Hanahaki
1 Capítulo Único
Notas iniciais
Espero que gostem o/
Começou como uma simples tosse seca no fim da noite.
Stiles se sentia mortalmente cansado após ter acabado de chegar em casa depois de o bando finalmente ter dado um fim ao monstro da semana. Suas roupas estavam enlameadas além do reconhecimento e ele havia perdido um dos pés do sapato, mas o que importava é que estava inteiro. Inteiro, porém não disposto a tomar um banho às três da manhã de um dia de escola, não quando podia simplesmente tirar a roupa suja e cair na cama, sem forças até mesmo para se importar com a forte tosse seca que o sacudiu de sua posição de bruços.
~*❃*~*❃*~
A tosse não melhorou muito no dia seguinte, arrancando de Stiles crises esparsas ao longo do dia, deixando seu peito dolorido e sua respiração chiada. Mas ele havia se exposto a uma noite fria na reserva, molhado e encardido por várias horas, o que é claro que seria o suficiente para baixar sua imunidade e deixá-lo à mercê de um resfriado. Compraria um xarope no caminho de casa, e se não resolvesse, pediria para a senhora McCall dar uma olhada.
~*❃*~*❃*~
Tudo o que Stiles queria no fim do dia era recuperar o sono perdido, mas aparentemente Derek tinha outros planos convocando uma reunião. Mal tendo entrado em casa, Stiles deu meia volta, logo dirigindo seu jipe até o loft, onde o alfa os esperava.
― Precisamos voltar à reserva hoje à noite ― Derek declarou assim que todos estavam reunidos. ― Mais uma pessoa desapareceu da trilha de caminhada, tenho certeza de que foram os Kappa de novo.
― Eles não disseram ontem que deixariam as pessoas em paz? ― Scott resmungou de seu lugar no sofá. ― O Stiles disse que eles eram sujeitos honrados.
― Sujeitos que tomaram gosto por carne humana ― Stiles murmurou, afundando no sofá, sentindo-se cansado com a respiração pesada. ― Não acho que a mitologia acerte todas.
Tossindo mais um pouco, Stiles respirou fundo, esfregando o peito querendo espantar a sensação de peso. Ele ignorou os olhares do bando tanto quanto se impediu de se amaldiçoar por ter esquecido de tomar seu xarope.
― Precisamos pesquisar mais sobre eles ― Derek voltou a falar. ― Encontrar uma maneira de dar um fim definitivo a isso.
― O que mais há para saber? ― Stiles desdenhou, tendo ele mesmo passado a última semana e meia lendo tudo o que havia sobre as tais criaturas aquáticas. ― Espere eles saírem da água, cumprimente os caras o suficiente pra secar a tigela da cabeça deles e então grr, garras e dentes antes que eles voltem pra água. Simples.
― Stiles tem razão ― Peter se pronunciou de seu lugar na escada. ― Sabemos o ponto fraco deles, basta que seus filhotes se organizem o suficiente para lutar como um bando deveria.
― Não dá pra deixar isso pra amanhã? ― Erica perguntou. ― Eu realmente gostaria de dormir uma noite toda pra variar.
― E fora que nem todos nós podemos dormir até meio dia ― Scott mandou um olhar mal disfarçado para Derek, que o ignorou. ― Alguns aqui tem escola.
― Os problemas em transformar crianças... ― Peter suspirou dramaticamente.
― Foi você quem começou isso, em primeiro lugar! ― Scott retrucou, se virando para encara o ex-alfa. ― Você quem me mordeu.
― Todos cometemos erros.
Stiles balançou a cabeça, rindo acostumado demais à troca de alfinetadas para se posicionar a favor de um ou outro.
― Se não resolvermos isso hoje, amanhã será mais uma pessoa para a conta de desaparecidos ― Isaac concordou com seu alfa, olhando ao redor.
― As pessoas são burras demais ― Erica declarou. ― Se outras pessoas vivem sumindo e aparecendo mortas quando andam por lá, por que diabos ainda insistem em andar por lá?
― Talvez essa cidade inspire um desejo suicida subconsciente em todo mundo ― Stiles falou, cerrando os dentes para se impedir de tossir. ― Eu não estranharia.
― Suicidas ou não, é nosso dever cuidar disso ― Derek concluiu.
