Happiness
2 Capítulo 2 I Should Go
Notas iniciais
Seus olhos eram lindos, e nem pareciam ser assim tão especiais. Não sei ao certo se era seu formato, ou sua cor, mas eles apenas me cativaram. O garoto, Percy, ainda sorria, parado bem em frente a mim. Achei aquilo um tanto estranho. Ele me parecia um tanto feliz demais. Esbocei um sorriso, o melhor que consegui. Ele ainda estava me encarando. Comecei a ficar um tanto assustada com aquele garoto. Nunca vi alguém com tanta alegria no rosto como ele tinha.
Comecei a ficar sem graça quando notei que ele sequer havia se movido após pegar meu desenho. Não mencionou nada a respeito dele, nem sequer perguntou meu nome. Ele apenas ficou para lá, olhando para mim como esperasse por alguma coisa. Era estranho, pois seus olhos atraíam os meus. Assim que eu tentava desviar meu olhar, simplesmente não conseguia. Era como se não conseguisse olhar em seus olhos. Pensei em diversas coisas para fazer naquela situação. Pensei em sair correndo. Pensei em fingir um desmaio. Pensei até mesmo em lhe responder algo um tanto desrespeitoso e sair dali. Mas, para uma pessoa como eu, acabei fazendo a última das opções. Me apresentei.
- Prazer, Annabeth.
Assim que lhe digo isso, lhe estendo a mão. Percy apenas olhou para ela, como se esperasse mais do que aquilo. Ele arqueou a sobrancelha e abriu um largo sorriso. Puxa, ele era muito bonito.
- Então, Annabeth, a garota loira de olhos acinzentados. pelo que vi fez um belo desenho. — ele disse apontando para o desenho em minhas mãos.
E aquele sotaque, meu Deus, que sotaque! Tenho que admitir que quase me fez arrepiar só de ouvir o som de sua voz. Era linda, era suave, era gostosa de se escutar. E ainda tinha aquele sotaque. Talvez meus ouvidos jamais escutaram voz como aquela. Era diferente. E coisas diferentes me atraem.
- Isso não é nada. Bobeira. — digo amassando o desenho.
Não sou o tipo de pessoa que se enturma com todos, e muito menos uma pessoa fácil de fazer amizade. Eu era fechada, fechada até demais, não gostava de compartilhar nada. Desde meus medos até mesmo meus sonhos, meus desenhos, tudo, tudo eu guardava para mim. Desenhar era uma paixão, e, juntamente com a escrita, era uma das coisas que mais amava fazer; mas que ninguém, absolutamente ninguém podia saber. Era como se eu traficasse meus próprios pensamentos. Ninguém poderia saber porque, pensava eu, que se alguém me tomasse isso, eu estaria presa dentro de mim para sempre. Era um pensamento um tanto idiota, mas era o que eu sentia. Sequer minha mãe sabia disso. Preferia que tudo ficasse me segredo.
E aquele desenho, justamente aquele desenho, caíra no chão. E aquele garoto, justamente aquele garoto, o achou.
- Como não é nada? Se não fosse nada, não esconderia desse jeito. Pessoas escondem as coisas por temerem o pensamento das outras. É normal. É um mecanismo natural dos humanos. — Percy respondeu sentando-se em minha cadeira.
Apesar de ser atraente, ter uma voz sensual, e um sorriso de tirar o fôlego, descobri que Percy parecia ser bem xereto. Ele se sentou e começou a folhear o meu caderno. Ele virava páginas e mais páginas. Me perguntei o que ele estava fazendo.
- O que pensa que está fazendo? — digo tirando brutalmente o caderno de suas mãos.
Percy me olhou espantado. Ele pareceu não entender bem o que estava acontecendo.
- Deve haver um caderno cheio deste — ele apontou para o meu desenho — Sua folha ainda está com marcas das molas laterais de cadernos espirais. E esta não é o mesmo tipo de folha do seu caderno. Então deve haver outro.
Arregalei os olhos e senti meu rosto corar. Como alguém poderia ser assim? Quero dizer, adivinhar coisas assim. Percy estava ficando no mínimo irritante. Mas, para constar, sim, eu tinha um caderno cheio de desenhos. E esta folha, pertencia a ele. A arranquei nesta manhã, para terminar o desenho na escola. Porém não consegui, o desenho seria descartado sem estar terminado mesmo. Era um sereia, eu havia desenhado uma sereia.
- Acho que deveria para o seu lugar. — eu disse tentando tirá-lo de minha cadeira.
- Você sabe qual é o seu lugar Annabeth, a garota loira de olhos acinzentados? — Percy me perguntou.
E, naquele momento, não me pareceu uma mera pergunta. Meu lugar, de fato, não era aquele, não era nenhum destes designados por um superior. O meu lugar não era ali. O meu lugar era longe, bem longe. Tão longe que eu sequer saiba onde é. Pensei naquele pássaro que eu vira mais cedo, será que ele sabia onde era seu lugar? Talvez seu lugar fosse com sua família. Talvez fosse onde ele se sentisse livre. Talvez fosse para onde ele vai toda vez que ele fica triste. Ou então, talvez nem ele mesmo saiba.
Onde ao certo era o meu lugar então? Não era ali. Não era em nenhum lugar de Nova Iorque. Meu lugar não era ali. Naquele momento, um sentimento cresceu dentro de mim. O desejo de voltar para a casa. Minha casa. Inglaterra, Londres. Havia meses que não via meu pai. Senti o enorme desejo de vê-lo de novo, apesar de tudo. Porém não poderia, não com minha mãe aqui. Senti meus olhos marejarem, me segurei para não desabar ali mesmo.
