harry... Mas sentiu que não seria um bom momento para ela aparecer. A ela restou torcer para que ele se levantasse. "O mundo sempre vai ser injusto... Mas ficar no chão é escolha nossa... Levanta!", ela torcia por dentro.
Harry se levantou. Primeiro um braço, depois o outro. Respirou profundamente. Um joelho, depois o outro. Ele ficou de pé. O corpo tremia. Mas os olhos... Os olhos ardiam como fogo. E então, com a rua vazia e o céu dourado, ele bateu três vezes no peito e gritou para o mundo:
- EU AINDA ESTOU AQUI! EU AINDA ESTOU DE PÉ... E APENAS COMEÇANDO!!!
Do outro lado da rua, os olhos de Luna brilharam. Ela sorriu. Um sorriso doce. Um sorriso de quem torcia. O herói se levantou. Ela estava vibrando por dentro. "Isso...! Isso... Sabia que conseguiria!", ela pensava enquanto observava Harry ir embora com sua mochila. Ele olhou sério para a academia, como se dissesse "Isso ainda não acabou!"
...
Dez minutos depois, um carro cor creme chegava à entrada da Academia de Dumbledore. Era um Rover 75 Tourer 2004, um station wagon já bastante rodado e cheio de marcas de tempo de uso. O dono puxou o freio de mão e foi cantarolando uma música enquanto ia até o porta-malas. Era um homem de meia-idade e altura média, magro, com cabelo castanho-claro liso que começa a branquear e olhos castanhos. Tinha bigode e barba por fazer. Estava usando sobretudo, camisa social por baixo e gravata afrouxada. A roupa não era nova, pelo contrário, tinha toda a característica de desgastada. O homem era Remo Lupin, um conhecido da academia.
- I'm goin' where the sun keeps shinin'
Through the pourin' rain
Goin' where the weather suits my clothes
Bankin' off of the Northeast winds...

Enquanto cantarolava "Everybody's Talkin'" de Harry Nilsson, Lupin pegava duas caixas de dentro do porta-malas. Após, dirigiu-se, ainda com tranquilidade e um sorriso calmo, para a academia trazendo as caixas.
- Sailin' on summer breeze
And skippin' over the ocean like a stone
"Wah, wah, wah..."
Parou de cantar quando entrou no local e viu uma cena que ele não esperava: Hermione pulava corda ao lado de Rony, mas com um ritmo sem alma, como se só quisesse se manter em movimento pra não pensar. Angelina treinava Neville, seu rosto sereno, mas com um olhar que claramente estava em outro lugar, carregado de arrependimento. Simas enchia sua garrafa de água, olhando pro vazio. Dino andava de um lado pro outro, emburrado, ainda sem entender como Gina teve a coragem de dizer o que disse. Cho era a única que parecia tranquila e fazia abdominais normalmente, como se o mundo fosse um spa e ela fosse a rainha do topo. Como Rony e Hermione eram os mais próximos dele, Lupin foi falando incrédulo:
- Caramba... que velório é esse? Tá tudo bem com o Dumbledore?
Hermione e Rony pararam de pular corda. Eles se entreolharam. Hermione foi a primeira a falar:
- Oi, Lupin... Não... é que... hoje foi tenso. Um garoto novo... Harry Potter. Ele... ele apanhou feio. Foi humilhado. Saiu correndo... O clima não tá legal.
- Ele tava indo tão bem nos treinos... mas... Gina pegou pesado. – acrescentou Rony, com olhar cabisbaixo.
Lupin arqueou uma sobrancelha. Pousou as caixas e cruzou os braços. Angelina foi até ele para assinar a documentação da entrega. Ela tinha um olhar cheio de culpa.
- Oi, "Lobo de Liverpool". – disse Angelina.
- Só Lupin está bom, Angelina. Vim trazer as luvas, os protetores e as manoplas.
- Obrigada... – disse Angelina. Ela apanhou as caixas e foi andando sem muita energia.
