Hard Days Night
1 Capítulo único
Notas iniciais
Receber ordens de um garoto que provavelmente tem a metade da sua idade é uma tarefa árdua.
Quando esse garoto é seu chefe, você começa a duvidar se o emprego que você tem é mesmo aquele que queria e se sua mãe realmente sente orgulho de você.
E, é claro, você tem de aprender a engolir alguns sapos por dia.
Aquela era, indubitavelmente, a situação do moreno que agora suava frio, tentando cumprir firmemente com seu dever.
Stephen Loud, agora mais conhecido como Gevanni, sabia dos riscos e das dificuldades que enfrentaria ao aceitar aquele cargo, mas nunca pensou que chegaria ao ponto do descontrole, pois, afinal, era um agente de renome, treinado nas mais bem-cotadas academias do mundo.
O problema é que toda a experiência e treinamento que tivera pareciam não servir de nada agora.
Não, não, nada se comparava com aquilo. Mas não eram as tarefas que lhe foram passadas em si que o deixavam à beira de uma crise nervosa, era a forma como as tarefas eram passadas.
Veja bem, Gevanni não gostava muito daquela situação.
Haviam lhe informado que ele trabalharia para o herdeiro de L, então ele já esperava alguém que fosse jovem.
Mas não tão jovem.
Muito menos uma criança como aquela.
“Isso aqui deve ser alguma espécie de brincadeira, certo?” foi o que pensou ao ver pela primeira vez seu “novo chefe”.
Deitado, brincava de fazer seus aviõezinhos sobrevoarem uma mini-réplica de cidade montada sobre o que um dia provavelmente deveria ter sido o chão do quartel-general da SPK (era um tanto difícil conseguir arranjar um lugar para colocar o pé sem inevitavelmente pisar num prédio ou em algum pedestre menos afortunado).
Era um tanto reconfortante saber que não era apenas ele que estava confuso, pois os outros agentes na mesma situação que ele tinham no rosto uma expressão no mínimo surpresa.
O garoto deitado no chão, que tinha seu rosto oculto por estar de costas em relação aos novos contratados, levantou a cabeça e olhou para os recém-chegados.
A indignação dos agentes só fez aumentar quando perceberam uma máscara comicamente caricata cobrindo sua face. Que absurdo.
— Senhores — disse ele, numa voz muito séria —, espero que, unidos, possamos prosseguir com esta investigação até conseguirmos a captura de Kira. Fiquem sabendo, no entanto, que vocês estarão sujeitos a correr risco de vida a qualquer momento. Sintam-se livres para deixar este prédio aqueles que não concordem com isto ou que estiverem com medo.
Houve alguns cochichos e murmúrios entre os agentes. Alguns imediatamente deram meia volta, outros demoraram um pouco para tomar sua decisão.
Alguns daqueles que estavam ali Gevanni, que era o mais novo entre todos eles, conhecia de vista. Eram todos agentes de alto calibre, assim como ele próprio, ou até melhores. E alguns deles eram os que estavam abandonando a missão.
Sábia escolha.
Limpando o suor da testa, aproveitando para arrumar alguns fios rebeldes da cabeleira negra (verdade seja dita, tudo era uma tentativa de encobrir seu nervosismo), Gevanni permaneceu naquela estranha sala que mais parecia algo digno de uma liquidação de uma loja de brinquedos.
Algo lhe dizia que iria se arrepender amargamente daquilo.
Surpreendentemente, os primeiros meses de trabalho foram satisfatórios.
Ainda não gostava do tom que aquele moleque petulante usava para lidar com a equipe ou da frieza com que encarava os fatos, mas ele era, sem dúvidas, competente. Aquele caso era um dos mais difíceis que o agente pegara, mas tinha esperanças de que aquela se tornasse mais uma vitória de sua carreira.
Entretanto, Gevanni só entendeu a gravidade daquela situação quanto teve de ver com seus próprios olhos.
De uma equipe formada de meia dúzia, apenas metade resistiu.
Essa metade tinha olhos assustados, entreolhando-se sem saber se seriam os próximos a se juntarem com os corpos dos colegas que jaziam no chão.
Como eram treinados para situações como aquela, permaneceram calmos, mas isso não tornava menos assustador o fato de que o tão estoico Near pareceu levar o ocorrido como um incidente qualquer.
“Uma lástima” foi o máximo que disse o rapaz de cabelos brancos, ainda construindo uma torre feita de dados no então silencioso quartel-general.
A partir daí, passou a reinar um clima de morbidez na sede da SPK.
Não que aquilo atrapalhasse o caso; pelo contrário, estavam tendo até progresso.
A carga de trabalho sobre os três agentes restantes era que havia aumentado: Gevanni, Lidner e Lester tinham de se desdobrar entre as ordens que Near expedia.