E foi assim que Stiles acabou molhado e tremendo de frio à noite na reserva mais uma vez. A tentativa de diálogo com as criaturas havia se mostrado tão infrutífera quanto as anteriores, e graças ao seu dom nato em irritar qualquer tipo de ser, Stiles acabara atirado ao lago, evitando por pouco ser morto por um kappa particularmente irritado, quando Derek se jogou atrás dele.
Agora ele tremia sentado encolhido contra uma árvore esperando os lobisomens terminarem o massacre atual para poder ir para casa. Pelo menos perdido em meio aos tremores, seu corpo havia se esquecido de tossir.
― Você parece horrível aí.
Olhando para cima, Stiles viu Peter, parecendo injustamente tão bem quanto sempre, mesmo com o rosto manchado de sangue e lama pelas roupas. O garoto se perguntou se havia alguma ocasião em que o homem poderia parecer qualquer coisa menos que gostoso.
― É o meu charme ― Stiles respondeu trêmulo, rendendo-se em seguida a uma forte onda de tosse seca, que o deixou ofegante. ― Já acabou?
― A maioria está morta ― respondeu Peter. ― Dos Kappa, é claro. O Bando está bem. O resto daquelas coisas voltaram para a água.
― Bom.
Stiles tentou se levantar, mas, acometido pela maior crise de tosse até então, tudo o que pode fazer foi se apoiar na árvore, caindo de joelhos enquanto segurava seu peito dolorido.
Peter franziu a testa, olhando preocupado.
― Você não só parece horrível ― concluiu o homem ―, você está horrível. Posso ouvir seu peito chiar daqui.
― Estou bem ― Stiles chiou com dificuldade. ― Só preciso de um expectorante.
― E um médico.
Stiles não dispensou a ajuda para se levantar, sugando o ar para seus pulmões o máximo que conseguiu quando finalmente se pôs de pé.
― Você não deveria ter vindo se estava tão mal.
― Agradeça ao seu sobrinho teimoso ― resmungou o garoto, abraçando-se em uma tentativa de se aquecer. ― Ninguém queria vir além dele.
― Tire esse casaco molhado ― Peter mandou, já abrindo o moletom do garoto. ― Minha jaqueta não está em melhores condições, mas pelo menos está seca, Deus me livre se nosso senhor alfa souber que eu deixei seu precioso humano morrer de hipotermia.
Abraçando o calor bem-vindo, Stiles se aconchegou no agasalho alheio, suspirando por finalmente ter algo quente para vestir.
― Vá para casa, Stiles ― Peter disse, empurrando o garoto em direção ao seu jipe. ― E tente não morrer no caminho.
Stiles zombou, mas por dentro se sentiu mais aquecido com a preocupação de Peter. Não que o homem fosse admitir isso, é claro. Mas às vezes ele agia como se Stiles pudesse nutrir alguma esperança, como se não estivesse totalmente fora de sua liga que não valia nem mesmo o esforço.
Inspirando o cheiro do perfume de Peter, Stiles puxou a jaqueta para mais perto, caminhando rapidamente para o jipe, aproveitando a escuridão para tirar a calça molhada, não querendo espalhar sua imundície pelo banco do carro.
Quando chegou em casa, a primeira coisa que fez foi tomar um banho quente, seguido de um jantar rápido e enfim uma dose de xarope, esperando estar melhor pela manhã.
Mas nem bem terminara de engolir o remédio quando outra crise de tosse se apossou dele, fazendo-o agarrar a mesa para se manter firme, curvado sobre si mesmo. Essa fora de longe a pior rodada que tivera até então, trazendo consigo a sensação estranha de cócegas na garganta. Stiles puxava o ar com dificuldade entre as tossidas, sentindo-o arder em seus pulmões, juntamente com algo que subiu por sua garganta, sendo cuspido na mesa logo em seguida. Com uma careta de nojo, o garoto abriu os olhos lacrimejantes, esperando ver a forma gosmenta de um catarro, mas surpreendeu-se ao ver uma única pétala vermelha de rosa, tão seca que poderia ter sido recém arrancada da flor.
Sentindo seu coração acelerar ainda mais do que já estava, Stiles cutucou a coisa, pegou-a entre os dedos e trouxe-a ao alcance dos olhos.
Ele tinha certeza de que havia cuspido alguma coisa, mas não havia possibilidade de ter sido a flor, caso contrário ela estaria ao menos molhada de saliva. Mas então de onde ela viera? Talvez estivesse grudada em sua roupa, tendo ficado presa lá enquanto estava na floresta.
