A residência onde Minerva McGonagall e Harry moravam ficava em Camberwell, no sul de Londres, no distrito de Southwark. Harry conseguia ir para a Escola Westminster de metrô – e também era possível ir assim para a Columbia Road, embora ele sempre fosse direto da escola para lá. Naquele final de tarde, o céu já escurecia e uma chuva começava a cair. Minerva e Harry olhavam para Lupin. Ele estava olhando para Harry com um sorriso bem enigmático.

- Eita, olha a chuva... – disse Lupin, quebrando o gelo.

Harry deu um sorriso sem jeito. Lupin parecia ser bem excêntrico, mas, ao mesmo tempo, havia algo no olhar dele que transmitia experiência e segurança. McGonagall repetiu a pergunta:

- Isso não pode esperar, Sr. Lupin?

- Oh, não. – respondeu Lupin. – Mil perdões, madame, mas não se preocupe. Algumas palavras não vão machucar ainda mais o garoto. E foi só isso que vim fazer. Conversar. Eu estou a par do que aconteceu com o Harry e achei que ele precisava conversar um pouco... Com alguém que viveu essa vida por um período. Está tudo bem?

- Está sim. – disse McGonagall suspirando de leve. – Vou colocar a chaleira no fogo, Sr. Lupin.

- Não se incomode, por favor. – disse o homem.

- Nesta casa, tratamos bem as visitas, não é Harry?

- S-Sim... – disse Harry, que gesticulou para que Lupin se sentasse ao sofá.

Ele se sentou ainda sorrindo enquanto olhava para Harry. Este ainda não sabia bem o que pensar. Achou estranho alguém estar tão empolgado por conhecê-lo. Enquanto McGonagall foi à cozinha preparar chá, Lupin começou:

- Bom, pra começar, você não ouviu errado: eu já fui boxeador. Quando eu tinha 22 anos, fui Medalha de Ouro nos Jogos da Commonwealth em 1990, quando ainda era amador. Eu venci um australiano por decisão unânime na final... Ah, bons tempos.

- Caramba... – Harry estava impressionado. – Acho que nunca soube de você. Como você era chamado?

- Quando virei profissional... As pessoas me chamavam de “Lobo de Liverpool”. – respondeu Lupin. – Virei Campeão Britânico dos Pesos-Médios em 1992. Sim, eu já estive no topo do país, rapaz! Mas eu já fui o que você é hoje... Alguém que levou uma surra de alguém numa academia.

Harry ficou com a cara emburrada.

- Foi o pessoal lá que te contou, é?

- Não sei se você reparou, mas a Hermione Granger filmou a sua “luta”. – respondeu Lupin. – Aos olhos de todo mundo, você foi um fracasso lamentável... Mas eu entendi o que aconteceu. Esses óculos aí não são só enfeite, né? Você não enxerga tão bem sem eles.

- É... – Harry respondeu, sem jeito.

- Por que não disse alguma coisa pra turma? Podia ter evitado todos esses machucados.

- Eu... Eu não quero que eles tenham pena de mim, e nem você. – disse Harry. – E nem quero começar a achar mil desculpas pra desistir do que já decidi fazer. E se veio aqui me convencer a desistir, isso não vai dar certo, Sr. Lupin.

Lupin deu uma gargalhada alta e longa, assustando Harry. Até McGonagall ouviu, da cozinha e levantou uma sobrancelha, incrédula, uma reação que o garoto de óculos conseguiu reparar.

- Te fazer desistir?? – respondeu Lupin. – Pelo contrário! Eu vim aqui certo de que encontraria um cara todo depressivo e já “jogando a toalha”! Mas estou MUITO feliz que achei justamente o contrário! Eu vim aqui te mostrar que mesmo não enxergando bem, é possível se tornar o que você quer! Já houve boxeadores que continuaram na profissão mesmo sem enxergar direito, como por exemplo: Joe Frazier.

- Conheço esse! – exclamou Harry, lembrando-se do DVD que Hagrid o emprestou. – Eu vi uma luta dele contra Muhammad Ali, acho que o nome do evento foi “Thrilla in Manila”.

- Bem lembrado! – respondeu Lupin. – Nesse dia, ele lutou quatorze rounds enxergando de um olho só! Imagina! Contra o ALI! Ele tinha sofrido um acidente no ano anterior, e quase perdeu a visão de um dos olhos. Frazier nunca revelou ao público a extensão dessa deficiência. Invés disso, ele se aperfeiçoou e se impôs dentro do ringue com memória muscular, instintos e estilo de luta corpo a corpo! Que tal?

