Happy when it rains
1 Capítulo 1
Notas iniciais
Al
— Sabe o que dói? — Lind olha para mim depois de virar outra dose de algum álcool que encontrou. — Dói saber que enquanto ele está lá, sorrindo e feliz, eu estou aqui, virando a dose de tequila para esquecê-lo, dançando todas as músicas sem parar, para ver se a necessidade dele se vai de mim.
— Hum... — Ela olha para mim, após escutar minha voz por um breve momento, mas então fecha os olhos e me ignora, voltando aos seus pensamentos.
— Estou beijando duas, cinco, dez bocas para encontrar uma que faça eu me sentir como ele fez, mas eu não encontro. Viro uma, duas, três, quatro doses de tequila, na quinta eu me desmancho a chorar de saudades, porque enquanto ele está lá feliz, eu mal consigo sorrir sem pensar em como seria se ele estivesse aqui.
— Hum... — Repito. Eu não sou a pessoa mais romântica do mundo, mas não consigo parar de pensar que aqueles dois não ficavam bem juntos. Para começar, ele que a apresentou a bebida. E, por ser viciada em ser viciada, ela acabou virando alcoólatra. Segundo, apesar de sempre falar sobre ele, nunca me disse o seu nome, e vive com mil outros caras. Não consigo saber o que é real e o que é sua imaginação.
— O que? Acha que estou errada? — Sua voz falha um pouco e ela bebe outro copo. Seu cabelo pintado de um ruivo muito forte, está todo desgrenhado e sua voz alta demais, mesmo em uma boate.
— Acho que devemos ir comer alguma coisa. — Olho no relógio e suspiro. Não está tão tarde assim. Ainda são... Onze e meia. Mas estamos em plena quarta feira. Amanhã temos uma apresentação sobre um relatório que ainda não está bom o suficiente para uma nota média. — E terminar o trabalho.
— Aff... — Ela resmunga jogando o cabelo para o lado. — Eu já fiz tudo. E decorei tudo o que li. Poderia parar de dar uma de mãe, para varear.
Na realidade, não aviso coisas como essa por me preocupar. É mais um lembrete a mim mesma, em voz alta. Diferente de Lind, eu não faço o trabalho em aula enquanto o professor explica a matéria nova. Quanto antes ela começa, antes ela posso ver o seu namorado. Agora, ex-namorado. Por isso, o tom de reprovação que saiu da boca dela.
— Cara... — Respiro fundo, com cede e sem confiar na água oferecida pelo barman. — Preciso ir à biblioteca terminar e...
— Al... — Sua voz mostra um pouco de alerta e por um segundo eu penso que é sobre o que estou falando. — Olha aquele cara!
Ela aponta para um homem perto da entrada principal. Não consigo ver muito, por causa do gelo seco, ou seja, lá o que seja essa fumaça.
— Bonitinho. — Tento adivinhar.
— Bonitinho, nada. É um gato. — Levantando do banco e se apoiando na bancada, Lindsay olha para mim, com bastante falta de interesse, ao mesmo tempo que brilho nos olhos. — Depois me conta como foi seu estudo.
Não preciso olhar para entender o que ela vai fazer. Apenas suspiro novamente, cansada dela querer sair quase a semana inteira depois do termino.
Al
"ANTROPOLOGIA CULTURAL" O título me atrai de imediato. Por que, em nome de todos os deuses, eu decidi puxar uma matéria de história logo no quarto período? Como se eu já não estivesse ocupada suficiente antes.... Coloco o livro grosso em cima da pilha de enciclopédias que estão nos meus braços. Respirando fundo, por conta do peso, caminho, silenciosamente até a única longa mesa vazia.
Após escolher uma boa música e colocar os fones de ouvido, abro os livros e meu caderno em cima da mesa. Isso é para amanhã.... Repito mentalmente até, enfim, começar.
Uma, cinco, dezessete, trinta, quarenta e cinco folhas escritas depois, com muitos riscos e alguns desenhos, sinto uma cutucada no ombro. Tiro os olhos das páginas e estico meus dedos doloridos. Olhando, então, para a pessoa em pé, às minhas costas.
Apesar de não falar nada, meu rosto expressa a minha dúvida.
— A. música. — Ele olha para baixo, e as palavras são ditas muito separadamente, como se tivesse um ponto entre elas. — Está. Alta. — Ele faz de novo.
Clico no pause e olho em volta. Apesar do horário, as mesas estão cheias e têm muito barulho de papéis. Não conseguirei me concentrar assim.
— Eu. Abaixarei. — Falo como o homem, e estranhamente, ele concorda com a cabeça e dá um pequeno sorriso.
Não é como se estivesse feliz. Parecia mais estar sorrindo por ironia. A primeira coisa que notei nele é que o cara é descendente de japonês. Ou de chinês, não sei diferenciar o lado oriental. Existem muitos poucos na faculdade, que vem de lá, comparados aos que não vem. Ou até um verdadeiro asiático. Depois de perceber isso, também olhei para o boné preto que lhe cobria o rosto e o cachecol escuro, que lhe escondia o queixo. E também percebi que já o vi antes uma vez. Ou alguém parecido com ele. No campus. Reclamando, também. Mas com um amigo dele, eu acho.