Lupin ficou intrigado. O que quer que tivesse acontecido, deixou todos alterados. Ele se dirigiu novamente à Hermione:
- Então... "Harry Potter", é? Esse eu ainda não conheci. E ele simplesmente foi embora? Não deu tempo de ninguém dizer nada?
Hermione mordeu o lábio enquanto pegava o celular.
- Eu gravei... mas... agora não sei se deveria ter feito isso.
- Posso ver? – perguntou Lupin.
Ela passou o vídeo para o entregador. Lupin assistiu em silêncio. Um minuto. Depois dois. Quando o soco no estômago levou Harry ao chão, Lupin suspirou com um sorriso de canto.
- É... ele foi massacrado. Isso nem pode passar em horário nobre na TV.
Rony também se pronunciou:
- Eu não entendo, cara. Harry parecia estar tão afiado. Eu sabia que a minha irmã ia vencer, mas ele errou uns golpes bem básicos.
- É claro que errou. – disse Lupin. – Tá na cara que ele não enxerga direito. Ele usa óculos?
Rony e Hermione se entreolharam, com os olhos arregalados. Depois olharam para Lupin.
- S-Sim! Meu Deus, era isso! – disse Hermione. – Nossa, a gente convive com ele e nem lembramos de que ele tá sempre de óculos...
- Passa de novo o vídeo. – pediu Lupin.
Hermione passou novamente, com Lupin e Rony olhando junto. Lupin pausava o vídeo em determinados momentos, dizendo:
- Olha isso. Ele força o olhar toda vez que tenta ajustar a distância. Ele joga golpe errado, fora de ângulo. Bastou tirar os óculos... pronto, virou alvo ambulante.
- Eu... Como é que eu não percebi isso? – indagou Hermione, perplexa.
- Eu... também nem lembrei disso. – disse Rony. – Harry... também não tentou usar isso como desculpa pra fugir e nem nada... Essa luta nunca deveria ter acontecido!
Lupin ainda revia o vídeo. Mas agora com um sorrisinho no canto da boca.
- Mas vejam só isso... Defendeu dois cruzados, desviou de outro... Trocou a postura pra armar um direto... Instintos afiados! A força do direto veio da perna de trás, subiu pelo corpo, foi impulsionada pela rotação do quadril... Se tivesse acertado a Gina, ela ia a nocaute. No segundo round... Olha a movimentação pra dificultar o combo da sua irmã. Isso é adaptação. Faz quanto tempo que ele treina?
- Uns dois meses. – disse Rony.
- Não acredito... – disse Lupin. – Esse garoto tem coisa aí... E não é pouca, não. Olha bem, ele não tem a mínima chance, está todo detonado, e ainda insiste. Mas também, né... Como é que ele ia ganhar sem enxergar DESSA Gina?
Rony olhou subitamente preocupado para Lupin quando ele disse aquilo. Hermione notou e ficou intrigada.
- Não me olhe com essa cara, garoto. – disse Lupin. – Eu sei muito bem quem é o tio de vocês.
- Que papo é esse, Ronald? – indagou Hermione, desconfiando na hora.
- Ela não sabe? Eita... – disse Lupin ao perceber que falou demais.
- M-Mais importante que isso... – foi falando Rony. – O Harry apanhou feio! A gente tá com medo de ele não voltar mais!
- Não podemos deixar isso acontecer, certo? – disse Lupin. – Ele não é só bom. Ele tem um potencial que... pra ser sincero... me dá até um pouco de medo. Vocês sabem onde ele mora?
Hermione e Rony se olharam. Seria mesmo verdade que Harry tivesse um potencial tão grande?
- Sim... Quer o endereço? – perguntou Hermione.
- Quero conhecer esse garoto. – disse Lupin sorrindo. – Ele ainda não sabe, mas existem formas de se superar essa grande limitação dele.
...
Após pegar o endereço de Harry, Lupin foi embora. Sem perder nem um segundo, Hermione olhou com a cara fechada para Rony.
- O... O que foi, Mione?... – indagou o ruivo, meio intimidado.
- Achou que eu ia esquecer, é? – disse a garota. – O que Lupin quis dizer com "Eu sei muito bem quem é o tio de vocês."? O que você anda escondendo, Ronald?
