Hans

8 Arabeske


Notas iniciais
Bem, com o fim das provas na Faculdade, tive algum tempo para voltar a escrever. Nesse capítulo. Nossa história desvela pelo mar e pelo tempo. A medida que os personagens se preparam para a jornada que se inicia.

Século XXI

Elisa chegou em casa sentou-se ainda perplexa.

O lugar estava escuro e deserto, sinal que sua irmã ainda não chegara da festa. Ela trazia o pequeno livro que le fora dado de presente enquanto meditava as palavras do velho Nahim... "Se quiseres saber a verdade, lê o livro que te dei. E quando me devolveres traz cá também a garrafa, ela pois também é pista deste mistério".

Um mistério? Certamente. Mas o que realmente a deixou desconcertada era a semelhança deste Hans com a lembrança do homem do pingente. E aquilo fazia sua mente vagar para a lembrança daquela triste tarde na praia.

Sacudiu a cabeça. Suspirou. Estava passando de sua hora de deitar, ela sabia, mas a curiosidade não a deixaria dormir, ela pegou o livro e começou a folhear...


Verão 1840


"Adieu, adieu! my native shore
Fades o’er the waters blue;
The night-winds sigh, the breakers roar,
And shrieks the wild sea-mew.
Yon sun that sets upon the sea
We follow in his flight;
Farewell awhile to him and thee,
My Native Land — Good Night!" *1

Hans folheava o livro que a Rainha Emmanuelle o dera enquanto recitava o primeiro canto de memória. As primeiras luzes da alvorada despontavam em tons róseos pelo distante horizonte e o som do estalar da madeira no convés era a única coisa que se fazia ouvir. Atras de sí, as Ilhas do sul projetavam distantes silhuetas.

Ele não se dava ao trabalho de olhar para trás.

Sabia que aquela fora a última vez que seus pés pisaram na sua terra natal. Ele era agora tal como Enéias de Marão*2, perdido em sua própria Eneida.

O som estridente de um Apito de Contrameste arrancou o príncipe de seus devaneios.
Como um ex oficial de Marinha, Hans sabia que os principais eventos da rotina de bordo são ordenados por toques de apito*3.


Se a memória não lo falhava esse era o toque de Alvorada. Notificando o inicio das atividades matinais.

Alvorada ainda escura e sem sol é o que se via a quilômetros dali na romântica cidade de Nantes, França. Quando um garoto, ainda oculto pelas sombras noturnas, batia dependurado na janela do segundo andar de uma casinha. La dentro ainda sonolenta sua prima abria a janela.

Sua linda Caroline.

Pela cabeça do jovem rapás de não mais que 11 anos, Caroline preenchia o seu mundo, sua outra paixão além do Mundo em si que ele sempre sonhara conhecer.

–Jules?- Disse em francês a menina assustada. -O quê faz aquí? A essa hora.

Pardon mon cher. Mas eu vim despedir-me...

–Despedir? Jules o que você...?

–Meu pai não me entende, ele quer mandar na minha vida, quer que eu seja um advogadozinho apagado que nem ele! Ele nunca se interessou por mim e pelo que eu quero...

–Você vai fujir de casa, não é?

O jovem jules parou a perceber o olhar de aflição nos olhos da bela Caroline.

Mon cher, Ce ne est pas un adieu, mas um até logo! Veja! Eu prometo por Tritão que não vou te esquecer! Eu vou lhe trazer um lindo colar de Corais da Distante Índia Britannica! Coraux pour ma Caroline!

–Jules...

"Ha ha ha! Vraiment?" Dois boêmios bêbedos falavam alto na rua abaixo, assustando a ambos.

E antes que a menina pudesse perceber o rapaz sumira na escuridão. E ninguém levantou a voz, apenas outra noite em Nantes.

*********

Andrew o vaidoso levantou com a cara coberta manteiga branca e dois pepinos fatiados ao redor dos olhos quando viu seu irmão Linus, o incompreendido, décimo primeiro príncipe das Ilhas do Sul, entrar em sua cabine do navio e começar a revirar as coisas do irmão sem um mínimo pudor, como que procurando algo.

Derek e Damian os gêmeos calamidade ruminavam uma cesta de frutas quando a cena os chamou a atenção.

–Deixa eu adivinhar...- Disse Derek mastigando uma maçã. -Procurando o Senhor Flinckes?