Após abaixar até um volume acessível, volto a olhar para seus olhos pretos, a única coisa realmente visível nele, naquele momento.
— Está. Baixo. O. Suficiente? — Dou um sorriso de lado, por contragosto.
O cara franze a testa e quase me faz querer perguntar de novo.
— Está me zoando? — Ele fala mais rápido, sem pausar como antes. Mas percebo que é forçado.
— Estou. — Seus olhos crescem, mas não deixam de parecer pequenos, e isso me faz sorrir um pouco. — Não está acostumado a ser zoado? Isso pode ser um problema.
Ele cruza os braços, segurando um livro e me olha de cima. Talvez não esteja mesmo. Talvez pela aparência, só isso importe de onde ele vem. Não sei dizer. Ele pode até ser bonitinho, mas tem cara de ser um completo... Egoísta? Mal humorado?
— Um problema para você?
— Não. Um problema para toda a população norte americana. — Viro meu corpo na direção dele, prestando mais atenção, e abaixando um pouco minha voz. – Existe um pequeno preconceito não dito, por aqui. Se não se incomoda.... Agora que minha música não te atrapalha mais.... Poderia parar de me interromper?
— Interromper? — Ele olha para o meu caderno, que está em uma página com desenhos inúteis. — Está estudando o que? A arte de perder tempo? Vai. Se. Dar. Muito. Bem.
— Muito. Bem.
Assim que digo isso, escuto a chuva do lado de fora das janelas. Ainda fraca. Mas onde chove, pode vir tempestade. Levanto e coloco meus livros empilhados.
— Facilitando para você, vou embora. — Olho novamente para o lado de fora e começo a me apressar. Assim que passo pelo lado dele, o homem segura meu braço, quase me derrubando.
— Não. Terminei. De. Falar! — Sua voz não é tão alta, mas faz surgir vários "shhh" pelo salão.
— Não tem problema. Se você falar tão pausadamente assim, nunca vou conseguir ir embora. — Respondo, ainda com o braço preso. — Eu apenas tenho que ir. — Dou um passo, mas ele volta a me puxar. — Ei! É sério!
Ele me faz virar e me faz olhar para a mesa. Esqueci algo importante, de baixo dela. Meus saltos. Isso faz com que eu olhe para a minha roupa. Uma blusa branca e uma calça jeans. Minha bolsa está com a roupa da boate, mas eu esqueci de trazer o tênis.
Me abaixo e pego o salto, mas continuo andando descalça pela biblioteca. Depois de colocar os livros no meu nome, me deparo contra a grande porta de entrada. Do outro lado está chovendo muito, fazendo a rua começar a encher. Tomo coragem e saio para o vento frio e olho em volta, para o céu. As nuvens estão densas e o mau pressentimento que um trovão vai surgir, me arrepia. Segurando os saltos contra o peito e a mochila com os livros nas costas, dou um passo e sou novamente parada.
— Que foi? — Falo alto, mais irritada do que para não ser abafada pela chuva.
— Está chovendo! — Concordo com a frase óbvia. – Você. Está. Descalça.
— Eu sei e eu sei. Mas não quero carona ou qualquer coisa que queira oferecer. — Não percebo a grosseria até que ele abre a boca, surpreso.
— Não iria te oferecer nada. — Ele cruza os braços. — Só ia te advertir sobre não molhar os livros. A bibliotecária disse que você está com a única cópia de "ANTROPOLOGIA CULTURAL" e eu vou precisar do livro. Inteiro.
Olho para trás, para a biblioteca e suspiro. Tento esquentar o meu pé um no outro, por alguns segundos. Entro e devolvo o livro, deixando o homem sem entender do lado de fora.
— Agora está lá dentro. Eu consegui ler tudo o que eu precisava. Agora é todo seu. Com toda licença.
Descendo finalmente as escadas, me encontro de baixo da chuva. Um dos meus medos. Andando rápido, com o coração na mão, passo por cinco quadras até encontrar um sinal fechado. Pulo algumas vezes no lugar, para me aquecer e, então, escuto um carro me acompanhar. O som fez com que meu corpo inteiro se arrepiase. Quando olho nos olhos escuros do motorista, eu levo um susto ao constatar que não era ninguém que eu conhecia. Mas um estranho me encarando, e me seguindo com o carro.
— Hey, princesa. — Seu cumprimento me chama a atenção. Nada pode acabar bem depois disso. — Entra. Eu te dou carona.
Continuo a andar, ignorando.
— Hey, criança. Estou falando com você.
Continuo reto.
Escuto o carro parar e a porta abrir.
Meu coração se aperta e me preparo mentalmente para uma fuga apressada.
— Ei garota, estou falando com você!
O grito, junto com as passadas pesadas do homem me amedrontam, e então eu sinto uma lágrima misturar com a chuva. Não era a primeira vez que algo assim me aconteceu, e isso fez com que eu tremesse mais que o comum.