- Isso... parece algo bem difícil... – disse Harry.

- Teve também o Erik Morales, um lendário boxeador mexicano. – continuou Lupin. – Ele lutou com a visão comprometida de um olho durante grande parte da carreira... Mas veja, virou campeão mundial em QUATRO categorias diferentes, o único mexicano que conseguiu essa façanha. Inclusive, o último título mundial dele foi ano passado, na sua categoria: Peso Leve. Que tal?

- Espere, espere um pouco... – foi falando Harry. – Tá, eu já entendi que não é impossível, Sr. Lupin... Mas e você? Uma Medalha de Ouro e um Campeonato Britânico... E depois não teve mais nada?

Lupin ficou com um sorriso mais fraco. Ele se levantou e andou até a janela na sala de estar. Minerva chegou com uma bandeja, um bule com chá quente e duas xícaras. Mas Lupin agora olhava para a chuva do lado de fora da casa. Harry observou com atenção.

- Na minha primeira defesa de cinturão em 1993... – falava Lupin, olhando para a chuva. — ... Eu levei um golpe brutal do meu adversário. Eu completei a luta e venci... Mas sofri um descolamento de retina. Os médicos me explicaram que seria muito arriscado continuar na profissão com um problema como esse. Também não seria permitido boxear com uma retina descolada. O risco de perder a visão era iminente. Então, eu tive que parar.

Harry sentiu o sangue correr mais forte. Tentou imaginar a dor que Lupin sentiu ao ser forçado a se retirar do esporte que tanto amava. Minerva olhava para o homem com respeito e empatia. Ambos ficaram sem saber o que falar por alguns momentos. Lupin, então, se virou com um sorriso:

- Ei! Ei! Não precisam ficar com essas caras! Minha visão é funcional, eu consigo ver tudo, sabe... Não saio por aí trombando em postes, nem nada disso! Só que eu tive que aceitar a minha realidade, e infelizmente, o boxe profissional virou apenas uma memória. Ainda tem gente que me chama de “Lobo de Liverpool”, mas já faz quinze anos que me aposentei, nem preciso disso mais. HAHAHAHA!

Harry fez uma cara incrédula quando Lupin deu aquelas risadas exageradas. Minerva ajeitou os óculos no rosto, meio desconcertada com a cena. Então, Lupin voltou a se sentar onde estava e olhou para Harry:

- Mas voltando à conversa principal: De 1994 a 2004, eu viajei pelo mundo. Eu precisava encontrar formas de fazer com que esse problema não me definisse. Mesmo que eu nunca mais fosse competir profissionalmente, eu passei dez anos da minha vida aprendendo formas de lutar que não dependessem 100% da visão. Eu me aperfeiçoei em diferentes países, com diferentes culturas. E vendo a sua situação... e o seu IMENSO potencial... Eu gostaria de te ensinar o que eu aprendi. Te transformar no boxeador formidável que eu sei que existe dentro de você!

Harry arregalou os olhos e estava meio trêmulo. Seria essa a resposta que ele precisava? Minerva estava com um semblante de dúvida, ainda absorvendo as informações.

- Antes de você nascer, Harry, já existiam lutadores de todo tipo de arte marcial com miopia severa. – continuou Lupin. – Alguns usavam óculos fora do ringue e pareciam professores de matemática. Mas na hora do combate… eles compensavam com técnica, reflexo, estudo. Eles treinavam o suficiente pra prever o soco antes dele ser lançado. E venciam. Sempre. E eu te digo, Harry. É possível aprender isso! EU aprendi. Depois de ver a sua garra, continuando a enfrentar a Gina mesmo com toda aquela desvantagem, sem dar desculpas, sem pedir ajuda... Eu senti que era a minha OBRIGAÇÃO MORAL vir aqui me apresentar. Eu sei o que é cair. Mas também sei como é se levantar. Você não tem uma lesão séria, só algo com o qual precisa se acostumar, com a orientação certa. Com todo respeito ao Dumbledore, nenhum dos cinco que ele levou ao topo usava óculos. Eu serei o que você precisa pra essa situação!

Harry olhou para McGonagall, como se pedisse aprovação. A senhora de idade tirou os próprios óculos do rosto e foi limpando no tecido da jaquetinha que usava, com os olhos fechados. Ela foi falando:

- Um trato, Sr. Lupin. Harry deve vencer a próxima luta, seja ela qual for. Senão, está tudo encerrado.