Seja lá o que for, Stiles pensou, está tarde demais para me preocupar com isso. O cansaço bateu tão forte em seu corpo que mal havia pousado a cabeça no travesseiro antes de adormecer profundamente.
~*❃*~*❃*~
A manhã seguinte trouxe um novo dia e uma nova crise. Stiles nem bem tinha aberto seus olhos quando começou a tossir, não tão forte quanto na noite anterior, mas igualmente sufocante. Ao menos dessa vez não havia flor alguma.
O garoto então se preparou para ir à escola, tomando café e uma nova dose do xarope antes de se despedir de seu pai e sair.
A parte mais difícil do dia fora se impedir de tossir como um cachorro velho durante as aulas. Já era doloroso o suficiente sem a humilhação dos olhares incomodados de toda a turma.
Ele definitivamente deveria ir ao médico, como aconselhado por Peter.
E ele iria, mas amanhã, pois esta noite seria a noite de filme do bando, e finalmente todos aceitaram assistir Star Wars, e Stiles não perderia por nada.
Exceto que ele quase se arrependeu, quando finalmente acomodado no sofá entre Isaac e Scott, Derek acomodado em uma poltrona, Erica e Boyd no chão e Peter em outra poltrona, Stiles sentiu a tosse implorar para sair do fundo de sua garganta. Sem conseguir se conter, ele tossiu até ficar sem fôlego, cobrindo a mão com a boca e fechando os olhos com força por causa da dor em seu peito, curvando-se para frente em meio à crise.
― Que nojo cara ― Isaac reclamou, afastando-se. ― Vá tossir pra lá.
― Você tá legal? ― Scott perguntou, pousando a mão no ombro de Stiles.
― Que merda é essa?!
Erica questionou assustada quando Stiles finalmente parou de tossir, respirando com dificuldade e afastou a mão da boca, mostrando três pétalas vermelhas.
― Isso é sangue? ― Derek perguntou, se levantando para conferir mais de perto. ― Isso não é sangue.
― São flores? ― Scott falou assustado. ― São pétalas de flores?
― Merda ― Stiles chiou trêmulo. ― Eu sabia que não tinha sonhado isso ontem.
― Essa coisa acabou de sair de dentro de você? ― Questionou Isaac, horrorizado. ― Como??
― Eu não sei ― lamentou Stiles, jogando as pétalas no chão, trêmulo demais até para olhar para elas. ― Isso não é nem fisicamente possível.
― Você deveria ver Deaton ― Scott aconselhou. ― Isso não é normal, cara.
Stiles ia contestar, mas outra crise de tosse se apossou dele, o fazendo cuspir mais uma pétala solitária no chão junto das outras.
― Estamos indo ver Deaton agora.
Passando um braço por sob os de Stiles, Derek o ajudou a levantar e o guiou até o Camaro, o sentando no banco do passageiro antes de partirem rapidamente até a clínica veterinária, com o restante do bando seguindo logo atrás.
Felizmente o garoto não teve mais nenhuma outra crise, pois não sabia se sua garganta aguentaria cuspir mais alguma flor. Pelo menos isso explicava a dor no peito, pois se havia flores lá, com certeza seria doloroso.
― Há quanto tempo você está cuspindo pétalas?
Deaton perguntou sentando Stiles em uma cadeira no consultório, não demonstrando estar incomodado com o bando todo aglomerado ao redor.
― Eu tossi uma pétala ontem ― Stiles disse de maneira fraca. ― E mais quatro agora há pouco.
O veterinário assentiu, esperando o jovem dar mais detalhes.
― Será que isso foi uma maldição do kappa? ― Scott perguntou. ― Ele estava bem antes disso.
― Não acho que seja ― o homem balançou a cabeça. ― Eu acredito que sei o que está acontecendo com o jovem Stilinski.
― E o que é? ― Peter rosnou de seu lugar perto da porta. ― Ou é preciso um pouco mais de teatralidade antes de uma resposta direta?
― Como se você não adorasse um bom show ― Stiles murmurou rindo, tentando diminuir a tensão. ― Mas eu adoraria uma resposta e uma cura, por favor.
― Eu me lembro de ter visto um caso semelhante há muitos anos ― Deaton retomou. ― Mas receio não saber muito além do nome. Hanahaki Byou, o japonês para Doença de Cuspir Flores. É causada pelo amor não correspondido.
