Haria
1 Capítulo 1
O relógio despertou as 6:50 em ponto, nenhum segundo a mais e sua única vontade era de jogá-lo o mais longe possível, ou fazer o tempo parar por mais uma hora, pois a noite passada havia sido pesada. Ele não se lembrava de muita coisa, mas algumas imagens ainda existiam em sua mente. Ele ficou com uma garota, nada de sexo, só beijos e amassos, o que já era suficiente pra levá-la para sua casa e terminar a diversão em sua cama, mas naquele dia Halexander Magno não estava com vontade.
Talvez fosse pelo fato de ser domingo e na segunda ele teria que acordar bem cedo, não sei. Nada de álcool também, pois não bebia, na verdade nunca havia colocado uma gota de álcool em sua boca, e não estava afim de experimentar tão cedo. Seus amigos o chamavam de careta por causa disso, mas, como maior parte das coisas que saiam de suas bocas, ele não se importava nenhum pouco. Os caretas são os que vivem mais tempo, era o que dizia seu pai.
Halexander levantou tonto, com os raios do sol que entravam pela enorme janela a sua frente cegando-o quase totalmente. Cambaleou até lá e puxou as cortinas com todas as forças, deixando o lugar escuro, do jeito que gostava. Andou de volta pra cama e se jogou nela, pegou o celular debaixo do travesseiro e foi checar se havia mensagens ou e-mails importantes, mas só havia uma mensagem de João Guilherme perguntando onde ele estava e que tinha sumido de repente sem se despedir. Havia também várias ligações perdidas de sua mãe o que claramente significava que levaria a maior bronca por não tê-las atendido e uma mensagem do seu meio irmão Vinicius, a pessoa que Halexander mais odiava no mundo. Jogou o celular de volta na cama e cobriu o rosto com as mãos bufando por entre os dedos.
— Vamos Halexander, coragem, você é lindo, rico, dono de uma das marcas mais famosas que existe no mundo, o quê lhe falta? — falou para si mesmo, ao mesmo tempo que alguém entrou no quarto.
— Lhe falta uma pessoa para amar — alguém falou, a voz de uma mulher, era impossível não reconhecê-la. Halexander revirou os olhos e cobriu o rosto com o travesseiro ao ouvir aquilo.
— Bom dia para você também Flávia, sabia que eu podia estar pelado? Você não pode ir entrando assim, já te disse isso várias vezes! — ele brigou com Flávia, a governanta da mansão onde se escondia.
— Já troquei suas fraldas e já lhe dei banho milhares de vezes, essa coisinha entre suas pernas não pode ter crescido tanto desde a última vez — ela falou enquanto pegava as roupas que Halexander usaria naquele dia.
Halexander levantou da cama e foi rumo a Flávia, lhe dando um abraço apertado e um beijo na bochecha.
— Você é que pensa — ele sussurrou no ouvido dela.
Halexander era um homem alto, de uns 1,80 metros e de pele parda, como um chocolate. Corpo bem definido por músculos, cabelos escuros e curtos, e olhos grandes e negros como o breu. Saiu do banho com a toalha envolta da cintura e descalço, molhando todo o carpete, uma coisa que deixava Flávia furiosa, já que ela era a única que trabalhava na mansão autorizada a entrar no quarto dele. Halexander caminhou até a cama onde encontrou em perfeito estado seu look do dia: uma camisa social preta Hugo Boss, com botões dourados, uma calça jeans e sapatos, ambos pretos, Empório Armani e um óculos de sol Chanel. Ele olhou para aquilo tudo e esboçou um sorriso.
— Como eu amo minha vida — falou.
Enquanto terminava de calçar os belos sapatos pretos seu celular tocou. Halexander pegou ele, atendeu sem ver quem era e o colocou entre o ombro direito e o ouvido, segurando lá.
— Alô?
— Halexander Magno, porque você não me atendeu das outras milhões de vezes que te liguei? Fiquei preocupada, um dia desses você ainda me mata do coração. — era dona Sandra, sua mãe.
— Bom dia pra você também mãe, olha, desculpa...
— Desculpa nada! — ela o interrompeu. — Você tava na noitada com seus amigos né? O que eu já te falei dessas coisas ein Halexander? Você sabe que eu não gosto que você saia de noite, é muito perigoso meu filho!
— Mãe... — ele tentou falar, talvez tivesse a chance de si explicar.
— Mãe é o caralho! Você tem que me obedecer não importa a idade que tenha, pode ser um idoso de cem anos e eu uma morta, ainda assim tem que me obedecer. — ela berrou e pareceu já ter terminado sua fala.