- M-Mas... – começou Harry.

- PERFEITO, madame! – interrompeu Lupin. – Sim, isso faz todo sentido, Harry. Se mesmo depois de te ensinar, você perder, significa que boxe não é mesmo o caminho adequado! Mas, não se preocupe! Você vai vencer. E aqui, selamos esse trato!



...



A pedido de Lupin, Harry descansou no fim de semana. Nenhum tipo de atividade física, só esperar os danos se recuperarem. Outra coisa que Lupin pediu foi que ele não contasse pros colegas de academia que eles iriam fazer um treino específico só os dois. “O velho Dumbledore vai perceber, mas tudo bem. Ele sabe ser reservado”, foi o que Lupin disse. Harry recebeu uma ligação de Rony e outra de Hermione. Ele informou aos amigos que não ia desistir do boxe, o que deixou os dois bem contentes. O plano de Lupin era que Harry continuasse indo à Academia de Boxe Dumbledore normalmente, mas que depois fosse encontrá-lo em seu lugar particular para o treino específico para superar o obstáculo da pouca visão. Então, era importante que Harry recusasse qualquer luta até que estivesse pronto, senão era o fim do boxe pra ele.

Na segunda que se seguiu, Harry foi caminhando para a academia na Columbia Road. Do outro lado da rua, lá estava Luna. Ela fez um olhar de dúvida, tentando entender o que ele estava pensando. Olhou para um hamster dentro de um terrário e disse:

- Ele voltou e parece menos machucado... Mas qual será o plano?

O hamster mexeu duas vezes o nariz, e olhou pra Luna.

- É claro que ele não ia voltar sem um plano, Cheeky! – disse ao Hamster com um olhar incrédulo. – Eu sinto um pouco de confiança... mas um pouco de nervosismo também. Qual será que vai prevalecer?

Harry entrou pela porta da academia de boxe. Dumbledore estava presente e observou que algo estava estranho com o garoto de óculos – ele tinha uns sinais claros de ferimentos. Rony e Hermione pararam o treino de sombra que estavam fazendo e foram até o garoto de óculos. Gina estava num canto, afastada de todo mundo. Quando viu Harry, ela tentou deixar o rosto indiferente, mas o peso da culpa a forçou a perder o brilho. Cho Chang fez uma cara de desdém. Ela estava convencida que ele era menos um para se preocupar, mas lá estava ele de volta à academia. Neville parou o treino que fazia com Simas e os dois foram cumprimentar Harry também.

- Que bom que você não desistiu, Harry! – disse Simas. – Foi muito cara a conta no dentista?

- Cala essa boca, Simas! – resmungou Rony.

Dino, que estava mais longe, deu um sorriso debochado e também comentou.

- Quem diria, ele voltou! Pronto pra apanhar das outras meninas também?

- Vem, Harry, esquece esse cara... – disse Hermione, que puxou Harry pela mão. Ela e Rony foram com o garoto de óculos para algum lugar que a voz de Dino não chegasse.

Dumbledore ajeitou os óculos. Olhou para Gina, distante de todos e com o olhar triste. Olhou para Dino, que agora só treinava perto de Cho Chang. Olhou para Harry, Rony e Hermione, que tentaram ficar o mais longe possível de Dino. Olhou para Angelina, que apesar de estar corrigindo a postura de Neville, ficou bastante apreensiva do nada. Dumbledore suspirou pesadamente e depois falou com toda a calma do mundo:

- Angelina. Meu escritório, por favor.

Angelina engoliu em seco. Apesar do jeito calmo que Dumbledore a chamou, todos, inclusive ela, perceberam que seria uma bronca daquelas. Harry também engoliu em seco enquanto via o treinador e Angelina irem para o escritório. Aparentemente, era impossível manter coisas escondidas de Dumbledore, pois ele tinha uma capacidade incrível e aperfeiçoada de muitos anos de ler o ambiente.