― Isso só pode ser brincadeira ― Stiles murmurou, jogando a cabeça para trás e fechando os olhos. ― Um coração partido está me fazendo tossir flores? O quão ridículo mais isso pode ficar?
― Isso pode matar você ― Deaton falou, sem nunca abandonar o tom sério. ― Não me lembro de ter lido nada sobre cura.
Antes que Stiles pudesse falar mais alguma coisa, ele começou a tossir pelo que pareceu a milésima vez do dia, cuspindo mais um par de pétalas ao final.
― Isso dói ― resmungou, esfregando o peito. ― É melhor eu ir pra casa pesquisar uma cura, já que eu sou tão sortudo a ponto de pegar uma doença que ninguém conhece direito.
Sem mais alternativas além disso, o bando se foi, reunindo-se no loft com todos os livros que puderam juntar sobre enfermidades mágicas.
O único que não se juntara ao grupo fora Peter, o que Stiles notou com certo amargor. Porém lhe soava um tanto poético que aquele que terminara de partir seu coração fosse o único que não se importaria em ajudar a consertá-lo.
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Peter sequer se incomodou com onde jogou as chaves do carro, preocupando-se primeiramente em chegar até sua estante de livros mais antigos. Ele lembrava-se de possuir alguns livros japoneses e rezava para que em algum deles tivesse alguma informação sobre a doença de Stiles.
Ele poderia levá-los para o loft onde os filhotes estavam reunidos, mas preferia fazer o trabalho sozinho a deixar qualquer um daqueles dedinhos engordurados de comida processada tocar em seus tomos antigos.
Tomando o cuidado que a idade de muitos dos livros demandava, Peter os trouxe para a sala e espalhou-os pelo sofá, preparando-se para o que certamente seria horas de pesquisa.
Não que ele não estivesse acostumado a virar noites em cima de livros, mas geralmente suas pesquisas, ou boa parte delas, quando era para o bando era realizada junto de Stiles. O humano do grupo era incomparável quando o assunto era encontrar o que ninguém mais podia, e isso mais do que encantava Peter.
O jovem inteligente de boca esperta e moral cinzenta era, provavelmente, o principal motivo do bando de desajustados de deu sobrinho ter durado tanto tempo, e Peter tinha certeza de que sem ele o pack não duraria muito mais.
Manejando com cuidado o frágil livro velho, Peter se pôs a ler atentamente, procurando por qualquer menção à doença das flores, lamentando o fato de a maioria dos livros estar em japonês, e ainda mais que o seu entendimento da língua era bastante limitado. Mas eventualmente, horas depois, após cuidadosas traduções, ele finalmente encontrou o que procurava, escondido em um livro de tratamentos não ortodoxos.
Hanahaki, ele leu, é uma doença rara causada pelo amor não correspondido, onde a vítima é tomada por flores que se espalham por seus pulmões até alcançar o coração. Acometida por fortes dores e tosse, a vítima gradativamente cospe pétalas, então flores e finalmente buquês inteiros, quando está no estágio final intratável. A flor cuspida geralmente é a favorita do objeto de sua afeição.
No primeiro estágio a vítima apenas tosse pétalas de flores.
No próximo, vomita flores inteiras, com espinhos, caules e folhas.
Já no terceiro, a doença leva a vítima a vomitar doloridos buques completos, sendo este o estágio fatal.
A cura pode apenas ser alcançada nos dois primeiros estágios, sendo a mais simples alcançar o amor correspondido. Uma cirurgia para a remoção da raiz das flores é indicada caso a reciprocidade seja inviável, e nesse caso o cirurgião removerá a capacidade da vítima de amar ou expressar o amor novamente. A cirurgia pode remover também todas as lembranças que a vítima tem da pessoa amada.
Marcando a página do livro, Peter anotou a tradução e a colocou junto, saindo apressado de casa para encontrar o garoto com as respostas que encontrara.
Assim que saiu do prédio, reparou que o dia já havia amanhecido, não realmente surpreso por ter estado tão alheio à passagem do tempo.
Parando na casa dos Stilinski quando viu o singular jipe estacionado na garagem, Peter bateu à porta, esperando por uma resposta que nunca veio. Temendo que fosse tarde demais e a doença tivesse avançado muito rápido, Peter escalou o telhado, logo alcançando a janela destrancada do menino.