O ponto positivo é que tinham o apoio um do outro, tanto como colegas de trabalho quanto pelos laços de amizade que desenvolveram, afinal, passavam juntos boa parte do tempo, fosse fim de semana ou feriado.
O Comandante Lester era um grande cara. Ou melhor, um cara grande. E bota grande nisso.
Quem não o conhecia até se assustava com a aparência intimidadora que ele transmitia, mas, felizmente, sua “grandeza” se estendia também para seu coração, que por sinal era bem gentil e compreensivo. Uma pessoa bastante agradável, e um verdadeiro pai quando alguém precisava de conselhos ou desabafar.
Lidner era beleza de olhos gélidos. Uma loira estonteante. Gevanni tentara até sondar para ver se seria seguro flertar com ela — apesar de saber que relacionamentos dentro do trabalho quase nunca davam certo —, mas a agente era de uma rigidez só (Lester sempre lançava a Gevanni, mesmo que este não percebesse, um olhar condolente em todas as suas tentativas).
Além do mais, algo lhe dizia que o coração daquela americana pertencia agora a um certo garoto de pavio-curto e cabelos loiros.
Apesar de tudo, Gevanni era um agente muito dedicado, e sempre evitava mostrar hesitação. Não era difícil cumprir suas tarefas.
Claro — "Siga o suspeito de ser o novo Kira" —, não era mesmo difícil. Era só cansativo.
A especialidade do mais jovem agente da SPK era espionagem e, para sua surpresa, nunca achou tão fácil seguir alguém. Só não levava muita fé que aquele fosse mesmo o novo Kira. Um sujeito meio estranho, vítima de TOC, mas não um Kira.
Sem questionar, Gevanni cumpriu com louvor suas ordens e levou a Near as informações de que necessitava. Todos os seus hábitos, seus horários, suas manias e o que quer que dissesse respeito à vida de Teru Mikami.
Ah. Então ele agia mesmo como Kira. Como um garotinho daqueles poderia estar tão certo desde o início?
Era um pouco humilhante sentir-se rebaixado pelo intelecto de Near, mas tudo bem, ele era herdeiro de L, então não tinha do que reclamar.
Conforme as investigações avançavam, as missões se tornavam mais difíceis e cansativas, mas não era isso que perturbava Gevanni.
A distribuição das funções é que o incomodava.
Por que é que ele recebia sempre as missões mais arriscadas?
As missões são distribuídas de acordo com as habilidades dos senhores. Se eu te coloquei numa missão, é porque acho que você é capaz.
Bem, Near... Foda-se.
Não foi você que arriscou seu pescoço com a possibilidade de um shinigami ou de um Kira insano te matar. Você não entenderia.
Aliás, também não foi você que precisou fotografar página por página de um caderno onde as páginas são literalmente infinitas.
E, por fim, não é você que está varando a noite — porque você prometeu que conseguiria numa noite só — fazendo uma cópia perfeita desse mesmo caderno. A mesma aparência. A mesma caligrafia. As imperfeições. Em uma noite.
Na verdade, o que há agora no quarto do americano são bolos e mais bolos de papel amassado, e também algumas caixas fechadas de canetas esferográficas que seu chefe lhe mandou “com todo carinho”. Ah, e os dedos do agente doem. Mais alguns calos pra coleção.
No final dessa mesma noite, ele quase sai da sede da SPK com o terno aos avessos, mas consegue executar a troca com perfeição.
Quando chega ao quartel-general, todos os presentes lhe olham como se houvesse alguma coisa muito esquisita no seu rosto, mas é claro que ninguém tem a coragem de dizer que ele está com a cara de quem se atirou de um prédio e logo depois foi atropelado por um caminhão.
O pobre Gevanni então informa ao seu chefe que tudo saiu dentro dos planos.
E seu chefe lhe responde:
“Ótimo trabalho, Gevanni.”
Pela primeira vez, ele acha que está vendo uma nota de emoção na voz de Near, e talvez um leve sorriso disfarçado em seu rosto, mas o garoto rapidamente completa:
“Agora só precisamos saber se vai mesmo funcionar.”
Pela primeira vez ele sente a real tentação de pegar o garoto pelos cabelos brancos e lhe dizer umas poucas e boas, mas Gevanni se segura.
O caso está próximo de seu fim, então não faria sentido esganá-lo agora. Se fosse pra fazê-lo, teria feito antes.
Gevanni agora aconselha seus amigos agentes a não aceitar trabalhos onde haja “falta de pessoal” no caso e ou onde digam que é “uma oportunidade de ouro”. Se você aceitar essa proposta, muito certamente vai se arrepender.
Notas finais
Em todas às vezes em que ele apareceu, eu tive a impressão de que estava com os nervos à flor da pele.
Ah, o título da fic é um referência à música A Hard Day's Night, dos Beatles.
Espero que tenham gostado o/
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