–Ele tem enjoo de mar.- Disse Linus olhando por debaixo da cama de Andrew.

–E os ratos do porão me disseram que ele estava sentindo cólicas.

–Os ratos? Esplendido! Por um acaso pode perguntar as gaivotas quanto falta para chegarmos a Albion?- Andrew, o vaidoso passou uma das faias de pepino no rosto e comeu.

–Não vamos para Londres.- Falou Damian entediado.

–Não vamos?- Disse Andrew curioso.

–Não não vamos. A essa altura todos nas Ilhas do Sul já sabem de nossa pequena fuga.-
Começou Derek.

–E conhecendo bem nosso querido e Tiranico irmão Viktor. A essa altura já há pelo menos um navio a nossa procura.- Completou Damian.

–E é por isso que não vamos dar a eles o gostinho de nos interceptarem. Esse navio tomou uma rota totalmente diversa de seu rumo, Sul.- Continuou Derek arremessando uma pêra na cabeça de seu Vaidoso irmão, fazendo-o levantar-se da cama em direção a sua jugular.

–De onde iremos pegar outro navio de rota totalmente adversa, talvez um saído de Amsterdam...- Completou mais uma vez Damian enquanto abria a escotilha da cabine para um enraivecido Andrew que tropeçara em Linus enquanto esse ainda agachado, procurava pelo pequeno Senhor Flinckes...

Andrew tropeçou e sua cabeça entalou direto na escotilha, segundos antes de um Jato d'aqua lhe acertar a fonte.

–Homem ao mar!

*Tchubum!

E outro marinheiro caiu arremessado do alto do cesto da gávea despencara fazendo um grande 'Spash' na água..

–Raios Alteza! Quantas vezes tenho que dizer que se quiseres ficar a ver navios sozinho aí em cima basta pedir! E PARE DE BATER EM MEUS HOMENS!- Gritou o capitão do navio.

Do alto da gávea, Robert o Agressivo, olhava indiferente para o horizonte.

**********


–Eu Klaus Westergäard, Rei das Ilhas do Sul. Declaro Aberta mais uma sessão das casas do Folketinget! Que Deus Abençoe o Reino da Dinamarca!

O rei Klaus, o Responsável, tentava dar o seu melhor em seus afazeres como Rei enquanto abria mais uma sessão do parlamento no Palácio de Christianborg. Mas as olheiras debaixo de seus olhos denunciavam que o longo dia que o rei tinha pela frente era, na verdade, a continuação de uma terrível noite em claro.

Não muito longe do palácio, funcionando quase que clandestinamente dentro do telhado de um prédio, as máquinas de Kjøbenhavnsposten, O Correio de Copenhague, Jornal oposicionista mais polêmico e atuante das Ilhas do Sul, trabalhavam a todo vapor enchendo as câmaras com seu barulho ensurdecedor. Os cidadãos daquela cidade acordariam não só com o barulho das maquinas mas com a incrível polêmica envolvendo um boato, ainda a confirmar, de que um importante prisioneiro fugira;

–Hans Quem?- Disse o editor ainda mal humorado com o atraso das máquinas.

Duas deram defeito ainda essa manhã e o cheiro de de tinta espalhada pelo chão torna o lugar impróprio para as narinas humanas, mesmo as dele que perderam sensibilidade após anos na insalubre e nobre função de jornalista.

–Westergäard!- Respondeu o jovem Orla Lehmann*4, estudante, ativista político e colaborador do jornal nas horas vagas.

– Olhe, ele é um dos irmãos do Rei. Bom, pelo menos um bastardo ele não é... Eu acho...-

–E me diga por que eu iria ocupar precioso espaço no nosso jornal para falar de algum dos mimadinhos da ninhada de Frederik que foi preso por arruaça?- Disse o editor ficando cada vez mais irritado.

–A questão não é o fato de um Príncipe zé ninguém se meter em encrenca mas quem o tirou de lá. Há boatos ligando sua fuga à Rainha de Welseton!- Lehmann se inclinava arregalando os olhos.

–E o que nosso jornal ganharia com esse pequeno escândalo... Alem de sermos presos pelos agentes da censura de Herr Viktor, é claro?

–Hora, amigo, será tão pequeno assim. Eu tenho um amigo que tem contato com a Família Real, você se lembra daquele rapaz cujo primeiro Poema foi publicado aquí? Um certo Andersen...