Respirando aliviado ao ver que o jovem apenas dormia tranquilamente cercado de livros abertos, Peter não quis acordá-lo, então apenas deixou seu livro com as anotações onde o jovem encontraria ao acordar, notando no processo a pilha de pétalas vermelhas de rosa acumuladas no chão, algumas delas preocupantemente salpicadas de sangue.
Enquanto dirigia de volta para casa, Peter pensou sobre a passagem que falava a respeito das flores serem as favoritas da pessoa amada, e quase instantaneamente lembrou-se dos grandes canteiros de flores que sua mãe cultivava, onde as roseiras vermelhas eram as protagonistas, e onde, ele também se lembrava, Derek mais gostava de brincar quando era criança. Depois que sua mãe falecera, Derek continuou cuidando dos canteiros por alguns anos, e isso o fez pensar se não era por seu sobrinho que Stiles nutria sentimentos não recíprocos.
Havia boas chances de que as rosas vermelhas que Derek cuidara com tanto carinho fossem as suas favoritas, e Peter não estranharia se Stiles estivesse realmente apaixonado por ele. Ele sabia como o garoto mais jovem agia nervoso durante as noites da matilha, como sempre havia o coração acelerado e o cheiro de excitação, alguns dias mais forte que outros, mas que sempre permeava o lugar.
Se fosse este o caso, Peter esperava que Stiles concordasse com a cirurgia, mesmo que isso removesse todos os seus sentimentos amorosos. Ele não queria pensar na possibilidade de perder o único que o ancorava no bando, que mantinha seu lobo sob controle. Desde que enfim se juntara ao bando de seu sobrinho, Stiles sempre esteve lá, aos poucos quebrando suas defesas e se infiltrando dentro de si, e quando se deu conta o garoto já havia se tornado a âncora escolhida por seu lobo, o companheiro perfeito para mantê-lo dentro dos limites da sanidade, o único até então que entendia seu humor sarcástico e era inteligente o suficiente para rebatê-lo, o menino mais fiel a sua causa e de seu bando, aquele que lutaria por seus companheiros com unhas e dentes melhor que qualquer lobo, esperto além do que se podia ver em uma primeira impressão, e tudo isso foi fazendo Peter desejá-lo cada vez mais, até o ponto irremediável.
Peter se perguntava agora, caso Stiles se fosse, se ele seria o próximo a ser acometido por uma doença de amor não correspondido.
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Stiles balançou a cabeça, abraçando o livro de Peter contra o peito apertado, fechando os olhos com força.
O bando estava reunido mais uma vez no loft, e Stiles havia trazido as notas que Peter deve ter deixado em sua casa em algum lugar entre a madrugada depois que ele desmaiou de exaustão e o meio-dia, quando ele acordou tossindo várias pétalas de rosa de uma vez, assustado ao ver mais sangue caindo junto em gotas.
Agora no loft, o pack tentava convencê-lo a contar quem era a pessoa por quem ele estava apaixonado, tentando-o com a possibilidade de que a pessoa retribuísse seus sentimentos.
― Eu não quero que ninguém fique se culpando depois... ― depois que eu me for, era o que não precisava ser dito. ― Eu não vou jogar esse fardo em ninguém.
― Stiles ― implorou Scott. ― E se a pessoa gostar de você? Você nunca vai saber.
― Eu saberia se essa pessoa gostasse de mim ― Stiles murmurou rouco. ― E eu sei que não é o caso.
― É Lydia, não é? ― Erica perguntou. ― É ela quem você ama?
Stiles balançou a cabeça com força, parando para tossir mais pétalas, cada vez mais assustadoramente volumosas.
― Eu não vou dizer ― ele resmungou com a voz fraca. ― Nem quero nenhum de vocês acusando ninguém. Seja quem for, não pode fazer nada se não me ama, então não há motivo para jogar essa bomba em formato de Stiles morto em seu colo.
O bando todo lamentava a decisão de Stiles, mas também entendia, o que não tornava nada menos doloroso. Era triste ver o mais espirituoso membro da matilha definhando por conta de um coração partido, e não poder fazer nada a respeito somente piorava a situação.
― Vamos encontrar alguém para fazer a cirurgia então ― Scott implorou. ― Pelo menos isso, Stiles, a gente tem que tentar.
― Você leu o que isso causa ― Stiles falou, largando o livro para abraçar seu melhor amigo choroso. ― Viver sem amor para mim não é melhor que não viver.