Gina olhava para Harry, que se dirigia para o vestiário masculino para se trocar. Ela queria ir até ele. Queria pedir desculpas pelo que fez. Mas não conseguia encontrar as palavras. Eles se olharam brevemente, mas não havia rancor no olhar de Harry. Foi um olhar neutro, de alguém que ainda está entendendo que tipo de pessoa Gina era. A ruiva percebeu que não seria de um dia para o outro que ela recuperaria a confiança dele e voltou a se concentrar no próprio treino. Até aí, Harry não deixou de reparar que Gina não estava mais com Dino. Inclusive, Rony tinha contado pra ele no telefonema de dois dias atrás que a dupla tinha rompido o namoro. “Com tantas pistas assim, é claro que Dumbledore perceberia...”, pensou Harry.



...



Depois do treino na academia, Harry disse a Rony e Hermione que vai evitar as idas em Hogsmeade por uns tempos, que tem outros projetos em andamento. Hermione arqueou uma sobrancelha.

- Falando nisso, você ainda não nos contou o que o Lupin disse quando te visitou, Harry. – disse a moça de cabelos cheios.

- Depois conto. Preciso ir. E não se preocupem, eu não tô com raiva de ninguém, nem da Gina.

- Tá bom, cara. – disse Rony. – Se cuida e até amanhã.

Harry acenou pros dois e saiu correndo. Hermione olhou feio para Rony.

- Agora, o Harry também tá de segredinhos? Vocês homens...

- Relaxa, Hermione. – disse Rony. – Acho que as coisas devem demorar a voltar ao normal depois do que aconteceu. Mas a gente ainda te adora.

Rony foi fazendo cócegas na lateral da cintura da menina, que ria e batia nele com a toalha de rosto com tom de brincadeira.

Mantendo um ritmo leve de corrida, Harry foi para o lado oposto que usava para ir para casa. Após dez minutos, ele acabou chegando à região onde ficava uma parte do Regent’s Canal. É uma via navegável popular para barcos, caminhadas e ciclismo, além de ser uma parte importante do patrimônio e da paisagem urbana de Londres – passando também por Haggerston e Hoxton no East London, região em que Harry agora se encontrava. A região tem vários galpões industriais antigos, alguns ainda em uso, outros transformados em oficinas ou estúdios alternativos. Harry foi até um que Lupin tinha instruído. Era um com visual meio decadente, com paredes de tijolo aparente, portas de ferro enferrujadas, janelas quebradas cobertas com madeira.

O lugar parecia mais um depósito de alguma serralheria aposentada, com paredes manchadas de chuva, portas que rangiam como se estivessem reclamando do abandono e um letreiro velho com as letras quase ilegíveis. Porém, o que ninguém suspeitava, era que ali dentro havia um ringue, sacos de pancada pendurados em correntes enferrujadas e um ex-campeão dos pesos-médios de meia-idade esperando por seu novo aprendiz.

Enquanto entrava, ele se lembrava que Lupin chegou a dizer que “conseguiu alugar por uma ninharia, porque ninguém mais queria aquela área”. O garoto de óculos ficou impressionado. Para treinar boxe, lá tinha de tudo, apesar do aspecto velho. Lupin estava encostado numa parede com o seu habitual sobretudo e os braços cruzados. Tinha um sorriso de um artista que acabara de receber uma tela de pintura branca: a arte estava prestes a acontecer.

- Bem-vindo, Harry! – disse o homem. – Primeiramente, tire os óculos e coloque isto.

Harry recebeu de Lupin uma faixa. Ele tirou os óculos e perguntou:

- É pra eu me vendar com isto?

- Exato! Que garoto inteligente! – disse Lupin, sorridente. – Todos os dias, a primeira coisa que vai fazer é se vendar. Aqui, não iremos usar a visão. Bem-vindo ao “Método Céu Nublado”.

Harry estranhou, mas obedeceu. Colocou a venda. Se era difícil o boxe enxergando pouco, enxergando nada seria realmente “radical”. Lupin foi falando:

- Sim, você ainda vai usar seus olhos quando lutar. Mas quero que aprenda mais que isso: Eu quero que você lute com os ouvidos, com os pés, com o corpo. Vamos aperfeiçoar tudo o que uma academia de boxe comum negligencia. Percepção espacial, memória muscular, instintos, sentir o ar ao seu redor, ouvir os sons que não se ouve. Harry, se você aprender a sentir uma luta sem ver, quando voltar a enxergar — mesmo que mal — você vai ser um monstro.

- S-Sim! – respondeu Harry, completamente no escuro da venda.

- Quero que ande pelo salão, quero que aprenda onde está cada coisa. Quero que comece a se acostumar a usar os outros sentidos. Vamos, pode andar.