Rony coçou a nuca, nada animado com aquela situação.
- Não podemos só deixar isso pra lá? Caramba...
- Não! – exclamou Hermione. – Dois anos de amizade! E você não contou algo importante? Por acaso não confia em mim?
Rony ficou completamente desconcertado. Depois, pegou a moça pela mão e a puxou na direção que foi andando. Hermione ficou MUITO corada. Ficou olhando para os lados com medo de os dois serem vistos daquele jeito.
- R-R-R-R-R-R-RONALD...! O que você tá fazendo?! – ela sentia o rosto queimando.
- Só vem comigo... – respondeu o ruivo.
Rony levou Hermione até dentro do escritório de Dumbledore. Quando ele soltou a mão dela, ela juntou as duas perto do peito, ficando confusa.
- P... Porque me trouxe aqui? – perguntou Hermione, com uma timidez inesperada.
Agora era Rony que ficou corado, entendendo a reação dela.
- Não é nada disso!! O-Olha... – ele apontou pra foto do "Quinteto de Dumbledore" na parede do escritório.
- Olhar o quê?! – indagou Hermione. – Aquela foto é o Quinteto de Dumbledore... E...
- O ruivo, Hermione! Olha pro ruivo. – disse Rony.
Hermione olhou e arregalou os olhos. Depois olhou para Rony, depois, para a foto de novo... E depois para Rony.
- G-GIDEON PREWETT? O "Punhos de Fogo"? ELE É O SEU TIO?? – Hermione estava chocada.
Rony andou pelo escritório, o semblante ficando melancólico.
- É... Ele é irmão da minha mãe. – respondeu.
Hermione avançou até ele, bem nervosa.
- Como pôde esconder algo assim de mim?! – o olhar dela ficou uma mistura de frustração com tristeza. – Você sabe como amo boxe, como eu admiro tanto esses cinco, especialmente a "Fantasma de Bristol" que é um ícone do feminismo...! Por que não me contou? Eu adoraria conhecer o Sr. Prewett um dia!! Você... esconde coisas de MIM?
Hermione agarrou a gola de Rony, num momento emocional. Rony, encostado à parede, levou as duas mãos às de Hermione e as abaixou com calma.
- Gina e eu decidimos não contar. – foi falando Rony. – Meu pai, que é fanático por boxe, já nos pressiona bastante por causa desse parentesco. Não queríamos ser tratados como diferentes só por sermos parentes de um boxeador tão incrível... A gente nem convive com o nosso tio. Não queremos virar simples "sobrinhos de alguém famoso".
Hermione olhou nos olhos de Rony. Um facho de empatia começou a surgir dentro dela. Rony continuou:
- Mione, você não sabe o que a Gina passa. O que ela tem passado desde que éramos pequenos. Muito do que você viu hoje... Foi uma bola de neve que começou anos atrás.
Dentro do vestiário feminino, o barulho da academia parecia distante. Lá dentro, sentada no canto mais afastado, com as costas encostadas no azulejo frio, estava Gina. Sozinha. Furiosa.
A toalha nas mãos não secava suor — servia apenas para que ela tivesse algo para apertar. Tentava controlar a respiração, mas era inútil. O peito subia e descia, como se a alma estivesse tentando sair pela garganta. Sentia a adrenalina pulsando nas têmporas, misturada à indignação. Indignação com Dino. Com Harry. Com todo mundo. Mas, principalmente, com ela mesma.
A cada respiração, mais pensamentos explodiam como socos em sua mente:
"Idiota."
"Cega."
"Como eu pude...?"
Dino. O idiota do Dino. Um palhaço convencido que só servia pra chamar atenção, e ela caiu. Caiu bonito. Porque ele era rápido, porque sabia movimentar os pés no ringue, porque elogiava sua potência. Porque ele entendia boxe. Só isso. Não entendia ela.
Namorava um perfeito babaca. Por quê? Porque ele conseguia acompanhar os treinos? Porque fazia piadinhas que todos achavam engraçadas? Porque parecia entender do que falava? Não... Era só fachada. Dino nunca foi parceiro. Foi manipulador. E ela... caiu.