E Stiles se permitiu chorar pela primeira vez desde que tudo começara, confortado pelo seu melhor amigo de todos os tempos, e sendo seu conforto também.
Não era a maneira como ele imaginou que seria sua morte, mas ele era grato por ao menos ter algum tempo para se despedir daqueles que amava. Ele só lamentava o fato de deixar seu pai sozinho. Não sabia se ele ia superar sua morte, sendo deixado sozinho no mundo depois de perder sua esposa e filho único. Quem cuidaria dele? Quem se certificaria de que ele não estava comendo besteiras que faziam mal para seu coração? Que não estava bebendo demais? Ou se afundando em pilhas de trabalho para não ter que voltar para uma casa vazia e solitária?
― Eu deveria ir para casa ficar com meu pai ― Stiles falou após fungar e limpar o nariz na manga do moletom. ― E tentar explicar para ele que a morte de seu filho se deu por causa de amor não correspondido ― o garoto falou com uma risada sem graça. ― Que patético, até para mim.
Despedindo-se de cada um do bando com um abraço apertado, Stiles voltou para casa, sem saber que horas acabava o turno de seu pai, pois quando ele saiu para trabalhar, Stiles ainda dormia. Ele não queria ligar para a delegacia para tirá-lo do trabalho, apesar de saber que ele teria preferido depois, então se deixou esperar, aproveitando o tempo sozinho para digerir o fato de que estava morrendo de uma doença mágica sem cura viável.
Stiles não estava em casa há muito tempo quando começou a tossir novamente, sentindo no fundo de sua garganta que dessa vez finalmente haveria algo maior do que simples pétalas macias. Após alguns instantes de pura tortura, enfim cuspiu uma rosa completa, a flor inteira com seu caule, folhas e espinhos, que sem dúvida eram a causa do sangue que escorria pelo canto de sua boca, sujando a bela flor com um vermelho ainda mais intenso.
Seu peito doía mais do que nunca, e Stiles se sentia cansado e com frio, portanto subiu para seu quarto e deitou na cama, tentando se manter acordado para quando seu pai chegasse.
Ele deve ter adormecido e possivelmente estava febril, pois quando acordou a primeira coisa que viu foi Peter Hale sentado ao seu lado segurando um pano úmido em sua testa.
― Ei, bem-vindo ao mundo dos vivos ― Peter falou baixinho, ainda segurando o pano frio. ― Como se sente?
― Como se tivesse vomitado uma flor inteira ― o garoto resmungou. ― Por que está aqui? E onde esteve esse tempo todo?
― Pesquisando ― respondeu. ― Correndo atrás de uma cura.
― Não há uma cura real.
Stiles afastou Peter quando sentiu outra crise se aproximar, inclinando-se para fora da cama para tossir mais uma rosa salpicada de sangue, sentindo seus pulmões em carne viva ao se recostar com dificuldade no travesseiro.
Stiles mal notou quando Peter pegou uma de suas mãos com a dele, colocando a outra em seu peito, mas respirou um pouco mais aliviado quando o homem começou a tomar sua dor, veias pretas subindo por seus braços.
― Há uma cura ― Peter falou e parecia determinado. ― Eu passei o dia todo contatando pessoas, e encontrei um cirurgião com experiência em Hanahaki.
Stiles balançou a cabeça, tossindo fraco uma única pétala antes de falar: ― Eu não quero.
Peter o encarou com seriedade, esquadrinhando seu rosto a procura de qualquer indicação de que isso havia sido uma mentira. Não havia nada.
― Como não quer? ― Ele questionou, sem se conter. ― Você não pode simplesmente ir assim. Deixar tudo, seu pai, o bando...
― E fazer o que? Uma cirurgia que vai me tirar todos os sentimentos? Prefiro não viver do que viver uma vida oca, vazia.
Peter balançou a cabeça indignado.
― Eu deveria então começar a planejar a vida sem você ― o homem falou, movendo a mão para a testa suada de febre do menino. ― O bando não vai ter o mesmo apelo sem você.
― Oh, alguém vai sentir minha falta ― Stiles arrulhou. ― Não sabia que você tinha coração, Zumbi Wolf.
― Sim, mas é melhor não sair espalhando ― Peter piscou, mas logo retomou o tom sério. ― Há algum jeito de te convencer a fazer a cirurgia?