Harry obedeceu e foi andando devagar. Às vezes o pé encostava em alguma coisa diferente no chão. “Deve ser uma corda de pular”, pensou Harry. Continuou andando com as mãos levemente estendidas, tentando evitar trombar em algo. Logo, sentiu o que com certeza era o saco de pancadas. A corrente soltou o barulho habitual dela quando o garoto vendado fez o saco se mover.

- Isso aqui é o saco de pancadas. – disse Harry.

- O que não é nada incomum pra quem já pratica boxe há alguns meses. – disse Lupin. – Agora, ouvindo minha voz, consegue vir até mim?

Harry controlou a própria respiração, tentando localizar Lupin de onde a voz dele tinha vindo. Ele andou devagar, com medo de trombar forte em algo. Os próprios passos pareciam muito altos agora. Houve uma leve sensação de ar gélido no rosto dele vindo da direita.

- Você abriu uma janela? – perguntou Harry. – Lupin?

Não houve resposta, mas algo era certo: Lupin teve que sair de onde estava para fazer isso. O que significava que o homem não estava mais no local de onde a voz tinha vindo. Harry foi para a direção de onde vinha a corrente de ar.

- Isso é instinto. – disse Lupin, sua voz agora vinha de um lugar distinto dos dois anteriores. – Um simples ato meu fez com que você percebesse que não estou mais onde achou que eu estava antes. Você sabe de onde estou falando agora, mas eu vou sair daqui. Sua tarefa é me encontrar. Eu não vou falar mais nada.

O silêncio veio. Harry ouviu passos, sentiu o chão. Isso significava que Lupin estava se deslocando. Só que agora ele não sabia mais pra qual lado. A própria respiração parecia muito alta agora. “Controle a respiração”, pensou Harry, que ficou parado alguns segundos, tentando se concentrar, tentando entender as sensações, mapear as coisas. “Eu já sei onde está o saco de pancadas e a janela... Pela lógica, ele tentará um lugar diferente”.

Harry sentiu o chão sendo pisado. Pensando na intensidade das pisadas, ele antecipou que Lupin estava vindo até ele. Harry se virou e levou a mão. Sentiu o ar se deslocar e ouviu a respiração do ex-boxeador. Lupin simplesmente tinha se desviado da mão dele e andou pra outro lugar. “O ar se desloca bastante quando a pessoa esta se movendo muito perto”, pensou Harry. “Outra coisa que ouvi foi os membros quando ele desviou da minha mão, o braço raspando no corpo...”.

O garoto vendado voltou a andar, tateando com a mão. Dava passos lentos para ouvir qualquer ruído que denunciasse a posição de Lupin. De repente, ouviu passos apressados. Harry correu para pegar Lupin... mas parou quando ouviu: a corrente do saco de pancadas. Ele quase trombou no objeto, mas o som próximo da corrente onde estava pendurado o alertou. E o som da sua própria respiração batia no saco à frente, mostrando a proximidade.

Logo, Harry soltou um suspiro. Ele moveu, sem aviso, a mão para trás. Conseguiu pegar na gravata de Lupin. Segurou firme para ele não escapar. Lupin riu e tirou a venda de Harry.

- Muito bem! Como soube que eu estava bem atrás de você?

- Eu ouvi seus passos mudando de direção quando quase trombei no saco de pancadas. – respondeu Harry. – Como eu sabia que estava mudando de direção, não sei explicar. Depois senti o ar atrás de mim ficar diferente.

- Harry, são coisas que passamos a vida sentindo, mas dando pouca importância porque os olhos já nos mostram. – disse Lupin. – Me diga. Embora você enxergasse pouco a Gina, ainda assim estava vendo que tinha uma moça te dando golpes. Mesmo assim, você perdeu. Por quê?

- Nem se compara com esse exercício, Lupin! – disse Harry. – Os golpes eram muito rápidos, fortes, eu... eu estava...

- Distraído? – interrompeu Lupin. – Me deixa adivinhar: o que estava na sua mente era que todo mundo estava te vendo apanhar de uma menina, que você estava defendendo errado, golpeando errado, que ia ser zoado, que ia perder... Estava pensando em como a situação chegou naquele ponto? Pensando que deveria ter se lembrado que não enxergava tão bem antes de aceitar a luta? Resumindo: você estava prestando atenção em QUALQUER OUTRA COISA que não fosse a Gina na sua frente. Você se lembra dos sons daquela luta? Como ela pisava pra se posicionar? O ar se deslocando antes dos socos chegarem? A respiração furiosa dela, querendo te derrotar?