— Posso falar agora? — Halexander perguntou terminando de amarrar o cadarço do último sapato e depois pegou o celular com a mão, o que era mais confortável.
— Tente — dona Sandra bufou do outro lado da linha.
— Olhe, primeiramente me desculpe por não ter atendido, eu peguei no sono e dormi, não vi o celular tocar. Segundo, não fui pra noitada, fui a um aniversário de uma amiga, a Jheniffer, você conhece ela. A festa foi numa boate privada, só tinha alguns amigos dela.
— Hum... Você bebeu?
— Não, você sabe que não bebo — ele falou parado na frente do enorme espelho se admirando, uma coisa que não fazia com frequência.
— Fumou, ou usou algum tipo de droga?
— Não mãe — revirou os olhos.
— Então tá. Olhe, seu irmão me ligou e disse que vai passar em seu ateliê hoje, ele disse que vocês têm negócios para resolver, que negócios são esses? — Sandra perguntou.
— Ele não é meu irmão — Halexander falou por entre os dentes. — E ele vai levar umas modelos novas que trouxe de Paris, são pra nova coleção que estou confeccionando.
— Ah tá, então bom trabalho, e deixe dessa rincha com seu irmão, querendo ou não eu o criei desde pequeno, então ele é seu irmão sim.
— Que seja — Halexander falou na intenção de fazer sua mãe calar a boca. — Vou desligar, beijos te amo.
— Beijos, te amo também — Sandra falou e desligou.
Halexander pegou uns papéis em sua escrivaninha, olhou no celular as horas e correu para as escadas, pois viu que já estava atrasado. Chegando a garagem avistou Cláudio sentado em uma cadeira lendo o jornal, assim que Cláudio percebeu a presença do patrão levantou-se mais que depressa e caminhou até ele.
— Não precisarei de você hoje Cláudio, eu mesmo irei dirigir — Halexander falou estendendo a mão para que o motorista lhe desse as chaves do carro.
— O senhor tem certeza? — Cláudio perguntou com toda a educação possível.
— Claro que sim, fique tranquilo, caso precise de você eu ligo. Tá bom?
— Tudo bem.
Então ele depositou um monte de chaves nas mãos de Halexander. Ele amava dirigir, considerava isso uma de suas maiores conquistas, saber dirigir, e mesmo tendo seu próprio motorista quase não usava seus serviços.
Assim que chegou em seu ateliê uma felicidade inexplicável encheu seu coração. Aquele lugar era um dos seus favoritos no mundo, Halexander havia batalhado muito para chegar onde chegou e conquistar o que tinha. Teve que lhe dá com o preconceito e o bullying que sofreu por causa de sua escolha, não é fácil um garoto de treze anos decidir ser estilista e contar para seus parentes essa decisão. Seu avô e seu tio discordaram na hora, para eles aquilo era coisa de mulher e nunca que um homem daquela família poderia seguir naquela carreira. Sua mãe, avó e sua tia favorita estranharam, mas o apoiaram pois sabia que ele tinha talento. Depois disso veio o preconceito da sociedade, não sei porque, mas parece que não pode existir estilistas heteros, de um jeito ou de outro as pessoas queriam que Halexander assumisse ser gay, coisa que nem de longe ele era.
Assim que pisou na recepção do ateliê foi recebido com o maior sorriso do mundo vindo de sua recepcionista Fernanda.
— Bom dia senhor Halexander — ela falou já lhe entregando a papelada do dia.
— Bom dia Fernanda, venha a minha sala em vinte minutos tá bom? — Halexander respondeu analisando o conteúdo os papéis, eram croquis de sua nova coleção, contratos de grandes lojas que praticamente imploravam pra que ele fizesse uma coleção especialmente para elas e outras coisas chatas que ele se dava ao trabalho pra ler, pois amava e levava a sério ser emprego.
Caminhou até sua sala e ao ser notado por Daniela, sua secretária, começou a ser seguido por ela.
— Diga de uma vez Daniela, o que temos pra hoje — ele falou sentando-se de sua cadeira. Daniela olhou com receio para Halexander antes de falar e ao perceber sua expressão ele franziu a testa demonstrando seu desagrado.
— Tudo bem, mas fique calmo
— Fala de uma vez! — falou já irritado.
— Seu irmão está lhe esperando no salão — ela falou rápido, pois sabia do quanto Halexander não queria ouvir aquela notícia. Ele colocou os cotovelos sobre a mesa de vidro e debruçou a cabeça nas mãos, bufando entre elas.
— Agora me diga uma notícia boa só para compensar essa.
Daniela pensou rápido.
— Lá está cheio de modelos só de lingerie — ela falou e sem querer Halexander soltou um riso.
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