— Eita! — Sua voz ao meu lado, aparece antes mesmo dele tampar a minha visão. — Eu disse para me esperar. — O homem da biblioteca apoia a mão nas minhas costas, quase não me tocando e então olha por cima do ombro.
Não sei bem o que acontece, por que não vejo, mas escuto o carro ir embora. Meus olhos estão compenetrados no rosto claro dele, olhando para longe. Consigo ver apenas um pouco da sua bochecha e seus olhos, mas isso ainda me dá um alivio. Assim que o carro sai da vista dele, o homem da biblioteca respira fundo negando alguma coisa com a cabeça e, logo volta a olhar para mim.
Sem saber o motivo, estranho quando ele se afasta quase um metro de distância e continua a andar ao meu lado, quieto.
Fica um silêncio cheio de estranheza, me fazendo finalmente olhar para o cara de novo. Ele tem um guarda-chuva. Mas está o carregando fechado, sem usar.
Olho para cima e vejo as nuvens ficarem cada vez mais escuras.
— Eh... O guarda chuva. — Digo sem olhar para ele.
Após alguns segundos.... Longos segundos... O cara me oferece o guarda-chuva ainda fechado.
— Estava. Com. Um. Pouco. De. Pressa. Até esqueci disso. — Escutar sua voz parece cada vez mais natural, mesmo com as pausas de pensamento.
— Por que você veio?
— Eu não “vim”. Pego esse caminho normalmente. – Ele dá de ombros, parecendo realmente sincero. – Eu te vi por coincidência, e acabei me metendo nos seus problemas.
Abro o guarda-chuva e dou um passo para perto dele, ao mesmo tempo que ele dá dois para mais longe. Olho sem entender, e dou outro passo. Novamente, ele se afasta.
— Estou com alguma doença contagiosa que eu não saiba? Por que à três minutos você estava ao meu lado.
— Não é isso. É que... — O cara parece tentar explicar, mas apenas concorda com a cabeça, olha em volta e chega mais perto. Mesmo falando do mesmo jeito que antes, eu acabo percebendo menos.
— Dessa forma, ambos vamos continuar molhados. — Digo, sentindo a chuva no meu ombro, enquanto seguro os saltos, ainda mais firme.
Olho para o chão da calçada e murmuro:
— Ainda falta bastante para chegar...
— O. Que? — A voz dele me arrepia de repente, me fazendo levantar os olhos.
— Nada. Eu só estava pensando.... Ah! — Solto um pequeno grito, misturado com resmungo. Não é muito alto. Apenas... Dói.
Eu não podia esperar outra coisa de andar descalça na rua. Ainda mais em um dia chuvoso. Aconteceu o de sempre, um azar. Pisei em alguns cacos de vidro. Estamos perto a um bar., e isso faz com que não seja tão estranho pisar em cacos de alguma garrafa. Paro de andar, e ele também. Me apoio em um dos pés e vejo o sangue pingar na poça. Salto com um pé só até perto da parede e começo a tirar alguns cacos.
— O que está fazendo? — Ele pergunta rápido, me fazendo olhar por cima do ombro. Eu o deixei na chuva. Devolvo o guarda-chuva e o cara me olha com um visual meio estranho. — Não está doendo?
Dou de ombros.
— Está.... Bastante. Mas eu meio que pedi por isso, por andar descalça por aqui.
Ele coça a cabeça e coloca a mochila nas costas, direito. Me entrega o guarda-chuva e eu sinto seus olhos pedirem desculpa enquanto sua boca diz algo bem diferente.
— Você foi quem pediu por isso.
Ele me segura em seu coloco com uma facilidade bizarra. Apesar do primeiro sopro por conta do peso, depois não falou mais nada.
— Isso é normal no Japão? — Resolvo perguntar, enquanto tento aceitar mentalmente o que está acontecendo. Apoio o guarda-chuva no ombro dele, enquanto o seguro ali. Fico muito perto, mas ao menos consigo olhar para ele, direito.
— Japão? Não sei. É mais costumeiro colocar nas costas. Mas estamos com muita coisa para carregar... — Ele pensa bastante antes de continuar. — Mas se eu te colocasse atrás, ao menos você pararia de me encarar.
Mesmo dizendo isso, seus olhos não miram em minha direção nem por um segundo.
— É que.... Bem.... Você é um estranho. Que está me carregando. — Olhando por cima do ombro dele, para rua, respiro pesado. — Mas por algum motivo é relaxante, comparado o que podia ter acontecido se você não surgisse de repente.
Ele me afasta um pouco, para me olhar e então sorri da mesma forma que o vi sorrindo dentro da biblioteca. Cheio de ironia.
— Eu me lembro de ouvir algo como "não quero nada que vá me oferecer". — Depois de seus olhos olharem para baixo, para mim, ele volta a prestar atenção na calçada. — Afinal, por quanto tempo vou ter que andar reto?
Viro meu rosto, para a rua e tento ser sincera nas minhas palavras.
— O tempo suficiente para você desejar nunca ter me conhecido.
O vejo engolir em seco e depois sorrir confiante.
— Eu aguento.
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