- N-Não... – disse Harry.

- Você foi controlado por uma pessoa chamada “Ego”, Harry. Ele existe dentro de cada um de nós. – disse Lupin. – Ele nos distrai do que realmente precisa da nossa atenção, porque ele simplesmente quer ser aquele nos holofotes o tempo todo!! O Ego não suporta que demos atenção a outras coisas que não seja ele. A parte difícil é saber quando é o Ego e quando somos nós no volante. Numa luta, Harry, o adversário não é aquele que está te golpeando. É aquele que joga dúvidas na sua mente. Que joga hesitação, negatividade. Tudo isso te distrai.

- Lupin, isso vai ser muito difícil! – disse Harry se exaltando. – Isso não é justo! Porque todo mundo pode só lutar e eu tenho que ficar desvendando essas filosofias só pra conseguir não levar um cacete numa luta??

- Olá, Ego do Harry! – disse Lupin com um enorme sorriso. – Foi só começar a mostrar a verdade pro Harry e você apareceu, provando o que eu disse! Bem-vindo ao mundo real! A VIDA NÃO É JUSTA! Quer continuar no boxe? Vai ter que dar 120%, 150% de você! Claramente, 100% não serão suficientes, já que quem vai entrar no ringue contra você consegue enxergar bem!! Alguma dúvida???

- Eu... Não... – disse Harry, entendendo a situação.

- Ótimo! Por hoje, é isso. – disse Lupin. – Amanhã, quero que me diga que estilo de boxe você quer adotar. Vou ajustar nossos treinos pensando no que você escolher. Está dispensado.



...



Harry estava em sua cama, em casa agora. Ele não conseguia dormir. Ficou pensando no tal “Ego”, o verdadeiro adversário. “Eu mesmo me sabotei na luta contra a Gina”, pensava Harry. “Eu dei importância demais pra coisas diversas, ao invés de prestar atenção só na luta.” Ele fechou os olhos e tentou reviver os momentos da luta. Gina se aproximando com a postura, os cabelos soltos balançando. Os poderosos ganchos que ela lançou. “Se eu tivesse só me concentrado melhor...”, Harry lamentava.

Logo, ele arregalou os olhos. Pensar em coisas que não se pode mudar mais, também é coisa do Ego. “O Ego estava no volante bem agora”, pensou Harry. “Silêncio, Ego... Não dá pra mudar o passado. Vamos pensar no agora”. De repente, o quarto ficou tão silencioso que Harry conseguiu saber onde estava uma mosca só pelo som. Ele olhou para a esquerda e ela realmente estava lá. Ele começou a entender o que Lupin queria dizer: “ou se concentra totalmente no momento, ou o Ego tomará o volante”.

Harry fez uma cara séria.

Os dias passaram. Após, semanas passaram. Harry saía sempre do treino na Academia de Boxe para o galpão de Lupin. O ex-boxeador começou a moldar Harry na técnica que ele escolheu: a movimentação fluída de Muhammad Ali. Cada um dos treinos era vendado. E a cada treino, o nível subia. Harry já estava correndo, pisando dentro de pneus velhos, tentando deduzir onde o próximo estava, sem cair. Lupin jogava bolas de tênis com pouca força na direção do garoto. O deslocamento do ar seria o aviso para ele bloquear o impacto com os braços. Muita flexão, muita abdominal, muito exercício de impulso. Ele precisava melhorar a “explosão” no movimento das pernas e a flexibilidade para se tornar mais fluído. A tudo, Harry fazia sem enxergar, tentando se acostumar apenas com sons e os outros sentidos.

Depois começou a se aperfeiçoar em pular corda com os olhos vendados. Aquilo também beneficiaria a velocidade, a leveza dos pés e a percepção. Os exercícios de movimentação com os pés com comandos de apitos o ajudariam a melhorar a coordenação e o equilíbrio. Os exercício de agilidade com escada o ajudariam a desenvolver memória muscular na movimentação, pisando dentro e fora de uma escada no chão para criar noção de distância.

- “Flutue como uma borboleta, ferroe como uma abelha.” – dizia Lupin a famosa frase de Muhammad Ali. – Harry, não precisa ver onde está o quadrado. Precisa lembrar onde ele está. E confiar nos teus pés.