No palácio de Amalienborg o som de um piano ecoava pelos corredores vazios. Guiada pela melodia a Rainha Emmanuelle, com semblante cansado, se libertava de seus Devaneios.

Sem dúvida era Robert Schumann, Arabesco em C maior.

Seu ouvido italiano não a enganava. Ela caminhou até o salão de audiência onde sua Filha Giovanna tocava piano. Ela estava fabulosa, causando assombro à Rainha ver o quanto a filha evoluíra em suas lições de música. Ela mesma não tocava tão bem quando tinha a mesma idade.

O tom de Arabesco é o de uma melodia carregada. De tristeza e desejo. Um amor impossível. Mas que nunca se deixa morrer. Uma das mais belas obras de Schumann.

–É impressionante como eles crescem rápido...- Disse uma voz que a fez ter calafrios.

Ela sabia que atrás de si. Viktor, o Beligerante. Observava a sua filha tocar.

–É triste como eles podem se tornar rebeldes, quando damos liberdade demais! Não concorda Majestade?- Disse ele, sua voz em tom seco e cínico.

–Se não tiver nada relevante para dizer, stronzo, eu gostaria de ouvir minha filha tocar sem sua voz irritante!- Disse a Rainha sem se virar e sem perder a compostura. Ela já conhecia o joguinho de Viktor o suficiente para não cair nele.

–Como quiser, majestade...- Ele fez uma afetada reverência e saiu.

Andando pelo corredor ele parou e ficou um bom tempo olhando pela janela. Lá um garoto do estábulo guiava um alazão pelo pátio. Aquilo o lembrou uma cena há muitos anos atras. Um incidente na Neve, há muitos anos, envolvendo o primeiro crime do pequeno Hans.

–Viktor?- Interviu Alexander, o Presunçoso, quinto Príncipe das Ilhas do sul.

Vikor virou-se. Seu irmão ajeitava os olhos ereto. "Há quanto tempo ele está aí?" Perguntou-se.

–Reporte.- Disse com frieza.

–Willian zarpou com uma Slopa conforme pedido. Acredito que é questão de tempo até que intercepte o navio de nossos irmão e traga o prisioneiro de volta.- Disse Alex em seu tom monótono.

–E enquanto aos guardas envolvidos?

–Sob custódia, como instruíste.

–Ótimo, eu mesmo quero ter uma conversa com eles... Descobriu alguma coisa sobre o envolvimento de nossa Tia.

Alexander pareceu desconfortável.

–O que foi?- Perguntou Viktor.

–Er... Ela expulsou os homens da Guarda palaciana e disse que se nós a importunarmos de novo ela vai encher de palmada "nossas bundas sujas que ela lavou"... E aparentemente retirou-se para o palácio de Augustenborg.

–Típico... O que há de errado com as mulheres dessa família...

Viktor parou por um momento.

Alexander, tem uma última coisa que preciso que faça.

–Viktor, eu tenho uma pesq...

–Quero que fique de olho na Rainha Emmanuelle.

–A Rainha? Por quê?

–Digamos que eu tenho um palpite. Pode ser que não seja nada. Mas sinto que algo está fora do lugar...


Em seus aposentos Marie, Esposa de Grant, o Ingênuo, apertava o peito contra o travesseiro e olhava aflita pela janela. Em algum lugar lá fora seu marido corria perigo. Ela sabia.

E suas esperanças repousavam nos problemáticos irmãos mais novos de seu marido. E dentre eles talvez o mais problemático de todos.

O misterioso Hans, o esquecido.

Notas finais
*Childe Harold´s Pilgrimage (As peregrinações do Infante Haroldo), Canto I, de Lord Byron. Poema esse que já apareceu na Fanfic, diga-se. *2 Ele fala de Virgilio, ou melhor, Publius Vergilius Maro, poeta romano, autor das Eneidas. Que narram a história de um jovem exilado pela queda de Tróia. Em sua odisséia pessoal para tornar-se o fundador do Império Romano. Virgilio é também, o personagem que Guia Dante no mundo espiritual em "A Divina Comédia". 3* Os gregos e os romanos já o usavam para fazer a marcação do ritmo dos movimentos de remo nas galés. 4* Importante figura histórica da Dinamarca. Envolvido diretamente com as políticas do Reino. Bem como o Ducado de Schleswig, aonde ele ajudou a promover a facção pró dinamarquesa em suas disputas com a Alemanha.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.