Stiles balançou a cabeça em negação, sentindo-se cada vez mais frustrado. Por que as pessoas não podiam simplesmente o deixar morrer em paz?
― Por que você se importa tanto, afinal? ― Stiles questionou. ― Não pode ser só para o seu alfa não achar que você me deixou morrer quando podia ter feito algo.
― Eu nunca deixaria você morrer enquanto poderia ter feito algo ― Peter falou seriamente. ― Mas você precisa me deixar salvá-lo. E eu me importo porque você é aquele que me ancora nesse bando de desajustados, porque você me mantém são fora dos limites da selvageria, porque com toda essa paixão raivosa de proteger o bando e os demais, essa lealdade incondicional e a inteligência fora de precedentes fizeram meu lobo ver em você o parceiro ideal. E que se dane se estou sendo clichê ao dizer que, mesmo que eu não tenha o seu coração, você tem o meu. Mesmo que você não queira fazer a cirurgia, mesmo que você aceite morrer como está e mesmo que seja tarde para qualquer coisa, eu me importo com você, Stiles.
Deixando o garoto sem palavras, Peter terminou seu acalorado discurso apaixonado, ainda segurando a mão de Stiles entre as suas, absorvendo sua dor.
― O que? ― Sussurrou Stiles, sem acreditar no que tinha ouvido. ― O que você quer dizer?
― Que eu me importo com você ― Peter repetiu. ― Que eu amo você, e eu precisava dizer isso antes...
― Espera aí! ― O menino gritou tanto quanto sua garganta machucada permitiu. ― Você, Peter Hale, está me dizendo, eu Stiles Stilinski, à beira da morte por acreditar que meu amor não era correspondido, que você me ama??
― Sim, eu-
― Seu maldito bastardo dramático ― Stiles rosnou. ― Esperando eu estar morrendo pra falar isso?
― Stiles...
― Não, agora eu vou falar ― o menino rosnou novamente, tossindo com a garganta seca e ardida. ― Você não tem noção do quanto essa maldita doença dói. Essa maldita doença estúpida que não pode nem apurar os fatos antes de tentar me matar!
― O que quer dizer? ― Peter franziu o cenho, encarando o menino que se esforçava para se sentar ereto.
― Estou dizendo que é você o meu amor não correspondido ― Stiles falou, e Peter não precisava ouvir seu batimento cardíaco para saber que não era mentira, a expressão séria do garoto falava por si só. ― Mas acho que tem uma certa poesia essa doença idiota ser tão dramática quanto você.
Abanando furiosamente a rosa ensanguentada que caíra na beirada do colchão, Stiles a jogou para o outro lado do quarto, não se importando com onde ela acabaria.
― Eu? ― Peter murmurou. ― Mas, e Derek?
― Derek?
― As flores, as rosas, ele costumava plantar...
― Achei que elas pudessem ser as suas favoritas ― Stiles deu de ombros. ― Porque tenho certeza de que a única pessoa que eu amo romanticamente o suficiente para que isso tente me matar é você.
― Eu acho que nunca pensei realmente sobre flores ― meditou o homem. ― Mas as rosas me fazem lembrar da minha mãe, afinal.
― Então... ― Stiles começou. ― Nada de amor unilateral?
Peter aproximou-se, recuperado do choque inicial da miríade de sentimentos, então sorriu sedutor para o garoto parado em expectativa.
― Posso garantir que não ― falou, levando a mão livre para a lateral do rosto de Stiles, que se inclinou para o toque. ― Totalmente recíproco aqui.
― Doença idiota ― o jovem resmungou baixinho antes de avançar para encontrar os lábios de Peter.
E durante o beijo que se seguiu e nos demais depois, Stiles sentia o peso deixar seu peito, perdendo o fôlego então em meio aos toques de Peter, não mais por conta de raízes e flores cruéis em seus pulmões.
E quando seu pai chegou em casa e subiu para checá-lo, Stiles não estava nada menos do que aliviado por ter de explicar o que Peter Hale fazia nu em seu quarto, em vez de contar que morreria de coração partido. Portanto apenas se permitiu rir enquanto observava um completamente aterrorizado ex lobisomem alfa juntar suas roupas para juntos terem uma conversa com o xerife que poderia ou não envolver armas de acônito deliberadamente deixadas sobre a mesa da cozinha.
Notas finais
Comentem o que acharam, eu apreciaria isso demais ♥
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