Lupin levava Harry para dentro do ringue e usava as manoplas pra simular golpes fracos. Harry tinha que antecipar, mesmo vendado, e se defender. Claro que a maioria ele errava, ainda tentando se acostumar com a velocidade. Lupin utilizava um trabalho de pernas tal como seria numa luta real, de forma que Harry memorizasse as sensações. Ele também perseguia o deslocamento do ar para saber onde Lupin estava. Antecipar os golpes ainda era o maior problema.

- Isso, Harry. – dizia Lupin. – Não existe nada lá fora. Nem ontem, nem amanhã. Só existe você, eu e esse exercício. Foco!

Mais dias se passavam. Luna, no pet shop, viu Harry correndo para mais um dia de treino na Academia. Ela sorriu ao ver a determinação preenchendo o ser dele.

- A tempestade continua dentro dele… mas agora o vento sopra a favor. – disse a loira sonhadora para o coelho Pompom. – Ele parece menos distraído! Com todo esse foco, nunca vai perceber a gente aqui, Pompom!

Na academia, era visível que Harry estava melhorando cada vez mais. Pulava corda com mais velocidade que nunca, assustando Hermione e Rony. Gina ficou impressionada. Num espaço de algumas semanas, ele tinha melhorado tanto. Dumbledore percebeu que o trabalho de pernas de Harry estava tão melhorado que o velho treinador fechou os olhos e sorriu de leve.

- Lupin, é...? – disse para si mesmo. – Quando será que se conheceram?

Enquanto Cho e Dino conversavam em outro canto, Harry fazia o seu treino de sombra. Os pulos ainda estavam estranhos, mas já se deslocava com muito mais velocidade que antes. Dumbledore arregalou os olhos quando Harry fez um Ali Shuffle – um movimento veloz de troca de pés que Ali fazia parecer ser fácil. Nenhuma outra pessoa tinha percebido aquilo. Dumbledore sorriu satisfeito.

Em mais uma noite no galpão de Lupin. Harry agora tinha que lutar com pesos presos aos tornozelos e braços. Lupin também colocava música de ritmos quebrados — samba, tango, jazz — para desestabilizar o tempo mental do garoto.

- Se você só sabe lutar num ritmo, vai cair na primeira música diferente que o mundo tocar! – gritava Lupin. – Aprendi isso com mexicanos. Você vai ter diferentes adversários, diferentes estilos pra superar, foque na sua música interna.

Em outra noite, Harry precisava fazer um percurso. No chão havia: cordas, pesos, objetos pontiagudos. O garoto de óculos precisava se mover entre eles com os olhos vendados — correndo, pulando, esgueirando-se, socando alvos móveis.

- Capoeristas e artistas marciais de Okinawa fazem esse treinamento. – dizia Lupin. — Você não precisa ver o obstáculo. Precisa sentir ele. Precisa antecipar ele.

Inicialmente, ele tropeçava e se cortava. Mas depois, foi se concentrando mais e antecipando, movimentando-se entre os obstáculos com fluidez. A cada pisada, ele simulava golpes. Em seguida, Lupin usava um bastão acolchoado para dar golpes em Harry. Este deveria antecipar e se defender. Depois de levar vários golpes, Harry indagou:

- E isso? Aprendeu onde?

- Filipinas. – respondeu Lupin. – Não pense na dor, não pense no ontem, nem no amanhã. Pense no agora. Antecipe.

Passadas algumas semanas, Harry foi se aperfeiçoando mais e mais. Tanto no trabalho de pernas, quanto na percepção sensorial. Na academia, o jeito como ele estava pulando corda chamou a atenção de Dino. Agora, Harry nem olhava pra corda ou pra mais nada, ele simplesmente estava pulando no nível dos mais experientes. Dino se voltou à Cho Chang:

- Cho... Desde quando o Potter pula corda assim?

- Não sei... – respondeu Cho, seca. – Deve ser sorte. Não tenho visto Dumbledore treinando ele tanto assim.

- Não podemos deixar esse pessoal ficar melhor que a gente! – disse Dino.

- Ele só tá pulando corda bem, não significa que virou o Manny Pacquiao... – disse Cho.

- É... tem razão... – disse Dino, mas com certo receio na fala.

Em outra noite no galpão, mais um treino com Lupin se encerrava. Harry estava com várias marcas de golpes, sem camisa, ofegante. Mas sentia que estava se acostumando.



...