- Perdão, por qualquer coisa que eu tenha feito. — Percy disse, mas ainda estava sentado em meu lugar. Provavelmente havia percebido que aquela pergunta havia me deixado mal.
- Saia do meu lugar, ou serei obrigada e te mandar para a enfermaria já no primeiro dia de aula! — quase gritei. Só não gritei porque havia notado que vários outros alunos haviam entrado na sala.
Percy não disse mais nada, apenas saiu do meu lugar e foi para o seu. Não que aquele fosse de fato meu lugar, mas era ali que eu gostava de sentar todos os dias. Ali ninguém me incomodava, nem me irritava. Eu podia ver a luz o tempo todo. E não batia sol nem de manhã nem mais a tarde. Batia vendo quando a janela era aberta, e era fresco, pelo menos. Ficava na frente, ou seja, eu não me distraia durante as aulas.Aquele era o lugar para Annabeth Chase.
Não entendi o que houve durante a aula, apenas coloquei meu fone e copei o que quer que a professora tenha passado. Não olhei para trás, nem uma vez sequer. Nico não me chamou mais. Agradeci a ele mentalmente. Estava tudo um tédio, e minha cabeça parecia explodir. Tudo por culpa daquele idiota e sua pergunta. Não entendi porque minha cabeça estava daquela jeito. Parecia estar longe, imersa em pensamentos bestas. E eu não conseguia me distrair, até mesmo as músicas, me faziam pensar onde era, de fato, o meu lugar.
Assim que o sinal bateu, juntei minhas coisas e saí porta afora. Queria esfriar a cabeça. Estava precisando do meu caderno, precisava escrever. Estava tudo pesando naquela hora. Tudo. E eu não poderia fazer nada. Precisava sair daqui, de Nova Iorque. Desde que havia chegado, senti que algo estava estranho. E agora eu sei, aqui não é onde eu deveria estar. Eu deveria ir.
Eu caminhava rápido, precisava chegar em casa logo. Mas alguém me impediu. Assim que senti meu braço sendo apertado, virei rapidamente o cotovelo e acertei o idiota que fizera isso. Não havia quebrado seu nariz, nas ficaria uma bela marca. Mas, assim que olhei para minha vítima, avistei alguém que nunca imaginei ver. Era apenas um garoto de cabelos pretos, e aqueles encantadores olhos verdes, que agora pareciam um tanto vermelhos, provavelmente pela dor. Me assustei ao ver Percy cambalear e cair sentado no chão. Ele pressionava o nariz com força. Naquele momento, me arrependi pelo que havia feito.
Me aproximei dele e o ajudei a levantar.
- Me desculpa. — digo assim que ele fica de pé.
Percy tirou a mão do rosto e vi a quantidade de sangue que saíra de seu nariz. Não era pouca. E estava sorrindo ainda. O sangue escorrera por todo seu rosto, o sujando completamente. Me senti culpada por aquilo, estava um tanto nojento.
- Quer ajuda para limpar isto? — me ofereço.
Percy continuou com um sorriso no rosto. Sentia que ia demorar muito para entender aquele garoto.
- Não, estou bem. Só queria pedir desculpa pelo que disse mais cedo. Não devia ter dito aquilo. — ele disse enquanto limpava o sangue com a própria roupa. Achei um tanto nojento, mas pensei que talvez fizesse o mesmo.
- Não foi nada, não esquente com isso.
Apesar de estar um tanto desconfortável com aquele momento, disse apenas isso. Não queria estender o diálogo.
- Há! — Percy gritou me dando um susto — Sabia que havia dito algo que te deixou mal. O que foi?
O que? Ele havia jogado verde e colhido maduro? Me surpreendi. Como ele não havia percebido? Mas não estava a fim de falar. Este garoto definitivamente não era um garoto normal. E, não sabia ao certo porque, mas gostava dessa anormalidade dele. Era um tanto parecida com a minha.
- Não importa. — digo arrumando minha mochila nas costas.
- Importa sim. Se você ficou mal por algo que eu te disse, importa sim. — Percy respondeu.
Meu coração pareceu parar naquele momento. E, então, pela primeiro vez, senti meu coração realmente trabalhar mais rápido. Por que ele se importava? Por que alguém como Percy se importava? Ele era tudo de bom, e por que ia se importar comigo? Ele nem sequer me conhecia.
- Não importa. — repito em tom mais baixo — Tenho que ir, adeus.
Percy provavelmente deve ter entendido o recado. Ele apenas limpou um pouco mais de sangue que havia restado em seu rosto e sorriu novamente para mim. Um dia, talvez, pensei em perguntar a ele porque não tirava aquele sorriso que, ao mesmo tempo que me parecia sinistro, me era muito encantador.
- Irei te ver amanhã novamente, Annabeth, a garota loira de olhos acinzentados? — Percy disse em tom mais alto enquanto eu me afastava.
- Talvez. E nada de me assustar novamente. Porque da próxima vez, tenha certeza que quebrarei seu nariz. — disse apenas.
Avistei, de longe, o enorme sorriso em seu rosto. Ainda não sabia como alguém era capaz de sorrir tanto. Mas, de certa forma, era bom ver um pouco de felicidade as vezes. Voltei para casa, e fiquei pensando em como o sotaque de Percy era bonito.
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