Happy Birthday
1 One-shot
Notas iniciais
Sempre fui uma garota solitária. Foi uma escolha minha, afinal, se alguém descobrisse sobre ele com certeza me proibiriam de vê-lo.
Eu o visitava na floresta, costumávamos brincar de esconde-esconde. Chegou a me assustar algumas vezes, mas apesar de sua aparência diferente ele era sempre bastante gentil.
Ele nunca falava. Nos comunicávamos por bilhetes, sempre simples e com poucas palavras.
Ele me segurava pela mão e me levava para casa. Ninguém nunca percebeu minha ausência durante as noites que saíra, eu era feliz, eu tinha um amigo.
Mas, tudo mudou um dia. Eu acabava de chegar da escola quando recebi a notícia da transferência de meu pai na empresa em que trabalhava, nós iríamos nos mudar para longe na manhã seguinte, muito longe...
Naquela noite, fui chorando para a floresta. Ele parecia já saber de tudo.
-Desculpe... – eu disse.
Ele apenas ouviu o que eu dizia, sem manifestar nada, nem mesmo por meio dos bilhetes. Apenas limpava minhas lágrimas. O barulho do meu choro ecoava pela floresta. Ele me levou de volta para casa algumas horas depois, mas ao invés de apenas me segurar pela mão, me levou no colo, permitindo que enxugasse as lágrimas em seu terno preto e impecável.
Me colocou no chão em frente à porta dos fundos. Aquilo era um “Adeus”.
-Eu não queria isso.
Sua face branca era impossível de ser interpretada, mas ele não estava triste comigo, ele sabia que eu não tinha escolha, era apenas uma criança.
Então, ele passou a mão por meus cabelos uma última vez, e se foi.
***
Sete anos se passaram.
Eu estava sentada na mesa com meus pais comendo o bolo de aniversário que ganhara. Todo ano era assim, mas de alguma forma, eu gostava, mesmo que se tornasse repetitivo.
-Eu vou dormir, e obrigada pelo bolo, estava delicioso. – sorri para meus pais, que retribuíram.
Muita coisa havia mudado, mas ao mesmo tempo parecia que era tudo exatamente igual. O mesmo vazio permanecia dentro de mim. Me peguei algumas vezes pensando se ele era real, ou se era só o fruto da imaginação infantil que uma garota de dezessete anos não era capaz de esquecer.
Fechei a porta do quarto e fui até a janela. Me apoiei no batente e observei a floresta do lado de fora. Morávamos na extremidade da cidade, na última casa da rua, a floresta se estendia logo a frente, a pouco mais de cem metros.
-Você está aí?
Não tive resposta. Desisti de esperar por ele. A solidão nunca havia sido tão dolorosa.
Me deitei na cama e enfiei o rosto em um travesseiro, tentando parar as lágrimas. Não era a primeira vez em sete anos que fazia isso, mas no momento parecia ser mais intenso do que nunca.
Um vento frio passou por mim, me causando arrepios. Levantei a cabeça, e pensei que não conseguiria conter um grito de felicidade.
-Você voltou...
Corri até ele, abraçando-o. Minha altura não ultrapassava sua cintura, eu me senti novamente como a criança feliz que fora.
-Pensei que nunca mais te veria. Estou tão feliz.
Seus longos braços me envolveram, apertando-me com força. Quando me soltou, colocou algo em minhas mãos.
Era um bilhete. Sorri ao abri-lo.
“Você cresceu” estava escrito.
-Sim... Muitas coisas mudam em sete anos. – respondi, ele me entregou outro pedaço de papel.
“Está linda”
-Obrigada – senti minhas bochechas se avermelharem, por um momento pensei ter visto a sombra de um sorriso se moldar em sua face branca.
Outro papel foi entregue.
“Feliz aniversário”
-Você se lembrou...
Ele balançou a cabeça positivamente. Me ofereceu sua mão, eu a segurei o mais forte que pude, por mais que minha força não se igualasse a dele.
-Não vai embora novamente, vai?
Ele negou, sua mão livre veio de encontro com meu rosto, bloqueando minha visão. Permaneci parada, segundos depois ele retirou a mão.
Abri os olhos. Estávamos na floresta.
***
Sempre fui uma garota solitária. Foi uma escolha minha, afinal, se alguém descobrisse sobre ele com certeza me proibiriam de vê-lo.
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