Meses se passaram e agora era setembro de 2008. Harry, agora com 16 anos, estava em mais um treino noturno com Lupin. Foi o circuito todo: trabalho de pés com exercício de agilidade com escada, correr sem pisar nos obstáculos enquanto boxeia, flexões, abdominais, treino com manoplas e bastões acolchoados, tentando antecipar os golpes, desviar das bolas de tênis, pular corda... tudo vendado. Após, foi para o saco de pancada para bater bastante. Harry golpeava e os sons de seus golpes ecoavam. Enquanto golpeava, ele trocava de posição, trocava de pernas, ajustava. Dava golpes durante movimentações, tal como Ali. Tudo era supervisionado por Lupin, que sorria abertamente. Sua obra de arte estava se completando.

- Mais flexões! Já! – ordenava Lupin.

Harry se jogou ao chão e fez vinte flexões com uma facilidade absurda. Quando ele terminou, sentiu passos vindos em sua direção. Ele se levantou e levantou a guarda. Lupin começou a atacar com as manoplas. Harry bloqueou com os braços como podia, trocando a movimentação das pernas para dificultar ser um alvo fácil. Lupin sorriu e o perseguiu, mas Harry trocou novamente a movimentação, surpreendendo o mais alto. E, durante a movimentação...

BAM!

Harry acertou um jab na boca de Lupin. O ex-boxeador cambaleou para trás, dando passos erráticos. Harry se assustou e tirou a venda.

- Lupin, me desculpe! – ele ficou aflito porque golpeou sem pensar muito. – Eu te machuquei??

Lupin soltou as manoplas e começou a aplaudir, para a surpresa de Harry.

- Caramba, você me acertou sem me enxergar, Harry!! – exclamou Lupin, sorrindo abertamente. – Faz ideia do que acabou de fazer?? Você lutou como o seu ídolo Ali... Devia ter visto... Foi LINDO. Você flutuou como uma borboleta e ferroou como uma abelha!! Não se desculpe, era isso que eu queria ver acontecer. Seu movimento se tornou natural. Um contra-ataque veloz como esse durante uma esquiva é o que vai te dar a vitória!

Harry coçou a nuca, meio sem jeito pelos elogios. Lupin limpou o sangue da boca e depois foi falando:

- Já faz tempo que você está num nível alto, Harry. Seu comprometimento, sua garra e concentração trouxeram todo esse resultado. Pra te premiar, eu trouxe um presente. Está naquela caixa lá na mesa.

- P-Presente? – Harry ficou incrédulo e olhou pra mesa velha.

Havia mesmo uma caixa de madeira. Ouviu sons estranhos vindo dela. A curiosidade aumentou e ele decidiu abrir. Harry ficou completamente surpreso: Era uma coruja branca. Serena, de olhos brilhantes e postura nobre.

- U-Uma coruja?!

- Não é majestosa?? – disse Lupin. – É uma coruja-das-neves, Harry. Chama-se Edwiges!

Harry olhava com uma expressão atordoada. Não conseguia acreditar que estava ganhando justo uma coruja. Ele olhava para a ave, que seguia o olhar com o seu próprio.

- As corujas-das-neves são caçadoras noturnas. – foi falando Lupin. – Elas voam sem fazer barulho. Enxergam pouco, mas ouvem tudo. Sobrevivem até no breu mais profundo, e ainda assim voam com elegância. É um lembrete sobre a importância do silêncio, da paciência e da observação atenta... da quietude interior e da atenção plena. Espero que tenha gostado.

- Obrigado, Lupin... Isso é muita responsabilidade…

- Mas sei que você é a pessoa certa para isto, Harry! E acredite... Edwiges também vai te ensinar muito!



...



A noite anterior foi, no mínimo, complicada. Edwiges voou de um lado pro outro, bicando a estante, derrubando livros, fazendo cocô em cima da mochila do Harry e dando pequenos gritos quando a luz era acesa. Harry passou boa parte da madrugada tentando evitar que a ave causasse confusão, mas percebeu que aquilo ia ser mais difícil que ele tinha antecipado.

Na manhã seguinte, Harry estava exausto, sentando-se na beirada da cama, com as mãos na cabeça, olhando para Edwiges.

- O que eu faço com você…? – indagou com o olhar angustiado, os olhos cansados.

A coruja-das-neves só o encarou, altiva.

Enquanto bagunçava o próprio cabelo com as mãos, Harry teve um lampejo de memória, com os olhos meio arregalados:

- Ei... Tem um pet shop bem em frente à academia de boxe, não tem?




Continua...