E pior — manipulou-a pra usar a própria força contra um colega que só queria aprender. Gina atirou a toalha longe, ficando ainda mais nervosa.
— Eu humilhei o Harry... — sussurrou, mordendo o lábio com força.
As lágrimas começaram a vir. Mas aquilo era só a superfície. No seu interior, havia outra dor. Mais antiga. Mais funda. Mais silenciosa. Lembranças da voz do pai, de vários anos atrás, começaram a ecoar na mente dela:
"Vai, Gina, treina com seu irmão!"
"Você é boa, Gina!"
"Sua guarda tá quase igual a do Gideon!"
"Um dia, você vai ser como o seu tio!"
Desde pequena, o pai — Arthur Weasley — sempre esteve lá com os equipamentos de boxe, os vídeos antigos, os discursos de superação. Era amor, ela sabia. Era cuidado, incentivo, admiração. Mas era também pressão. Ela era a prodígio. A que herdou o dom do tio Gideon — o "Punhos de Fogo".
Ela teve acesso a tudo. Treinador, academia, luvas novas. Enquanto Rony mal queria estar ali, ela suava até os ossos. Porque era esperado que ela fosse longe. Porque Dumbledore treinou o irmão da mãe dela. Porque ela "tinha o dom".
Mas nunca perguntou se ela queria isso. Toda vez que ela mostrava interesse por outra coisa... fotografia, redação, histórias...
"Legal, filha, mas o boxe é sua vocação, né?"
E ela dizia "sim". Mesmo querendo dizer "não". Porque contrariar o pai... era como decepcionar o único homem que sempre acreditou nela. O único que estava presente.
Sempre que pode, no escuro do quarto, com o laptop escondido debaixo do cobertor, ela pesquisa:
"Como ser repórter de campo."
"Jornalismo investigativo no exterior."
"Como escrever e viajar o mundo."
Era esse o sonho dela. Contar histórias. Viajar. Ouvir. Entender. Mas ninguém sabia. E naquele momento, sentada no chão frio, ela se perguntou: "Será que algum dia vou poder escolher minha própria vida? Ou sempre vai ter alguém me dizendo o que eu devo fazer?"
Ela apertou os cabelos ruivos com força, encurvando-se sobre os joelhos. E chorou. Silenciosamente. Sem ninguém por perto.
Ali, entre o suor da luta e as paredes que cheiravam a desinfetante, Gina Weasley não era uma boxeadora. Nem a prodígio da família. Nem a ruiva explosiva. Ela era só uma garota de 14 anos querendo descobrir quem podia ser sem que ninguém lhe dissesse o que devia ser.
No escritório de Dumbledore, Hermione estava encostada na mesa do treinador. Rony estava numa parede, olhando pra ela. Hermione mordia o lábio, não sabendo o que pensar.
- Eu... pensei que tivesse sido a pessoa que tinha te trazido pro mundo do boxe... – disse Hermione com a voz desanimada. – Foi até o que você disse pro Harry... Então era mentira.
Rony desgrudou da parede e andou dois passos, falando com convicção.
- Hermione, eu não menti! Você acha mesmo que estou aqui por causa do meu tio?! Hermione, eu conheci você antes de entrarmos aqui, a gente estuda na mesma escola... A gente tinha admiração igual pelo boxe... Eu tô aqui porque VOCÊ tá aqui! Eu juro... Se você não estivesse aqui... Eu não estaria!
Hermione olhou para Rony surpresa. Ela sentiu o rosto corando fortemente. Olhou pro lado, tímida, não queria que ele percebesse. Rony olhou pro lado oposto, completamente acanhado pelo que tinha acabado de falar. Ele esfregou um olho com a mão esquerda, se sentindo desconfortável com a situação.
- Hoje... não vai ter sorvete, ok? – falou o ruivo. – Vou pra casa com a Gina. Ela praticamente rompeu com o Dino, e não quero que ela fique sozinha depois do que aconteceu.
- Ron...
Ele se virou ao ouvir a voz de Hermione.
- ... nada. Espero que a Gina fique bem. – disse a moça de cabelo castanho.
Ele deu um sorriso melancólico e depois saiu do escritório, deixando Hermione com os pensamentos dela.
...
Logo que abriu a porta de casa e entrou, Harry foi olhado por Minerva McGonagall, sua tutora. Quando viu o garoto com o rosto todo machucado, ela sibilou aflita e depois correu para a cozinha para buscar um kit de primeiros socorros que tinha dentro do armário. Harry deu uma fungada impaciente e sentou-se ao sofá, largando a mochila no chão mesmo. Apertou os olhos ao sentir uma fisgada de dor e depois olhou desanimado para cima. Quando voltou, Minerva se sentou ao lado dele e começou a limpar o sangue seco do lado esquerdo do rosto, com uma delicadeza que contradizia completamente seu jeito normalmente rígido. Ela olhava preocupada.
- O que aconteceu, meu garoto? – perguntava Minerva com a voz trêmula.
- Eu... perdi pra uma menina. – disse Harry, deixando escapar uma risada fraca e autodepreciativa.
McGonagall arqueou uma sobrancelha.
- Ou você é o pior mentiroso do país, ou essa menina deve ser do exército. – disse para Harry. – Tem certeza que foi isso que aconteceu?
Harry sabia que ela desconfiava, mas ele não iria contar sobre Draco, Crabbe e Goyle. Conhecendo a tutora, sabia que ela com certeza iria querer envolver a polícia. E não era assim que Harry queria resolver essa situação.
- Ela era muito boa... e eu não. – disse.
Ela passou um pouco de pomada no corte do rosto, com um olhar que dizia muito mais do que palavras.
- Se é pra você voltar assim pra casa... não sei se boxe é o melhor plano de vida, Harry.
Harry suspirou. Olhou para as próprias mãos. Tremiam levemente. Ele olhou para McGonagall e disse:
- Eu... percebi hoje que enxergo pouco. Achei que dava pra lidar. Mas sem os óculos... é muito difícil. Fui um idiota achando que conseguiria.
Ela parou o curativo por um momento. Acariciou de leve a testa dele. Enfim, disse:
- Não há vergonha alguma em desistir. Se isso não é pra você... tudo bem. A vida segue.
Harry se levantou de uma só vez, assustando McGonagall.
- Eu não vou desistir!! Minerva, boxe é o que eu quero! Isso aqui não é nada pra quem vive disso! Não vou deixar um detalhe como esse me tirar do meu sonho! Isso não vai acontecer! Por favor, entenda!
- Harry, acalme-se! – vociferou Minerva. – Não criei um homem que grita com as pessoas!
O garoto de óculos ficou envergonhado e se sentou. Depois falou com calma:
- Me desculpe, Minerva.
McGonagall olhava para ele, muito preocupada. Mas não houve tempo para mais nada. A campainha da casa tocou. Harry respirou fundo e se levantou, indo atender.
Ao abrir a porta, deu de cara com um homem magro, de roupas simples e olhar cansado — mas vivo.
- Harry Potter? – perguntou Lupin.
- Sou eu...
Lupin estendeu a mão, cumprimentando a de Harry.
- Remo Lupin. Entregador da Academia Dumbledore. E... bom amigo do velho Alvo.
Harry ficou estático por um instante, enquanto tinha a mão sacudida. Minerva se ergueu do sofá e olhou para o homem que cumprimentava seu menino.
- Ah, o entregador... Rony e Hermione já falaram sobre você pra mim. – disse Harry.
- Boa noite. O que deseja, senhor Lupin? – perguntou McGonagall.
- Conversar com o seu garoto. – respondeu Lupin, sem rodeios.
McGonagall cruzou os braços, intrigada.
- Como vê, ele está bem ferido. Isso não pode esperar?
Lupin deu um sorriso enigmático, enquanto alisava a barba por fazer com dois dedos. Harry olhava com dúvida para o homem, tentando imaginar o que estava prestes a acontecer.
Continua...
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